BEDA / Descascando Cebola

Desde que acordei hoje, um tanto tarde, apesar da noite bem dormida, levantei meio melancólico. Estava feliz pelo trabalho no dia anterior que, apesar do frio de 11º C, chuva fina constante e correria, foi a contento. Abri a janela e o ar frio persistia em marcar a sua presença desproporcional, ainda que estejamos no inverno. Desci para tomar café — o dia não começa sem que o café me aqueça —, fui ao jardim conversar com as plantas, o que sempre me faz bem. Elas se deixaram fotografar.

Como já era tarde, fui preparar o almoço. Aproveitei que estava descascando cebola e misturei as lágrimas provocadas pelos compostos sulfurados, que se transformam em gases e irritam os olhos, com algumas verdadeiras. Aconteceu sem mais nem menos. Ou, antes, pela constante falta que sinto de algo indefinível. Ou até que escondo de mim mesmo dar a conhecer. Foram lágrimas que não precisava justificar, enquanto limpava a minha mente de coisas pesadas que repercutem em redes sociais, sem que queiramos ver, mas acabam rebatidas em imagens externas que invadem a nossa existência.

Preferi fazer uma postagem para deixar registrada a simplicidade de um dia de descanso com as minhas próprias imagens. Sempre com a participação de meus companheiros. Não é um descanso comum. O meu tempo não é tão livre, já que com textos a entregar, tenho que produzir. Mesmo que sofra para que uma escrita seja forjada, porque escrever mobiliza recursos pessoais que nos incomoda. Ao fim, pode se tornar uma “prisão prazerosa” para quem quer se entender livre.

Texto participante de BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

BEDA / Brisa Vento Ventania

quando percebi a brisa se aproximar
tocando arvoredos balançando folhas
beijando flores espalhando perfumes
vi que inspirava gentes expirava beleza
ainda bem que meus versos não buscam rimar
e já há algum tempo decidi não mais remar
ao contrário da correnteza
deixei a janela aberta
entraram vento ventania raios solares
derrubaram prateleiras venceram patamares
queimou a minha pele com sopros flamejantes
tornou significados ocultos em claros significantes
acrescentou desejares subverteu pareceres
mostrou que eu queria o que não imaginava querer
como advogar inocência se perdi por vontade o senso?
agora ouço estrelas mergulho em águas profundas
sem tanques de oxigênio para respirar um hiato
sinto o meu coração bater fora do peito
os meus olhos não enxergam o horizonte imediato
suspira por um futuro do pretérito imperfeito
saudade de algo que de acontecer não tem jeito
mas vivo o desejo que me consome
e essa falta também é viver
talvez a faceta mais intensa do meu ser.

Foto por Harrison Haines em Pexels.com

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

BEDA / Para Fernanda Young*

*Em 26 de Agosto de 2019, escrevi:

“Precisamos sempre confirmar a beleza, mesmo que haja momentos que não a toquemos. Como o crepúsculo de hoje, após dias nublados, ainda que nos faça lembrar que nosso país esteja a arder em chamas. Para Fernanda Young“.

Um dia antes, um domingo, a atriz, escritora, roteirista e apresentadora de TV Fernanda Young, de 49 anos, havia morrido pela madrugada, em Minas Gerais. A autora de séries de sucesso, como “Os Normais”, “Minha Nada Mole Vida”, “Os Aspones” e “Shippados”, teve uma crise de asma, da qual sofria desde criança, seguida de parada cardíaca. O corpo foi velado em São Paulo e o enterro foi no Cemitério de Congonhas, na Zona Sul da Capital paulista. (Fonte: G1)

