Clariceando Em Dia Nublado E Frio De Outono

Clarice, marcada…

“… E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.

Desisto, e terei sido a pessoa humana – é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço – viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.”

Esses são alguns dos exemplares e imensos parágrafos que encontramos em “A Paixão Segundo G.H.“, de Clarice Lispector. Ontem, quando fui buscar “AS Ondas“, de Virginia Woolf, encontrei o magro livro que contém excertos de contos de Clarice Lispector. Eu tenho uma sessão de livros escritos por mulheres, além das autoras da Scenarium, expostas juntas aos seus pares de selo em outra prateleira. Tinha várias outras opções para escolher, mas um pouco mais cedo vi e ouvi a maravilhosa Fernando Montenegro interpretando uma passagem de “Um Sopro De Vida“, me impactando de tal maneira que quis “claricear” o dia nublado e frio de outono. Produzido em 1981, pela Editora Abril Educação como suporte de estudos à realização de vestibulares, foi muito bem estruturado com Sumário, Biografia, Cronologia Biográfica, uma lista com Obras da Autora e textos selecionados de “Perto Do Coração Selvagem“, “Laços De Família“, “A Legião Estrangeira“, “A Paixão Segundo G.H.“, “Uma Aprendizagem Ou O Livro Dos Prazeres“, “Felicidade Clandestina“, “Onde Estivestes à Noite?” e “A Hora Da Estrela“.

A edição apresenta um panorama das várias épocas em que foram produzidas, ainda que a obra de Clarice seja atemporal (Do Estado Novo ao Novo Estado, à espera de um mundo melhor); uma cronologia-histórico-literária; características da autora (Em busca do selvagem coração da vida); verificação dos conteúdos; exercícios de de fixação; atividades de criação; livros para consultas e bibliografia consultada. Ou seja, um estudo completo que ganha autonomia para além da imersão nos escritos. Elaborada por Samira Youssef Campedelli e Benjamin Abdala Jr., na época em que fiz o vestibular para a Faculdade de História da USP, poderia tê-lo utilizado se o tivesse em minhas mãos. Mas não me lembro dela. A capa está marcada por caneta. Por dentro, está rabiscado à lápis de cor com nomes em letra de forma, como quando alguém aprende a escrever. Não duvido que eu a tenha recolhido de algum lugar por aí, em missão de salvamento.

Entre as suas páginas, encontrei uma folha com indicações de grandes autores brasileiros com resumos de obras de cada um intitulada “Resumos Especiais” Reunião“, de Drummond de Andrade; “Iracema“, de José de Alencar“; “Memórias Póstumas…“, de Machado de Assis; “Sagarana“, de Guimarães Rosa e “São Bernardo“, Graciliano Ramos. Produzida pelo Curso de Vestibulares MED, me recordei que eu não tinha condições financeiras de fazer esse ou qualquer outro dos “cursinhos” que naqueles tempos floresceram à sombra da deficiência que as escolas começaram a apresentar já nos anos 70 com a reestruturação da Educação promovida pela Ditadura. Um projeto contínuo de controle ideológico da didática do ensino, impedimento da discussão sobre a produção do conhecimento, da análise dos problemas sociais brasileiros e da censura sobre as áreas criativas e culturais.

Não precisei dos cursinhos para entrar na USP, mas o dano causado à Educação pelo projeto militar, acabou por tornar gerações inteiras imunes à grandiosa beleza da obra produzida por Clarice Lispector. Uma das maiores escritoras do mundo que, nascida na Ucrânia, preferiu escrever em Português, enriquecendo a Língua e a Literatura brasileira.

Maratona Literária Interative-se de Maio

Alê Helga / Lunna Guedes / Mariana Gouveia
Roseli Pedroso / Isabelle Brum

Transformação

A metamorfose se deu, de início,
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…

As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.
Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…

Perdido N’As Ondas

As Ondas, de Virginia Woolf

As Ondas”, de Virginia Woolf, com tradução de Lya Luft, estava perdida entre “Frankestein”, Mary Shelley e uma coleção de contos comentados de Clarice Lispector. Perdida, nem tanto. Estava na sessão de autoras femininas da minha biblioteca. Tenho outras escritoras espalhadas nas coleções que compulsoriamente comprava, ainda que não lesse na mesma frequência. Um dia o faria… era o que pensava. Não cogitava que deixasse de ler em nenhuma hipótese. A voragem da vida se encarregou de alterar essa visão…

Antes de vir às minhas mãos, “As Ondas” estiveram em outras paragens. Esse exemplar estava entre alguns dos livros que encontramos, meu pai e eu, no lixo que buscávamos com a nossa Kombi, na região dos jardins e outras regiões nobres de Sampa. Eu era muito novo no início dos anos 70 13 ou 14 anos. Como já gostasse de Machado, achei que pudesse absorver o sal do mar de Woolf, da qual já ouvira falar por causa de um filme lançado por Elisabeth Taylor e Richard Burton, lançado em 1966 e o qual assistira como atração noturna da TV de então.

