14 / 04 / 2025 / BEDA / 2021*

*Postagens de 2021. Sempre é bom relembrar, ainda que sejam de situações que demonstram o quanto fomos envolvidos por uma estratégia Negacionista e Anticonstitucionalista empreendida pela Extrema Direita Internacional através de seus seguidores fieis, inoculado inicialmente por um tal de Olavo de Carvalho, um falso filósofo, cuja a principal tarefa foi reunir em tópicos dispersos ideias sem base científica. Aliás, o ataque à verdadeira Ciência fez parte da estratégia. Esse movimento de origem norte-americana, chegou ao poder por lá. Como o mundo dá voltas, hoje quem sofre com estratégias anacrônicas (do tempo do surgimento do Nazismo) e despóticas são os próprios EUA.

13 / 04 / 2025 / BEDA / Em Busca Da Fantasia*

CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA

Desde garoto, fantasiava. Em determinado momento, comecei a colocar esses arroubos excessivos da imaginação em papeis amarrotados com tocos de lápis e canetas usadas. Nas redações escolares, as minhas professoras-leitoras me incentivavam a continuar a escrever. Mas cria que fossem incentivos costumeiros. Fora as tarefas, escrevia por compulsão ou necessidade textos que não mostrava a ninguém. O meu primeiro ouvinte foi o meu irmão, para quem lia histórias aventureiras que abusava de seres excêntricos, recheados de sustos e finais inesperados. Ele adorava. Cem por cento de aprovação.

Aos 14 anos, comecei a ousar mostrar para outras pessoas o que criava e obtinha certa aceitação. No Segundo Grau — o antigo Colegial — em outra realidade de relações, ficava a poetizar a minha vivência, impulsionada pela imersão na religiosidade. Era comum eu versar sobre a luta entre o desejo sexual e a contestação de sua expressão. O casto experimentava fantasiar sobre o sexo, ao mesmo tempo que se sentia um transgressor que desrespeitava regras autoimpostas. O devaneio com requintes de extravagância transformava tudo em ficção, a realidade adivinhada pela imaginação. Conseguia, talvez por isso mesmo, alcançar a verdade circunstancial do momento, em lúcida loucura. O que constatei ao ler alguns desses escritos depois de algum tempo, já experiente. Eu me sentia como que encantado.

Compreendi que o que poderia chamar de instinto estrutural me dava ferramentas para que a fantasia ficasse bem perto da veracidade dos fatos. Os escritos internamente obedeciam a uma lógica de tal maneira que dificilmente deixava pontas soltas. Embriagado de ficção, me descuidei. Professava a empáfia dos autossuficientes e a realidade dos homens aproveitou a minha distração para me socar na boca do estômago. Fui a nocaute. Permaneci na lona, beijando a morte por alguns anos. Quando me levantei, o sonho parecia ter acabado. Ou se apartado de mim e atravessado uma porta que se fechou. Comecei a desejar reencontrar a capacidade de sonhar feito um poeta doido que perdeu seu amor pelo caminho. 

Sinto falta de fantasia. Uma espécie de senso para o fantástico que se diluiu na nebulosidade dos tempos que envelheceu a mão, endureceu as articulações e empoeirou a eloquência da minha fala. Falhei. E falho a todo instante que deixo de crer na ilusão. Grávido da realidade dos homens, sangro a parir nulidades. Luto para reaver o deslumbrante movimento de estar incompleto em saberes e existir pleno de intuições. Quanto mais me abstenho de sonhar, mais eu me sinto longe da verdade pessoal. Cresci inversamente, para baixo, abismado, enquanto caía. Não acredito em esperança e o presente é como se fosse um limbo. Seco. Se antes fosse úmido feito a vulva da Quimera…   

*Texto participante do Coletivo CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA, pela Scenarium Livros Artesanais

12 / 04 / 2025 / BEDA / O Traço*

Traço e som contínuos, como se não fossem terminar.
Bastaria desligar um botão – linha e grito
se perderiam no infinito apagado
e mudo…
Como se estivesse seguindo um roteiro,
espero pelo túnel de luz…
Que não se abre…
Eu me incomodo, mas nem tanto.
Estava em paz e não me importaria que permanecesse
naquele estado estável de barco a vela em mar aberto
sem vento, sol sem quentura, corpo sem frio…
Até que…
A paz começou a me inquietar…
A quietude a me oprimir…
A solidão a me assediar – um monstro branco e totalitário.
Meus olhos fechados, deslocados de meu rosto amorfo,
começam a queimar…
Ainda que não respirasse, principio a sufocar…
Me pergunto se estou no Inferno – traço de nada.
Tento rememorar minha existência passada…
Percebo que a perdi…
Não sou e nunca fui nada…
Expandido por todos os lados,
sinto falta da contenção que a minha pele proporcionava.
Sinto a ausência do fluxo sanguíneo, da saliva e dos substratos
expelidos pelo sistema excretor – sensação vital…
Ouço murmúrios, como se fosse o som de um pequeno riacho
a passar – pequenas-pedras-que-rolam-entre-margens-sem-fim…
Por um instante, volto ao mundo material…
Pairando sobre o meu antigo corpo,
testemunho pessoas a pressionar o peito do sujeito
e atacá-lo com choques elétricos…
Sei que não sou mais ele.
Entre curioso e saudoso, não impeço (como se pudesse)
que continuem tentando…
Sei que não conseguirão…
Ou não quero que consigam.
A ciência total do que me rodeia – o Infinito
enceta me trazer felicidade…
Em contagem regressiva,
dou o passo traçado desde o início do meu tempo –
o desenlace – o traço final.
Antes de me perder no Nada pleno,
ainda ouço: “Hora do óbito – Oito e oito”…

*Poema de 2020

11 / 04 / 2025 / BEDA / Meus Bons Pecados*

Sou humano, portanto, carrego pecadilhos, pecados e pecadaços, exceto inveja. Por algum motivo obscuro, não invejo ninguém. Até tento, mas não consigo. Talvez porque seja soberbo demais para admitir. Vaidoso de meus predicados humanos, também não sou avaro quanto a demonstrar em várias circunstâncias e momentos a minha ira. Guloso, abocanho tudo ao meu redor, egoisticamente, como se pertencesse a mim. Preguiçosamente, curioso, espalho olhares que se disfarçam de tímidos, mas são vorazes, a desejarem comer-abarcar toda forma de vida. Creio, mesmo, que se aventurasse me adentrar em cada ser que se move, absorveria a energia que produzem – vampiro de almas, corpos e sexos que sou. Falacioso, por luxúria minto que amo apenas para possuir sem intenção de ficar. Abelha ou beija-flor de flores indefesas, alcanço com a minha boca todos os centros. Mas, no fundo, sou capaz de matar apenas para morrer de amor nos braços dela – somente…

*Texto de 2019

10 / 04 / 2025 / BEDA / Tanto Faz, Nada!

repudio quando cantam “vodka
ou água de côco (sim, eu acentuo!)
gosto quando fica louca
cada vez eu quero mais”…
a loucura é normalizada no sentido
de comportamento e se sentir dividida
perdendo as estribeiras o controle sobre o destino
se esquecem do sentido da demência alienante
sendo que a verdadeira loucura se faz com consciência
cônscio de si e aberto ao verdadeiro sentido da vida
que é se perder e se achar — se buscar
e buscar alcançar o outro a quem amar…

Registro fotográfico de 2014, no Litoral Norte de São Paulo.