BEDA / Fidelidade*

Sou Adão e sou fiel…
Tenho uma natureza fidedigna,
que preza o outro.
Porém, mais que ao próximo,
tenho a tendência em satisfazer
às minhas paixões…

Vivo a contradição –
como ser fiel a mim mesmo,
ao meu desejo,
ao que considero ser o melhor
ou mais gostoso para o meu ego –
e manter-me fiel a quem me é amável,
sem feri-lo?

Não há como ser feliz sem magoar…
Ou magoamos a nós ou ao amado…
Muitas vezes, aos dois…
Prefiro o gosto da maçã
à inocência que ignora
o que é certo e o errado…

Que mérito eu teria
se não pudesse escolher?
Para justificar as minhas escolhas,
culpo ao outro por elas…

Dessa maneira, satisfaço
a minha curiosidade de criança mimada
e continuo a comer uma fruta após a outra,
até conhecê-las todas
e nomeá-las…

Para não dizer que minto (mais uma falta),
digo, em pureza d’alma:
sou fiel a minha traição…

* Poema de 2017

Foto por Tom Swinnen em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / ACADEMIA

Os dois se conheceram na academia do bairro. Os olhares furtivos de ambos pelo “shape” que chamavam a atenção de todos pela proporcionalidade – nada de excessos, as linhas sinuosas e insinuantes nas medidas certas para pousar os olhares e serem admirados. Os detentores desses corpos exemplares foram chamados pelo diretor da academia, amigo dos dois, para ilustrarem um pôster de propaganda. Chamados para as fotos, obviamente se reconheceram, apesar de nunca terem trocado palavras. A ideia era que posassem fazendo as séries que os mantinham como ideal de forma física.

As fotos seriam produzidas após o fechamento da academia. Demorou por duas horas, mas a alegria genuína por estarem juntos no mesmo ambiente fez com que parecessem minutos. Risos brotavam de seus lábios como se fossem velhos conhecidos. Os olhos de ambos percorriam cada detalhe dos músculos construídos à base de muita dedicação, equilíbrio alimentar, força mental com um viés mistura de encantamento e desejo. O suor escorria fácil, porque não simulavam os exercícios, mas faziam a série completa. Era da natureza de suas rotinas.

Tudo aconteceu como se seguissem um roteiro previamente escrito. Ela pediria um transporte pelo aplicativo, mas ele se ofereceu para levá-la em casa. Quando chegaram em frente ao destino dela, ao se despedirem, os beijos nos rostos desviaram-se facilmente para as bocas. “Me leva para onde quiser…” – disse ela. Ele sorriu, lhe dando uma bitoca. “Vamos para a minha casa, tudo bem?”. Sorria de orelha a orelha, enquanto ela mandava mensagem para a mãe, dizendo que iria dormir na casa do namorado. Não esse, mas o outro que a sua mãe contava como seu futuro genro.

Mal invadiram a sala de estar de sua casa, ela o agarrou de uma maneira que ele sentiu a força física de sua companheira de paixões. Arrancaram as roupas, quase as rasgando, bocas a esquadrinharem cada parte dos seus corpos, sentindo as texturas, o sangue a preencher as veias expandidas, os membros ressaltados, as mãos poderosas a se segurarem mutualmente como os pesos que levantavam em séries seguidas. Fizeram todas as posições que moldaram os seus músculos de uma maneira que chegaram para além da “falha”. Mútuo prazer que os deslocaram para outra fase de desenvolvimento. Decidiram ali que ficariam juntos.

A mãe dela não gostou nada, nada, quando a sua filha anunciou que estava perdidamente apaixonada por um companheiro de academia. Disse que o admirava já há algum tempo e que tudo havia conspirado para que ficassem juntos. A mãe sabia que a sua filha era determinada, a ponto de ter superado com tenacidade o sobrepeso. Os 30Kg acima dos parâmetros ideais foram sendo retirados durante dois anos de uma rotina que foi muito penosa no início, mas que depois se tornou tão prazerosa que não precisava de incentivo, pois era como se vivesse para a atividade física resistida.

Ele era um homem sozinho. Ele foi deixado pela namorada que pretendia que fosse a sua futura esposa. Havia cinco anos. Seu único prazer era se desafiar na Academia a realizar proezas de força e resistência. Sua dedicação angariava simpatia por ser calado e sorridente. Resistia ao assédio de moças e moços sempre com uma palavra de ternura que o tornava mais atraente. Querido por todos, foi o administrador da academia, seu amigo, que desenvolveu a ideia do pôster, com segundas intenções. Várias vezes o aconselhou a abrir o coração para outra pessoa. Encontrou na figura da bela moça a chance de que isso acontecesse. Ficou feliz quando tudo se precipitou favoravelmente. O casal se tornou um chamariz incrível para a academia do bairro, a ponto de ele pensar em abrir outra unidade.

