Renascer

Em 2011…

Cinco anos antes, eu estava a elaborar o meu TCC para o bacharelado do Curso de Educação Física, na UNIP de São Paulo. Tinha como título “Atividade Física Na Terceira Idade“. À época, escrevi: “A atividade física, mesmo depois de muito tempo sem ser praticada, pode apresentar resultados incríveis na recuperação do tônus muscular e condições orgânicas do indivíduo. Esse tema, inclusive, será um dos pilares sobre quais desenvolverei o meu TCC. O subtítulo dele será “Renascer antes de morrer“, considerando que, para mim, a morte não é ponto final de nossa existência (mas como essa tese depende de crença, obviamente não entrará em discussão). No entanto, mesmo para quem acredita na dicotomia Vida-Morte, podemos experimentar o renascimento muitas vezes durante a passagem pela Terra. Outra lição que fica, com o vídeo aqui veiculado, é que é sempre muito difícil o exercício da crença em si mesma… porém, ao final de tudo, vale muito a pena”.

Eu iniciei o curso em meados de 2009, dois anos depois de ter passado por uma crise muita séria de Diabetes que quase fez com que eu não estivesse aqui para contar histórias. Com o incentivo dado por minha família, incluindo o meu irmão e sócio, Humberto, que segurou as pontas na nosso negócio, principalmente por ocasião do estágio, entrega de relatórios, feitura de trabalhos e provas, o concluí em 2013. Tinha a minha mãe como inspiração, mulher guerreira que se transportou para outra dimensão em 2010. Na apresentação do TCC, tirei a nota máxima. Não foi uma vitória sobre mim mesmo tão retumbante quanto a espetacular recuperação apresentada no vídeo, porém também enfrentei situações que testaram os meus limites. E que viesse outros desafios!

Depois de concluído o curso, cheguei a cogitar trabalhar na área, talvez como personal trainer, voltado para as pessoas inativas ou acima dos 50 anos. Porém, seria muito estranho que eu receitasse quase que exclusivamente a caminhada monitorada como exercício físico como base para a obtenção de um corpo com uma boa capacidade aeróbia, orgânica e fisiológica, com uma consequente qualidade de vida equilibrada, como percebi ser suficiente para manter a homeostase em alto nível de rendimento físico. Apenas para não parecer algo tão simples realço que complementaria o programa de atividades físicas com musculação.

Eu curto musculação, gosto de fazer movimentar os meus grupos musculares nessa luta de resistência contra a gravidade. Como em tudo ao meu redor — também percebo um viés filosófico nessa batalha do nosso corpo contra os pesos e a atração gravitacional exercida pela mãe Terra. Agora, o que me deixa ferrado — para ficar no campo dos ferros — é o oferecimento de substâncias milagrosas que anunciam a aquisição de músculos do tamanho de um Hércules, “sem se matar na academia ou fazer dieta”. Eu SEI que praticamente somos o que comemos e que a obtenção de um resultado sem esforço não é digno de ser chamado de conquista. Considerando o fato que apenas tento manter uma boa forma, eu me ofendo com essa tentativa de me seduzir com facilidades sem mérito.

Superação

Bom Dia! (Ou Como Zeca Baleiro Salvou Duas Vidas) — Parte Três

Miau

Raul retornava de sua jornada pautada pelo refrão de “Telegrama”. Pela janela da casa antes da sua, era observado por Carla em seu primeiro dia de férias que imaginava, horas antes, ser para sempre. Raul passou pelo pequeno portão e antes de entrar, retirou a máscara, deixando que ela pudesse observar um homem bonito de barba longa e revolta, assim como os cabelos, pontuados por fios brancos. Devia ter a sua idade. Parecia sorrir. Ela não sabia, porém ele voltava de sua última parada, na Casa de Pães, onde esteve com Joaquim, um português da Província de Algarve, que viera já moço para o Brasil, a convite de um primo. Deixou as praias do Mediterrâneo rumo a cidade desconhecida e descomunal em tamanho e complexidade. Imediatamente, se apaixonou por São Paulo. Padeiro desde garoto, montou o negócio, que começou pequeno, mas que cresceu bastante em prestígio a ponto de se tornar um ponto de degustação “gourmet”. Suas criações eram apreciadas por muitos que faziam questão de vir de todo lados da cidade para participarem dos lançamentos — um programa imperdível.

