Meu bem querer, distante como está (fisicamente), disponho da memória e da imaginação para lhe alcançar a pele ao toque de minha mão. Sei que pode parecer uma desculpa oportunista, mas fico a imaginar se consigo fazer com que saiba que eu a desejo para mim. Egoísmo? Sim! Quando queremos algo ou alguém, pensamos apenas no que isso possa oferecer de bom, de belo, de prazeroso, de transcendente para além do aqui e do agora. Mas o tempo passa e sofremos pela ausência mútua de nossos corpos se unindo, bocas se entretendo de volumes e reentrâncias, invadindo abismos ao som de frequências guturais.
Há namorados e os enamorados. Os primeiros se sentem eternos, mas passam. Os segundos apreciam a sensação de permanência dessa energia ao sentir o amor ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço. A lembrança é como se fosse a própria presença na ausência. A saudade é pungente, dói. Quando a matamos, renovávamos o seu poder. E sofremos. Lágrimas substituem o suor. A dor se faz onipresente como se fosse corroer nossos corações, por amarmos.
Qual seria a alternativa? Deixarmos de nos ver, de nos ter, de nos entregarmos? Ah, meu bem querer, neste dia comercial, prefiro ser aquele que é enamorado de você, um sentimento de permanência, sinónimo de estabilidade. O que é uma contradição. Porque quem ama vive na corda bamba. Isso não é desejável, mas compõe a vivência de quem se apaixona. A paixão é explosiva e deixa um rastro de mortos pelo caminho. Só sobrevive quem a ultrapassa para entender que esse fogo queima, mas também nos regenera a alma encarnada. Estamos vivos e voltaremos a nos encontrar sentir peito contra o peito os corações a bater. As línguas a falarem a linguagem do amor.
Mariana era uma mulher bonita e rica, devido ao patrimônio herdado do marido morto em acidente de avião. Era conhecida pela benemerência, doando recursos para projetos sociais. Particularmente, ela fazia a sua parte acolhendo moradores em condição de rua. Mas não qualquer um, apenas alguns escolhidos a dedo. Um deles, que chegou para ficar, foi Francisco, que atuava como uma espécie de secretário/faz-tudo nos últimos dez anos.
Mariana mora num dos mais icônicos edifícios da cidade – o Domus. A localização do seu apartamento possibilita que encontre alguns exemplares especiais para a sua coleção de sem-teto. Com passe livre para carregar corredores à dentro do Domus sujeitos desconhecidos, antes tem o cuidado de chegar ao seu prédio, transformados em homens apresentáveis. Promovia tanto um banho diferenciado no corpo quanto de loja, em seus “acolhidos”. Para isso ela tinha uma pequena casa nas imediações da sua residência para a produção.
Estava sempre acompanhada de Francisco, um homem de impressionantes 1,90m, que agia também como guarda-costas de Mariana. Desde que foi levado por ela, se apaixonou pela patroa. A cada homem que trazia para o breve convívio, ele sofria bastante. Mantinha um distanciamento que enganava a quem os conheciam. Mas vez ou outra, na falta de amigos sequenciais com os quais saía, era Francisco que a levava para a cama.
Regino era o nome do novo despossuído trazido para a pré-produção. Um homem negro de olhos verdes que cativaram Mariana num dia de sol inclinado de outono, irradiando faíscas verdejantes no cinza do asfalto. Mal vestia calças rotas e uma camiseta que colava seu abdómen frisado de riscas transversais. Um espécime masculino que pouco se via incluindo as passarelas de Fashion Week de Paris, a qual ela frequentava durante a temporada de desfiles.
Como todas as vezes que encontrava alguém, ela se aproximava com cuidado, perguntando pelo nome e se oferecendo que comesse algo. Normalmente diziam que sim, mas o rapaz de seus presumíveis 25 anos hesitou, olhou para Mariana com um olhar enigmático. A pele escura se confundia com a sombra de onde estava. Após alguns segundos eternos em que ela quase se perdeu no caminho esverdeado, ele respondeu que sim. “Meu nome é Regino, em homenagem à minha avó” – disse – se apresentando. Mariana sorriu e pediu para que ele fosse com ela. Ainda hesitante, Regino se levantou de seu canto junto a cobertura de um bar fechado. Seus movimentos eram semelhantes ao de uma pantera desconfiada. Sequer imaginava o que queria aquela linda mulher com ele. Simplesmente se ergueu e a acompanhou e ao seu amigo. Ela o levou até ao Glacê, Flores e Cozinha, perto de seu apartamento. O dono já estava acostumado com os convidados sempre alternativos que Mariana trazia e indicou para o trio os pratos do dia.