O interessante é que a Ditadura até deixava passar filmes pesados como esse, mostrando a degradação de casais rodeados de jogos perversos, manipulações, revelações da intimidade abjeta, regadas a álcool. Contanto que não contestassem o Regime Ditatorial, tudo era permitido. No cinema brasileiro, as pornochanchadas prosperaram, enquanto o cinema engajado socialmente da década anterior, sofreu um tremendo ocaso.

Voltando às “As Ondas”, pouco me lembro da trama. Quis voltar a lê-la várias vezes. Não o fiz. Queria contrapor as sensações que tive com as que teria agora, mais velho. Na época, eu me senti envolvido pelas imagens que Woolf produzia. Chego a me lembrar de um banho de banheira descrito de tal maneira que se me impregnou em minha mente. Vou reencontrar essa passagem eventualmente, mas não por enquanto. Passeio os olhos por algumas páginas e em uma, escolhida a esmo, encontro:

“— Perdi minha indiferença, meus olhos vazios, meus olhos em formato de pera, que espreitavam raízes. Já não sou janeiro, maio ou qualquer estação, mas estou toda tramada numa fina rede ao redor do berço, minha criança. Durma, digo, e sinto despertar dentro de mim uma violência mais selvagem, sombria, que abateria com um só golpe qualquer intruso, qualquer estranho que irrompesse neste quarto e acordasse quem dorme”.

Maratona literária Interative-se de maio
Alê Helga – Isabelle Brum – Mariana Gouveia – Roseli Pedroso / Lunna Guedes

Últimas Leituras Antes Do Fim Do Mundo

Últimas leituras…

Março, Abril e Maio, até agora, tem sido meses em que não li mais do que algumas páginas, aqui e ali, enquanto nos dois primeiros meses do ano os meus olhos pousaram em pelo menos quinze obras. Eu estava fazendo um esforço imenso para voltar a exercitar a leitura de forma continuada e sair da pasmaceira em que vivia desde meados de 2020, que ainda não terminou, não importa que o calendário diga.

Isso ocorreu durante o mês de Fevereiro, em que passei uma temporada em Ubatuba, no litoral. Tive tempo para me dedicar à reconstrução de minha sanidade e ler cabia muito bem nesse processo. Ao voltar para São Paulo e para a rotina repetitiva (com o pleonasmo e tudo), tenho envidado em minimamente manter o equilíbrio mental. Tenho escrito bastante, apesar de sentir a queda da qualidade no artesanato da palavra. Ler seria uma saída sã, mas a falta de “tempo mental” tem me impedido.

Porém, antes do eminente fim do mundo, tive a oportunidade de ter em mãos quatro livros produzidos pela Scenarium. Escritas por mulheres, sentia que precisava da toque criativo feminino em minh’alma. Em sequência, fui até a “varanda para abrigar o tempo”, enfrentar “a equação infinda” “aos sábados” e em outros dias da semana, enquanto fazia “desvios para atravessar quintais” escritos por Aden Leonardo, Roseli Pedroso, Lunna Guedes e Mariana Gouveia.

Abrigado junto ao Tempo e a Aden em sua varanda, sofri intimamente com a arquitetura que me acolhia. Eu lia as suas palavras como se já tivesse as tivesse pronunciado muitas vezes como mantra: “sou um espelho por dentro que fica ao contrário”.

Roseli me levou para conhecer quatro vidas seres humanos em procissão pelos anos por quatro estações em décadas, em desdobramentos-personagens que se misturam atravessados pela linha tênue do destino determinado ou casual entre amores, ódios, abandonos, entregas, alegrias e dores. Os meridianos não interferiam nas suas existências. Apenas as localizavam. 