O caso de amor com os pães, tornou Raul um frequentador assíduo. O interesse em conhecer histórias e pessoas diferentes, o aproximou de Joaquim há alguns anos. Tornaram-se amigos. Este, vivia preocupado com “Rauzito”, continuamente cabisbaixo, açoitado que era por sua sensibilidade à flor da pele. Quando a Casa de Pães foi visitada pelo amigo de Raul e sua noiva, não gostou do jeito da moça, mais atenta ao outro rapaz que propriamente a ele. Quando foi deixado por Flor, foi Joaquim que o amparou. Fez questão de dividir algumas taças de vinho do Porto a portas fechadas com o amigo arrasado. Devido á amizade, Joaquim não se surpreendeu com o chamado de Raul a um dos balcões e sem dizer palavra, pegou a sua mão, a aproximou do peito e lhe desferiu um beijo estalado no rosto, ambos mascarados. Sabia que aquele gesto significava algo importante, ao qual explicaria quando pudesse.

É claro que entrar em casa e não encontrar Miau sentado em seu trono-sofá era sempre algo que o surpreendia como se a partida do amigo não tivesse acontecido. Mas sentiu que o vazio era compensado com o enorme amor que deu e recebeu durante mais de uma década. Ele o encontrou dentro da casa que acabara de alugar quando chegou de Bragança para dar aula na faculdade. O pequeno ser deve ter entrado por uma fresta da janela traseira que dava para um pequeno quintal. Devido ao muro alto, ele achou que o pequeno felino tenha sido jogado. Foi sua companhia desde então. Sequer viajava muito tempo para não o deixar só, o que exasperava Flor. O estranho é que tenha partido logo depois dela tê-lo deixado. Provavelmente não havia conexão, mas a sequência dos fatos, quase encavalados, foi demais para ele. Saudoso, se deitou no sofá forrado de lembranças em pelos de Miau e, como há muito tempo não acontecia, pegou no sono. Sonhou com o amigo sentado no braço de sofá de nuvens. Ele o olhou como da vez que perdera as forças para continuar vivo. Pediu para que atendesse a um pedido, a qual Raul respondeu: “Eu prometo!”…

Carla, ainda mais agora que o vira rapidamente, não tirava Raul da cabeça. Francisca ainda fazia o seu serviço, enquanto ela pesquisava pela Internet pessoas próximas com o nome de “Raul”. Francisca estranhou que estivesse tão calada. Todas as vezes que vinha, ela falava o tempo todo como se precisasse desabafar. Relatava as situações pelas quais passava, muitas das quais não compreendia. Sabia que só de a ouvir já ajudava àquela mulher tão complicada quanto bonita. Boa gente, sem dúvida, mas que devia ser um “pé no saco” de conviver, enquanto pensava nos homens que conhecia, os quais nem a deixavam completar uma frase inteira. A maior parte, só valia pela foda, aliás muitos, nem para isso. Poucas vezes vira a Carla (que fazia questão que a chamasse dessa forma) conversando com alguém no celular que não fosse para chorar e se dizer arrependida. Palavras entrecortadas por colossais lágrimas que banhavam seu lindo rosto.

O que tanto procura no computador, Carla?

— Ah, Francisca! Isso nunca me aconteceu antes, mas estou obcecada pelo vizinho do lado. Ele se chama Raul. Parece ser um fantasma. Não aparece nada parecido com o perfil dele nas redes sociais. Não tentei isso antes, mas já ouvi falar. Localização remota. Encontrei gente que eu conheço que nem sabia que morava por perto.

Sem citar que se suicidaria uma hora antes de sua chegada, que se deu antes do normal, Carla contou o que aconteceu anteriormente a Francisca surgir como um anjo salvador.

— Você não disse que ele voltou para a casa? Por que não chama o cara?

— Será que ele não achará uma intrusão?

— Quem se meteu na sua vida, foi ele! Conversa e veja se vale a pena investir…

Investir? Parecia que Francisca falava de uma transação financeira. De repente, Carla percebeu que ela fazia algo parecido — investimentos em possibilidades sempre acima das expectativas. Percebeu que buscava no outro a compensação por gastos emocionais que afundavam a relação mesmo antes de começar. Se deu conta que ela só teria “sucesso” se não sentisse necessidade de encaixar o outro ou a outra em suas necessidades. Não era o caso de se desvalorizar, mas pelo contrário — o de se sentir tão autônoma que não precisasse de outrem para se sustentar como pessoa. Por que temer ir conversar com o vizinho? Isso era ridículo para uma mulher que estaria morta se não fosse a intervenção de Raul.

