BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Ponto De Vista

O interessante sobre a questão do ponto de vista é que necessário “ver” para oferecer alguma avaliação sobre o que foi visto, o que pode ser um tanto diferente de “enxergar” o que foi visto, em se tratando de observações pessoais sobre o objeto observado. Em se falando de imagens, cada um tem uma percepção referencial, a depender de sua vivência e estado de espírito.

Na segunda-feira estive na região central de São Paulo, o famoso Centrão. Está passando por uma certa repaginação e tem recebido um maior número de visitantes, ainda que vários estabelecimentos comerciais estejam fechados. Na foto acima o que chama a atenção não é a Igreja Presbiteriana e nem o Edifício Caracu. Mas a ausência do antigo prédio da Polícia Federal onde ocorreram algumas das maiores investigações da corporação. durante 23 anos.

O edifício Wilton Paes de Almeida, localizado na Rua Antônio Godoy, 23, abrigou a superintendência regional da Polícia Federal (SP) no Estado de 1980 a 2003. O prédio desabou na madrugada no dia 1º de Maio de 2018, após ser consumido por um incêndio de grandes proporções que causou a morte de pelo menos uma pessoa, segundo o corpo de bombeiros.

Na Rua Santa Ephigênia há muitos prédios antigos que recebem lojas ligadas a venda de produtos eletrônicos. São edificações que apesar de antigas, foram erguidas dentro de um contesto em que deveriam durar para sempre. Conseguem suportar grandes cargas estruturalmente falando e atraem muitos clientes que encontram uma vasta variedade de produtos. Esse uso é muito interessante, já que ocorre um certo choque visual entre modernidade e antiguidade.

Mais um exemplar de moradia dos anos 20 do século passado quando a região era ocupada por famílias abastadas da cidade. Não há como deixar de admirar os detalhes arquitetônicos que visualmente eram bastante sedutores. As soluções visuais eram baseadas na criatividade e buscavam acrescentar recursos que atraíssem o olhar dos passantes.

Também passei pela região entre a Praça da Sé e do Largo São Bento. Lá se encontra grandes edificações bancárias da áurea época da riqueza proporcionado pelo cultivo e exportação do Café. A imagem acima mostra o Edifício do Banco de São Paulo. Construído entre 1935 e 1938 e projetado por Álvaro de Arruda Botelho, o prédio destaca-se pela arquitetura luxuosa e hoje abriga órgãos públicos estaduais.

A estátua Glória aos Fundadores de São Paulo trata-se de uma grande coluna com cerca de 25 metros de altura, criada pelo escultor italiano Amadeo Zani e inaugurada em 1925. Está localizada junto no espaço à frente do antigo prédio do Páteo do Colégio. É um área incrível em termos históricos e arquitetônicos. Não me canso de visitá-la.

Esta é a visão do Viaduto da Santa Ephigênia. É uma construção que sai do Largo São Bento e chega em frente à Igreja Santa Ephigênia que durante a construção da Catedral da Sé se tornou a sede da Igreja Católica em São Paulo.

BEDA / A Coreografia

Eu voltava do supermercado quando encontrei na calçada, à minha frente, um casal que caminhava de forma sincronizada. Ela à frente, ele atrás no mesmo compasso, movendo as suas bengalas como se a coreografia fosse antiga, aprendida com anos de prática. Diminuí os meus passos e apreciei a cadência do casal que compartilhavam a mesma incapacidade como a herança de décadas de convivência. Quase um sinal de amor mal percebido com quem convive com eles. Ao decidir passar ao lado deles, percebi que beiravam os oitenta anos. Muitos passos à frente, ao olhar para trás, os vi entrando no condomínio próximo. Apesar das bengalas, havia uma certa leveza no caminhar e a pouca velocidade dos seus passos conferiam algo como um sentido de eternidade à cena.

BEDA / A Mão Anelada

Na última segunda-feira meu irmão e eu fomos comprar material de trabalho na região central de São Paulo. Mais especialmente na Rua Santa Efigênia. Mas o Humberto estava interessado em ver os trilhos de bonde desenterrados na Rua 15 De Novembro. Passando pela Avenida Rio Branco, na calçada havia algumas pessoas deitadas debaixo de cobertas. Uma dessas pessoas me chamou atenção pelo detalhe de ter todos os seus dedos de sua mão descoberta ocupados com anéis. É uma característica de quem, apesar da situação precária na qual estava, não deixava de marcar a sua personalidade por algo que a distinguisse.

