Projeto Fotográfico 6 On 6 / A Hora de Ouro

A hora do crepúsculo é a minha preferida do dia. Nem sempre estou a postos para ver o Sol declinar no horizonte. <as quando posso, fotográfico aquele momento fugidio que anuncia a chegada da noite logo mais. É um momento de reflexão sobre o dia que se esvai feito areia na ampulheta.

A hora dourada também pode ser performada por objetos que imitam a luz do entardecer. Como aqui na imagem do Teatro Municipal de São Paulo. Poderia ser uma cor diferente, mas não como deixar de enaltecer que a luz dourada valoriza o edifício que este ano completa 115 anos de fundação.

O dourado parece ter sido sempre uma tendência na arquitetura de São Paulo. Do lado do Elevado Presidente João Goulart, conhecido como Minhocão, encontramos várias construções em que essa cor predomina, ainda que estejam desgastadas. A hora de ouro, ainda que esteja nublado, ajuda a tornar os momentos mais suaves.

A paleta de cores do entardecer apresenta variações que transitam entre o verde, o vermelho, depois que o dourado se pronuncia como o padrão crepuscular. É algo que vivencia-se com a sensação de que o mundo tem muito mais a oferecer do que a escuridão d’alma humana.

Numa tarde de sábado, a Tânia, eu e o Bambino, meu neto, passeamos ao longo do Minhocão sem carros. A tarde nublada impedia que víssemos o declínio do Sol. Mas o nosso caramelo representou o toque amarelado necessário necessário para representar a hora de ouro.

Quando passo pela Marginal dos Rios Tietê ou Pinheiros na hora de ouro, o trânsito ganha a configuração de veículos que vão ao encontro de um mundo em que a vida parece caminhar para um estágio quase espiritual de ser. Não há como nos deixarmos se transportar mentalmente para um outro lugar que não haja tanto sofrimento.


Participação: Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Lunna GuedesSilvana Lopes

O Homi É “Simple”

Foto por Yulia Goncharuk em Pexels.com

A minha sogra dizia que os homens são “simple”, sem o “s”, mesmo, o que torna a frase mais determinante dessa simplicidade. São poucos os homens que conseguem escapar ao determinismo que o Patriarcado vigente impõe aos machos humanos. Ainda mais quando ascendem socialmente. E dá-lhe ternos bem cortados, charutos cubanos, whiskies caros para fazer com que sejam atraídos para armadilhas que mancham suas trajetórias, principalmente quando participam da vida pública em cargos e funções muitas vezes essenciais para determinar o funcionamento da Democracia. São políticos — prefeitos, governadores, vereadores, deputados — dirigentes de instituições importantes, juízes em tribunais em todos os níveis, incluindo os superiores. A corrupção parece não apresentar preferência ideológica. Aliás, o dinheiro é o traço comum entre todos credos, incluindo os religiosos.

Basta um banqueiro acenar com presentinhos, jantares caros, degustação de vinhos e charutos, atrações escusas como festas “bundalelês” em que o sujeito “amarra” acordos espúrios com aqueles que acabam por ficarem presos por gratidão por fornecimentos de recursos financeiros, as chamadas “propinas” que muitas vezes são geradas por prejuízos ao erário público, como foi no caso dos Governadores do Rio de Janeiro e de Brasília em passado recente, ambos presos.

Feito um pescador habilidoso, o banqueiro colocou como iscas várias coisas que ele percebeu ser atraente para os homens de alto coturno. Por mais que tivessem experiência, esses peixes se deixaram ser fisgados. E não importava os cargos que ocupavam, as referências políticas e sociais que ostentavam. Todos se deixaram ser pegos em situações melindrosas. A frase da minha sogra, que apenas na maturidade aprendeu a ler e escrever, era sábia em perceber o comportamento daqueles seres que ela designou como “simple”. Simples assim…

BEDA / Olhar

quem olha quer ser olhado
e se possível visto
enxergado
debaixo do sol
e do molhado
mas o problema se dá quando
apenas pela aparência
é julgado
entre quatro paredes
Sartre já profetizou que o olhar do outro
é prisão
é o inferno determinado pela íris do algoz
estar sob o escrutínio alheio dessa forma
o deixa encarcerado
baixo um sofrimento atroz
quando nos sentimos bem
nos expomos
mas há sempre aquele que por inveja
ou maldade quer reduzir o outro à pó
para se sentir superior
julga por detalhes de menosprezo
quer se engrandecer e causar dor
suplantar aquele que considera inimigo
luta por recursos menores
triste daquele que vive por um olhar
especial e que lhe traga diferenciação
no lodaçal da atenção é tragado
vivendo por um olhar melhor
viver de migalhas visuais
e mata a presença do outro para dominar…