O vizinho acordou com a campainha. O sonho com Miau, apesar das características estranhas, sentiu como se fosse real. Acordou em paz. Sabia que o amigo estava bem e que voltaria a encontrá-lo quando fosse o tempo, ainda que o nosso tempo não fosse o do plano no qual Miau estava. Foi até a porta e viu uma mulher usando máscara a chamá-lo no portão. Ela pediu que se aproximasse. Esquecido de que estava sem máscara, Raul caminhou pelo caminho de tijolos amarelos, até ficar a um metro dela.

— Oi, Raul, como está?

— Eu a conheço?

— Ah, desculpe! O meu nome é Carla! E você me salvou, hoje…

— Achando que ainda estivesse sonhando, Raul sorriu timidamente…

Ao perceber que tinha dito mais do que pensava em fazer e de maneira tão franca, Carla tirou a máscara.

— Sou a vizinha à esquerda. Você me deu bom dia, de manhã…

Sim, aquela era a bela vizinha que fez com que perdesse o rebolado, o empurrando em direção ao outro portão antes que ela dissesse algo. “Eu a teria salvado de que?” — pensou. Mergulhou no sonho como se fosse a realidade e respondeu:

— Não estou entendendo…

— Olha, perdão! Acho que falei demais!

— Não, não falou… Talvez você não acredite, mas lhe desejar bom dia, me salvou, também…

Carla estava definitivamente envolvida por aquele homem. Adulto, sim, mas ao mesmo tempo parecendo ser tão desprotegido quanto um menino.

Este dia está sendo tão inesperado, ainda mais porque nem estaria o vivendo neste momento…

Tomado pela coragem de quem estaria morto, Raul perguntou se ela não gostaria de entrar. Carla aceitou, observada pela janela por Francisca, que exibia o seu maior sorriso. Como ela torcia pela amiga…

Ao entrar na casa de Raul, Carla percebeu que era gêmea da sua em espaço interno, como devia ser a do Fábio, o outro vizinho. As três compunham um cenário de interior àquela rua movimentada de Santana. Poucos móveis, uma mesa central, com quatro cadeiras desarranjadas, uma velha televisão a um canto, um sofá de três lugares e outro junto à janela, ambos cheios de pelos de gato. Do lado do sofá menor, uma mesinha redonda com um frasco de tranquilizantes. Procurou pelo bichano e não o viu. Mesmo assim, perguntou:

— Como é o nome do gato?

Miau… Conversei com ele um pouco antes de você me chamar. Mas ele não está mais aqui… Ele partiu há uns dias…

Sem se importar com os tempos verbais divergentes, Carla percebeu, pela porta entreaberta, que a cama do quarto estava arrumada, enquanto o sofá apresentava uma depressão no formato de um corpo. Há um mês, desde que Flor o deixara, Raul não usava a cama de casal, que comprou justamente para o dois. Dormia com o gato no sofá. E, depois, sem ele…

— Quer uma água, suco? Tenho uma garrafinha do de laranja.

— Você teria vinho?

Carla não acreditava no que estava dizendo. Quem era aquela pessoa que tomou conta de seu corpo? Raul, da mesma maneira, se sentia perfeitamente à vontade como quase nunca acontecera antes. Parecia estar presente diante de uma velha amiga… ou de uma antiga namorada.

Por acaso, se é que existe acaso, tenho um vinho do Porto, me dado por um amigo querido. Ele disse para que eu o tomasse numa ocasião especial. O que seria mais especial do que celebrar renascimentos?

Aquelas palavras impactantes, ditas tão naturalmente, deixaram os dois como que paralisados um diante do outro. Carla, que ainda não havia retirado a máscara, mostrava os olhos fulgindo em faíscas. Raul se afastou relutante e se dirigiu até o armário da cozinha, de onde retirou o vinho. Ao lado, perfilavam exatamente duas taças. Alguns pratos e poucos copos completavam a composição que denunciava o ambiente de um homem sozinho, abandonado a si.

