Meu amor, estou a me sentir como um astronauta fora da nave, a fazer um passeio no espaço… Deixo a minha mente vagar e sinto que não me importaria se as amarras que me unem ao módulo se desprendessem…
Sei que a sensação de plenitude, provocada por nosso amor, me acompanharia nesse voo sem volta pelo Infinito… Eu seria mais uma infinitesimal partícula que o compõe, a participar do concerto silencioso da imensidão sem fim – Universo em expansão…
Um dia, o meu corpo congelado talvez entrasse em órbita de algum planeta frio… Ao cair no solo seco e estéril, a semente do nosso amor viria a se reproduzir em vida, seres estações climáticas, chuvas, dias, noites, crepúsculos, luares, frutos, seres em multiplicação – borboletas, abelhas em flores e namorados ardentes, a se beijarem em bancos de praças sob árvores frondosas…
Há milhões de milhas da Terra, o nosso amor ressuscitaria e pariria um planeta…
Que cereja o que Deus quiser! Que assim cereja! Quer tenha sido, quer venha a ser, quer cereja! Hoje, acordei assim, sendo cereja! De vermelho translúcido, uma frutinha! Tão apetitosa, que me comi!
Abílio, rico empresário do setor imobiliário, viu declinar alguns porcentos o seu lucro por conta da Pandemia de Covid-19 e ficou um tanto contrariado por seu patrimônio crescer menos do que havia imaginado. Tinha por objetivo conseguir o seu terceiro bilhão antes dos 50 anos e percebeu que não conseguiria. Quem o conhecesse à distância até diria se tratar de uma pessoa “gente como a gente”, como diziam. Mas, de perto era temido por sua postura rígida e seca. Intimamente, ele se considerava justo. Um homem que dava valor ao trabalho.
Gostava de ir ao Litoral Norte, onde tinha duas belas casas em encostas opostas em uma bela enseada. Uma à Oeste, outra à Leste. Em dias limpos, gostava de ficar na primeira para ver o Sol nascer. Na segunda, para apreciar o astro tocar o mar no crepúsculo. Enfim, a Natureza o deixava extasiado, principalmente porque podia pagar para melhor apreciá-la. Sempre que podia, se utilizava de um dos seus iates para acessar baías afastadas e calmas, onde ficava à vontade para trazer empresários para fechar negócios e brincar com algumas das moças de Madame Vivi, a quem tratava com deferência por tê-lo ajudado a fechar grandes empreitadas. Certa ocasião, Abílio ganhou a amizade eterna de um empresário da área de produtos de alumínio, que se apaixonou por uma das meninas num desses encontros de negócios recreativos. Hoje, exibida como troféu, frequenta os melhores ambientes.
Diferente da sua esposa, mulher plana, sem arroubos, filha de uma das mais tradicionais famílias de São Paulo, que gostava de jardinagem e era admirada por sua singeleza. Ele até gostava, porém isso não a fazia distinguida para além do reconhecimento de boa dona de casa e boa mãe para seu casal de filhos. Os dois estavam a salvo na Oceania, estudando. Pensava neles, quando Abílio encontrou na imensa garagem da Casa Leste, as bicicletas que usavam nas temporadas de férias de verão. Decidiu pegar uma delas e andar na ciclovia à beira-mar construída, aliás, sob o seu patrocínio E saiu sem a presença escancarada dos seguranças. Há muitos anos sem pedalar, sentiu certa dificuldade, apesar de se cuidar fisicamente, principalmente por causa da coordenação motora. No mais, estava sendo uma experiência agradável até que a corrente da bicicleta se rompeu. Sabia de uma bicicletaria próxima e após a avaliação, o conserto foi orçado em 7 Reais. Achou caro. Sabia que a pecinha de conexão da corrente não passaria de 0,50 centavos. Pediu para que o rapaz resolvesse um probleminha na marcha para compensar. Como estava sem dinheiro e cartão, deixou a bicicleta e foi buscá-los em casa, que ficava a 1Km de distância. Aproveitaria para realizar uma caminhada.
A sensação de se sentir um homem comum, sabendo que não era, estava sendo uma brincadeira bem gostosa, percebeu. Deveria fazer isso mais vezes. Ao chegar na Casa Leste, lembrou que a sua carteira estava na do Oeste. De qualquer maneira, nela não carregava trocado. Ao ver Seu José, o jardineiro, responsável por boa parte dos elogios que as casas recebiam, perguntou se ele não teria 10 Reais trocados. Seu José tinha uma única nota, mas a estava reservando para comprar feijão quando voltasse para a casa. Garantiria o jantar e o almoço e o jantar do dia seguinte da família. Pensou em negar, mas o Seu Abílio estava tão natural e até sorridente, que não teve como recusar. Certamente, ele a devolveria mais tarde e até (quem sabe?) lhe desse algo mais.
Esta é a Brenda… Há quanto tempo ela está conosco, nos acompanhando? Há 13, 14, 15 anos? Hoje, está na casa vizinha, com a minha irmã. Vou visitá-la. Ao me aproximar, a amiga abana o rabo e tenta erguer a cabeça. Percebo a sua dificuldade e me agacho para acariciar o seu dorso magro de pelos duros e embranquecidos. Passo a mão delicadamente, sabendo que a sua estrutura enfraquecida sente os toques de meus dedos com o peso dos anos, apesar do amor. Antes de sair, ainda a ouço emitir um latido fraco, de despedida… Ela se foi pouco tempo depois desse nosso último encontro…
Trabalho em eventos. Sou locador e operador de equipamentos de som e luz para bandas e, eventualmente, sou tocador de música mecânica. Não confundir com DJ, que considero uma atividade que envolve o estudo de processos interativos entre as músicas, a transição bem feita entre os andamentos e os temas, além da produção de “tracks”, quando o profissional conhece melhor o trabalho pelo lado da sua construção. Semelhantemente àquele que trabalha na composição de quadros sonoros, trabalho sobre a canção invisível que ouvimos quando uma paisagem se apresenta diante de nossos olhos. Eu me expresso no coletivo, mas percebo que não sou acompanhado por tantos assim. Poucos são os que presenciam harmonia no caos ou fortes rumores de vida na calma visão de um panorama natural. Trabalhei neste final de semana em dois lugares diferentes por dois dias seguidos. O primeiro local, foi em uma sala no 16º andar de um prédio na região da Avenida Paulista, símbolo da expressão do que é esta cidade. Há menos fotos dessa primeira sessão em relação à segunda, porque creio que se tornaria uma “batida” repetitiva e sem nuances, já que estava cercado por todos os lados pelo mesmo diapasão. O segundo, foi na região da Represa Guarapiranga, na extrema Zona Sul, que não parece, mais ainda é São Paulo — seu perfil campestre. Uma de suas faces, de muitas. Pelo caminho e já no lugar, qualquer detalhe me chamava mais atenção do que o apelo urbano me causava. Em cima desses dois temas, espero que apreciem a música visual que estou a tocar.
Região da Avenida Paulista
Pela janela, cercado de cimento e vidro. Ouço conversas de janelas para janelas.
Abóboda no teto do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista
Região da Avenida Paulista
Vista da torre de uma igreja, em meio aos prédios. E, ao longe, à direita, o antigo Banespão, no Centro Velho ou Centrão.
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Ainda manhã, na transição entre o escuro da noite e a claridade do dia que se anunciava, estava a caminho do lugar onde trabalharia mais tarde.
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Estrada, árvores e cerquinha branca…
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Já clareando o dia, a neblina deu a nota neste tema.
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
A luz do dia a “nascer” e o sol a parecer brincar de esconde-esconde com o observador…
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Finalmente, o astro-rei se elevou esplendoroso dentre o arvoredo. No entanto, isso é tudo ilusão. Na verdade, o Sol é apenas uma pequena estrela na Via Láctea e é a Terra que se desloca pelo espaço, enquanto gira sobre si mesma. Porém, a canção que ouvimos é bela e queremos ser envolvidos por seu andamento.