Com Lunna, “aos sábados”, enfrentei chuvas, dias mornos, quentes, outros “ontens”, manhãs, noites, sem adjetivos… mas sempre carregados de significados para ela, para quem a lê, para quem consegue mergulhar na tentativa de descobrir a si mesmo diante da vida e seus enigmas.

Com Mariana, os desvios que faz atravessa não apenas quintais, mas a existência inteira. A energia de todo o universo contido em mínimas linhas: “As ervas no jardim, criando sementes as flores sendo colo para a vida e da semente, a flor… fruto”.

Essas últimas leituras, feita em pouco tempo, quase concomitantemente, como se quisesse matar uma fome invencível, se foi as últimas que tenha feito antes que tudo acabe, pelo menos me abasteceu de sol tanto quanto ao da praia. Aclarou as minhas contradições, fez doer minhas feridas, acalmou meus dissabores. Fugi para outras vidas e me senti muito bem acompanhado.

Maratona literária Interative-se de maio
Isabelle Brum / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Ale Helga

Comunidade Canina*

Aqui em casa criou-se uma pequena comunidade feminina de cães, graças à doações forçadas, resgastes e nascimentos inesperados.

Dorô, a caminho do banho.

A Dorô nasceu da Lua – uma velha amiga que sequer sabíamos estar grávida até gerar um único filhote. Até hoje, nem sabemos como engravidou, sendo que nunca a vimos fora do quintal. Muito provavelmente, uma escapada noturna ocasionou o evento. Discreta, não desenvolveu barriga e deu à luz a esse ser que nos acompanha desde então, há alguns anos. Hoje em dia, se ressentindo pelo fato de ter outras companheiras no quintal, mantém-se normalmente arredia em seu canto.

Penélope, sempre disposta a brincar, apesar das dores articulares.

A Penélope veio pelas mãos do irmão da Tânia, Edu Joshua, que se mudou para um apartamento, um espaço muito pequeno para comportar um ser tão grande. A sua doçura ultrapassa todos os limites de volume e ela preenche a nossa casa de alegria e força, mesmo tendo desenvolvido dores articulares em uma das patas.

Domitila, de patinho feio a cisne.

A Domitila foi resgatada pela Romy na rua, toda ferida de sarna e tingida de tinta jogada por diversão (?) por algum ser incapaz de sentir compaixão, mas “articulado” o suficiente para perpetrar esse ato covarde. Foi pacientemente cuidada pela Romy e pelas outras meninas. De um “etezinho” que parecia, transformou-se em uma bela fêmea da espécie dos mamíferos canídeos. De tão esperta que sempre foi, em determinado momento, conseguiu escapulir de nossa atenta guarda e engravidou antes que a castrássemos. Doamos todos os filhotes, menos um que, feinho que só, foi preterida por todos.

Frida, querendo ficar no quentinho da sala…

Assim, a Frida ficou conosco. Na maior parte do tempo, mantém a cabeça baixa, o andar lento e o olhar arrevesado de quem sempre está sendo acusada de ter cometido algum crime. Quando algo a interessa, no entanto, como um petisco extra que oferecemos, é capaz de movimentos extraordinários e rápidos como ninguém. Tem o poder de se tele transportar, o que explicaria o fato de surgir em alguns lugares magicamente, do nada!

Como uma notícia que se espalhou pela comunidade canina, vez ou outra surgem novas candidatas a viver em nosso quintal. A penúltima, conseguiu um lar pelas mãos de nossa amiga Mariana Fortuna – a Huanna parece ter um alcançado um verdadeiro espaço de amor, se bem que retribua destruindo utensílios diversos – Mari, não aceitamos devolução!

Carmela Leleka, em pose de “sou adorável”!

Agora, nos chegou Carmela, resgatada pela Lívia e rebatizada pela Ingrid, de Leleka. Estamos a oferecendo à doação, mas alheia a nossa intenção de doá-la, ela já constrói alianças de amizade com as demais convivas da casa, alcançando sucesso, por enquanto, com duas delas – a Penélope – sempre ela! – e a Frida. Não duvido que, com mais tempo, ela conquiste a confraternização plena das outras duas, se bem que não gostaria que tivesse tanto tempo assim. Porém, caso continue conosco, será mais uma fêmea em minha vida, que aceitarei acessando todas as minhas reservas de amorosa paciência… Fazer o quê?

Carmela Leleka, construindo alianças com a mais poderosa da comunidade, Penélope.

*Texto de 2013