Raul puxou a mesinha redonda, a pôs em frente ao sofá, abriu o vinho, encheu as taças com a mão trêmula. Deixando-se levar por ondas de inebriamento em que o vinho apenas vinha a realçar, elee Carla, tendo os seus quadris assentados sobre as lembranças de Miau, conversaram abertamente sobre tudo. Discorreram sobre gostos e gozos, música, teatro e cinema, percalços, avanços, retrocessos e estagnação no lodo humano no qual todos chafurdávamos. Viajaram para países que nunca viram, divagaram sobre a profundidade da existência e de como sofriam por verem como eram todos conduzidos para a insensatez coletiva, a ponto de não conseguirem lidar com aquela realidade. Descreveram todas as quedas dentro da queda no abismo, todos os desvios do caminho da lucidez, a extrema transparência de suas personalidades fragilizadas, os abraços sempre adiados com a morte, incluindo as mais recentes, que os uniu em vida. E se deliciaram em perceber como Zeca Baleiro os salvou, com “Telegrama”.

Enquanto conversavam, os seus corpos foram magneticamente se aproximando até estarem tão próximos que os hálitos se confundiam. Os olhares venciam os limites da retina e adentravam à alma de cada um, como se trocassem de matéria. Atendendo ao desejo da pele, desmascarados de artifícios, se desvestiram de seus casulos de proteção e se entregaram à pequena morte, intensamente. Mudaram de plano e se reconheceram suados, descabelados, untados de fluídos corporais. Sorriram um para o outro em bocas unidas. Só, então, Raul falou sobre a promessa que fez a Miau quando falou com ele, em sonho. Miau pediu para que deixasse o coração aberto para a vida.

— O meu amigo sabia de sua chegada, Carla

Deixaram cair lágrimas de agradecimento ao Todo. Tarde da noite, exaustos, adormeceram abraçados.

Quando Raul acordou, o trânsito na rua já começava a se intensificar. Carla não estava. Tomou um banho, se vestiu rapidamente com um agasalho de corrida e saiu, ansioso para chamar a vizinha e lhe dar bom dia. Em sua porta estava pendurado, colado com adesivo um papel que dizia:

“Telegrama

Nego, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama
Que tanto te ama
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama”.

Raul se sentiu um homem em sua plenitude. Não chegou a dar volta até o portão e nem apertou a campainha. Pulou a mureta que separava as duas frentes e bateu à porta de Carla. Em pouco tempo, surgiu a mulher que achou ainda mais linda do que antes. O sol matutino incidia sobre seus olhos e boca, irradiando alegria para toda a Santana. Raul esticou o braço em sua direção:

— Vem! Me dê a mão, vamos sair prá ver o sol…

A Esfinge

Exposta às intempéries – à luz, à câmera, aos desejosos olhares –
passam todos por sua superfície,
essência que se esconde,
ao se mostrar em pele…
Corpo de mulher, cabeça de azul – esse ser-etéreo-cor –
proclama a antiga máxima, apenas por tradição:
“Decifra-me ou lhe devoro!”
Pois que não deixa de devorar, a quem-qualquer se lhe aproxima –
o pensamento e a atenção – tensão
que não se basta.
Antes, se abastece da atração – se desbasta
de adoradores que se entregam, de bom grado,
à sua devoção-devotamento…
A Esfinge ora a que deus, se ora?
A oratória é de quem quer ser,
mais do que a qualquer divindade – adorada.
De hora em hora, são miríades – mulheres, homens e anjos-de-asas-sem-penas –
entidades-sem-sexo a penarem
por seu olhar-de-terra-à-vista do primeiro astronauta:
“por mais distante,
o errante navegante –
quem jamais lhe esqueceria?
Eu-o-observador, creio que seu segredo está em não ser decifrada –
A Esfinge –
mas ser aceita em sua complexidade-de-mulher-que-finge
ser quem não é, por profissão
de fé e paixão.
Que esse fingimento é sua essência-de-jogo-de-espelhos que se alheia
e se mistura às gentes, que as consumem por dentro,
enquanto sua beleza de Alien simbiótica-mística-quântica
a reproduzir sua imagem em cada íris de quantos-olhos-outros,
muitos, embarcados em existires sem nexo.
Por que o faz, se mata de amor aos seus hospedeiros e se deixa morrer?
Sua natureza esfíngica explica…
E nada revela.


