12 de Agosto de 2020.
Este dia existe, o mês também.
O ano, já não sei.
Estamos vivos, eu, que escrevo, vocês, que me leem.
Ou não.
Aniversário da Romy,
trigésimo primeiro ano de existência,
todas as estações vividas aqui,
na Periferia da Zona Norte.
Trinta e uma vezes a Terra girou em torno do Sol.
Onze mil, trezentos e trinta e dois crepúsculos,
contando os anos bissextos.
Porque com ela é assim —
todo dia é dia de comemoração da energia vital.
Parabéns para nós que a conhecemos, meu amor!
BEDA / Tudo Passa?
Por uma dessas coincidências estranhas, encontrei pelo meu caminho dois motociclistas que apresentavam uma tatuagem no pescoço escrito “Tudo Passa”. As duas estavam tatuadas abaixo dos capacetes de tal maneira que dava para lê-las claramente. Nas duas ocasiões, as li porque estava sentado no carona de veículo que me conduzia. Portanto, do lado esquerdo do motociclista. Cheguei a pensar que fosse o mesmo motociclista, mas os pontos de contato ocorreram em distâncias díspares. Um, na Marginal Pinheiros — de trânsito parado — e outro no meu bairro, na Zona Norte, igualmente.
Para não apostar que o que fosse coincidência parecesse uma espécie de mensagem enviada pelo Destino, imaginei que a frase fosse uma espécie de divisa que os motociclistas usassem como uma referência da profissão de entregadores de aplicativo. Eu mesmo a usava e a projetava mentalmente para conseguir superar os períodos de trabalho pesado quando era funcionário de uma banda atuando “roadie”. Mas o que poderia perguntar é: “o tempo passa?”. Seria como um rio em que me posiciono num ponto e o tempo seria como a água que passa por mim? Ou sou eu que apesar de estar parado passo pelo tempo? Quando eu passei pelos motociclistas me tornei o tempo instantâneo em que gravei a frase “tudo passa”? Ou passamos juntos pelo tempo em que o trânsito estava parado?
Devaneios… pelos quais passo. Quem passa pelo o que? O que eu aprendi é que o tempo como uma espécie de fotografia a qual pode se acessar a imagem não tem exatamente esse poder de eternizar o seu significado. Não apenas porque o observador é diferente um de outro. Além disso, por trás do que se vê, há os movimentos invisíveis, a verdade oculta, o fato real que a construiu. Disso, eu sei…
Foto por Domenico Adornato em Pexels.com
BEDA / Quase Quebrado*
Quem disse que lavar roupa não é perigoso? Na quinta-feira, lavei roupa e a água que resultou da lavagem utilizei para lavar o chão da varanda do Boiler Laje, escadas e churrasqueira. Após terminar uma parte, lá estou eu de chinelão, distraído, a descer, quando piso errado na escada escorregadia e de uma queda vou ao chão, quatro metros abaixo, batendo costas, pernas e braços até o final dos degraus. Não bati a cabeça porque o judô praticado na infância sempre me ajudou a protegê-la em todas as muitas quedas desde então. Acudiu-me uma cavalheira, a Lívia e um cavalheiro, Pablo, seu namorado. Pensei que houvesse apenas escoriações superficiais, mas à noite não consegui dormir direito devido às dores que surgiram depois. Hoje, estou melhor. Mas tive que reviver na boca da Tânia, da Romy e da Ingrid, além da Lívia, poucas e boas. Acabei por me lembrar da minha mãe, Dona Madalena, que ralhava comigo todas as vezes que eu aparecia “quebrado” em casa por causa de carrinho de rolimã, patins ou futebol em campo de várzea ou quadra. Quase cheguei a confundir a dor aguda e passageira do corpo com a dor tênue e permanente da saudade. Se chorasse, talvez fosse mais pela última…
*Texto de Agosto de 2020
BEDA / Uma Carta
Meu Bem Querer, antigamente poderia iniciar com “escrevo estas mal traçadas linhas”, mas além de não estar utilizando caneta e papel, estou em trânsito, fora de casa, à trabalho. Ultimamente, tem me assaltado um certo mal estar mental que parece ser sazonal no meu caso. Durante anos entro em uma fase de me sentir deslocado no tempo e no espaço, ainda que saiba que este tempo e este espaço não seja o meu lar. Dificulta tudo o que acontece em nosso entorno uma certa vilania institucional por parte de alguns poderosos de plantão. Também não ajuda a defesa de pautas retrógradas que parece ser uma característica entranhada em nosso DNA social e é apoiada por muitos do nosso povo. Somos um País fruto da violência desde a invasão de Pindorama. Creio que essa mácula permeia as nossas relações cotidianas e tanto quanto eu, sei que você sofre ao perceber esse quadro de indigência social. Somos “brasileiros” — ou seja, uma profissão que designa exploradores de pau-brasil. Somos com “muito orgulho e muito amor” defensores do “jeitinho” que nos permite sobreviver de pequenos golpes.
Diante de tantas razões para desistir de tudo, resta a mim combater o bom combate na busca de honrar o fato de sermos espíritos encarnados e que através de nossa pele podemos expressar o amor consumado em gozo e prazer. Pode parecer algo que não se estabeleça como algo menor, mas diante de tanto desamor no mundo, o que temos nos isola durante algum tempo da dor e do passageiro. Quando estamos juntos, esses momentos repercutem como se a eternidade se consubstancie em lembrança e, devido à distância, em saudade constante.
Sinto falta de conversar consigo. Todas as vezes que conversamos aprecio o tom de sua voz, o ritmo, o sotaque. Mas me sinto mais incrível quando nos calamos e grunhimos sons de significados profundos de entrega e paixão. Que não demore a acontecer…
Foto por cottonbro studio em Pexels.com




