Eu era uma árvore antiga Já vira milhares de cenas Já vivera milhares de vidas Por cada cabeça que passou por mim Eu me compadeci da maioria E me perguntava: de onde vinham? Para onde vão? Como conseguem viver sem raízes? Sem um lugar para chamar de chão? Cresci forte e via propósito Nas aves que abrigava Na sombra que projetava Comecei a adoecer Quando percebi os atos desrespeitosos O descaso com a minha saúde As pessoas alimentando o meu solo Com o lixo humano Senti que não servia mais para limpar o ar Aplacar os ruídos fortes Filtrar o ódio que os bípedes produziam Morri aos poucos Galho por galho Folha por folha Tronco e raiz Decidi, então, me deitar Sem ferir ninguém Na calada da noite Testemunhada apenas por meus pares Vertendo terra cor de sangue Para ser esquartejada E levada aos pedaços Para jazer em partes Longe das gentes E dos pecados…
*Poema de 2015, após eu ver uma das árvores da Praça da República que tombou durante uma noite fria de Junho. Participante do BEDA: Blog Every Day August.
Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Bob F / Denise Gals / Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Suzana Martins
Quando frequento a Avenida Paulista como visitante, fico na expectativa de que me revele alguns dos segredos por trás de cada parede. Não será os mesmos segredos de antes, porque por esta artéria de São Paulo passa sempre sangue novo. Não sei se lá estive antes de 1980, quando fui funcionário do primeiro McDonald’s de São Paulo – se tornando o meu primeiro e único emprego de carteira assinada. Aquela era a segunda unidade do Mac no Brasil. A primeira, do Rio de Janeiro, logo foi suplantada em movimentação financeira pela loja da Paulista e eu, que recebera a promessa de revezamento nas várias funções dentro da loja para entender todo o processo – com eventual progressão de carreira, fiquei restrito a uma só função. Foi o preço pago pela eficiência – que consistia em fornecer os ingredientes para os setores de finalização: carregar e descascar batatas (hoje, elas já vem cortadas), entrar nos frigoríficos – New York e Chicago – para pegar pães, latas de morango e chocolate para o Milk-Shake, carnes embaladas, xaropes de refrigerantes e outros itens. Cheguei a fazer sozinho todo o fornecimento. Decidi dar adeus àquele moedor de carne. O mais estranho de tudo aquilo é que eu era vegetariano desde os 17 anos. Prestes a completar 19, não via mais nenhum propósito naquilo, nem como experiência humana.
Paulista, construída pelas mãos de milhões – foto registrada em 2015.
Voltei a trabalhar na Paulista numa função totalmente informal. Passei a vender ingressos de peças de teatro através de um programa mensal. Mantinha o meu ponto em frente ao Teatro Gazeta– no qual viria trabalhar algumas vezes no futuro – acompanhando a movimentação intensa de estudantes do Curso Objetivo, frequentadores do cinema, do teatro e da Fundação Cásper Líbero. Apesar de não ter horário fixo, permanecia por oito horas na barraquinha. Ao final, eu a desmontava e a colocava num canto da entrada da portaria da Fundação, com o consentimento do pessoal. Cheguei a ser entrevistado o momento violento pelo qual passávamos, início dos Anos 90, por uma repórter sobre o tema. Logo fui deixado de lado, quando respondi: “a violência começa em casa…”. Não era essa a resposta que ela queria ouvir.
Pôr-do-sol, visão ao oeste da Paulista, num agosto de 2015.
