BEDA / O Ciclo Do Amor

Os sentimentos humanos são características supostamente restritas ao Homo sapiens. Mas a relação que desenvolvemos ao longo de milênios de interação com os outros animais demonstra que a energia criada pela interação entre nós e outras espécies gera relacionamentos em que o amor que sentimos ultrapassa as fronteiras interespécies. Ao longo dos anos, estabeleci a crença que assim como nós, seres humanos, os outros seres estão em desenvolvimento da autoconsciência. Quando retornei do afastamento dos meus companheiros não humanos, percebi o quanto sofreram. A Bethânia, com a qual tenho uma conexão mais íntima, começou a me vigiar com os olhos por onde ia. Já foi tema de uma das crônicas de REALidade, um dos meus livros, em que discorro sobre o seu Ciúme. Amar seres supostamente mais simples diz mais sobre nós do que sobre eles. Mas creio que amá-los os ajudam a se desenvolverem na senda mais complexa da Vida. E não duvido que se torna um ciclo virtuoso que também nos ajuda a nos tornarmos seres mais evoluídos.

Nesta imagem acima, realizada em 2021, se deu o reencontro com a Bethânia, uma das minhas filhas de quatro patas após as quatro Luas de Fevereiro daquele ano. Estive fora para ajudar uma amiga das minhas filhas num projeto de alimentos leves. Participei entregando as encomendas com uma bicicleta — já que não dirijo automóveis — o que me ajudou bastante na recuperação da crise de ansiedade que desenvolvi naquela época. A minha atividade profissional, ligada a eventos, foi a mais prejudicada naquela época em foram suspensas todos as reuniões de pessoas. Foi uma medida a qual apoiei. Mas isso não evitou que eu tivesse uma sensação em que eu adoeceria como havia acontecido outras vezes. Sou uma pessoa que desde pequeno, somatiza. Foram vários eventos em que joguei para o corpo as dores mentais. Percebi que o fato da falta da atividade profissional, para além da cessação de ganho econômico, enfrentava um contexto político em que via a revelação de um País que me agrediu a consciência tornou todo o contexto que vivíamos então uma espécie de pesadelo. Sabe-se agora que os 700.000 mortos foram subnotificados. Provavelmente, ocorreu o triplo de casos mortais. Fora a questão política em que o Negacionismo representou um retrocesso como se voltássemos para mais de um século antes em que houve a Revolta da Vacina, em 1904. O choque que adveio com tal quadro de recuo histórico só não foi pior porque pude escrever um livro em que exponho as circunstâncias do que ocorria — Curso De Rio, Caminho o Mar.

BEDA / Volta Ao Centro

Este dia 15 de Agosto foi um dia incrível. Saí da Zona Norte rumo ao Centrão de São Paulo onde, no Teto do Shopping Light comemoraríamos o aniversário da Romy. Junto ao Viaduto do Chá a vista do entorno foi um estímulo visual de um espaço histórico.

O Centrão tem reacendido o interesse pela ocupação de seus logradouros, com o advento de atrações que atraem cada mais visitantes.

Logo de frente do Shopping Light — encontra-se o icônico Theatro Municipal de São Paulo, que além de espetáculos operísticos e música clássica tem também eventos paralelos que são realizados periodicamente.

No Viaduto do Chá havia uma feira de discos antigos, além de outros itens ligados à música. Os eventos na região ganham o charme das antigas construções como o prédio Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo. Assim como o prédio em frente na Líbero Badaró, o famoso Othon Palace Hotel localizado na Praça do Patriarca, esquina com o Viaduto do Chá. Esse hotel recebeu visitas importantes durante vários anos, celebridades como Nat King Cole, Marlene Dietrich e chefes de Estado, incluindo a Rainha Elizabeth II (em 1968) e o então príncipe Akihito do Japão.

Mas o mais importante foi o encontro de pessoas que amam a aniversariante, minha filha, que se reuniram para abraçá-la e homenageá-la. O fator humano sempre é mais importante do que o local, ainda que o local seja contextualizado pelo lugar na A História da cidade está materializada naqueles metros quadrados de maneira indelével, ainda que a maioria das pessoas não saibam ou se sabem, não conseguem perceber as correlações históricas em cada esquina ou caminho por onde pisam.