Pré-Conceitos*

Foto por Philip Boakye em Pexels.com

Domingo de manhã, eu estava me sentido cansado, após quatro dias de trabalho intenso, com poucas horas dormidas. Mas isso não impediria que eu fosse ao meu futebolzinho, principalmente porque era dia de pagamento da quadra. Peguei o meu ônibus e, após passar a catraca, vislumbrei um assento vazio do lado de um rapaz com os dois braços fechados de tatuagem, cabelos espetados, “piercing” na boca e portando óculos estilosos.

Antes de sentar, percebi que aquele era um banco reservado aos idosos, mulheres grávidas ou com crianças de colo e pessoas com necessidades especiais. Normalmente, eu prefiro ficar em pé, mesmo quando não se encontram pessoas nessas condições, porque evito que precise levantar quando observo que tal ou tal pessoa necessite ocupar o espaço reservado. Causa-me certo constrangimento demonstrar alguma civilidade, o que seria estranho se alguns não considerassem “ofensiva” qualquer exibição “ostensiva” de cidadania, como se o indivíduo que a praticasse talvez se considere alguém superior. É uma visão dúbia, mas que incrivelmente, existe.

Naquele dia, o meu cansaço era maior do que o respeito por meus conceitos e ocupei o lugar. Do meu lado, pude perceber que o rapaz estava atento ao surgimento de qualquer pessoa que subisse ao ônibus e que passasse a catraca. Parecia estar incomodado por ocupar aquele assento e devia estar avaliando se quem estava se aproximando seria um candidato à sua vaga. Talvez, os meus cabelos esbranquiçados o permitissem crer que eu estivesse no lugar certo, não ele. Pelo meu autoconceito, os meus 53 anos não admitiam me ver como um idoso, se bem tivesse, pelo menos, o dobro da dele e eu mesmo, na idade dele, considerasse a minha idade atual bem adiantada quando me via no futuro.

Uma mulher com uma barriga mais saliente pareceu atrair um pouco mais a sua atenção e torci intimamente que ele não a chamasse para ocupar o seu lugar, porque pela minha avaliação, aquele era apenas um caso específico de adiposidade na região abdominal. Tinha certeza de que se a moça intuísse que o motivo por ele querer ceder o assento fosse aquele, seria tudo muito constrangedor. Em priscas eras, o usual era qualquer homem ceder o seu assento à qualquer mulher. Não havia dúvidas! Quando isso começou a mudar? Creio que o processo se reverteu quando as mulheres começaram a ocupar mais e mais o seu espaço no mercado de trabalho, muitas vezes em postos anteriormente ocupados por homens. Em determinado momento, ali não estava mais o ser do chamado “sexo frágil”, mas uma concorrente na luta pela vida. Por que ele deveria ceder o seu lugar a ela?

Em outros tempos, eu consideraria aquele rapaz alguém que não prestaria atenção aos códigos corretos de comportamento social, por sua aparência alternativa, mas tendo filhas que se tatuam, eventualmente colocam “piercings” e se vestem ocasionalmente com um estilo incomum, sendo pessoas conscientes de seus deveres, percebi que não levaria o meu convencionalismo à questão da aparência, principalmente tendo em vista o meu próprio passado simpático ao estilo “riponga”.

Vivemos, por uma questão de comodidade, pré-julgando as pessoas ao nosso redor. O nosso cérebro, para não se cansar demais, especifica padrões com os quais avaliamos tudo e todos. No entanto, em tempos do politicamente correto, cada vez mais tentamos não pré-determinarmos conceitos. O que seria muito bom, se em muitas ocasiões, os pré-conceitos não fossem eficientes para nos safarmos de situações potencialmente perigosas.

Eu, pessoalmente, dou muito valor à intuição. Se por acaso intuo que, pelos padrões apresentados, algo é o que é e não a respeito, posso estar cometendo erros graves. Diante de tantas equações, apenas digo que sermos o que somos pode ser mal avaliado e a mentira exposta e auto imposta, pode findar por adotarmos normas de comportamento que causam mais confusão em nossos sentidos e sentimentos do que possam nos ajudar a vivermos saudavelmente.

