18 / 02 / 2025 / Amor E Aparência*

Eles se conheceram no Segundo Grau. Ela era esguia e alta. Praticava esportes e chamava a atenção por seus olhos claros. Ele era rechonchudo e usava óculos. Descendente de pai preto e mãe branca, apresentava uma bela cor amorenada. Preferia se dedicar aos estudos e era bom em Português.

Calhou dela precisar de um reforço na conjugação dos verbos, na identificação das sílabas tônicas e dos complementos nominais e dele ser um cara bonachão que gostava de ajudar… Desde então, a dupla inseparável se formou. Nos três anos que estiveram juntos, compartilharam vários interesses e desenvolveram uma sólida amizade permeada de estudos, festas e confidências.

Ela lhe falava dos colegas com os quais ficava e do assédio constante que sofria. Quase maldizia ser tão bonita, enquanto ele… sabia ouvir… Não era incomum dele enxugar as lágrimas da moça com a mesma manga de camisa que enxugava as suas… mais tarde, na calada da noite.

Apesar de estarem sempre juntos, nunca passou pela cabeça de ninguém que os dois pudessem ter um envolvimento romântico. Igualmente, não passava pela cabeça dele que ela o quisesse como namorado. Isso o deixava confortável diante dela, ainda que tivesse se apaixonado desde que a vira pela primeira vez. À vista de todos, era um casal improvável, formado pela garota mais popular da escola e o nerd esquisito.

As coisas começaram a ficar estranhas nos últimos seis meses de relação direta. Frequentemente, ficavam encabulados ao se depararem olhando longamente um para o outro e, às vezes, bem dentro dos olhos. Simultaneamente, entravam em um mundo onde o jogo de aparências não exercia uma força tão poderosa quanto no que viviam — de amigas maldosas e colegas ressentidos que só gostavam de debochar. Nesses momentos, então, conseguiam escapar ao doloroso efeito venenoso dos seus pequenos grupos sociais.

Logo após a formatura, os pais da moça decidiram se mudar para outro Estado, onde buscariam maior tranquilidade e novas oportunidades de trabalho. Esse fato acabou por afastar os dois apenas fisicamente. Nos três anos seguintes, apesar de não se verem, passaram a se corresponder por cartas manuscritas. Ele sempre fora avesso às redes sociais e ela, depois que mudou, decidiu também abolir essa ferramenta de comunicação. Sequer trocavam fotos. Aparentemente, as cartas, que inicialmente serviriam somente como exercícios para a melhoria no uso da Língua, de uma forma incrível, fez crescer a integração entre os dois.

Depois de dois anos, ela começou a insistir para que ele a visitasse e conhecesse as paisagens pelas quais se apaixonara, onde agora vivia. Ele objetou que estava envolvido em um projeto pessoal importante, para além dos estudos na Faculdade de Filosofia e Letras, que não poderia revelar naquela ocasião. Ao mesmo tempo, ela dizia que também tinha novidades a lhe revelar, mas apenas pessoalmente. Apesar da crescente expectativa, somente após mais um ano, finalmente iriam se reencontrar, nas férias de verão dos respectivos cursos.

No dia da viagem, o rapaz mal conseguia permanecer sentado em sua poltrona no avião. Ela, em terra, desde a manhã, chorou algumas vezes. No horário programado, se deslocou ao aeroporto com o coração a pulsar fortemente. Finalmente, dentro de instantes, iriam se reencontrar… Ela sabia que a decisão que tomou poderia impactar na relação, negativamente…

À espera de seu amigo, ficou impaciente ao ver que quase todos haviam passado e não o localizava … Até que um rapaz parado já há alguns minutos se aproximou dela e a chamou pelo nome. Ao prestar maior atenção, custou a crer que ali estava quem esperava. Diante de si, estava um jovem forte e bem apessoado. Sem os habituais óculos, os seus olhos ficaram maiores e sentiu quase ser engolida por eles.

