tudo poderia ficar para depois mas as lembranças não adiam a estadia enquanto os esquecimentos fazem morada permanente não há mágoa mas há para mim não vivo dias porém eternos minutos passo a passo e em cada um deles para cada memória aleatória uma parte de sombra e perdas porque não fui feito para interagir mal consigo lhe dar comigo me olvido de mim esqueço quem sou para onde vou não sei de onde vim me sinto apartado do mundo mas nele vivo quantas vezes no chuveiro olho para os meus pés em contato com o piso alagado de reminiscências que escoam pelo ralo a água é meu elemento preferido principalmente a salina nas ondas peito os enfrentamentos e afogo meus desejos enquanto os afago sim eu os tenho sou movido por eles os refuto conscientemente ainda que os concretize na temporada junto ao mar chuvas constantes raios que matam e ferem após um dia em inquietude desejei ir para a areia tarde em escuridão de nuvens carregadas efeitos de zcas el niño la niña seres humanos apesar disso entrei oceano adentro me banhei de penitência pensando que talvez morresse cercado de solidão a minha miopia imperante meus últimos pensamentos na desconhecida de todos visão para outro estado de ser talvez morresse naturalmente fulminado por um raio mas sobrevivi para continuar a magoar…
Estávamos vivendo os anos de chumbo da Ditadura Militar e tudo era “permitido” por parte das forças policiais e policialescas. Como o surgimento dos Esquadrões da Morte. Viventes da Periferia como eu, sabiam que a distância do poder tornava o lugar onde morávamos terra de ninguém. Ou nem tanto, a minha mãe certa vez foi escoltada pelos “bandidos” da rua ao descer do ônibus, ao voltar do trabalho: “Hoje a barra tá pesada, Dona Madalena!”.
Eu tinha acabado de fazer 13 anos em outubro de 1974, quando ocorreu um dos episódios que mais marcaram a minha vida. O guarda-chuva da impunidade abarcava todas as ações das “forças de segurança” como a que aconteceu no dia 19. Policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais cercaram a região do Marco Zero da cidade de São Paulo e apreenderam 97 menores, supostamente infratores.
Certamente, a maior infração que cometiam era a de estarem totalmente abandonados à própria sorte, com momentos descontraídos, como se banharem nas fontes da Praça da Sé. Não havia nenhuma política pública então, assim como poucas foram as iniciativas que se desenvolveram ao longo dos anos que chegasse à raiz do problema para minorá-lo.
Assim como numa ficção distópica, a chamada Operação Camanducaia dividiu o grupo de crianças em dois ônibus para rumarem pela Rodovia Fernão Dias no sentido de Minas Gerais. Eu nem imagino qual teria sido o critério na escolha de Camanducaia para despejarem – literalmente – os jovens nas imediações da pequena cidade. Os policiais civis fizeram os meninos tirarem as suas roupas, rasgaram os documentos dos que tinham, os espancaram com porretes e, sob ataques dos cães, os jogaram por uma ribanceira.
Nus, feridos, e sofrendo com o frio, os menores vagaram por estradas da região, até alcançarem o perímetro urbano da cidade, onde causaram, inicialmente, pânico entre os moradores. O telefone da delegacia local ficou congestionado pela enxurrada de ligações de moradores que relatavam a invasão de um grupo de jovens nus à cidade. Alguns atacaram um ônibus de turismo, outros invadiram estabelecimentos comerciais. Capturados, as prostitutas da cidade, compadecidas, arranjaram roupas para os meninos. Informada, a SecretariaPúblicadeMinasGerais os colocaram num ônibus de volta para a São Paulo.
Essa ação gerou tremenda indignação na população, além de muita repercussão pela Imprensa. Para acalmar os ânimos, o então Secretário de Segurança Pública, o famigerado Erasmo Dias, instalou uma sindicância que, um ano após, foi encerrada sem nenhuma punição aos envolvidos. Essa tentativa de resolver o problema da marginalidade infantil, varrendo os garotos marginalizados para debaixo do tapete como fossem os responsáveis por suas escolhas, demonstra a miopia das autoridades. No levantamento feito da condição social das vítimas, apurou-se que cerca de 15 deles haviam sido abandonados pelos pais.