BEDA / Vidas*

Em minha vida, vivi muitas vidas… E morri, outras tantas vezes… E não é incomum, mesmo tento a idade que tenho, viver todas as minhas idades ao mesmo tempo. Em muitas ocasiões, eu tenho que tomar cuidado para que o homem maduro não venha a retroagir cinquenta anos e se veja desamparado diante de algumas situações, como se novas fossem. Em contrapartida, acontecimentos que me surpreenderiam pelo ineditismo assumem feições de déjà-vu, como se ouvisse um disco arranhado. Bem, esta última imagem já denuncia a minha experiência no atual formato.

Diante dessas sensações, o nome que assumo – Obdulio – carrega um traço em comum – a saudade – tanto do que passou, quanto de um futuro irrealizado. Entre o menino sorridente que brincava na praça e aquele que se vê no espelho, fotografado por um moderno aparelho de (in)comunicação, se passaram cinquenta anos pela face do homem. O corpo se modificou tantas vezes – cresceu, engordou, emagreceu, adoeceu – enfim, sofreu as intempéries físicas e mentais a que somos submetidos ao nos vestirmos de uma identidade humana.

Ainda que as alternativas não vividas prometessem múltiplas e promissoras perspectivas, eu me sinto muito bem com que se passou comigo. Seria injusto com quem compartilhou da minha vida (e comigo mesmo) que viesse a repudiar tudo o que vivi até hoje. Aprendi a estipular as minhas vivências como únicas e valorosas. O que sofri, sinto que foi para o meu bem. Contudo, o sofrimento de quem amo me é mais pesado do que se acontecesse comigo. Assim como não me sinto totalmente feliz diante das duras provas pelas quais passam tantas pessoas em minha volta, no meu bairro, na minha cidade, país e planeta. Mesmo assim, me sinto grato pelo papel que assumi como se fosse uma dádiva oferecida a mim pelo Diretor que dirige este incrível espetáculo universal no qual todos nós nos apresentamos.

*Texto de Julho de 2016

BEDA / Cegos*

encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
exploramos desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
experimentando o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
explorando desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
explorar o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…

*Poema de Outubro de 2021

BEDA / Romy

Há 37 anos vinha à luz do dia a primogênita da Família Oliveira Ortega. Quando chegou depois de um processo longo e doloroso de trabalho de parto, acabou por se decidir pela cirurgia para retirá-la do útero da Tânia. Quando a vi pela primeira vez, estava envolvida em panos simples, assim como era simples a estrutura da Maternidade da Casa Verde, já fechada. A Tânia, experiente na sua profissão de Enfermeira, pediu que eu a retirasse de lá urgentemente. Na época, ela trabalhava no Albert Einstein, então diante da enorme discrepância de qualidade de atendimento, ela não viu alternativa senão ir embora, com 16 horas de operada. Em casa, percebemos com o tempo que a icterícia que eventualmente ocorre com recém-nascidos, não declinava. Foi o início de nossa saga para entender o que ocorria. O resto é história de alguém que redefiniu a minha vida e a de muitas outras pessoas. A 12 de Agosto de 1989, o grande sucesso musical no Brasil era “Bem Que Se Quis”, de Marisa Monte.

por mais que eu quisesse ser feliz
nem saberia dizer como se daria
a trama que envolveria tanto amor e dor
a vida que medrava como flor
delicada
que deveria ser cuidada
todos os dias todas as horas
que orava que o sofrimento não se desse
que o seu corpo-flor sofresse
eu feito um jardineiro
em que doía o coração por não poder evitar
que o vento frio lhe arrebatasse
a pele o peito braços pernas cabeça
mas o espírito leonino persistia
a lhe conduzir o caminho
a lhe angariar simpatia
a trazer amizades e alegria
a agora mãe de Cora e Coralina
cuida de vidas dependentes
gatas que são vorazes por comida
assim como a mãe é pela vida
que a sagrada família perdure
que a alegria a cure em sua passagem
e que os momentos de felicidade
seja a marca de sua mensagem…