Quase ao mesmo tempo, disseram: “Você mudou!… — Depois de um momento, ecoaram: “Mudei por você!”… Ele, com muito sacrifício, havia feito dieta, começou a desenvolver um programa de atividade física e aprumou a sua aparência. Ela, aproveitando o afastamento de seus conhecidos diretos, decidiu relaxar corporalmente e deixar de ser tão obsessiva no controle alimentar. Engordou para ficar com a aparência semelhante a da dele. Apesar da correspondência constante, não haviam conversado que gostavam um do outro apesar ou por causa das características que carregavam…

Passado o momento do primeiro impacto visual, ao se aproximarem, olharam profundamente nos olhos um do outro, como faziam no passado. Imediatamente se reconheceram em si mesmos, tocaram os lábios delicadamente como nunca fizeram e, abraçados, saíram rumo ao mundo novo do amor que se descortinava, para além das aparências…

Foto por Orione Conceiu00e7u00e3o em Pexels.com

*Conto de 2016

17 / 02 / 2025 / As Mães

A mãe Ingrid e a minha mãe, Dona Madalena

Ingrid é uma mãe. Eu e a Tânia, brincando, a chamamos de mãe. Não apenas do Bambino e da Maria. Com o seu talento para ser mãe, conseguiu unir pelo amor um cachorro e uma gata num espaço pequeno. Quem dela se aproxima, logo é envolvido por sua energia boa, seu sorriso contagiante e sua postura de mulher madura em corpo de menina. Seus amigos a idolatram, suas irmãs — Romy Lívia — a amam, a procurando para conselhos ou desabafos. Profissional competente, ninguém imagina que naquele corpo pequeno esteja uma exímia advogada, reverenciada por despossuídos e poderosos aos quais ajuda para se desvencilharem de seus problemas legais.

Quando pequena, já queria se tornar advogada (quem sabe, um dia talvez juíza?), para defender os injustiçados. Mas todos sabemos que nem todos o são e, mesmo assim, ela tem consciência que deve cumprir o seu dever de defensora dos seus clientes diante da Lei. Sempre voluntariosa, quando (mais) pequena, me deixava de cabelo (quando o tinha) em pé com as suas escapadas. “Por onde anda a Ingrid, gente?”… “Presa numa enchente no ABC, onde foi assistir um show de rock!”… Devia ter 12 ou 13 anos. Ela que me corrija, se eu estiver errado.

Muito inquieta, brincalhona, de feitio mais arredondado, ao crescer percebeu que tinha que controlar a alimentação que lhe acarretavam repercussões físicas indesejáveis. Corajosa, enfrenta os problemas psicológicos a que todos nós desenvolvemos com o tempo e a carga que a realidade nos impõe. Eu, mesmo, apenas neste quadrante, tomei essa atitude de fazer terapia. Muito, por sua influência indireta. Essa boa influência compartilha com as suas amigas e amigos, ao quais conheci de mais perto e pude verificar a riqueza de caráter da grandíssima maioria. É comum, ao nos aproximarmos mais de algumas dessas amizades, torcermos para que fiquem bem, desejando para que tomem os melhores caminhos, porque as queremos bem.

Chamado de “Tio” por algumas delas, busco não ser tão intrusivo e sigo os conselhos dela e das irmãs para que não pareça tão inconveniente. O que não é fácil… Mas, enfim, a aquariana que hoje aniversaria, cumpre quase todos os bons predicados do signo da Nova Era que está para se iniciar — o que proporcionará à maioria dos seres humanos a descoberta, a verdadeira vivência e o real conhecimento da Consciência Crística. Espero que não demore a chegar, pelo bem de Gaia

Gosto muito dessa foto! Não sei como a minha mulher tolerava o meu estilo riponga! E a minha filhota do meio, Ingrid, com aquele olhar de quem estava sempre disposta a aprontar! O ano? Feliz!

16 / 02 / 2025 / O Jogo Do Amor*

Em *2015, escrevi o texto abaixo que versa sobre o amor romântico. Em 2023, escrevi um texto mais maduro, chamado Amor & Ser, que amplia a discussão sobre o eterno tema sobre os vários tipos de amores.

“Amar é como se fora um jogo. Normalmente, entre dois jogadores apenas. Porém esta é uma imposição por quem nunca percebeu que o jogo do amor é incriado e não apresenta regras formais. Pessoalmente, creio que o desejo de amar seja tão grande, deseja-se tanto participar do jogo, que ninguém sabe porque joga, como não sabe se ganhou ou perdeu quando acaba, já que muitas vezes, os participantes não percebem quando a partida acabou ou apenas se ilude que não, tentando prorrogá-la ad eternum.

Outras tantas vezes, os jogadores mal sabem quando a peleja começa. Outros, declaram que não estão participando da sempiterna peleja, tornando-se dessa forma, um jogador muito procurado, com passe muito valorizado. Se isso é uma arguta tática de jogo ou apenas inocência, o fato é que é comum esse craque marcar gols decisivos. Vencedores, quem o seriam? Como não há regramento, poderíamos dizer que não haja vencedores e vencidos. Mas na aparência, pode até haver, já que os próprios ‘atletas’ estipulam placares pessoais e serão justamente esses que se sentirão derrotados ou vencedores quando fizerem a auto avaliação. São o que chamaria de jogadores ‘profissionais’.

