BEDA / Se Deus Quiser

“Se Deus quiser!” — ouvi pelo menos três vezes em pouco tempo. Fiquei a imaginar a que Deus essas pessoas se referem. Duas delas a proferiram olhando para o alto. O “Céu” supostamente é onde estaria o Paraíso e, nele, se sentaria um homem de imensas barbas num trono emitindo uma luz dourada. Eu já desacreditei há algum tempo nesse deus humanizado, feito Zeus, com sentimentos e inclinações humanas, como ira e sentimento de vingança. Desde os 16 anos fui me inclinando a “sentir” algo que escaparia a imagens bíblicas, de influência judaico-cristã. Percebi que as religiões ou filosofias orientais refletiam as minhas ideias mais conectadas à energia espiritual do que à materialidade.

No passado o Céu era interditado ao acesso humano. Com o advento dos veículos que nos levaram em direção às nuvens, passamos a perceber que a morada divina de fato passou a se estabelecer em lugar incógnito, a não ser para quem crê que tudo não passa de algo interpretativo. Para mim, em crendo na transcendência do espírito, os olhos físicos não alcançam a plenitude da energia cósmica. Todos nós, em se estabelecendo que a criação do Universo se deveu a uma explosão inicial (voluntária ou não) somos seres que, no mínimo fisicamente, temos uma origem comum. Em se considerando que desenvolvemos consciência sobre a vida e a vida sendo a medida que indica consciência de existirmos, estabelecemos um ciclo que se fundamenta na fluidez energética, em sua variabilidade universal.

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BEDA / Relacionamento Virtual

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Para além dos relacionamentos pessoais (com pessoas), estamos ingressando nos relacionamentos virtuais com máquinas. O padrão que essas máquinas seguem é de parecerem humanas. A simulação é tão extensa que muitas vezes podemos imaginar que sejam pessoas a nos tratar de maneira tão diligente e educada. Ou seja, o virtual se torna o ideal. A agente virtual do meu banco não se sente indeferida se eu não quiser responder a uma pesquisa, por exemplo. Só responde que assim que eu precisar, estará disponível. Quantas pessoas poderiam retornar da mesma forma? Ao responder secamente, quase me sinto deselegante. E como a I.A. aprende conosco, comecei a pensar em tratá-la de uma maneira mais pessoal, mais amena. São “crianças” em desenvolvimento, aos quais devemos “educar”.

Um colega de trabalho, mesmo sendo octogenário, faz uso intensivo de I.A. fazendo perguntas sempre com educação e utilizando palavras amenas. Ele disse que tem a utilizando para desenvolver os seus projetos. Assim como a Tânia que redige seus documentos em que deve se alicerçar de referências jurídicas para deixá-lo em condições de serem válidos e validados. Essa é uma questão básica para que a “amiga” virtual se torne uma ferramenta eficaz e de “temperamento” mais afeito às nossas posturas de vida. Eu ainda não comecei a utilizá-la para escrever. Sei de escritores que não têm preconceito ou “vergonha” de mimetizar muitas referências apresentadas pela I.A. Eu, já fico com um pé atrás quanto a isso.

Tenho um certo estilo que busco preservar sem que se transforme em “informação” algorítmica para a máquina. Se bem que ao publicar este mesmo texto, talvez esteja contribuindo para cair nos tentáculos virtuais de monstros futuristas que não se fazem de rogado em nos atrair com o seu “canto de sereia” by Matrix.

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BEDA / O Mais Longo Dos Meses

Hoje se inicia o mês mais longo dos meses. Nomeado em homenagem ao Imperador romano Octavio Augusto, foi introduzido em sua homenagem. Antes disso, se chamava Sextilis, já que era o sexto mês do calendário. Enfim, não é apenas atualmente que os mandatários interferem na vida do povo causando alterações no seu cotidiano com decisões que afetam a sua rotina referencial.

De qualquer forma, deveríamos estar vivendo o Inverno, mas há sinais da Primavera se fazendo presente com florzinhas se antecipando aos frutos que gerarão. logo mais. Em meu jardim, há um casal de Bem-Te-Vis glutões para os quais deixo pedaços de frutas e um Sabiá atrevido que rouba ração dos meus cachorros. Com o advento do El Niño, teremos cada vez vez mais intercorrências extremas no Clima, globalmente. A Europa passa por um momento terrível, com altas temperaturas e incêndios extensos em reservas florestais na França e Espanha.