Após se servir da melhor comida que já havia experimentado, ele e os outros dois se dirigiram à casa da transformação. Lá, Mariana guardava roupas de todos os tamanhos para vestir seus novos amigos. Como sempre, ela pedia para que o homem se despisse e entrasse no amplo banheiro para tomar a chuveirada que prazerosamente dava em seus acolhidos. Ela também se desnudava e iniciava o ritual do banho, a começar pela cabeça. Como a do Regino fosse raspada, essa etapa se cumpriu de forma breve. Dava prazer a ela executar com vagar o passeio por sua cabeça, passando pelas orelhas pequenas e o queixo proeminente.
Mariana utilizava uma bucha ensaboada com sabonetes de odores requintados lavando suas costas largas, até começar a deslizar para as suas nádegas firmes e levantadas. Pediu para que Regino se virasse e, ajoelhada, começou a lavar os seus pés com cuidado e carinho. Ela percebeu que Regino estava um tanto tímido, até que passou a massagear a parte interna das suas coxas musculosas de tanto carregar recicláveis em um carrinho improvisado pelas ruas que, durante a conversa no restaurante, disse ser o seu meio de sobrevivência. Logo, o seu pênis se ergueu feito um mastro de bandeira em dia de parada. Ela o lavou como se fosse a joia mais preciosa que havia posto os olhos. Logo, sem demora, começou a passar a língua ao longo do membro do rapaz. A experiência na felação o excitou tanto que ela percebeu que logo gozaria. Compreendeu que ele devia estar há muito tempo sem ter uma relação sexual. Diante da intumescência que deu todo sentido à palavra pau, segundos depois sentiu em seu rosto um banho de esperma quente e abundante. Chegou a achar “fofo” que Regino pedisse desculpas por isso. Ela subiu a bucha para seu peitoral e enquanto o lavava, olhou para cima em direção a sua boca. Ele sorria de forma aberta e tão natural que decidiu beijá-lo.
Mariana estava enamorada de seu recém agregado. Algo que apenas com Francisco aconteceu tão rapidamente. As línguas se envolveram em uma dança frenética a deixando tão excitada que se deitou no piso do banheiro e pediu que ele a penetrasse. Antes disso, ele aproximou a sua boca da vagina cor-de-rosa de Mariana e usou a língua de tal maneira delicada e desenvolta, auxiliado por seus dedos longos e um tanto ásperos, que ela gozou rapidamente. Desta vez, foi ela que inesperadamente expeliu um líquido em jato no rosto de Regino. O que fez com que os dois rissem. A maestria de sua língua continuou a surpreendê-la ao começar a beijar suas mamas como se fosse uma criança ávida de alimento, ainda que de forma calma, como se estivesse absorvendo o leite da vida. Como o seu pênis voltasse a ficar ereto, ele a agarrou pela cintura e facilmente a colocou de quatro, assumindo o comando, ainda que quem controlasse a situação fosse ela. Após dez minutos, Regino voltou a ejacular, banhando as suas costas com o morno líquido esbranquiçado.
Do lado de fora, Francisco ficou incomodado pela demora do banho e chegou a entreabrir a porta do banheiro, percebendo entre a névoa densa, os movimentos do casal. Ele se sentiu enciumado como nunca. Regino tinha uma energia diferente e porte de príncipe, apesar de sua condição precária. Banho tomado, Mariana estava exultante com a sua nova conquista e já fazia planos para Regino percebendo que a sua altura, postura e perfil esguio poderia levá-lo para bem longe como modelo profissional. A sua história poderia ser inspiradora e logo ganharia repercussão. Mas, antes, queria experimentá-lo o quanto pudesse.
Logo que chegaram ao Domus, ela avisou Francisco que ambos passariam um tempo no quarto. Durante duas horas Mariana e Regino experimentaram todas as formas de prazer e posições sexuais. O rapaz era um talento no assunto e Mariana ficou pensando que ele bem serviria a algumas de suas amigas, sedentas de bom sexo enquanto seus maridos estivessem ganhando dinheiro e comendo as suas secretárias. O rapaz era atlético e incansável. Além de ter aqueles olhos cor de esmeralda que a depender da luz refletia em ondas feito água marinha. Apaixonada por Regino, decidiu mentalmente só o liberá-lo ao mercado depois de aproveitá-lo bastante. Certamente ganharia pontos com as suas companheiras de brincadeiras nas viagens que faziam.
Regino era um sujeito que passou por tantas situações de desamor que mal acreditava no que estava acontecendo. Imaginava que tudo acabaria de uma hora para outra em algum momento. Foi abandonado pela mãe que se envolveu com um traficante. Tinha saudade de sua avó que faleceu muito cedo. Ele a amava e foi uma referência amorosa que o salvou de se matar em várias oportunidades. Ele não queria, porém também estava apaixonado por Mariana. Ainda que sentisse que ela lhe devotava um imenso carinho, não se permitia viajar na possiblidade de que esse idílio se estendesse por muito mais tempo.