Eu, pessoalmente, acho que sempre ganhamos ao jogar. Como não há regras, podemos querer jogar (amar), quantas vezes quisermos, com uma companheira ou um companheiro, separadamente ou com muitos ao mesmo tempo (jogo perigoso!) ou com o mesmo ou a mesma a vida (campeonato) toda. Este é um jogo tanto ou mais perigoso quanto a outra modalidade. Para sentirmos que estamos jogando bem é necessário que nos reinventemos o tempo todo, buscando novas jogadas, estimulando a parceira ou o parceiro a melhorar o seu jogo, sabendo que mesmo que estejamos com a sensação de perda, será sempre possível revertermos a situação.

Melhor pensando, chego à conclusão (momentânea) que o sofrimento será uma boa medida de nossos ganhos e que se sentirá vencedor aquele que acumular maiores perdas, porque amou demais. Esse é o amador, para mim, o melhor jogador…”.

15 / 02 / 2025 / Um Jogo*

Eu trabalho com eventos. Volta e meia atuamos fora de São Paulo. Em *2016, escrevi, acerca de um episódio na estrada, no retorno de um deles:

“Na passagem da Rodovia Anhanguera (um bandeirante, portanto, violento, para a Bandeirantes (Anhanguera e todos os outros), faz-se uma leve curva, à direita. Ao emparelhar conosco, que estávamos a frente, um grande e pesado caminhão transportador de sementes (algumas delas se chocaram contra o nosso para-brisa) imprudentemente quase nos empurra para junto da murada… Ao nos aproximarmos, pudemos ler na sua traseira: “O jogo está apenas começando”. Quem encara a estrada da vida como um torneio, só tem a perder! E, enquanto joga, esse tipo vai acumulando vítimas (para quem joga, perdedores) pelo caminho. Perdemos todos nós…”.

14 / 02 / 2025 / Sobre Pragas*

Nesta mesma época, em 2020*, publiquei o texto abaixo, em plena vigência da Pandemia de Covid-19. Como a replicar a atual realidade, só que na parte de cima no Mapa Mundi, vemos acontecer a mesma gerência da realidade como se, por sortilégio dos deuses, um senhor tangerina de parca capacidade administrativa imprime uma visão de mundo como se brincasse de joguinhos de dominação, a narcísica criatura buscasse manipular a ordem com atitudes violentas — anexação, deportação, invasão, destruição.

“Eu sei que tem muita gente gostaria de um Corona Vírus para apimentar a nossa vida de perigo. Não precisamos. Vivemos em um País com péssimo Saneamento Básico, causador de doenças endêmicas; crescimento de mortes por Dengue e Chikungunya; a volta da Paralisia Infantil, Sarampo e da Tuberculose, por falta de vacinação, resultado de pura ignorância estimulada pelas Redes Sociais — assim como ‘adquirimos’ este desgoverno —, que cogita diminuir a assistência aos doentes de AIDS, que resultaria no aumento de casos de doenças oportunistas, principalmente daquelas que se aproveitam de pessoas que não se previnem ou estão desassistidas por políticas públicas de saúde deficientes. O portador de AIDS normalmente se cuida, toma precauções e se medica convenientemente, segundo mostra estudos recentes. O comportamento de risco geralmente se dá por parte daquele que se considera eleito pelos deuses, geralmente ‘homens’ socialmente aceitos como acima de qualquer suspeita — os piores — que transmitem doenças às esposas, alheias a vida dupla de seus companheiros. Para piorar, a base de tudo — a Educação — que desenvolve cidadãos mais conscientes e aparelhados de conhecimento para sanear a Sociedade do lixo mental e da desinformação, está sendo alvo de um processo silencioso e paulatino de desmonte. O desinvestimento nessa área se inicia desde a infância, com a retirada de verbas para creches. Como estudante de História, parece que estou vendo acontecer no cotidiano uma representação de fatos antigos, de séculos passados, que julgava ultrapassados para este novo milênio. O que surge como exercício de distopia — um dos temas preferidos pelos escritores — está sendo reeditado como obra de péssimo autor. Já estou a prever a procissão de hordas de convictos caminharem, por ordem superior, até a beira da Terra plana para saltarem para o Infinito…”.

Foto por Julissa Helmuth em Pexels.com