B.E.D.A. / O Momento

Sob a Lua invernal, confidencio…

Há quanto tempo? Dependeria de cálculos totalmente aleatórios por tantas variáveis quantas forem possíveis, porque o aspecto mais interessante nessa coisa de demarcar o tempo, sem dúvida, é o quanto essa sinalização guarda relação com outras coisas-situações… Há aqueles que avidamente desejam sofrer a experiência, com urgência. Outros, são levados por circunstâncias diversas a vivenciá-la antes do que seria desejável.

Normalmente, o desejo de sofrer começa mais cedo ou mais tarde a depender das vivências e da intensidade de cada um. No meu caso, a primeira vez aconteceu três lustros depois de eu ter começado a ter atração pela primeira experiência, aos 11 anos… Me rendi aos estímulos, dentro e fora de mim. Mas foi outro dia, há mais de trinta anos, e o revivo em vários momentos com prazer misturado a certa decepção, indissociáveis.

Nesse ínterim, mudou alguma coisa em mim. Comecei a perceber que a vida era um jogo de cartas marcadas e que nós sempre perdemos no final. E contra quem jogava? Contra as imposições que obrigam um moço a viver isso como se fosse inevitável. Pois se era assim, não cairia nessa encenação coletiva. Essa falácia social de que deveria seguir o caminho ao qual todos estávamos destinados.

Concomitantemente, quanto mais negava fazer o rito de passagem que me consagraria “homem”, mais alimentava o fantasma. Sendo fantasma, foi se tornando quase indestrutível. Nunca chegaria perto de alcançar a pequena morte, desejada ardorosamente quanto mais a evitava. Até que o matei. O fantasma. Meu maior crime. Definitiva pena de viver a querer morrer. Dolorosa e deliciosamente. E sempre que a repito, é diferente. Algumas vezes, o sono logo vêm. Em outras, as sensações se espraiam por horas antes de voltar a tê-las, adicto que me tornei.

Quando decidi me jogar do despenhadeiro, sabia que não sobreviveria. Tinha que cumprir o ritual. O corpo a sofrer, pele sendo rasgada a cada contato com os seixos, o coração acelerado até parar de bater e morrer para aquela vida. O fluído a se espargir em jato sôfrego. Dor contínua. E outras dores. Muito prazer. Cumpri os ritos, me saciei em gritos, amanheci despedaçado, em gemidos. Morri moço, nasci homem. 

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Mariana Gouveia
Darlene Regina
Cláudia Leonardi

B.E.D.A. / Vovô Viu O Avião A Voar*

Após alguns dias seguidos de trabalho intenso, com poucas horas dormidas, eu estava em um estado de torpor que transitava entre a realidade e o sonho. As imagens em minha volta se sucediam como quadros oníricos, maravilhosamente ajudados por um amanhecer roseado do décimo mês do ano. Este Outubro, especialmente, estava mais libriano do que o habitual, em sua característica mais incômoda: indeciso. A Primavera a espalhar pólens e luzes difusas concorria para que tudo rompesse em possibilidades de ser estados passageiros.

Mentalmente, estava a brincar com os dados visuais que se apresentavam ao meu redor: asfalto, prédios, árvores, céu, carros, cores, vento, nuvens… e o Sol nascente… De carona no veículo, como sempre (pois não dirijo), sentia os objetos a me atravessarem enquanto passava por eles. Antes de uma faixa de segurança, parado no sinal vermelho, um avião cruzou o meu olhar, quilômetros acima, em voo para algum lugar… Escrevi no meu caderninho mental: “Vovô viu o avião a voar…”. Era apenas um jogo de palavras, uma aliteração em “V”, como muitas que fazia, na maioria das vezes sem sentido, mas que me divertia.

