BEDA / Vidas*

Em minha vida, vivi muitas vidas… E morri, outras tantas vezes… E não é incomum, mesmo tento a idade que tenho, viver todas as minhas idades ao mesmo tempo. Em muitas ocasiões, eu tenho que tomar cuidado para que o homem maduro não venha a retroagir cinquenta anos e se veja desamparado diante de algumas situações, como se novas fossem. Em contrapartida, acontecimentos que me surpreenderiam pelo ineditismo assumem feições de déjà-vu, como se ouvisse um disco arranhado. Bem, esta última imagem já denuncia a minha experiência no atual formato.

Diante dessas sensações, o nome que assumo – Obdulio – carrega um traço em comum – a saudade – tanto do que passou, quanto de um futuro irrealizado. Entre o menino sorridente que brincava na praça e aquele que se vê no espelho, fotografado por um moderno aparelho de (in)comunicação, se passaram cinquenta anos pela face do homem. O corpo se modificou tantas vezes – cresceu, engordou, emagreceu, adoeceu – enfim, sofreu as intempéries físicas e mentais a que somos submetidos ao nos vestirmos de uma identidade humana.

Ainda que as alternativas não vividas prometessem múltiplas e promissoras perspectivas, eu me sinto muito bem com que se passou comigo. Seria injusto com quem compartilhou da minha vida (e comigo mesmo) que viesse a repudiar tudo o que vivi até hoje. Aprendi a estipular as minhas vivências como únicas e valorosas. O que sofri, sinto que foi para o meu bem. Contudo, o sofrimento de quem amo me é mais pesado do que se acontecesse comigo. Assim como não me sinto totalmente feliz diante das duras provas pelas quais passam tantas pessoas em minha volta, no meu bairro, na minha cidade, país e planeta. Mesmo assim, me sinto grato pelo papel que assumi como se fosse uma dádiva oferecida a mim pelo Diretor que dirige este incrível espetáculo universal no qual todos nós nos apresentamos.

*Texto de Julho de 2016

BEDA / Cegos*

encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
exploramos desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
experimentando o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
explorando desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
explorar o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…

*Poema de Outubro de 2021

BEDA / Romy

Há 37 anos vinha à luz do dia a primogênita da Família Oliveira Ortega. Quando chegou depois de um processo longo e doloroso de trabalho de parto, acabou por se decidir pela cirurgia para retirá-la do útero da Tânia. Quando a vi pela primeira vez, estava envolvida em panos simples, assim como era simples a estrutura da Maternidade da Casa Verde, já fechada. A Tânia, experiente na sua profissão de Enfermeira, pediu que eu a retirasse de lá urgentemente. Na época, ela trabalhava no Albert Einstein, então diante da enorme discrepância de qualidade de atendimento, ela não viu alternativa senão ir embora, com 16 horas de operada. Em casa, percebemos com o tempo que a icterícia que eventualmente ocorre com recém-nascidos, não declinava. Foi o início de nossa saga para entender o que ocorria. O resto é história de alguém que redefiniu a minha vida e a de muitas outras pessoas. A 12 de Agosto de 1989, o grande sucesso musical no Brasil era “Bem Que Se Quis”, de Marisa Monte.

por mais que eu quisesse ser feliz
nem saberia dizer como se daria
a trama que envolveria tanto amor e dor
a vida que medrava como flor
delicada
que deveria ser cuidada
todos os dias todas as horas
que orava que o sofrimento não se desse
que o seu corpo-flor sofresse
eu feito um jardineiro
em que doía o coração por não poder evitar
que o vento frio lhe arrebatasse
a pele o peito braços pernas cabeça
mas o espírito leonino persistia
a lhe conduzir o caminho
a lhe angariar simpatia
a trazer amizades e alegria
a agora mãe de Cora e Coralina
cuida de vidas dependentes
gatas que são vorazes por comida
assim como a mãe é pela vida
que a sagrada família perdure
que a alegria a cure em sua passagem
e que os momentos de felicidade
seja a marca de sua mensagem…

BEDA / O Mundo Mortal Dos Homens

Foto por sevde v. em Pexels.com

Homens estão matando mulheres… todos os dias. Hoje, eu ouvi no noticiário um relatório que indica que esses crimes aumentam em dias de jogos de futebol. Creio que esses casos ocorram quando o time do companheiro perdem a partida. Sem uma estrutura mental equilibrada, vivendo de desenganos em uma sociedade mutante em que os privilégios de ser um macho se tornam cada vez mais contestados, esses sujeitos resolvem que espancando ou matando as suas companheiras resolvem seus sentimentos de insignificância e frustação diante de um novo contexto das relações humanas.

Esses sujeitos costumam a se apegar a tradições em que o fato de carregarem um pênis os tornam automaticamente supremos. Costumam apelar aos “antigos costumes” que os colocavam como representantes de um deus apresentado como um pai, portanto um homem. Tenho por mim que se há um ser mais próximo da divindade, seria uma entidade com características femininas. Para esses homens aceitarem que a sociedade próspera se estabelece em base de igualdade entres homens e mulheres é difícil. Imagino que sonham em restabelecer um reinado em que estipulem normas em que sua natural superioridade não sejam refutadas.

Enquanto isso, matam quando contrariados. Ser homem nestes tempos não tem sido motivo de orgulho… bem ao contrário.

BEDA / Salivando

a invernar
debaixo das cobertas salivamos
você cavalga as minhas coxas enervadas de músculos
quase goza em delírio
nossa última refeição uma maçã com nossa saliva
alimenta nosso desejo em parte
mas queremos praticar a nossa arte
de amar nossas bocas ativas unidos
línguas que falam todas as línguas
e exprime grunhidos
de prazer e entrega
nossa busca cega em descobertas
quando nossos sexos se encontram
entradas e saídas em coreografia incessante
cada vez mais acelerada caminhos sem interdição
corpos em constante ação
quem nos julga são aqueles que não aceitam
os nossos pecados porque não são os deles
são vítimas do desamor do horror
de não se amarem uns aos outros
e
infelizmente
não
são
poucos…

Foto por Moussa Idrissi em Pexels.com