05 / 03 / 2025 / Da Sacada*

Numa quinta-feira, dia 08 de Março de 2018, estreou o clipe musical “Da Sacada”, por Marcos Wilder (@marcoswilder). Protagonizado por mim a convite de um amigo da minha filha mais nova, e pelo próprio Wes, que entendeu que eu poderia desempenhar um papel que mostrasse um homem que caminha pela cidade de São Paulo, em busca de sentido para a sua existência. Foi uma criação coletiva, formulada livremente, ao sabor das imagens colhidas e pelas ideias do Wes que propôs o cruzamento entre dois sujeitos com uma boa diferença de idade. Poderia sugerir que fossem o mesmo homem (passado e futuro), ou um pai e um filho, ou ainda dois amantes. Foi uma experiência interessante e o resultado artístico me agradou bastante, principalmente pelo talento de todos os jovens cineastas envolvidos.

Realização: St. Jude Filmes

Direção: Weslei Matta

Ass. De Direção: Tarsis Sousa

Fotografia: Pedro Oliveira (@pesdrohol)

Edição: Lucas Paiva

04 / 03 / 2025 / Ainda Estou Por Lá

No domingo passado, dia 2, após realizar a sonorização da Matinê do Clube Círculo Militar de São Paulo, cheguei em casa na expectativa da transmissão pela TV da entrega dos Oscars. Época de Carnaval, um país devotado à festa de Momo, no entanto as atenções também estavam voltadas a milhares de quilômetros do Brasil, em Los Angeles, EUA, local da outra festa, mais formal.

O Brasil tem uma história bastante antiga com a arte do movimento. Inventado oficialmente em 1895 pelos irmãos Lumière, a primeira exibição de cinema no Brasil não tardou a acontecer. Em 8 de julho de 1896, na Rua do Ouvidor (Rio de Janeiro), numa sala alugada do Jornal do Commercio, foram projetados oito filmetes de cerca de um minuto cada, retratando cenas pitorescas do cotidiano de cidades da Europa

Apenas um ano depois já existia no Rio uma sala fixa de cinema, o Salão de Novidades Paris, de Paschoal Segretto. Atualmente, considera-se que o primeiro filme gravado no País foi Chegada do Trem em Petrópolis, de 1897. Esse filme grava uma estação, em Petrópolis, a chegada de um trem que carregava o Presidente Prudente de Morais. Assim como esse, a maioria dos filmes eram documentais.

O filme “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles foi indicado a três Oscars — melhor filme, melhor filme estrangeiro (ao qual venceu) e melhor atriz, com a magnífica Fernanda Torres, que interpretou a incrível Eunice Paiva, mulher de Rubens (o sensacional Selton Mello). Ela é mostrada na imagem acima, após as cortinas da sala, que recebe a claridade e desnuda a paisagem externa, serem fechadas por um dos milicos do Regime Ditatorial. Essa cena, especialmente, quando assisti ao filme, me trouxe dolorosas lembranças. Ao revê-la, tive uma estranha sensação de estremecimento e o sentimento era que eu ainda estava lá, naquele dia e lugar.

Foi o dia em que três desses homens trouxeram o meu pai para fazerem uma busca de armamentos do grupo no qual ele militava, do Partido Comunista Paraguaio. Logo que eu o vi, corri para abraçá-lo. Incontinente, me afastou de seus braços. Criança dos meus nove, dez anos, recebi aquilo como uma algo incompreensível, que me magoou… tanto, que fiquei por muitos anos avesso a abraços. Ação que só retomei quando por volta dos 27 anos, comecei a namorar a minha esposa. Prática que foi reforçada com a chegada das minhas três filhas.

Ver uma história com a qual tenho vínculos emocionais evidentes ser reconhecida por sua violenta delicadeza,, em que somos convidados a estar com uma família que tem retirada de seu núcleo àquele sobre o qual girava, engrandecendo a presença austera e forte da mulher que a sustentou e que tinha tudo para desmoronar, incluindo o acidente que deixou o garoto Marcelo Rubens Paiva tetraplégico. E foi através de seu registro em livro que essa história magnífica de enfrentamento da realidade, exemplo de resiliência de seus membros, além da sobrevivência da memória.

Aproveito para homenagear a minha própria mãe que perdeu o marido para a Ditadura, apesar dele continuar vivo, ainda que tenha sofrido todas as modalidades possíveis de tortura ensinada pelos militares americanos no cerne da Operação Condor. Nunca voltou inteiro. Como a vida é cheia de contradições, estou prestando serviço num lugar que os militares patrocinam, comemorando um prêmio oriundo do mesmo País que apadrinhou a Ditadura por aqui.

01 / 03 / 2025 / Trabalho Na Diversão

Em meus eventos, através da Ortega Luz & Som, passeio pelos espaços normalmente voltados para a diversão. Mas atento a todos os detalhes técnicos, fico relaxado apenas quando, depois de tudo, termina o evento e a programação é cumprida com sucesso. Sempre ocorre de algum detalhe ou outro não sair como o desejado. Muitas vezes sem aparecer para o público, para nós, que trabalhamos nos bastidores, resta aprendermos com os erros.

Nada é feito sem esforço, muitas vezes brigando com aqueles que promovem os eventos, mas mantém uma postura antiquada em que não somos tratados como colaboradores, mas simples “paus mandados” sem cérebro. Usamos a força física, sim, mas aliada à atuação da mente. Costumo dizer que vestimos a camisa do time para quem trabalhamos. Algo que só o tempo e a experiência de longo trato conseguem demonstrar cabalmente.

É uma relação de confiança, tanto para quem nos contrata quanto por quem somos contratados em relação a eles. O que nem sempre um contrato formal consubstancia. Com o tempo, vim a descobrir que 99,9% não significa 100%. Num dia, está tudo confirmado, no outro, não. Essa característica que, de resto, mostra um quadro típico da instabilidade das relações humanas, serve especialmente para a vida do brasileiro como um todo.

Quando decidi empreender essa jornada na prestação de serviço em algo “evanescente” — como são os eventos que se assemelham em característica com a montagem de um circo que ergue a sua lona em cada lugar — foi justamente por causa dessa instabilidade como, de resto, é a vida do brasileiro — mas que proporciona certa liberdade para a minha atuação. Quando mais novo, estudante de História percebi claramente que num futuro próximo, que acabou por se concretizar, as relações trabalhistas seriam intermediadas por códigos bastante variáveis, incluindo profissões tradicionais, por balizas que ainda viriam a serem estipuladas.

Essa cara séria acima demonstra uma postura que tento manter durante a minha atividade. Obviamente, ao mesmo tempo, não deixo de tentar manter uma perspectiva que dê espaço para a descontração, principalmente nas relações com quem trabalho. É uma questão de sintonia fina, como tudo na vida, principalmente quando trabalhamos. Pode parecer algo natural, mas há quem sinta que o trabalho impede que atuemos de uma forma mais leve como entes sociais que somos.