BEDA / Coletivo Scenarium / 52 Missivas / Apagão

L.,

nesta segunda-feira, um dia depois do tempo para anoitecer à luz de lâmpadas, lhe envio a missiva que deveria lhe entregar ontem, mas sequer a escrevi. Apesar de estarmos saindo dos piores efeitos da Pandemia, incluindo uma certa sensação de alheamento à passagem dos dias, ainda não consegui desligar o “modo avião” com o qual tenho frequentado os lugares e a vida.

Talvez seja a chegada dos efeitos da passagem do tempo no corpo, pode ser o aprofundamento da minha condição de estar sempre em estado de sonho, como se vivesse outra vida dentro da minha. Atualmente tudo pode ser explicado por fatores condicionais. Eu mesmo cheguei a acreditar que meu comportamento ao longo da vida fosse resultado de um incipiente TDA.

O que sei é que para não parecer muito excêntrico, sorrio nos momentos mais tensos, o que pode levar a crerem que eu seja debochado. O mais comum é que eu me exaspere a ponto de lançar chispas de fogo pelos meus quatro olhos e projete o meu corpo na direção de lugares abertos como se eu estivesse a ponto de fugir do local. Ontem, em uma discussão de família, pedi para pararem o carro para que eu pudesse sair. Depois, calei, porque sei que tropeçaria nas palavras pela falta de roteiro do filme que o meu personagem participava.

Por isso, prefiro escrever. Ainda que, como coloquei numa resposta a uma postagem de M., o que escrevo é como se fossem mensagens guardadas em garrafas que são lançadas ao mar. Um dia, talvez sejam lidas… mas os oceanos costumam guardar nas profundezas os seus (os dele e os nossos) segredos.

Na minha condição de prestador de serviços (ocasionais), as horas se afiguram como canta Morrissey: “Everyday Is Like Sunday“. Tenho dormido pouco e mal. Tomo café compulsoriamente para evitar dormir durante o dia. A vontade do café, o gosto agridoce, que tenho tentado tornar cada vez mais amargo, ao retirar pouco a pouco o adoçante, tudo me faz crer que quando vier o Amargedon, terei uma xícara do precioso líquido pretinho em minhas mãos…

Imagem: Foto por Monstera em Pexels.com

Participam do BEDA: 
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Cláudia Leonardi 

BEDA / Dia Mundial Do Livro*

Lendo Os Sete Pecados” da Scenarium

Há um ano e um dia, escrevi:
“Hoje é o Dia Mundial do Livro. Se bem que modernamente possa ser acessado por equipamentos eletrônicos — como computadores, tablets, celulares e, mais especificamente, ebooks — o objeto livro, por si só, é algo simples. Primitivamente, são páginas de papel unidas umas às outras que expressam mensagens imagéticas e ideias por imagens e/ou palavras. A estas últimas as quais me filio como escritor, rendo as minhas homenagens. Principalmente neste momento que há um projeto para taxação de publicações literárias por considerá-las elitistas. E se isso acontece é porque o investimento na Educação tem declinado gradativamente. É como se fosse o paradigma do biscoito ao contrário: como a Educação é elitista, os livros — instrumentos fundamentais do ensino — também devem ser. Considerando que a leitura é um dos eficazes expedientes para o desenvolvimento do aprendizado e do conhecimento, a formulação do projeto deveria ser o oposto.

É o empobrecimento da Educação como projeto de separar os bem-educados dos que irão servi-los. No livro que tenho à mão na foto — a coletânea de setes escritores como sete textos cada, chamada Sete Pecados — há um texto meu chamado Governante Supremo, em que o referido personagem odiava a Literatura. Seu projeto secreto é o de tornar todos equalizados em um nível menor de inteligência. Em certa passagem, esta expresso: ‘Ao contrário do que se propagava de que uma imagem valesse por mil palavras, intimamente sabia que uma só palavra poderia equivaler a mil interpretações diferentes. Como evitar que a comunicação não fosse corrompida por pensamentos espúrios quando se escrevesse ou lesse a palavra ‘amor’, por exemplo?'”

*Texto de 23 de Abril de 2021

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BEDA / Os Santos Inventados, Mas Reais

São Jorge, visto na Lua

Hoje é dia de São Jorge, comemorado com um feriado na cidade do Rio de Janeiro. Assim como São Sebastião se tornou um outro padroeiro da Cidade Maravilhosa, ambos santos teriam vivido na mesma época e contexto, com referências parecidas , ainda que duvidosas quanto às suas existências. A principal característica é que teriam sido soldados romanos do Imperador Deocleciano. Enquanto o primeiro teria se recusado a perseguir e a matar os Cristãos, o segundo teria se alistado para defender e levar conforto aos perseguidos religiosos que, na visão do Império, se constituíam em opositores à organização política, já que transferia a autoridade suprema do Imperador para um opositor da Província da Galileia.

São Jorge (em grego: Άγιος Γεώργιος; romanizÁgios Geṓrgios; em latimGeorgius; entre 275 e 280 — 23 de abril de 303), também conhecido como Jorge da Capadócia e Jorge de Lida foi, conforme a tradição, um soldado romano no exército do Imperador Diocleciano, venerado como mártir cristão. Na hagiografia, São Jorge é um dos santos mais venerados no Catolicismo, na Igreja Ortodoxa, bem como na Comunhão Anglicana. É imortalizado na lenda em que mata o dragão. É também um dos Catorze Santos Auxiliares. No cânon do Papa Gelásio (+496), São Jorge é mencionando entre aqueles que ‘foram justamente reverenciados pelos homens e cujos atos são conhecidos somente por Deus’” (Wikipédia).

Aliás, essa última frase serve para tudo, principalmente quando algo não pode ser provado por testemunhos factuais. Diriam que é questão de . A justifica quase tudo, na verdade. Não desdenho dessa característica humana que faz com que as pessoas suportem as piores agruras. O fato de alguns dos santos chegarem a condição de santidade pelo martírio em nome de algo intangível, invisível a olho nu, é um um dado que me interessa bastante, já que percebo poucas coisas, mas desconfio de muitas outras, por puro sentimento de identificação ou “intuição”.

No caso tanto de São Jorge da Capadócia como de São Sebastião, torturas e execuções ajudaram a enaltecer suas trajetórias através dos fins trágicos. A imagem alegórica do santo sobre um cavalo branco, matando um dragão (representação do Mal) sendo morto por sua lança, o transformou em uma figura mítica, bem afeita as mais variadas acepções fantásticas. A crença humana o fez ser visto até na Lua.

Ainda assim, foram construídas apocrifamente biografias que tentam validar suas existências e atuações. Tanto um quanto outro são santos militares, sendo que a adoção de São Jorge como padroeiro da Inglaterra, assim como de Portugal, talvez justificasse o furor que empregavam na luta para derrotarem os povos que defendiam seus territórios invadidos.

São Sebastião, flechado amarrado a um carvalho.

São Sebastião, acusado de acobertar e auxiliar cristãos perseguidos, foi condenado a ser executado preso a um carvalho símbolo de força moral e física, como o atesta a sua expressão em latim, robur. Segundo alguns relatos, ainda que ferido de morte, teria se dirigido ao Imperador para confrontá-lo, sendo espancado até a morte, tendo o seu corpo jogado em nos esgotos de Roma. Foi adotado como padroeiro da cidade do Rio de Janeiro por um evento histórico: em 20 de Janeiro de 1567, os portugueses e seus aliados — o grupo indígena rival dos Tupinambás, os Temiminós — destruíram a colônia francesa incrustada na região.

Ambos os mártires acabaram por representar vários personagens no fenômeno do crescimento da adoção do Cristianismo como a religião entre os soldados romanos. Mais tarde, a Igreja Católica Romana adotou a formulação de divisões militares romanas na organização de sua estrutura. São Jorge, no Brasil, começou a ser identificado no sincretismo religioso afro-brasileiro, com Ogum da Umbanda, o poderoso guerreiro, dono do ferro e do fogo, que defende a lei e a ordem.

São Sebastião, mais recente, com o movimento LGBTQIA+. Segundo o pesquisador norte-americano Richard Kaye, PhD pela Universidade de Princeton e professor no Hunter College de Nova York, apresenta-o como um soldado “muito amado” pelos imperadores romanos de seu período, que o queriam sempre por perto. O autor insinua que o santo poderia ter sido, mais do que guarda pessoal, amante dos imperadores (publicação da BBC).

Para Maerki, é importante ainda pontuar que São Sebastião “é o santo masculino mais retratado na história da arte”. “E a imagem clássica de seu corpo, seminu, resplandecendo beleza, se tornou simbólico. Historiadores e especialistas como Kaye veem nesse imaginário do corpo sendo retratado com um erotismo, uma espécie de propaganda do desejo homossexual”, analisa. Outra identificação ocorre por ele ser protetor dos perseguidos que defendem as suas causas.