A Operação Camanducaia está para fazer meio século em 2024. Depois de todo esse tempo, o desafio na solução quanto ao desequilíbrio social que estimula o aumento da crise humanitária em plena cidade mais rica do País foi ampliado com o paulatino aumento no uso de entorpecentes mais potentes que deterioram a condição física e psíquica dos jovens a ponto de se tornar quase irreversível. Se na época do triste episódio, os chamados Trombadinhas causavam pânico no Centrão, atualmente a criminalidade infantil se espraiou por outros bairros com o uso de armas e veículos, como motos roubadas.
Enquanto aqueles adictos dos Anos 70 cheiravam cola, hoje o mal supremo são as drogas da linha K-2, K-4 e K-9 – substâncias que produzem efeitos agudos no Sistema Nervoso Central com manifestações clínicas compatíveis com distonia aguda, catatonia e rebaixamento do nível de consciência, com consequentes alucinações, paranoia e agressividade.
Quando assisti a “Pixote – A Lei Do Mais Fraco” (1981), de Hector Babenco, fiquei impactado pela crueza da narrativa. No entanto, percebi vários pontos de contato com a realidade que vivia na Periferia. Muitos de meus conhecidos da época que jogavam bola comigo, tiveram o mesmo destino do ator Fernando Ramos. Estigmatizado por ter feito a personagem central, foi morto pela Polícia Militar de São Paulo, numa ação nebulosa. Pixote o tornou célebre e um símbolo que precisava ser eliminado.
A existência de resquícios do Regime Militar na administração da segurança pública em São Paulo demonstra o quanto são repetidas fórmulas que não conseguem lidar com as mazelas do Sistema, apenas combatendo os seus efeitos com violência, sem resolvê-los. Enquanto a pilha de corpos de vítimas e vitimados aumenta de tamanho, especulo que chegará o dia em que Padres Lancelottis, sejam quantos forem, continuarão a enxugar gelo, a limparem feridas que nunca cicatrizarão. E os degredados da consciência social caminharão feito zumbis pelas ruas e adentrarem pelas fontes d’água da Praça da Sé… que já não existem mais…
Neste último sábado, Humberto e eu, pela Ortega Luz & Som, trabalhamos em um evento em RibeirãoPires. Era o aniversário do Guidu, ao qual intitulou de Guidustock, em referência a Woodstock, fá de rock que é. Além da muito boa BandaCaxamblues, o Elvinho foi a outra atração, da qual fizemos a sonorização e iluminação. Chegamos mais tarde do que gostaríamos, mas com o tempo necessário para fazermos a montagem com uma antecedência confortável.
Quando iniciei a minha atividade de prestador de serviços na área de eventos, trabalhava para uma banda que me deu a experiência de que o imprevisto é sempre possível ocorrer. Então, para nos anteciparmos ao previsível imprevisto, sair antes do horário pode evitar maiores tribulações. Na quinta-feira, foi assim, em um evento em VargemGrande, perto de Jundiaí. No caminho, na RodoviaTancredoNeves, há 15 minutos de chegarmos, o cabo do acelerador da Tímida (uma de nossas Kombis) quebrou. Paramos no acostamento, o Humberto trocou o cabo e 45 minutos depois, chegávamos ao destino. O evento foi realizado com sucesso e decidimos usar a outra Kombi para o evento de ontem.
Para provar que tudo está por um fio, eis que em determinado ponto da longuíssima AvenidaJacu-Pêssego, o cabo da Tigresa quebrou, também… Qual seria a chance? A chance do previsível imprevisto, tanto que o Humberto disse na quinta que poderia acontecer, o que refutei. Costumo brincar que a minha positividade a laLippi se contrapõe ao “Oh, vida! Oh, azar!” do meu irmão Hardy. Para quem não gosta de rotina, é um prato cheio o que fazemos. Somos como ciganos ou trabalhadores circenses que vão de um lugar ao outro, montando o acampamento ou a lona do circo. Enfim, a última imagem (a despedida do palco do Elvis (Elvinho) mostra que tudo ocorreu muito bem. Foi um sucesso! Cada vez mais me apaixono por meu trabalho…
Acabou de chover pesado, após anúncios de raios e trovões. A luz do Sol foi escondida pelo corpo da Terra que gira sobre o seu eixo, enquanto passeia pelo espaço nesta parte da ViaLáctea. Durante todo o dia a revolução atuou, a translação se perpetuou, as estações representada neste quadrante pelo verão, nos aqueceu e a minha lembrança permaneceu com uma solitária nuvem, desgarrada da grande nebulosidade, tão mais alta e distante. Com o tempo, deve ter sido absorvida pelas outras nuvens, maiores e mais fortes. Não duvido que tenha se precipitado em água agora há pouco, feito lágrimas do céu. Há casos em que a solidão não é uma opção, a liberdade não existe e o fim é compulsório…
Na imagem, atrás da Bethânia, quase despercebida, a carinha da Indie, que foi doada.