Passados dois meses, o pessoal começou a estranhar a ausência da companheira do casal às sessões de exercícios na academia, realizadas sempre na parte da manhã. Ao ser questionado, o moço disse que ela havia decidido ficar um tempo descansando, atarefada com as reformas da casa que começara há pouco. Três meses mais, as perguntas redobraram de frequência, principalmente pela falta de fotos na rede social, no que ela era bastante ativa.

O certo é que após o término da reforma, ela estava se sentindo bem em não se sentir pressionada em ir para a academia todos os dias, apesar do prazer. Havia engordado um pouco, mas seu companheiro disse que ela estava linda daquele jeito. O sexo continuava incrível, o trabalho em home-office não a obrigava a se arrumar, a não ser em reuniões em que precisava se maquiar e ajeitar o cabelo. Alguns repararam em seu rosto mais arredondado, perguntando se ela estava grávida, ao que respondia somente que estava feliz. Não saía mais tão frequentemente. O seu companheiro fazia o supermercado na volta do expediente. De vez em quando, saíam para a um rodízio de pizza ou de comida japonesa no “dia do lixo”.

Em seis meses readquiriu o tamanho de antes, mas o companheiro não parecia se importar. Talvez fosse o contrário. Ela se sentia a mulher mais amada do mundo. O seu carinho era desmedido e ela havia percebido que a sua dedicação anterior era motivada para atender ao estereótipo do “mercado”. Até que decidiu limpar uma cômoda antiga, que achou muito bonita, mas em mal estado. Ao limpá-la, esvaziou as gavetas e encontrou a foto de uma moça numa delas. Seria a antiga namorada dele, da qual tanto falou nas longas conversas que tiveram? Possivelmente…

Logo, percebeu que a aparência dela era bem similar à sua atualmente. Rosto arredondado, o mesmo tom de sua cor de pele, pernas grossas, quadril abaulado, peitos avantajados. Por sua mente começaram a passar tantas possíveis explicações, mas uma principiou a envenená-la: e se ele me incentivou sem perceber a me transformar em alguém que ele amava?”.

O seu comodismo se devia em boa parte à postura desprendida de seu amado. Ele repetia que não importava como estivesse a sua aparência, o importante era a energia que os envolvia. Acreditou nele, então e desde o início. Mas como conseguiria permanecer tranquila ao chegar do passado essa imagem materializada que a colocava como um simulacro da sua antiga namorada? Ao mesmo tempo, com ele, se sentia feliz e sem cobranças para que seguisse a atender um perfil que era obtido com sacrifícios que a depauperavam emocionalmente ainda que trouxesse certa satisfação.

Olhou mais vez a foto e a rasgou. Seria o suficiente?

Foto por Ivan Samkov em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / The Color Of The Rain

Eu gosto da chuva como expressão, mas devido ao fato de estarmos causando o aquecimento global através de nossa ganância, o anúncio de sua chegada tem sido causa de preocupação. Principalmente para aqueles que moram em áreas instáveis, em que os mais pobres arriscam viver, sempre no limite, um olho aberto e outro fechado, os ouvidos sempre atentos ao primeiro trovão, dias, noites, madrugadas. Antes, havia meses específicos em que a chuva era mais abundante, como já foi cantada em versos. Em contrapartida, afora a inconstância dos intervalos, há período de secas que tem demonstrado que o clima adquiriu um humor imprevisível. Mas aqui eu anuncio períodos em que a chuva foi criadeira, como quem planta diria ou como o escritor aprecia.

TRABALHO (2013)

Primeiro dia de outono e não importa que parte do dia estejamos – manhã, tarde, noite ou madrugada – sempre haverá chuva, amena ou intensa, em algum ponto da cidade pelo qual qual passamos. Como tivemos problema com a nossa “kombosa”, emprestamos uma outra de amigos que conhecem como dividir as horas do dia. Neste momento, passávamos por trás de uma igreja. Em São Paulo, isso não significa estar no lugar mais calmo da cidade, mesmo porque, tratava-se da Catedral da Sé, no Centrão. Um lembrete, mesmo agora sendo noite, estamos, meu irmão, Humberto, e eu, trabalhando no lugar onde os outros se divertem…

ACADEMIA (2011)

Chuva forte, preguiça e outras coisas para fazer – tudo seria motivo para eu deixar de ir à academia neste dia indefinido, que não sabe se é útil ou feriado – até que eu recebi o devido incentivo do DJ Ari (um senhor vizinho a nós), com seu eclético repertório a todo volume. Naquele momento, acabei por receber a motivação necessária para partir para a suadeira. Obrigado, DJ Ari!

PISCINÃO (2015)

Após as chuvas da noite, no Piscinão Guarau, os urubus esperam a água baixar para celebrarem o almoço de domingo, em família.