Estávamos vivendo o desgoverno do Ignominioso Miliciano. Mas nada está tão ruim que não possa piorar. Ao final daquele mesmo ano, surgiria no horizonte a ameaça de uma Pandemia em escala global, que acabou por se confirmar. Poderia se dizer que Fernanda Young tenha sido poupada daquele processo que acabou por gerar quase 800 mil mortos, além de outros tantos atingidos por sequelas. A Covid-19 roteirizou um drama que talvez a escritora inventiva e talentosa não conseguisse superar. Tivemos no Brasil o que poderíamos chamar de “tempestade perfeita” — uma doença de origem externa unida a uma doença de origem interna. A que veio de fora agudizou um processo doentio que jazia subjacente desde a formação do País social e economicamente. Progressivamente, entranhada na mente do brasileiro, a nossa enfermidade jazia subjacente apenas esperando as condições dadas para que eclodisse como pústula.

Fernanda Young, de certa maneira, brincava com as nossas precariedades emocionais e psicológicas. Ríamos das atitudes de suas personagens, em composições em que nos percebíamos com nossas fraquezas estruturais, nossos preconceitos e maledicências. Creio que entendia perfeitamente o brasileiro classe média típico — que carrega todas as contradições de pertencerem a um estrato social amorfo — que se sente perto do Paraíso, que apenas observa da janela de seu carro usado, assim como se sente rei ao passar pelas zonas depauperadas. Classe mal informada ou que preferencialmente é chegada a má informação, recheada de fofoca, falsidades, desejos reprimidos e crimes. Mas seu olhar, apesar do gosto amargo, tendia a perdoar essa caracterização pendular entre o bem e o mal (ou o que é bom e o que é mau) como se fosse inevitável. Talvez, tivesse razão…

Texto participante de BEDA: Blog Every Day August

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BEDA / Violento

A minha amiga Tatiana e eu nos tempos da caderneta de entrada e saída do colégio.

Quando eu era garoto e o meu apelido era “Nanico“, pois era menor que os outros meninos, as agressões para impor a sua presença, percebi que para me defender se eu tomava a iniciativa e dava o primeiro soco, garantia que eu vencesse a briga, porque eu surpreendia o oponente pela iniciativa e agressividade. Com o tempo, mais notadamente a partir dos 12 anos, fui mudando essa forma de agir. Percebi que aquilo me machucava mais do que machucava aos outros.

De extrovertido, caminhei para o caminho inverso. Fui avançando cada vez mais para dentro de mim e me tornei um sujeito muito tímido. Tinha abertura o suficiente apenas para interagir com os outros garotos para jogar futebol. Como companheiros mais assíduos, só tipos esquisitos como eu. Mas amava as meninas de tal forma que as mantinha distanciadas para que não percebessem o quanto era difícil de lhe dar. O que demonstra um tanto de vaidade nessa atitude, algo que tento vencer ainda… e talvez sempre.

Avesso a registros fotográficos, a imagem que é mostrada acima foi “roubada”. Nessa época, eu estava tentando desesperadamente me libertar das amarras que havia tecido pouco a pouco, desde que decidi conscientemente mudar a minha postura agressiva diante do mundo imediato que me cercava. Inviscerado de tal forma, nem me embebedando conseguia me soltar. Essas bebedeiras serviram apenas para me afastar da bebida. Por dois anos, eu não podia sentir cheiro de álcool que já ficava enjoado.

No momento que vi a imagem acima, de dezembro de 1980, quando recém havia completado 19 anos, vejo um garoto que mal parecia ter chegado aos 15. As suas ações pareciam ser a de um adolescente. A sua timidez, de avassaladora altivez. O seu olhar baixo, de alguém que não se sentia à vontade para enfrentar o seu entorno. Em uma outra, dessa mesma época, apareço abraçado a livros do lado de professores. Dos livros, eu obtinha a sustentação das muralhas que construí para me proteger. Eu lembro que o meu mundo interior era bem rico, pleno de imaginação. Talvez até tivesse zelo em protegê-lo da invasão de outras pessoas. Apenas oito anos depois, abri os portões para alguém entrar…

Texto participante do BEDA: Blog Every Day August

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