Nos últimos 35 anos, em minha atividade de locador de equipamentos de sonorização e iluminação para eventos ao vivo, passei a trabalhar em vários pontos da mais paulista das avenidas e adjacências. Num velho casarão dos Anos 10 do Século XX realizamos uma “rave”, festividades em hotéis das alamedas abaixo, cerimônias em edifícios comerciais (como o da FIESP) e residenciais, SESC, bailes em clubes, diversos shows em outros espaços e ao ar livre. Pude conhecer a Paulista em todos os suas fases e facetas. Luzes e sombras. Percorri por caminhos por dentro do solo e pela superfície, assim como milhões de seres subterrâneos. Na Paulista, olhamos para frente, para o lado, para baixo e para cima. Sempre encontraremos algo que nos moverá do Presente para o Passado que nem sei se é o meu ou da consciência coletiva dos que viveram e morreram nesta via de várias mãos, construída por milhões de mãos.
Visão para o alto e além, ao final de mais um evento na madrugada, em 2018.
Outra lembrança que me pertence diz respeito a outra empreitada que me define – escrever. Nas imediações da Paulista, mais propriamente na Alameda Campinas, tive os meus primeiros contatos com aquele ser ainda a ser desvendado, uma outra sagitariana na minha vida, Lunna Guedes. Foi lá que pude privar de sua convivência, conversamos sobre projetos futuros, o planejamento na participação em lançamento de coletâneas pela Scenarium. Como La Lunna é dada a humores, em determinado momento mudamos para uma paralela da mesma Paulista– onde lancei Rua 2–, mais perto do Paraíso. Mas escrever fica longe desse mítico lugar – o bíblico – ainda mais que conversamos bastante com a Serpente no selo.
O Facebook me fez lembrar que, nesta data, há exatos 27 anos… eu tive uma filha — a Romy.
Ter também me parece um verbo insólito… todos nós — pais, que vivemos a paternidade em seu pleno alcance — sabemos que não somos nós que temos uma criança… é a criança que passa a nos possuir.
E, ter a Romy… me assegurou de que eu também me tivesse. Aconteceu em um final de semana, no qual se comemoraria o comercial Dia dos Pais — era um sábado… e foi mais forte para mim, pois ganhei o meu Presente: justifiquei o meu Passado e inaugurei o meu Futuro.
*Texto constante no livro de crônicas REALidade, o primeiro pela Scenarium Plural – Livros Artesanais, em 2017, participante do BEDA: Blog Every Day August.
Em 2015, o que era virtual se tornou real. Das páginas do Facebook, saltaram personas que se encontraram pessoalmente, principalmente através de um ser sofisticado e de intricada personalidade – Luiz Coutinho – um veneziano nascido em Minas. Depois, o visitamos em Brasília, onde se esconde e onde se expõe por trilhas da escrita. Lá, redimensionei a cidade estranha, de arquitetura transcendente e povoada por uma gente incrível, onde encontramos menos brasilienses de nascimento do que por opção. De forma indireta, o meu percurso de escritor ganhou direcionamento nessa época quando, ao visitarmos o estúdio de Maria Cininha, a maravilhosa criadora das Marias, Edward Hopper me uniu à editora da Scenarium Plural – Livros Artesanais, Lunna Guedes. O mestre da solidão visualmente escancarada foi, pessoal e simbolicamente, o patrono de um grande encontro.
Fotos: Deborah Matt
*Texto de 2015, participante de BEDA: Blog Every Day August
Você me chamou e não a ouvi Estava absorto na faina cotidiana Navegava pelos rios de asfalto da cidade Percorria os túneis de fuga terra adentro Para fora de mim mesmo Sempre apartado do meu corpo
O que poderia ser um sinal de independência Não se cumpria Pois os pensamentos arquitetados Por outras mentes Eram absorvidos pelos meus olhos Invadiam o meu cérebro E eram caminhados por minhas pernas Se incorporando à minha rotina Como se meus fossem através do poder de intervir Consumado pela arquitetura citadina Realizada pelos planejadores do ir e vir
Estava partindo para um lugar certo Porém não pensava nisso Mesmo querendo parecer borboleta Ainda que formada e liberta Voltava para o meu casulo Que me atraía Como tal, as minhas asas voavam um voo curto Mais decorativas do que eficientes E termino sendo um simples humano ser Fingindo um próprio querer…