Em algumas ocasiões, levo a sério algumas das frases que se formam a esmo. Fico a especular o que poderiam significar subjetivamente. Analisei aquela formação especificamente e me dei conta que estando na idade em que muitos de meus contemporâneos são avós, eu não o era. Brinco frequentemente com as minhas filhas sobre essa possiblidade, contudo, oficialmente, não levo sequer em consideração que isso venha a acontecer tão cedo. Mais radicalmente, muitas vezes especulo que talvez isso nunca aconteça… “Vovô viu o avião a voar…”. O meu irmão, de certa forma, já poderia ser considerado avô, já que acabou de criar os filhos pequenos de sua primeira esposa e dois dos três deles já geraram herdeiros. Porém a prestar atenção ao trânsito em terra, condutor que era do nosso transporte, não foi ele a ter visto o avião.

Certamente, eu me referia a mim como sendo um avô de netos que viajavam de carona na imaginação da minha existência imponderável (e aparentemente sem sentido). Mais o tanto desse fluxo oral silencioso me despertou do estado quase catatônico. A conversa comigo injetou certo ânimo amargo. Especulei…  será que — bem lá no fundo — eu acredite que a minha vida apenas apresentaria algum sentido se eu testemunhasse os meus genes passarem adiante?

Ao me referir ao Humberto como um avó, não levei em consideração que sua filha consanguínea, gerada em seu primeiro casamento, perfilava com as suas primas, minhas filhas, não especulam que, para se sentirem mulheres completas, não precisam gerar uma prole e constituir uma família tradicional. Todas foram criadas para que não adotassem os parâmetros sociais patriarcais como sendo seus. Se um dia as minhas filhas vierem a me dar netos, será porque quiseram. E o farão por elas, não por mim. São independentes o suficiente para optarem por quaisquer caminhos, cada vez mais longe da cartilha ditada por nossa sociedade.

Ao me dirigir (ou estar sendo dirigido) para a minha casa, aproveitei a minha personalidade libriana e decidi virar o disco, para usar um termo antigo (lembrem-se, tenho idade para ser avô). Percebi que os rumos da minha vida estavam abertos em direção e sentidos. Isso era bom em mais de um sentido. Objetivamente, a própria contingência de poder ver, um dia, nascerem pessoinhas ligadas a mim por laços genéticos não deveria considerar particularmente importante. Ou, por outro lado, deveria considerar tão importante quanto qualquer nascimento de qualquer criatura existente no mundo. Na significação que tal acontecimento representa de precioso por fazer parte da grande aventura humana. Pensei na beleza e não apenas na porção acre que é estar presente neste mundo em Outubro de 2016, de Primavera oscilante, libriana, em que algum vovô, que não eu, deverá a estar ver, em algum lugar, aviões a voar… os apontando para seus netos.

*Texto de 2016. Atualmente sou avô de Domitila, filha da Romy; do Bambino, da Ingrid e de Lola, da Lívia. Todos, seres peludos de quatro patas.

Participam do B.E.D.A.:
Cláudia Leonardi
Adrian Aneli
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Mariana Gouveia
Darlene Regina

B.E.D.A. / Naturalidades*

Sou um homem citadino. Sonho morrer junto ao mar, mas moro em uma metrópole — a maior do Hemisfério Sul — longe das águas. Mesmo amplamente impermeabilizada por asfalto, há oportunidades de presenciar a expressão natural da existência. A observação da Natureza nos oferece maiores oportunidades de reflexão quanto à Vida. Mesmo que eu possa vir a parecer desencantado, o que sinto é a nossa intrínseca pequenez, aliado à humildade que devemos ter diante dos ensinamentos que ela nos presta.

Os abraços que recebemos…

As amarras que a Vida tece…

Somos silhuetas sob o céu e o Sol…

Somos sombras vivas…

O que é nebuloso?

O que é claro?

O que passa?

O que fica?

O que temos?

O que vemos?

