Então, por uma dessas interações que ocorrem ao vermos um vídeo, que nos leva a outro e depois a outro, cheguei ao Cazuza. Talentoso e controverso, filho da classe média abastada que vivia a vida louca das ações marginais de boutique e exageros típicos dos jovens inconformados com a pequenez do cotidiano, foi então o encontro com a possibilidade da morte eminente que o fez grande.
Conviveu com a Morte como quem encontrasse “alguém” com quem pudesse dialogar de igual para igual. Nesse contexto, “O Tempo Não Para!” foi uma tradução que profetiza todos os tempos, a incluir os atuais. Eu me lembro da apresentação desse tema realizada ao vivo em um programa especial de televisão. Tanto quanto o público, que o ouvia pela primeira vez, percebi o peso do que dizia:
“Disparo contra o Sol Sou forte, sou por acaso Minha metralhadora cheia de mágoas Eu sou o cara Cansado de correr Na direção contrária Sem pódio de chegada ou beijo de namorada Eu sou mais um cara
Mas se você achar Que eu tô derrotado Saiba que ainda estão rolando os dados Porque o tempo, o Tempo não para
Dias sim, dias não Eu vou sobrevivendo sem um arranhão Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos Tuas ideias não correspondem aos fatos O Tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O Tempo não para Não para, não, não para
Eu não tenho data pra comemorar Às vezes os meus dias são de par em par Procurando agulha no palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer E assim nos tornamos brasileiros Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro Transformam o País inteiro num puteiro Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos Tuas ideias não correspondem aos fatos O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não para Não para, não, não para”…
*Há dois anos, em 2023, Rita Lee, se encantou definitivamente. Deve estar lá, entre os seus amigos extraterrestres, brincando com as estrelas que brilham tanto quanto ela no firmamento da eternidade da qual somos feitos… Por ocasião de sua passagem para outro estado de ser, escrevi:
RITA LEE, como é que você se sente em se tornar imortal? Como é ser um ser total? Não bastava ser a mais completa tradução de Sampa? Ser a mulher que traduziu como ninguém uma mulher, em “Cor-De-Rosa-Choque“? Não bastava reverenciar a vida de modo libertário, como em “Lança Perfume“? Não bastava cantar o inconformismo e a inadequação de todos os adolescentes e muitos adultos –– homens, mulheres, mais que mulheres, mais que homens –– em “Ovelha Negra“? E muito além, para quem não se adequa ao mundo? Homenagear o amor em “Mania de Você” e em tantas outras composições? De ser mutante, iconoclasta, vibrante, permitiu-se deprimir quando acontecia, expor as suas vísceras e surgir renascida. Maior personagem de si mesma, entre tantas identidades que assumiu. Não bastava ser maior que a Vida, você tinha que ser imortal, a partir do momento que nos deixa fisicamente. Rainha, padroeira da liberdade, entre outras rainhas, uma mulher, principalmente. Nosso amor imortal, vá reinar em outra dimensão!
Estou sentado à janela dum ônibus, a observar as cenas por onde passo. No Limão, percebo uma rua com o nome de “Luar do Meu Bem“. Gostaria de responder, caso me perguntassem: “Onde você mora? Moro em “Luar do Meu Bem“‘ — a cumprir o desejo de todo amante… Se estivesse no Bairro de Gabriela, em Feira de Santana, na Bahia, encontraria quem morasse em “Meu Bem Querer“, e seria mais gostoso ainda…
O Obdulio nasceu a fórceps no começo de outubro de 1961, no centro de São Paulo. Ainda criança, começou a se mover para a Periferia, primeiro à Leste, depois ao Norte. Desde cedo, quis ser escritor.
Renasceu aos 17 anos, vegetariano e a crer. Aos 27, renasceu casado e pai. Escolheu trabalhar como peão e dono de seu próprio negócio. Budista, demorou a lucrar. Franciscano, aceitou com resignação ganhar o pão com o suor de seu rosto.
O escritor adormeceu e, sem ter como se expressar, aquele Obdulio morreu no final de outubro de 2007, diabético, por excesso de amargor. O atual renasceu a carregar a memória do antigo homem que escrevia, a enxergar o mundo com novos olhos… ainda que a herdar a miopia do outro. E chega até este quadrante a se sentir redivivo… a cometer os erros dos novos, a renovar os seus ímpetos, a amar como um adolescente, a ser escritor, como sempre quis.