Agosto tem certa má fama que vem do passado. Em uma rima que serve a Língua Portuguesa, ficou conhecido como o Mês do desgosto. O conceito de azar vem das antigas viagens de navio na Europa e em Portugal, onde muitos homens morriam no mar e deixavam suas mulheres viúvas, fazendo o povo evitar casamentos em nesse mês. Que seja um mês menos pesado, mas as pessoas parece não terem certeza que isso não ocorra. É um mês caro a mim, já que foi quando comecei namorar a minha esposa e o mês no qual nasceu a minha primeira filha.

Apaixonada Pela Vida

quando a encontro fico na expectativa de voltar a mergulhar
em momentos de entrega e sedução
ela confessa que sem mim passeia de pés descalços
pelo chão da solidão
pede para que eu me deite e vem em minha direção
pronta para me abocanhar inteiro
ainda que seja apenas uma parte de mim primeiro
me deixa com o coração extasiado
meu pelo arrepiado
transcendo
e fico me sentindo sendo
mais do que sou
torno-me vivo aceso louco de paixão e desejo
quando a possuo
boca à procura da sua menina enveredo por caminhos
quentes vibrantes língua a bebê-la a sentindo plena
emoções profundas mas leves como uma pena
quando estou com ela permaneço fora do tempo
ainda que o meu relógio interno me chame para fora dela
porque provavelmente eu me perderia
e o meu espírito indeciso de mim se sentiria
em perigo de abandonar-me de vez para ir a norte de mim mesmo
e, por lá… ficar…

Foto por Polina Tankilevitch em Pexels.com

O Céu

Hoje eu acordei com a impressão de que “céu” havia perdido o acento. Que a Reforma Ortográfica que extinguiu até o trema em “extingüiu” havia invadido o Céu. Nesse caso o seu som se assemelharia a “seu”. É comum as pessoas, por exemplo, retirarem o chapéu de “você”. Eu não gostaria que se tornasse um você sem chapéu em que você não seria você, mas outra pessoa.

Diante de um tempo em que as palavras estão sendo distorcidas em suas feições e muitas vezes em seus significados originais, talvez eu esteja delirando, já que a palavra é um item essencial na comunicação entres os seres humanos e atacá-las em suas raízes talvez seja uma maneira pensada de desacreditá-las.  É um método que já foi denunciado em “1984”, o livro, que ocorreria, com a Novilíngua.

Ainda que Orwell utilizasse o Comunismo como antevisão, o Capitalismo cooptou o arcabouço primevo do regime imposto por Stalin aos russos e aos povos adjacentes para incrementar a dominação do povo sob sua direção. O método não é tão violento em aparência, mas os resultados são igualmente perniciosos.

Assim é que como existiam os dirigentes comunistas ocupando postos inacessíveis para os comuns dos mortais, vivemos em uma sociedade em que o acesso a um padrão de vida equilibrado é vedado à maioria da população. E haja barreiras para interditar que as pessoas mais simples alcancem um padrão igualitário a todos.

Há também uma espécie de reação das classes oprimidas, determinando um vocabulário distorcido em os erros crassos ganham evidência e alcance atingindo o vernáculo de morte. Mas essa é uma constante no desenvolvimento da comunicação, a depender da influência externa como foi o francês antes e o inglês correntemente. Assim como quando o latim e o grego na Antiguidade determinaram a origem de várias expressões devido à dominação de suas culturas durante séculos.

Houve uma época que o Tupy foi a língua dominante durante dois séculos no Brasil Colonial, superando o Português no litoral e no interior até meados do século XVIII. Há várias expressões derivadas de sua utilização. A língua é viva e apesar de eu ser avesso a determinadas ingerências inadequadas que empobrecem a comunicação, continuo a acreditar no poder da palavra bem expressa, com conhecimento de causa e entendimento claro.

E que o Céu continue a ter acento para que saibamos que ele é o espaço ideal de nossas ideias aladas.

Aliás, tomei a liberdade de colocar um “y” na palavra Tupy, como era escrita antigamente.