O que somos?…

Talvez, a soma de tudo isso…

Talvez nada…

*Postagem de 2016

Participam do B.E.D.A.:
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Mariana Gouveia
Adriana Aneli
Darlene Regina
Cláudia Leonardi

B.E.D.A. / Primeira Pessoa*

“Hoje faz cinco meses que meu ano terminou. Prevíamos o fim do mundo. Para alguns milhões, realmente a vida acabou” — escrevi em Agosto de 2020, exatamente há um ano. As minhas atividades profissionais cessaram totalmente e poucas coisas me davam alento naquele momento. Uma delas foi o de estar fazendo um curso com a Lunna Guedes — Narrativas Na Primeira Pessoa — que me ocupou a cabeça enquanto extraía da editora da Scenarium o que pudesse me oferecer de seu conhecimento sobre a escrita. O texto a seguir, de meados de *Junho de 2020, é o resultado de um exercício de Texto Narrativo Descritivo em que reproduzo um diálogo com a minha mentora.

Lunna, quando me perguntou, ontem: — Cadê o senhor? Fugiu? — apenas pude lhe falar que aconteceu algo inesperado. O meu dia foi mais nublado do que outros — estas horas sem fim, grudadas umas nas outras, em que os horários não se impõem como antes:  manhã, tarde e noite.

— Meu caro, no meu caso, tenho conseguido me organizar. Tenho sido muito produtiva.

— Acho incrível quando diz que consegue a organizar a loucura. Eu, não. A novidade é que tenho sonhado muito. Dizem que sonhamos sempre. Mas, ultimamente, tenho me lembrado dos sonhos. Outro dia, sonhei que estava na Coréia do Sul, em viagem. Em outra ocasião, que eu era uma mulher e estava grávida. Muitas vezes, me apresento nu diante de muita gente vestida, mas a agir de maneira natural. Assim como todos não parecem se incomodar com minha nudez.

—   Pelo áudio, percebi que não estava bem…

—  Se posso ressaltar um efeito é que acordei sem me recordar do que sonhei. Acho que meus canais se fecharam. Ou minha memória obliterou os acontecimentos sonhados e a realidade se fez mais pesada do que costumeiramente.

— Porém, de modo geral, se sente melhor?

— Acho que sim. Ao contrário de outras manhãs, decidi ficar em silêncio. Realizei as tarefas caseiras mudo e surdo, sem falar com ninguém. Não ouvi noticioso por qualquer meio. Sequer quis ouvir música. Os únicos sons que alcancei foram os latidos das minhas companheiras peludas. De vez em quando, pediam carinho e eu soltava vocábulos e inflexões de nosso léxico particular. O que me deu alento foi a marcação da aula que teria com você, agora à noite, sabendo que seria a melhor coisa que me aconteceria no dia…

Participam do B.E.D.A.:
Mariana Gouveia
Adriana Aneli
Roseli Pedroso
Lunna Guedes
Cláudia Leonardi
Darlene Regina

B.E.D.A. / Veredas

Há quem garimpe a vida toda
em busca da pedra preciosa
e nada consegue,
a não ser restolhos —
poeira sem peso, pedregulhos
e o espinho da rosa.

Há quem se perca pelo caminho
e encontra a curva perfeita,
a reta para o coração,
topa com a pepita na terra aflorada,
um beijo perfumado
da inesperada boca da amada.

Há quem beba da água mais limpa,
desconhece a insipidez do ódio,
a tibiez da voz monocórdica,
desfila sem saber o que é medo,
canta a alegria e recebe amor,
mas é infeliz…

Há quem consiga fazer correr o sangue,
sabe estimular a troca e a revolução
apaixonada a bandeiras despregadas.
Quaisquer cores são suas,
o trânsito em cada rua tumultua,
segue o fluxo descontínuo,
arremeda o certo com o incerto,
mente verdades e constrói sendas
e, entre incensos, insensato,
trapaceia.
Vence.
É herói.

As veredas da existência são insinuantes,
indeterminadas, cheias de vieses
feito terminações nervosas,
crescentes na infância e na juventude,
esclerosadas na velhice.
Viver é bom. É ruim.
Como doença progressiva no coração da Terra,
somos bestiais seres da guerra.
Matamos e morremos.
No meio de tudo isso, vivemos…

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso