Quem inveja, poderá até reconhecer o seu sentimento e buscar diminuí-lo ou até eliminá-lo. Mas, pelo que eu vejo acontecer, é algo que se instala na pessoa de forma autônoma, como se fora uma doença – um câncer com metástase. E a consome pouco a pouco, resultando em estágios crescentes de angústia e pesar, como se morresse um ente querido a cada dia. Como escreveu Lua Souza, em Estratosférica: “Diferente da maçã envenenada… a dor incurável da inveja mata a prazo”.
Eu (graças a Deus?), não sofro desse mal. Admiro quem consegue realizar certas proezas em variadas áreas de atuação, mas curioso que sou de meu próprio percurso, não trocaria a minha vida pela de outra pessoa, por mais talentosa que seja. Gosto de certos autores, como Machado, cujo estilo elegi como marca do meu, apesar do anacronismo. Sem a maestria na construção de personagens, obviamente. Aos poucos, fui desenvolvendo outras características que tinham como base a escrita do Bruxo do Cosme Velho, porém a admiração pelo viés de fundo psicológico continuou intacto. A admiração gosta de preservar a fonte original acima de quaisquer maledicências, porém a invejoso parece querer aniquilar quem é o objeto de sua origem.
O mais certo é que a inveja mata o hospedeiro lentamente, como se o veneno da emulação insidiosa em vez de atingir o invejado, faz apodrecer dolorosamente quem o experimenta. O invejoso pode ser perigoso, mas por menos que mereça é quem mais necessita de compaixão.
não acredito em almas gêmeas desdenho de quem queira encontrar iguais em outros sou pelo confronto de corpos e ideias de fluxos e refluxos de pensamentos díspares cresço quando me encaram de frente batem nos meus preconceitos reformulam meus preceitos invadem minhas fortalezas derrubando minhas defesas me devorando por dentro enquanto quero comer estranhas entranhas entranhadas confesso não percebi o momento de nossas mãos algemadas fujo quase sempre de entregas sem tréguas me debato feito peixe que deseja respirar água mas o que aconteceu conosco me deixou confuso já não sei quem sou em você e você em mim beijo a sua boca cor de carmim e em vezes de palavras evoluo em gemidos enquanto salivas se bebem bêbados de paixão abraço seu corpo o meu corpo invado a mim em si refuto planos de permanência absoluta luto enquanto planto a minha bandeira em território invadido enquanto me incorpora calma e resoluta anuncio o luto por minha morte renasço melhor quando digo sim…
Caminhando para o lado de dentro de Mariana Gouveia, leio – “Guardo-te na caixa dos segredos como se joia fosse… espio-te com lupas microscópicas”. Percebi o quanto essa frase se adequa ao meu comportamento contigo. Eu te preservei do mundo, como se fosse somente minha. Assim como tu faz parte do grande segredo que preservo do olhar mundano. Fiquei imaginando o quanto, mesmo sem nos conhecer, quem escreve pode nos alcançar em nossa intimidade.
Eu te vi crescer, perscrutei tuas jornadas, amizades, estudos, amores, teu desenvolvimento rumo à identidade livre de preconceitos. Eu te protegi de ações que te impediriam de ser quem quisesse ser caso ficasse sob o jugo da família de teu pai. Quando fugi da casa-prisão na qual queria nos guardar, lutei por teu futuro, por poder caminhar por tuas pernas, seguir tuas prioridades.
Quando neste ano lutamos juntas pelo bem do País, cantando, dançando, chorando para livrá-lo de mais quatro anos de um desgoverno a desviar de rotas sociais que nós ambas nos identificamos, soube que fiz o certo em deixar-te distante daqueles que estão do outro lado do muro do Apartheid que querem nos manter. Entre eles, teu pai. Fugi do Estado, mudei de identidade, trabalhei muito, me mantive discreta, te eduquei para ser livre, independente, franca, sincera, participativa, íntegra, amiga fiel, mas sei que é tua essa preciosa personalidade de grande mulher que acredita na igualdade na diversidade. Como é linda tua natureza pessoal!
Maria, esta pequena carta apenas lerás quando eu me for. Espero que entenda ao conhecer a tua origem e do quanto te amei para te guardar longe de tanto mal, da face horrível do ser humano dessa classe que se acha superior somente por ter mais dinheiro.
é tanta loucura que anda na bohemia da minha imaginação… cantou La Castañeda leio me leio nessa linha me levanto retomo a consciência de viver estar no presente curvo as minhas costas para trás apoiando as minhas mãos após vomitar sobre a tela mais palavras repetidas em locuções conhecidas como se fossem códeas de pão de quem se perdeu pelo caminho após passar noites bebendo indignidades ouço um samba desses passados passadiços rezados em dois por quatro na cadência de meu coração sincopado agradeço às influências d’áfrica enquanto choro a dor do desterro de povos inteiros arrastados em correntes rumo a cais do outro lado do atlântico aldeias árvores rios amigos família pais filhos criações culturas futuros perdidos identidades esfaceladas guerras terras novas gerações replantadas em terreno inóspito fértil regadas à sangue do qual eu bebo com sabor de alegria e dor atravesso a cidadela enquanto desejo voltar a jogar o meu corpo contra a procela navegador que rema rumo ao rir chorar salivar sobre a pele nua dela preso aos seus cabelos cor de noite clara de lua quarto minguante.
Fiquei, quanto à proposição do tema, tentando encontrar algo que se assemelhasse a uma rotina que pudesse ser chamada de ritual – um cronograma pessoal regular-repetitivo. De fato, há atividades que estabeleço como prioridades, como escrever. Porém, tenho que buscar tempo entre tarefas e atribuições de quem trabalha por conta para me postar de frente para o computador e fazer jorrar minhas ideias transformadas em palavras. Para me sentir estimulado, aceito tarefas sugeridas por Lunna Guedes, editora da Scenarium, como este 6 On 6, inserido na maratona intitulada #Blogvember, que estabelece postagens diárias estimuladas por temas dados.
Ritual de todos os mamíferos, dormir tampouco tem horário e medida. Meu trabalho impõe um cronograma variável, com horários esdrúxulos. Tanto poderei estar acordando ou dormindo às 6h da manhã. Com o avanço da idade, o tempo em que passo dormindo diminuiu. Morfeu tem me abandonado antes do tempo conveniente e cinco ou, no máximo, seis horas tem sido o meu limite de dormida. Após o que continuar na cama fica quase impossível, com o meu corpo se sentindo incomodado na posição horizontal.
Ler é algo que faço ritualisticamente sem regra e sequência. Tanto posso enveredar pela leitura de um livro num fôlego só, como intervalar dias sem conseguir pegar no velho e bom formato das páginas em papel. Não deixo de ler, ainda que o faça pelo celular ou pelo computador, Muitas vezes, nos intervalos de atividades, nos locais de trabalho e em trânsito, na Tigresa – nossa Kombi de carga –, em ônibus ou Metrô.
Outro ritual mambembe que tento manter é o de assistir televisão. Gosto de acompanhar jogos de Futebol (o nosso e o Americano), Basquetebol, Voleibol, entre outros esportes. Busco ver filmes e séries, bem como musicais, mas com a mesma sazonalidade irregular de quem fica pescando momentos livres durante o dia. Contribui para a intermitência o uso de outros sistemas de transmissão da programação, como os aparelhos móveis.
Um ritual do qual sinto falta e que tem a ver com a minha infância é o de tomar um café da manhã em horários razoavelmente fixos. Desde pequenos, Dona Madalena nos acordava com cafés que só ela sabia fazer. Até os meus seis anos, mais ou menos, ela me dava na mamadeira, misturado ao leite. Depois eu soube que esse era um expediente de mamãe para fazer render o pouco leite, um tanto caro para os nossos padrões à época. Resta continuar a tomar café em horas dispersas – um cerimonial à memória e ao vício.
Umagem feita quando desviei pelo Cemitério da Consolação minha descida da Paulista para o Centro.
Um ritual que estabeleci e que cresceu com a chegada da Pandemia deCovid-19, foi o de caminhar percursos de pelo menos de 4 a 5km por dia. Acabou por gerar parte das crônicas de “Curso de Rio, Caminho do Mar”, meu livro mais recente, além de produzir imagens que constantemente publico. Segundo o meu marcador de passos, caminho em média de 8 a 9Km. Há dias que vou a 16Km e, em uma oportunidade, cheguei a 21Km. Todas as tarefas possíveis, como ir até o supermercado, farmácia ou padaria, as faço como pedestre. Não deixo de caminhar longamente principalmente quando vou ao Centro ou à Paulista. Contribui igualmente para as minhas marcas, o deslocamento para a montagem de equipamentos em salões ou buffets. Mas nos dias que não trabalho, mantenho a rotina de caminhadas. A novidade é que, a partir do início da próxima semana, voltarei à academia para completar com exercícios físicos localizados a minha rotina de atividade corporal. É um ritual do qual sinto falta – incluindo as dores musculares – ainda que tentasse compensar com uma rotina precária em casa.