Tenho postado aqui, no WordPress, além de inéditos, meus escritos espalhados pelas redes sociais, principalmente pelo Facebook, além de textos – crônicas, contos, poemas – produzidos para a Scenarium Plural –– Livros Artesanais, em livros autorais pessoais, coletivos e para a Revista Plural. Meu objetivo precípuo é o de montar um mosaico que busque definir minha trajetória como escritor. Uma tentativa de encontrar um norte, uma linha mestra que, acima de minhas convicções cambiantes, explique para mim mesmo e, eventualmente para quem me lê, a realidade que nos cerca, pelo olhar de quem fui-sou. Talvez, por fim, identificar os caminhos pelos quais viemos a trilhar na atualidade-passado-futuro.
Este livro de crônicas foi o meu primeiro livro publicado. Nele, reúno textos antigos que já havia sido publicados nas redes sociais, além de outros, inéditos, escritos especialmente para compô-lo. Inicialmente, a minha intenção era chamá-lo de 55 — a idade com a qual o publicaria — em 2017. Mais tarde, adotamos a opção de REALidade. Real diz respeito à concretude da vida. Idade tem a ver com uso de fotogramas ou recortes de situações ocorridas permeadas pelo meu olhar de então. Gosto de muitos deles e ainda me surpreendo com algumas soluções encontradas em algumas ocorrências que explicam a minha visão de mundo.
Rua 2, encomendado há algum tempo, foi parido com dor, ainda que oculta. Apesar da difícil relação que tinha com o meu pai, a sua passagem me deixou assim, vamos dizer, sem palavras. Sequei. Eu, tão acostumado a escrever sobre qualquer coisa ou movimento, não encontrava temas para o projeto de contos curtos prometido meses antes. Em meio ao trabalho com eventos, ao ver um velho homem que passava de um lado ao outro na frente do palco onde a banda que sonorizava atuava, tive a ideia de escrever Baile Eterno. Estranhamente, esse conto não apareceu na coletânea que finalmente foi publicado. Como traço comum, as personagens residentes na Rua 2 da Periferia da Zona Norte de São Paulo passeiam pela dura realidade em que a vida está sempre por um fio.
Neste livro eu confesso dolorosamente o desamor por meu pai. Uma faceta do possível amor que ainda poderei vir a encontrar em algum tempo no futuro, escondido entre vertebras de meu ressentido peito. Mas há espaço para o afeto, as idas e vindas de um sujeito em constante ebulição. Que casou, criou três filhas, voltou a frequentar faculdade tarde na vida, que conseguiu cumprir o destino manifesto quando garoto em se tornar escritor.
Escrito numa fase em que passava por uma forte crise de ansiedade (quando nem admitia que fosse ansioso), foi um livro que me salvou a vida. Pode parecer dramático, mas o meu setor foi o mais afetado pela Pandemia de Covid-19, então grassando com toda a força, ainda mais a égide de uma gestão governamental que relutava em adotar as medidas sanitárias necessárias para debelarmos o mal que grassava então — uma tempestade perfeita! Fui buscar refúgio no Litoral Norte de São Paulo e o mar, o sal e o Sol de Ubatuba me ajudou a superar o estado mental deletério pelo qual passava — estava pronto a primeira etapa, ainda que apareça em como segunda parte no título do livro. Curso de Rio diz respeito aos rios canalizados em Sampa, perfazendo as avenidas de fundo de vale. Realizei uma excursão a pé por minha região como se fosse explorador de uma terra longínqua. Lugares aos quais havia ido apenas bem moço, revisitei e encontrei beleza na feiura, surpresa que tem mais a ver com a capacidade do brasileiro em sobreviver com denodo e espírito de superação.
Esse foi o livro mais polêmico que escrevi. Permeado por cenas de sexo, mostra o comportamento de personagens que compõe uma elite que leva às últimas consequências o desejo de manipular e controlar pessoas baixo o seu poderio econômico. O deleite que buscam não as impedem utilizá-las a seu bel prazer ou de eliminá-las por puro capricho. São pessoas resultantes de uma estrutura perniciosa de quatrocentos anos de tradição baseada na Escravidão como modo de produção. O mais incrível é que a ficção chega a ser corrompida pela realidade todos os dias…