BEDA / Quase Quebrado*

Quem disse que lavar roupa não é perigoso? Na quinta-feira, lavei roupa e a água que resultou da lavagem utilizei para lavar o chão da varanda do Boiler Laje, escadas e churrasqueira. Após terminar uma parte, lá estou eu de chinelão, distraído, a descer, quando piso errado na escada escorregadia e de uma queda vou ao chão, quatro metros abaixo, batendo costas, pernas e braços até o final dos degraus. Não bati a cabeça porque o judô praticado na infância sempre me ajudou a protegê-la em todas as muitas quedas desde então. Acudiu-me uma cavalheira, a Lívia e um cavalheiro, Pablo, seu namorado. Pensei que houvesse apenas escoriações superficiais, mas à noite não consegui dormir direito devido às dores que surgiram depois. Hoje, estou melhor. Mas tive que reviver na boca da Tânia, da Romy e da Ingrid, além da Lívia, poucas e boas. Acabei por me lembrar da minha mãe, Dona Madalena, que ralhava comigo todas as vezes que eu aparecia “quebrado” em casa por causa de carrinho de rolimã, patins ou futebol em campo de várzea ou quadra. Quase cheguei a confundir a dor aguda e passageira do corpo com a dor tênue e permanente da saudade. Se chorasse, talvez fosse mais pela última…

*Texto de Agosto de 2020

BEDA / Uma Carta

Meu Bem Querer, antigamente poderia iniciar com “escrevo estas mal traçadas linhas”, mas além de não estar utilizando caneta e papel, estou em trânsito, fora de casa, à trabalho. Ultimamente, tem me assaltado um certo mal estar mental que parece ser sazonal no meu caso. Durante anos entro em uma fase de me sentir deslocado no tempo e no espaço, ainda que saiba que este tempo e este espaço não seja o meu lar. Dificulta tudo o que acontece em nosso entorno uma certa vilania institucional por parte de alguns poderosos de plantão. Também não ajuda a defesa de pautas retrógradas que parece ser uma característica entranhada em nosso DNA social e é apoiada por muitos do nosso povo. Somos um País fruto da violência desde a invasão de Pindorama. Creio que essa mácula permeia as nossas relações cotidianas e tanto quanto eu, sei que você sofre ao perceber esse quadro de indigência social. Somos “brasileiros” — ou seja, uma profissão que designa exploradores de pau-brasil. Somos com “muito orgulho e muito amor” defensores do “jeitinho” que nos permite sobreviver de pequenos golpes.

Diante de tantas razões para desistir de tudo, resta a mim combater o bom combate na busca de honrar o fato de sermos espíritos encarnados e que através de nossa pele podemos expressar o amor consumado em gozo e prazer. Pode parecer algo que não se estabeleça como algo menor, mas diante de tanto desamor no mundo, o que temos nos isola durante algum tempo da dor e do passageiro. Quando estamos juntos, esses momentos repercutem como se a eternidade se consubstancie em lembrança e, devido à distância, em saudade constante.

Sinto falta de conversar consigo. Todas as vezes que conversamos aprecio o tom de sua voz, o ritmo, o sotaque. Mas me sinto mais incrível quando nos calamos e grunhimos sons de significados profundos de entrega e paixão. Que não demore a acontecer…

Foto por cottonbro studio em Pexels.com

BEDA / Amor Próprio

Ouvi uma canção em que o refrão o cantor expressa: “Eu gosto mais de você do que de mim”. Às vezes, eu entro nessa seara de analisar frases soltas, situações que se desenvolvem diante de mim como se tentasse entender como funcionam as relações humanas. Eu fiquei afastado voluntariamente das pessoas durante alguns anos. Favoreceu esse comportamento por causa de circunstâncias em que passei temporadas sozinho em casa na adolescência porque a minha mãe estava cuidando da madrasta do meu pai e após o seu falecimento, meus irmãos foram morar com ela na casa distante 2Km de onde vivia. Durante esse período mergulhei fundo nas filosofias orientais e desenvolvi alguns sintomas que se assemelharam à síndrome do pânico. A minha timidez ficou mais profunda e foi com muito esforço que consegui sair desse processo penoso isolacionista.

Nessa época, fui desenvolvendo uma autocrítica em que só via defeitos em minha personalidade. Afora um sentimento de inadequação que me impediria de que eu viesse um dia a ter algum relacionamento amoroso. Cheguei a flertar com a vida monástica, ainda que não fosse católico. Mas era cristão e franciscano, desejei ser frei. Acabei por começar a acalentar a ideia de me jogar na vida através do encontro com uma mulher. Com ela, formei uma família e fico feliz por amá-la como algo que apesar de ter nascido de mim, é bem melhor do que eu poderia desejar. Mas o meu amor próprio ainda enfrenta percalços se bem que defenda os meus defeitos com bravura de quem precisa deles para se reconhecer. Nesse caso, minha autoestima considero um tanto precária e percebo que gosto mais das minhas meninas do que eu de mim.

Mas sei que se eu não me dedicar à minha melhora como pessoa, não conseguirei ser amoroso comigo mesmo o suficiente para que o meu amor pelos outros seja valorizado. Amar é uma dádiva tanto para quem ama como para quem recebe esse amor. E deve ser cultivado para que floresça tanta interna com externamente, não importando as variações quanto a questão de gêneros.

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BEDA / O Camundongo E A Barata

Foto por Chris F em Pexels.com

Sou franciscano. Alio a uma perspectiva orientalista a minha visão de mundo essa postura em que até as ervas daninhas tem direito à existência. E baratas e camundongos. Falo sobre eles porque estão envolvidos em dois episódios recentes em que busquei preservá-los. Uma barata tentava entrar dentro de casa, eu a recolhi e a coloquei no jardim. Meia hora depois, a minha irmã pisou na bichinha com gosto, exclamando: “uma barata!”…

Mais tarde, à noite, um camundongo entrou dentro de casa e se dirigiu a um canto. Fui até onde se escondeu e fiz com que saísse correndo. Achei graça quando até derrapou na curva em direção a saída pela porta, exclamando: “Se manda, cara! Estou tentando salvá-lo!”

A minha crença é que todos os seres estão interligados à uma espécie de energia vital e apesar de estarmos em níveis diferentes de complexidade orgânica, deve existir o respeito a cada expressão de vida. Alguns dirão que há animais peçonhentos, outros que transmitem doenças como as próprias baratas e camundongos. Porém, há de se lembrar que as transmitem porque vivem na sujeira produzida pelo supostamente ser superior — nós mesmos.

De toda forma, vivemos todos em constante desenvolvimento energético e saber lidar com as gradações desse processo conscientemente é nosso grande destino.

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