SÃO FRANCISCO (2016)

Antes da chuva noturna, o dia de São Francisco proporcionou um entardecer em que os astros encenaram a troca de guarda. Mas não por muito tempo, já que nuvens negras e espessas assumiram a linhas do horizonte. A pontuar, o Santo foi dignamente representado pelo canto de seus companheiros, os pássaros…

CHUVA E SOL (2022)

Neste primeiro dia do ano, subi para a varanda, tentando capturar as gotas da chuva contra a luz solar. “Chuva e Sol, casamento de espanhol. Sol e Chuva, casamento de viúva!”. Quando criança, ficava a imaginar se seria o caso do espanhol ter se casado com a viúva. E viajava nas possibilidades. A Bethânia subiu comigo e se postou na mureta, tentando encontrar alguma novidade pelo entorno. Pedi para que fizesse uma pose para enviar para as outras filhas e ela não se fez de rogada. Feliz 2022 para todos os seres!

ROMANCE (2013)

A Chuva, ciumenta, assumiu o controle do curso do dia. No entanto, agora à tarde, ela não pôde impedir o triângulo amoroso entre a Terra, o Céu e o Sol. Silenciosamente, os três combinaram de se encontrar no leito macio do horizonte… O encontro foi breve, porém! Logo, soltando raios e trovões, a chuva, furiosa, reassumiu o controle da situação. Pois é, quem está na chuva, tem que se saber amar!

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F. / O Miau Do Leão

BEDA / LUIZ

Quem é Luíz? Não sei. E mesmo que o conhecesse, sou daqueles que acredita que não conhecemos ninguém completamente, a começar por mim mesmo. Não foram poucas as vezes em que diante de novas situações, reagi de forma inesperada, me surpreendendo. Percebi que há ocasiões decisivas que evidenciam movimentos inéditos para quem pensou que agiria de forma diversa. Eu nunca (antes) como quis o “Luiz da Pilastra” tive o desejo de me distinguir e deixar de ser mais um na multidão. Ao contrário, tomei como objetivo não “fazer sucesso” e servir ao Sistema o meu esforço pessoal.

Estranhamente, na época em que deveria experimentar coisas novas, como na adolescência, me sentia preso a grilhões invisíveis, tão fortes quanto reais, porquanto psicológicos. Travado, mal conseguia concatenar uma conversação, a não ser com outros dois esquisitos como eu. Um deles, tenho contato até hoje. Outro, foi para extremidade à direita do espectro fantasmagórico e morreu para mim como interlocutor. Com o pessoal do futebol, expressões onomatopeicas por ocasião dos jogos eram como se fosse um oásis de frescor em meio ao discurso um tanto bizarro para boa parte dos meus colegas de time.

Quanto ao Luíz em questão, o que nomeia uma pilastra de ferro dentre as centenas que compõe a cerca em volta do Piscinão Guarau, o seu nome o aproxima da linhagem de reis que governaram a França monárquica. Ele tem conhecimento de Luíz XIV, que ficou mais de cinquenta anos no poder e determinou um período de opulência e influência em toda a Europa, até terminar em Luíz XVI, guilhotinado na Revolução Francesa no final XVIII?

Será que o “nosso” Luíz sabe da projeção desses Luízes que os fazem históricos?  Será que buscou saber que o seu nome significa “combatente glorioso”? Além dele, alguém mais sabe que aquele Luíz especificamente é dele e de nenhum outro? Fica satisfeito em saber que aquela letra é a sua e que permanecerá por anos encastelada na torre até ser apagada pelo tempo, por uma demão de tinta reformadora ou numa ação revolucionária?

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Insônia

eu tive um episódio de insônia
acordei às 4h da manhã
fiz exercício para voltar o sono
tomei um chá de mel gengibre cúrcuma
quem sabe um leão me domasse
comi um tomate para preencher o estômago
mergulhei no nada eclipse mental
acordado mas sem acordo com a realidade
estou retomando a consciência aos poucos…
à base de notícias de terremotos
assassinatos assaltos mortandade
pelo trânsito devemos continuar
a circular a performar produtivos estáveis
mergulhados em sangue e dor
os oceanos aquecidos águas-vivas
medusas mães-águas alforrecas
envenenam os corpos que invadem o reino marinho
muita chuva enchentes
seca intensa deserto assumindo a paisagem
sobreviverão os insetos
imortais depois de milhões de anos
crise respiratória aguda os vírus revivendo
o seu poder de nos colocar em nossos devidos lugares
seres passageiros ainda que anjos
ainda que bestas feras
seremos extirpados indiscriminadamente
porque a natureza não discrimina cor da pele
posição social financeira arrogância
suposta proeminência importância
eliminados enfim da equação
a terra voltará a brotar livre de nossa pulsão
de morte vazio desejo frustração…

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.