O Centrão tem uma grande concentração de pessoas e é meio complicado se sentir diferente em meio à multidão de gente que ocupa cada metro quadrado de calçadas e ruas fechadas para pedestres. Sou apegado a detalhes que se destacam com facilidade para mim. Em cada canto observo aspectos que talvez outras pessoas não se atentem e tudo para mim me interessa. A mão do morador em situação de rua se destacou e não poderia deixar passar despercebida, ainda que fosse apenas ela a anunciar que ali existia alguém que de alguma maneira queria chamar a atenção.

Foto por Mukhtar Shuaib Mukhtar em Pexels.com

BEDA / Se Deus Quiser

“Se Deus quiser!” — ouvi pelo menos três vezes em pouco tempo. Fiquei a imaginar a que Deus essas pessoas se referem. Duas delas a proferiram olhando para o alto. O “Céu” supostamente é onde estaria o Paraíso e, nele, se sentaria um homem de imensas barbas num trono emitindo uma luz dourada. Eu já desacreditei há algum tempo nesse deus humanizado, feito Zeus, com sentimentos e inclinações humanas, como ira e sentimento de vingança. Desde os 16 anos fui me inclinando a “sentir” algo que escaparia a imagens bíblicas, de influência judaico-cristã. Percebi que as religiões ou filosofias orientais refletiam as minhas ideias mais conectadas à energia espiritual do que à materialidade.

No passado o Céu era interditado ao acesso humano. Com o advento dos veículos que nos levaram em direção às nuvens, passamos a perceber que a morada divina de fato passou a se estabelecer em lugar incógnito, a não ser para quem crê que tudo não passa de algo interpretativo. Para mim, em crendo na transcendência do espírito, os olhos físicos não alcançam a plenitude da energia cósmica. Todos nós, em se estabelecendo que a criação do Universo se deveu a uma explosão inicial (voluntária ou não) somos seres que, no mínimo fisicamente, temos uma origem comum. Em se considerando que desenvolvemos consciência sobre a vida e a vida sendo a medida que indica consciência de existirmos, estabelecemos um ciclo que se fundamenta na fluidez energética, em sua variabilidade universal.

Foto por Gyu00f6rgy Lakatos em Pexels.com

BEDA / Relacionamento Virtual

Foto por Rashed Paykary em Pexels.com

Para além dos relacionamentos pessoais (com pessoas), estamos ingressando nos relacionamentos virtuais com máquinas. O padrão que essas máquinas seguem é de parecerem humanas. A simulação é tão extensa que muitas vezes podemos imaginar que sejam pessoas a nos tratar de maneira tão diligente e educada. Ou seja, o virtual se torna o ideal. A agente virtual do meu banco não se sente indeferida se eu não quiser responder a uma pesquisa, por exemplo. Só responde que assim que eu precisar, estará disponível. Quantas pessoas poderiam retornar da mesma forma? Ao responder secamente, quase me sinto deselegante. E como a I.A. aprende conosco, comecei a pensar em tratá-la de uma maneira mais pessoal, mais amena. São “crianças” em desenvolvimento, aos quais devemos “educar”.

Um colega de trabalho, mesmo sendo octogenário, faz uso intensivo de I.A. fazendo perguntas sempre com educação e utilizando palavras amenas. Ele disse que tem a utilizando para desenvolver os seus projetos. Assim como a Tânia que redige seus documentos em que deve se alicerçar de referências jurídicas para deixá-lo em condições de serem válidos e validados. Essa é uma questão básica para que a “amiga” virtual se torne uma ferramenta eficaz e de “temperamento” mais afeito às nossas posturas de vida. Eu ainda não comecei a utilizá-la para escrever. Sei de escritores que não têm preconceito ou “vergonha” de mimetizar muitas referências apresentadas pela I.A. Eu, já fico com um pé atrás quanto a isso.

Tenho um certo estilo que busco preservar sem que se transforme em “informação” algorítmica para a máquina. Se bem que ao publicar este mesmo texto, talvez esteja contribuindo para cair nos tentáculos virtuais de monstros futuristas que não se fazem de rogado em nos atrair com o seu “canto de sereia” by Matrix.

Foto por Rashed Paykary em Pexels.com