Ciúme, o seu nome é Maria Bethânia. Quando começo a acarinhar as outras, ela logo se põe a protestar veemente. Chega a morder a minha mão e atacar fisicamente as demais do grupo, não importando os tamanhos dos alvos, diante de sua contrariedade desmedida.
Quando quero chamar a sua atenção ou quando a chamo e ela não me atende imediatamente, uso sempre o expediente de passar a mão pelas cabeças das amigas, o que é suficiente para transformá-las em oponentes, vindo em nossa direção, a enfrentá-las, ainda que saiba que são maiores e mais fortes do que ela.
De onde deriva esse ciúme, afinal? Sou aquele que não deve dividir a minha dedicação e zelo com mais ninguém? Ela se sente minha proprietária? Um sentido de territorialidade natural exacerbada talvez explicasse a sua reação, no entanto, o seu cuidado não se estende tão fortemente à sua cama nem ao pote de comida, aliás, quase nada.
A contrariar o fato aceito de que somos a nós a possuí-los (a determinar-lhes o destino), quem decide levar a cabo os melhores cuidados a esses seres especiais, sabe que somos nós a sermos possuídos por eles. Será que chegam a ter consciência que seja um pecado sério dispensar atenção a mais alguém além deles, da família dos canídeos e de outros seres humanos?
O meu desejo de expressar em palavras as minhas suposições foi motivada por um episódio. Quando fui à casa da minha irmã, que mora ao lado, logo na entrada acarinhei a Vitória e a Dominique. Qual não foi a minha surpresa ao ouvir um latido lastimoso vindo da minha varanda. Lá estava a Bethânia, a demonstrar o seu desacordo em relação à minha afetividade por aquelas que conheço há anos. O seu olhar era quase desesperado. As suas orelhas eriçadas quase tocavam o céu!
MariaBethânia foi resgatada da rua por uma das minhas filhas humanas a pedido da minha companheira, Tânia. Em direção ao trabalho, ela a viu a correr sem rumo por nossa vizinhança e quase entrar debaixo de seu carro, condoeu-se de sua condição. Era um sentimento novo para ela, que nunca foi tão achegada aos cães. A experiência de acompanhar a Dorô em sua jornada de combate ao câncer que finalmente a vitimou, lhe trouxe a inesperada percepção da nossa imensa conexão com esses seres únicos.
O meu interesse pela origem do ciúme de MariaBethânia é quase antropológico – no sentido que o cão é um ser que tem, ao longo dos tempos, adquirido comportamentos assemelhados ao do Homem. De modo geral, além da inteligência básica, são seres-repositórios de emoções e sentimentos puros e sem medidas. Amor e ciúme, sem dúvida, estão entre eles. Nos cães, a força da irracionalidade se expressa, então, de maneira mais acintosa. Amor, ciúme, posse — onde começa um e termina outro?
Há a eterna discussão se o amor é uma construção sociocultural ou uma condição intrínseca aos seres humanos; se a sua base é espiritual ou físico-química; se é algo substancial a ponto de ser verificado expressamente ou uma ilusão mental… Creio que a ligação que desenvolvemos com os outros animais, principalmente os mais próximos de nós, “aculturados”, possa dizer muito sobre a própria condição humana. Talvez possa vir a desvendar se amor e as suas emoções subsidiárias, como o ciúme, revela-nos animais básicos ou, basicamente, que somos animais confusos demais para sabermos o que sentimos, quando sentimos…
*Texto de 2017, constante de meu primeiro livro de crônicas lançado pela Scenarium — REALidade