Essa humildade de quem não sabe o poder que tem impressionava Mariana, acostumada a conviver com homens que se jactavam de serem o máximo da expressão masculina. Em contraposição, percebeu a candura do moço tímido. Recém-chegada aos 40 anos, vivia a fase da Loba de forma plena. E Regino parecia ser o símbolo de sua plenitude. Talvez representasse o término por sua busca pelo amor que ainda teria por um homem de verdade e que ainda lhe satisfaria como fêmea. Envolta nessa reflexão sentiu necessidade do belo pau de Regino a lhe invadir o corpo e consumar o dia que nasceu tão insípido neste Outono de 2026 e que terminava com um delicioso beijo do garoto de olhos cor de safira e pele cor de ébano. Quando ele finalmente se entregou ao sono como se fora um cão recém resgatado das ruas que se sente seguro, Mariana ficou um tempo deslizando as mãos em seu corpo esculpido na necessidade de sobreviver de restos e chorou, com a cabeça deitada junto a púbis de Regino.
Sou filho de Darth Vader. Não, não sou Luke Skywaker, mas seu irmão bastardo. Ou seja, nem herói posso ser considerado. O meu pai quando estava presente, fazia questão de me considerar inapto para quase todas as coisas no qual ele era capaz. Talentoso com as mãos em termos de carpintaria, que aprendi o observando, enveredei pelo trabalho artesanal, mais artístico — também desenhava e pintava. Sempre gostei de escrever e quando percebi que ao fazê-lo, conseguia inventar o meu próprio mundo, (nele, eu era deus), deixei de me expressar pelas artes plásticas. Quer dizer, de certa maneira “puxei” esse lado delirante de grandeza.
Porém, ao contrário de meu pai, que destruía mundos inteiros, fazia procriar personagens em meus textos. Percebi cedo que não era difícil encontrá-las pelo meu caminho tempos depois, como se antecipasse o futuro. Vivia isolado dos outros garotos com os quais convivia. Dois deles eram mais próximos, mas um deles enveredou para o lado obscuro da Força. Hoje, estamos definitivamente rompidos. Também conversava com seres oníricos em meus sonhos e os reencontrava quando desejava. Até que com o meu crescimento físico e “amadurecimento” mental, os deixei fugir pelos tempos alternativos da minha vida.
Na falta de mestres, elegi Machado de Assis como o meu Obi-Wan Quenobi. Eu o lia como os outros apreciavam os gibis, que eu também gostava, mas cedo percebi as regras do Capitalismo imiscuído em suas histórias, principalmente nos de Walt Disney. Isso, me afastou do estilo até conhecer outras versões na manufatura de HQs. Maurício de Souza ajudou a resgatar o modelo, mas ao conhecer os mais ousados e adultos, percebi que a expressão por esse estilo de arte poderia vir a ser revolucionária, se o texto (ainda que muitas vezes prescindisse disso) viesse a se casar com a criatividade do desenhista.
Bem novinho, eu comecei a tocar violão, por influência de meu pai, mas desisti mesmo acertando as notas certas das antigas canções que ele me ensinava. O violão era de adulto e as cordas, de aço. Doía os meus dedos para que isso acontecesse. Hoje reconheço que deveria persistir. Que eu deveria aprender a manipular o sabre de luz sónico com perseverança a ponto de vir a dominar o mundo. Mas a escrita me dominava como a um espírito de Mestre Jedi. Que até então não havia se materializado em corpo e alma. O meu pai talvez tenha começado a me rejeitar desde então porque eu passei a não seguir mais as suas orientações.
Mas a principal discrepância era de ordem ideológica. Não porque não comungasse de suas ideias básicas a respeito de Política, mas porque via com clareza que a proposição de uma vanguarda que levasse o povo a se armar para resistir à Ditadura não tinha futuro. Certa ocasião, lhe disse que isso nunca aconteceria porque o brasileiro foi sendo desinformado com o tempo pelo Sistema que, baseado na formação escravagista de sua História, o tornou apático quanto à mudança da realidade que impunha uma sociedade de castas que imprimiu na mentalidade da nação uma postura conformista. Nesse caso, o meu Darth Vader era um idealista que queria destruir a Estrela da Morte.