Foto por Quionie Gaban em Pexels.com

BEDA / A FACILIDADE DO FASCISMO

Mesmo depois de levar o mundo à guerra mundial, a propagação do Fascismo continua a se espalhar por todas as sociedades. Num planeta em que quase nenhum lugar está incólume de receber influência do totalitarismo digital através dos meios de comunicação,, a facilidade de um sistema simplificador em que normalmente não há reflexão sobre os assuntos costuma-se utilizar as chamadas “soluções simples”, que equaliza pela média as questões mais complexas em pauta na Sociedade. É a ditadura da simplificação que não atende as minorias, mas satisfaz os medíocres. Ouvi um filósofo dizer que o Fascismo é a falência do Abstrato e da Abstração, quando conseguimos ultrapassar o básico e atravessar os limites da simplificação, que busca padrões esquemáticos.

Muitas vezes, as soluções simples são as ideais, mas tomar qualquer atividade humana de maneira padronizada sob os auspícios do que é mais elementar, contando com a anuência daqueles que não suportam inovações ou diferenciações, elegendo modelos esquemáticos que acabam por ser impostos pelo poder vigente. No modelo democrático, busca-se o consenso, mas quando se estabelece o poder pelo uso das armas, observa-se que o poder de decidir entre a vida e a morte de segmentos inteiros de populações divididas em estamentos em que os menos aquinhoados de poder econômico, por exemplo, se tornam párias dentro do contrato social.

As raízes do Fascismo é antiga, mas com o crescimento de múltiplas influências dentro das estruturas de Poder Político que desenvolve mecanismos que impedem o crescimento da equanimidade de oportunidades de desenvolvimento positivo entre os cidadãos numa determinada localidade — País, Estado, Continente, Hemisfério — vemos crescer a violência como imposição natural do status quo. Falimos, quando isso acontece, como sociedade emancipada para além do que é padronizado, gerando estagnação intelectual e pobreza de recursos de ideias que poderiam auxiliar na melhora das relações sociais. A figura de uma parede branca bem poderia representar essa situação.

Foto por Monstera Production em Pexels.com

BEDA / Ilusão Pela Paixão

O brasileiro é movido de tempos em tempos pela ilusão induzida pela paixão ao Futebol. De País que duvidava de sua capacidade de vencer até mesmo dentro de casa, como ocorreu na Copa do Mundo de 1950, quando perdemos para o Uruguay de Obdulio Varella, de virada, quando precisaria apenas do empate para ser campeão. A isso o escritor Nelson Rodrigues desenvolveu a ideia da “Síndrome de Vira-Lata“, em que identificava o auto menosprezo como povo, o que nos tornaria incapazes de fazer sucesso num campo como o esporte mais popular do Brasil. E não apenas… Éramos uma coletividade que pertencia ao chamado “Terceiro Mundo“, que surgiu em 1952 e passou a designar os países que não se alinhavam nem aos Estados Unidos da América ou a comunista União das Repúblicas Soviéticas. Vivíamos a época da Guerra Fria.

No Brasil, do eurocentrismo, passamos a perfilar no grupo ligado ao Capitalismo gregário, em que servíamos ao Grande Irmão que nos tratava como área de reserva — uma espécie de “quintal” — como aliás recentemente se pronunciou uma autoridade norte-americana. Mas voltando à ilusão de sermos campeões novamente, eu relutantemente me filiei ao otimismo apenas para não surgir como um estraga prazeres, mas estava claro que apenas por boa sorte conseguiríamos passar pelas fases subsequentes enfrentando equipes muito melhor preparadas. Assim como aconteceu em 2014 na Copa do Mundo do Brasil, em que a Alemanha deu uma aula de organização e competência.

Enfim, enquanto passamos por seleções apenas medianas, ao enfrentar uma que realmente tinha jogadores mais aptos, como os do Dinamarca, como Ramus Halojnd e Christian Eriksen. Com as contusões de Raphinha e Paquetá, percebemos a falta que Rodrigo e Estevão pesaram num time com limitações técnicas evidentes. Mas o pior veio antes, com a desorganização da Confederação Brasileira de Futebol, envolvendo seus dirigentes em corrupção e péssima administração. Nem a contratação de Carlo Ancelotti, um treinador de primeiro nível, conseguiria reverter tantos problemas na preparação para o torneio. A paixão, no final de tudo, se sobrepôs à realidade e a ilusão levou o povo a se embandeirar, enfeitar ruas e se aglomerarem para (dis)torcer pela seleção. Houve choro e ranger de dentes e a população voltou ao modo de homeostase da vivência na precariedade cotidiana.