Carrego a convicção que muitos fatos, mesmo que não sejam corroborados por provas científicas ou históricas, eles acabam por se tornar “reais”, pelos efeitos que causam na Realidade e como repercutem no imaginário das pessoas que com elas se identificam. Os documentos normalmente são apócrifos e no caso dos dois referidos santos, para assustar quem quisesse defender a fé cristã, foi decretado que não fossem referidas as biografias pessoais de cada traidor, mas sim as sevícias a que foram submetidos, com requintes de crueldade. De qualquer forma, estou aqui eu a discorrer sobre algo que carrega dúvidas quanto a sua origem, mas têm lugar no mundo. A mesma “fé” que eu trago que o que venha a escrever possa ser lembrado por quem me lê.

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BEDA / O Poderoso Chefão

O que pode unir pessoas de origens, idades e vivências diferentes na provocação de emoções similares? Uma obra como The Godfather seria uma boa resposta. O público no cinema, em silêncio reverente, comungava da mesma energia a cada cena, seja no uso da luz estuporada da província italiana de onde surgiu a Famiglia Corleone, quanto nos matizes escurecidos da América transformada em provinciana. Talvez, nas cenas da festa de casamento com o qual se inicia o filme, onde são apresentados vários dos personagens que vivem e morrem durante o seu desenvolvimento, haja uma mistura das frequências de luz e sons a sombra, a gravidade das falas e os esgares-sorrisos da sala do poderoso chefão em contraponto ao colorido das roupas e o alto volume das risadas desbragadas dos parentes e convidados.

O filme todo é um portento de ambição cinematográfica, quase uma homenagem à ambição de poder que permeia a história da Máfia nos Estados Unidos. E Francis Ford Coppola consegue nos impactar com a sua condução em que a violência é uma personagem do filme, com linguagem e atuação autônoma e grandiloquente, tendo os outras personagens como coadjuvantes. Como a criar um clima de suavidade enganosa, a música de Nino Rota se constitui em personagem essencial, uma espécie de substrato feito campo arado e fertilizado onde cresce a planta do mal. Marlon Brando não é nada brando em seu talento intuitivo e definitivo. Al Pacino passa de calmo e arguto jovem que a tudo observa de fora como se fosse um espectador que não quer participar, até transformar seu comportamento ao ver seu pai ser ferido mortalmente.

Então, o vemos crescer cena a cena na percepção de como funciona o jogo do poder. E o joga de forma magistral, com as regras que todos conhecem o poder sobre a vida e a morte e o uso da mentira como arma. Quando o jovem Padrinho começa a receber os cumprimentos dos demais “capi” como seu pai recebia, a porta se fecha para o amor na figura de sua mulher. Os aplausos ao acender das luzes ecoaram no silêncio de quem se comoveu, como eu, com os olhos marejados d’água.

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BEDA / A Medida De Todas As Coisas

A verdadeira medida de todas as coisas
é a Inveja!
Por sua percepção,
sabemos o valor do que se deve querer…
abrangendo o bem querer…

Pelo desejo de ter o que o outro tem: os objetos,
os espaços,
o ar,
o respirar,
os amores,
os corpos,
as vidas,
as obras
e as sobras.

Aquele que Inveja tem um objetivo a alcançar,
um caminho a seguir,
mesmo que seja o caminho de um outro
que foi bem-sucedido antes.

O invejoso opera no ambiente de trabalho,
na política,
na escola,
na família,
nos relacionamentos pessoais…
ele se alimenta do que deseja,
e bebe a peçonha da competição com prazer,
a defecar escárnios
pelas pequenas conquistas alheias…

A Inveja mede o talento,
afere o conhecimento,
fere o discernimento,
se apropria do avanço,
copia o desempenho,
favorece o sistema,
valida o progresso material.

Sermos invejosos nos torna iguais…
Nos abastece de fervor
pela Pátria,
pela terra,
pelo valor
de sermos maiores
em bundas,
em mamas,
em caralhos,
em dinheiro…

A Inveja nos beija a boca todos os dias…
Esconde-se em nossas casas,
nas salas,
nos quartos,
na arquitetura social…
a Inveja se oferece em propagandas e pelas esquinas…
Na arte,
Na filosofia,
No pensamento…

Para o nosso bem, somos criados invejosos.
Crescemos estimulados a sermos outros.
Somos instados a idolatrar o ter.
Para nunca buscarmos a plenitude do Ser.
A viver a sensação de estarmos em haver.
Buscamos a Inveja para ser nosso patrão.
Tornamos a Inveja o nosso melhor padrão.
Invejamos a Inveja e ao outro a nos invejar…

Imagem: Foto por Kulbir em Pexels.com

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi / Darlene Regina