*Texto de 2014

Bom Dia! (Ou Como Zeca Baleiro Salvou Duas Vidas) — Parte Dois

Carla entendeu que aquele seria o melhor horário para morrer — 7 horas da manhã. Quando Francisca chegasse, dali a uma hora, a encontraria em “boas” condições físicas, apesar do processo de autólise que se iniciaria assim que o coração parasse de funcionar. Naquela altura, seu corpo daria chance para que a vida explodisse em novas formas, habitado por moradores invisíveis. Ao pensar sobre isso, veio a perceber que o tempo não era o mais importante, mas a afirmação da vida, ainda que ínfima na duração e diminuto, o habitat. Começou a se sentir importante em se tornar o mundo de colônias de bactérias em um complexo ecossistema que se alimentaria dela até estarem exauridas as suas fontes de energia ela mesma, Carla.

Estaria morta a médica de 40 anos, bonita e desejada que, no entanto, não conseguia ultrapassar as barreiras dos relacionamentos com pessoas — homens e mulheres — que escolhia a dedo para feri-la. Ou talvez fosse ela, tão sensível desde a infância, que chorava por qualquer coisa. Pelas irmãs, era chamada de chorona e ranheta. Os namorados e namoradas, se afastavam assim que percebiam que não conseguiriam lidar com tamanha delicadeza em prantos, apesar da beleza física clássica. Vaidosa, para não ser encontrada mole pela podridão em paulatino avanço, não quis se matar à tarde, quando bateu a dor mais profunda por estar viva. Passara mais um dia a cuidar de pessoas que, estranhamente para ela, se agarravam à vida de maneira absurda. A contaminação pela Covid-19 voltara a aumentar. Dessa vez, os pacientes eram mais jovens que, como característica básica, se consideravam imortais. Mas para alguns, a doença se assenhorava do corpo como fosse uma casa abandonada invadida. Os estragos fisiológicos, caso sobrevivessem, seriam inevitáveis.

A falta de empatia ou, de outra forma, certa inveja por não ser contaminada pelo vírus, a deixava com raiva de si mesma. Carla se lembrava do quanto se importava com as pessoas e o desejo desde nova em se tornar médica. O curso, logo de início, foi a deixando cada vez longe do ser humano solidário para torná-la um ser de emoções amorfas. Ter sido estuprada por um grupo de colegas depois de uma aula de Anatomia, praticamente a matou por dentro. Até o presente dia, não se conformava por não ter delatado a corja, hoje, médicos renomados, de lindas famílias de comercial de margarina. Tinha pesadelos recorrentes sobre como a usaram para “estudar” os nomes das partes da sua estrutura físico-biológica viva — detalhes da cabeça, passando pelo tronco e membros — e seus sinônimos funcionais, no léxico popular e no médico. Oito mãos intrusas e quatro órgãos genitais usurpadores passearam sobre sua derme sem obedecerem aos seus recessos ou às recusas veementes, abafadas por estarem em um lugar isolado. Percebeu que o local onde se deu a “aula” de Anatomia fora escolhido a dedo e a ação, planejada.

Para nunca mais os ver, evitou se candidatar para trabalhar nos maiores hospitais de São Paulo, para onde foram. Jamais quis participar de festas de congraçamento pelo Dia do Médico ou de reuniões festivas da Turma de 2002 de Medicina da USP. Ao procurar atender na Periferia, sua atitude foi confundida com benemerência, o que lhe angariava simpatia e admiração. Morar em Santana a deixava perto dos hospitais da Zona Norte nos quais atendia como Dermatologista. Aquela casinha a lembrava de sua morada na vila da Zona Leste onde cresceu, o que lhe dava certo conforto mental pela evocação da lembrança dos pais amorosos. Afora isso, não conhecia os vizinhos das casas de fachadas iguais e muros baixos à direita e à esquerda. Não tinha tempo e, para ser sincera, não queria.

Um pouco antes de ligar o gás, Carla ouviu a campainha tocar. Pensou em não atender, mas decidiu ver pela janelinha quem era. Um sujeito mascarado estava junto ao portão. Usava roupas largas, uma camisa colorida tingida. A máscara não conseguia esconder uma espessa barba. Os cabelos, um tanto desgrenhados, a lembrou de um rapaz que conheceu na Mooca do qual gostara muito, mas sempre à distância. Era uma figura que parecia ter acabado de chegar diretamente dos Anos 70, pelo que já vira em filmes. Curiosa, abriu a porta e postada debaixo do batente, perguntou o que ele queria.

