BEDA / Sinais*

sinais são importantes

a eles devemos ficar

atentos

caetano

               perguntado se respeitava sinais disse

claro

          são sinais

                          pergunto

por que queremos desrespeitar

                                                  o que nos sinalizam?

propaganda de cremes anunciam

serem anti-sinais

como se quiséssemos

apagar

                                               a nossa trajetória

aos meus 14

                     uma senhora disse para seu filho

no ônibus

                 deixa o moço passar

fiquei espantado

                           eu me tornara um moço

barba branca no rosto

atendentes me chamam

                                      de moço

sei que é uma maneira

                                     de afagar a vaidade

estratégia de recepção ao cliente

mas o meu espanto persiste

sou velho demais

                             para ser chamado

                                                          de moço

cabelo rareado

                         redemoinho falhado

para suavizar discrepâncias

raspo a cabeça

                         cheia de mentais

                                                     reentrâncias

reafirmo a queda inevitável

palavras caducam?

tenho evitado escrever algumas…

sempre

              e

                 nunca

tenho as considerado definitivas demais

aliás

         tenho tentado evitar também

                                                        demais

aliás

         também

                       e aliás

e sempre

               é logo mais

o nunca

              nunca mais

porque viver nos ensina que marcar

coisas como definitivas

não pertence

                      ao nosso mundo

imediatista

                   impermanente

se me contradigo aqui

é por falta de opção

                                 como não há opção

para a morte do corpo

                                    como sei que a energia

é infinita

                enquanto este universo existir…

*Poema de 2022

Foto por Eduardo Soares em Pexels.com

BEDA / Viver Em Sampa

Moro na Periferia. Numa avenida perto de casa há uma grande árvore — uma seringueira — que toma conta de vários metros quadrados junto a um gradeado que cerca o Piscinão Guaraú. Ao passar por ela ontem, percebi que alguém utilizou de de alguns materiais como lona, madeira, cordas, panos e outros que não consegui identificar para fazer uma instalação feito uma casa na árvore. Toda criança sonha em construir uma casa na árvore, se isolar dos adultos para estabelecer um território livre. Neste caso, foi a necessidade (mãe da invenções) de dormir em segurança, longe de possíveis agressões que estimulou quem a ergueu.

Na Avenida Cásper Líbero, uma das mais importantes do Centro da cidade, durante muitos anos se destacou de forma negativa a presença de um edifício invadido em péssimo estado de conservação. Essa foto eu tirei em 2009. Atualmente, depois de ser amplamente reformado, o prédio está sendo ocupado por moradores em boas condições de estadia. Passo por ele de vez em quando e abençoo o fato de que aquela área tenha essa condição de ocupação. Afinal, a cidade tem que ver o Centrão revalorizado.

Sobre a imagem acima, o ator e escritor Manogon comentou:

“Das janelas turvas a visão distorcida de um mundo cão, esperanças perdidas nas penumbras de um vão. Pelas paredes sujas, tintas envelhecidas e já sem vestígios de cor, escorriam até o aroma azedo que exalava do boteco do seu Lindo (Arlindo de nome, mas que pelo contraste e antagonismo entre forma e nome, era zombeteiramente chamado apenas de Lindo). No acabamento do prédio, que já se encontrava em quase ruínas, descia junto ao esgoto, entre águas fétidas, gordurosas e boas doses de merda, os sonhos e anseios de moradores sem rostos, sem nomes, sem destino certo, muitos sem hora pra sair pro trabalho, outros sem trabalho pra sair a qualquer hora, alguns sem se dar o trabalho de saber hora pra voltar o que poderia ter um nome de casa. Janelas turvas. Luzes amarelas. Janela quebrada. Luzes vermelhas intermitentes. Um corpo no chão. A tinta vermelha escorrendo pela valeta, misturando-se à água fétida, indo embora com toda aquela merda.”

Manogon

BEDA / Loucura & Paixão

de pathos vem paixão
loucura é doença dizem
quando a mente parece mentir
a realidade mas a qual realidade
nos referimos?
é doentio acreditarmos que seja real
o que vivemos nestes dias
quando nos apaixonamos distorcemos
a realidade para o bem
enlouquecemos
e do mal esquecemos
o corpo padece de saudade
na distância
percebemos no ar a bondade
sentimos do amor a fragrância
a nos rodear em pulsações
de destrambelhados corações
doentes de bendições
quando a loucura é cura.

BEDA / Crepúsculo De 12 De Agosto De 2020

12 de Agosto de 2020.
Este dia existe, o mês também.
O ano, já não sei.
Estamos vivos, eu, que escrevo, vocês, que me leem.
Ou não.
Aniversário da Romy,
trigésimo primeiro ano de existência,
todas as estações vividas aqui,
na Periferia da Zona Norte.
Trinta e uma vezes a Terra girou em torno do Sol.
Onze mil, trezentos e trinta e dois crepúsculos,
contando os anos bissextos.
Porque com ela é assim —
todo dia é dia de comemoração da energia vital.
Parabéns para nós que a conhecemos, meu amor!

BEDA / Tudo Passa?

Por uma dessas coincidências estranhas, encontrei pelo meu caminho dois motociclistas que apresentavam uma tatuagem no pescoço escrito “Tudo Passa”. As duas estavam tatuadas abaixo dos capacetes de tal maneira que dava para lê-las claramente. Nas duas ocasiões, as li porque estava sentado no carona de veículo que me conduzia. Portanto, do lado esquerdo do motociclista. Cheguei a pensar que fosse o mesmo motociclista, mas os pontos de contato ocorreram em distâncias díspares. Um, na Marginal Pinheiros — de trânsito parado — e outro no meu bairro, na Zona Norte, igualmente.

Para não apostar que o que fosse coincidência parecesse uma espécie de mensagem enviada pelo Destino, imaginei que a frase fosse uma espécie de divisa que os motociclistas usassem como uma referência da profissão de entregadores de aplicativo. Eu mesmo a usava e a projetava mentalmente para conseguir superar os períodos de trabalho pesado quando era funcionário de uma banda atuando “roadie”. Mas o que poderia perguntar é: “o tempo passa?”. Seria como um rio em que me posiciono num ponto e o tempo seria como a água que passa por mim? Ou sou eu que apesar de estar parado passo pelo tempo? Quando eu passei pelos motociclistas me tornei o tempo instantâneo em que gravei a frase “tudo passa”? Ou passamos juntos pelo tempo em que o trânsito estava parado?

Devaneios… pelos quais passo. Quem passa pelo o que? O que eu aprendi é que o tempo como uma espécie de fotografia a qual pode se acessar a imagem não tem exatamente esse poder de eternizar o seu significado. Não apenas porque o observador é diferente um de outro. Além disso, por trás do que se vê, há os movimentos invisíveis, a verdade oculta, o fato real que a construiu. Disso, eu sei…

Foto por Domenico Adornato em Pexels.com