Mas como todo idealista, viajou na ideia que conseguiria alcançar a massa para esta se revoltasse contra exércitos e os agentes pagos e os não pagos — a população — afeita ao cotidiano que informava que os comunistas comiam criancinhas. Quando são os “pacíficos” que são os verdadeiros degenerados sociais. Preferem que a Sociedade continue o seu show ilusionista de Deus, Família e Propriedade. Propõem que a família deva ser preservada, a mesma que desenvolveu doentes mentais que se matam entre si em busca do “sucesso” representado por aquisições de bens. Querem ser chamados de “bons” assim que os obtêm, não trabalham para o bem comum e não toleram quando um desvalido alcança um patamar social mais elevado em termos econômicos. Enfim, meu pai queria destruir o Império, ao contrário do Darth Vader original. Talvez, por causa disso, ainda possa perdoá-lo, por ser tão sonhador quanto eu…
praça de alimentação de um shopping famílias homens mulheres crianças cães vez ou outra ladram os sinos de avisos repercutem sonoros agudos pessoas falam alto pensativos um ou outro dos presentes permanece mudo ausente do presente muitas mulheres estão sós esperam olham pelo celular possíveis mensagens a hora que passa nada pediram intimamente pedem talvez que não se atrasem ou mesmo que isso ocorra que venham eu me intrometo em suas histórias proponho alternativas viáveis e poucas escapam de uma constante esperam homens compromissados com outras com deveres familiares tentam fugir de suas prisões uniões que se esgarçaram com o tempo buscam viver novas emoções encontros com o furor juvenil já envelhecidos se sentem remoçados e quem os espera sabe disso algumas conhecem as companheiras possíveis amigas mas se sentem apaixonadas não assumem que sejam invejosas mas estar com o objeto de desejo as fazem se sentir poderosas mas aqueles a quem esperam são simplesmente homens num mundo em que seu poder se desmorona se comportam como seres sem honra ou apenas escapar da rotina da lida sentirem que estão vivendo novas sensações na vida talvez nem gostam de quem venham a encontrar porém querem se enganar que ainda têm o poder de brincar com os sentimento das mulheres viver a emoção da conquista quando sempre serão elas que se permitem também brincam com a capacidade de seduzir buscam conquistar novas possessões num mundo utilitarista apenas visitar outros corpos como turistas não querem que eles se apaixonem que fiquem pegajosos grudentos ciumentos brincam com fogo transformam ambos em um jogo que se nisso ficassem não seria de todo mal gozo prazeroso acima das leis patrimoniais abaixo das obrigações sociais para os outros mentirosos pessoas de vida dupla para si mesmos mulheres e homens portentosos sem culpa…
Foto por UMUT ud83cudd81ud83cudd70ud83cudd86 em Pexels.com
23 de Abril, hoje, é Dia de São Jorge, o santo que é representado, montado em seu cavalo, desferindo um golpe fatal contra o dragão da Maldade com a sua lança. Há vários outros soldados santificados pela fé em Cristo. Santos militares, ou “santos soldados”, são figuras que serviram em forças armadas (frequentemente no exército romano) e foram canonizados por sua fé e martírio. Os mais célebres, além de São Jorge (padroeiro dos soldados), são São Sebastião (protetor contra pestes), Santo Expedito (das causas urgentes), São Martinho de Tours e São Nuno Álvares Pereira, este, um estrategista português.
Eu, um dia, quis ser “santo”. A minha luta era contra o egoísmo, a vaidade, a falta de autocontrole. Tirante esta última característica, que consegui ir removendo aos poucos, as outras também tenho conseguido minimizar. Quanto à vaidade, fui de um ponto ao outro. Descobri que, assim como todos nós, somos míseras bactérias que pululam este grão de areia que, ainda assim, é belo e é nosso lar. Busco transcender a realidade imediata, apesar de sofrer com os efeitos que o Capitalismo e seu maior defensor — uma besta fera feito um dragão — que se encastela ao norte do nosso continente – defende desferindo rajadas de fogo com a sua bocarra.
Eu, pessoalmente, sou contra a violência, mas há certos seres que vivem por ela e é bem capaz que, por ela tenham o seus CPFs cancelados — como se diz no Rio de Janeiro — que estabeleceu o Dia de São Jorge, feirado. E o Rio é, em suma, um lugar onde há as maiores discrepâncias sociais e o império do crime organizado divididos e conflitantes, além da Milícia, que conseguiu catapultar um político ligado a ela ao posto mais alto do País. Não é apenas um, mas vários dragões da Maldade.
Eu não discuto Fé. Muitas vezes, é o único estímulo para as pessoas continuarem a caminhar. Eu não tenho fé nem mesmo em mim. Sei que sou falho. Perfeito em minha imperfeição. Mas creio na Consciência Universal em que nós e vários outros bilhões de seres espalhados pelos Universos comungam a energia de ser e de serem múltiplos. Ainda que se possa caracterizar São Jorge como uma invenção da imaginação popular não deixa de delegar à sua figura o poder de existir. Porque a mente é um dado quase tão poderoso da realidade quanto a materialidade. Intervêm na convivência de tal forma que delegamos a ídolos de pés de barro poderes sobrenaturais e os elegemos para nos levar ao precipício ou alto da montanha.