Oi, vizinha! O meu nome é Raul! Moro aqui do lado, na casa do meio. Queria lhe desejar um bom dia!

O tom de voz era sereno e o timbre profundo, de barítono. Antes que ela pudesse responder algo, o tal de Raul se dirigiu a dois portões à esquerda e tocou a campainha. Pouco depois, apareceu um homem preto que perguntou exatamente o que eu perguntara antes, como se fosse uma fala ensaiada. O sujeito repetiu a mesma linha:

Oi, vizinho! O meu nome é Raul! Moro aqui do lado, na casa do meio. Queria lhe desejar um bom dia!

O vizinho da esquerda foi mais ágil do que Carla e retrucou o cumprimento:

— Bom dia, vizinho!

Curiosa, Carla acompanhou os passos decididos de Raul até a esquina com a Dr. César. Intrigada e absorta em saber porque um vizinho que nunca vira antes, a fez descer a terra de maneira suave, como se fosse uma alienígena recém chegada. Assim como ela, o outro vizinho acompanhou o percurso de Raul até virar a esquina, à esquerda do Si, Señor! Quando voltou a cabeça, viu Carla e lhe desejou um bom dia, ao qual ela respondeu em tom surpreendentemente descontraído. Após o que, se apresentaram — “Carla, prazer! Prazer, Fábio!”. Durante vinte minutos conversaram como se fossem velhos amigos. O assunto, naturalmente, foi Raul. Nenhum dos dois sequer sabia que ele morasse na casa do centro. Era como se tivesse saído de uma fresta dimensional.

Quando deu por si, Carla viu Francisca chegar mais cedo que o normal. Teria que esperar mais uma semana para realizar o seu plano suicida. Não se mataria antes que ela saísse, para que seu corpo fosse encontrado apenas sete dias depois, quando voltaria para fazer a faxina da sua casa. Nem era tanto serviço assim. Usava pouco a casa, já que trabalhava todos os dias e passava os finais de semana dormindo como se fora uma refugiada. Isso, quando não fazia plantões pontuais. Não recebia ninguém. Não cultivava amigos. As irmãs não sabiam do seu endereço. Os pais, estavam mortos. Francisca e seus doentes eram as pessoas com quem mantinha um contato mais íntimo. Com os colegas de trabalho apenas trocava informações profissionais, sem maiores proximidades. Até que Raul lhe deu bom dia e invadiu seus pensamentos…

Na Voluntários da Pátria, Raul comprou flores. De lá, se dirigiu ao corpo de bombeiros, na Braz Leme. Em frente à corporação, perguntou a um soldado pelo comandante. Informado que estava na sala de comando, pediu para entrar e lhe entregou um belo buquê de flores. Uma variação aceitável da letra original de “Telegrama”. Quando garoto, Raul até pensou em ser bombeiro. O importante é que o comandante, pego de surpresa, sorriu desmascarado de qualquer rejeição. Ele não perguntou em nome de quem entregava as flores, Raul não disse nada ao ofertá-la. Um momento mágico entre dois homens. Acenos de cabeça e saída do entregador como se flutuasse.

Caminhando pela mesma Braz Leme, Raul foi em direção da Casa de Pães. Uma das coisas que lhe dava maior prazer físico, além do sexo, era comer pães. Gostava de quase todos os tipos, mas os italianos eram os seus preferidos. Conhecia o proprietário  e se alguém merecia um beijo, esse era o padeiro. Ser padeiro, não lhe desgostaria tornar-se um. Estava como que caminhando sob o comando de seus desejos adolescentes ao fazer o trajeto de centenas de metros entre um ponto e outro. Uma vida toda em que abraçou o humanismo como profissão de fé, a atividade da espécie no planeta como sentido que buscou compreender e empreender. Em que momento tudo se tornou demais? Em que ocasião ser humano não representava mais nada? O asfalto duro, a calçada esburacada, as árvores na ilha central, as pessoas caminhando para algum lugar… o que significava, realmente? Sentiu reacender a chama pela busca pelos significados, uma curiosidade por si mesmo e pelo mundo. Sua divagação foi cortada por uma frase dita espontaneamente em voz alta:

— Que linda mulher, a minha vizinha…

Porém, naquele momento, ele mantinha apenas um propósito: beijar o português da padaria.   

Tudo o que precisa ser dito…