12 / 12 / 2025 / O Mar

uma terça-feira perdida da semana no início de dezembro — um inesperado dia solar
empurrado pelo vento vindo do interior me encaminhei em direção ao Mar
pela previsão do tempo à tarde choveria como choveu
mas para mim não importa eu não busco o Sol
vou em direção ao líquido amniótico como a criança com saudade do útero da mãe
as águas límpidas já prenunciavam a chegada da frente que baixaria a temperatura
e revolucionaria o movimento das ondas em desencontros
como se um gigante balançasse um copo descomunal
sabia que mais tarde as águas estariam mais interessantes para quem busca o embate
líquido que me jogaria de um lado para o outro como acontecia com a criança fui-sou-serei
porque sei que assim morrerei
não que me considere jovial mas porque continuo a ver a vida como novidade
caminhando olhando para os lados com imensa curiosidade
um garoto perdido em corpo envelhecido…

11 / 12 / 2025 / Sobre o Tempo

Quando digo que tento viver um dia de cada vez, muitos poderão argumentar que devemos planejar o Futuro e, por isso, a nossa cabeça não deve ficar totalmente presa ao Presente. Ora, não vejo melhor maneira de estruturar o Futuro do que vivermos o Presente da melhor e completa maneira possível. A cada passo que dermos no bom caminho, agora, nos conduziremos para a melhor chegada, lá adiante. Como o que ocorre conosco nos dias que correm, é consequência direta do nosso Passado. Quando coloco “Presente”, “Passado” e “Futuro” entre aspas o faço porque o “Tempo”, para mim, é relativo. Eu diria até que o “Tempo” não existe, pelo menos da maneira que o estipulamos, medido em números. O que chamamos de “Tempo” diz mais respeito aos efeitos dessa contagem de números sobre a nossa matéria, o que, nesse caso, chega a ter certo fundamento. Porém, relaciono o “Tempo” mais a um estado mental e, dessa maneira, os três ”tempos” se confundem. O nosso ”Passado” apenas nos explica o “Presente” e o nosso “Futuro”, acontece agora.

10 / 12 / 2025 / PESO

“Querido Dia, me traga coisas leves”.
Logo respondi que sentia falta de algum peso.
“Fortes emoções?”
Não!
Peso físico… de um corpo sobre o meu…a emoção é condecoração…
Sentir-me-ia recebendo uma medalha no peito — ou uma facada no coração —
mas seria algo para sentir…
Tive uma sensação de leveza ontem à noite,
ao ver a Lua no horizonte ao mesmo tempo que sentia em minha cabeça desnuda
uma brisa calma e fria do Outono que se aprofunda a caminho do Inverno,
de estrelas brilhantes em céu limpo de nuvens…
Tenho sentido o peso das notícias excruciantes
que me açoitam diariamente a pele d’alma…
Mas a minha pele física quer outra pele contra a dela,
em conjunção planetária de corpos celestes,
signos em Sol… planetas que lhe circundam o fogo da noite,
passional, energético, explosivo, contumaz, inevitável…
Quem eu bem quero está longe…
Quem eu tenho por perto, se distancia…emocionalmente,
não me lê, é bem provável que não me queira mais…
qualquer dor que sente me acusa, porque estou junto…
seria o caso de separar caminhos…criar expectativas, sonhar a comunhão
e não a solidão…
Quero em outro corpo me emancipar,
quero o âmago do gozo, penetrar,
quero o peso de amar…

Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

09 / 12 / 2012 / Ausência Presente

de vez quando eu lembro de seus olhos furta-cor
muitas vezes eu a recordo sentindo dor
do corpo da alma do passado do presente do incerto futuro do amor
ao mesmo tempo elogiava o meu membro duro
que lhe trazia o prazer da fuga da vida fugaz enquanto mergulhava
no sentido do desejo puro
até que me disse sem pestanejar como se fosse vaticínio de cigana
que um dia tudo iria acabar quando decidi que era o momento
tempos depois revelou — você sabe que ainda poderia estarmos juntos
que a vida em equilíbrio precário devia ter seguido seu curso
que deveríamos estar no amando pelos cantos em pelo e pele
da cidade entre prédios e becos caminhos inusitados lugares
de esgares urros e gemidos onde todas vocês em si
se encontravam com todos os meus em mim
essa multidão ficou órfão de paixão num átimo
caminham a esmo em busca de outras bocas
em delírios sonhos e pensamentos
até perceberem que tentam voltar a se perder em nossas próprias bocas
nossos corpos nossos seres
e mesmo que na penumbra da luz indireta da tarde que esvai
é o que dizem a luz dos nossos olhares…

Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com

08 / 12 / 2025 / O Regresso

A chefe de redação me designou para fazer uma matéria sobre Tarot. Sabendo que eu era avesso a jogos de adivinhações e sortilégios, achou que seria interessante contrapor a minha descrença a algo que ela acreditava. Na verdade, ela cria em Madame Blue. De antemão, a consultou antes sobre a reportagem em que submeteria seu trabalho a um escrutínio materialista. Madame Blue não apenas aceitou como se sentiu especialmente impelida a demonstrar a conexão com o intangível para um céptico. Eu, por meu turno, adoro um desafio e lá fui encontrar a velha senhora que consultava em uma casa em Moema, numa dessas ruas com nome de pássaro.

A linda residência era uma das muitas da região que ainda não havia se transformado em espaço comercial ou derrubada pela especulação imobiliária. Ainda que eu considerasse essa coisa de jogo de Tarot uma atividade que visava arrancar dinheiro de incautos, estava disposto a realizar uma entrevista isenta. Apertei a campainha e me atendeu um homem alto e bonito, um tipo africano com a tez negra como a noite sem luar. Anunciou-se como Maurice e me levou até a sala onde Madame Blue já me esperava. Não se tratava de uma velha senhora, porém uma mulher que devia ter a minha idade, uns 35 anos, se tanto. Seu nome se fazia entender pelos profundos olhos azuis que me fulminaram assim que entrei.

Sem dizer muitas palavras, me pediu para sentar e que tocasse as Cartas do Destino, as embaralhasse, as dividisse e as reagrupasse. Após o que sacou uma a uma — “Mundo, Temperança, Sacerdotisa, Carro”. O que significava? Segundo Madame Blue, o retorno de uma mulher de minha vida que se afastara no tempo. Normalmente, eu não ligaria para aquele presságio, se não fosse o tom estranhamente grave empregado pela atraente vidente. Durante uma pausa que pareceu bastante longa, fiquei especulando sobre qual mulher seria, dentre tantas que conhecera. Retroativamente, fiz minha memória retornar do último afeto, meses antes, até às anteriores. Meu passeio pelo passado foi interrompido pela voz de Madame Blue que me chamou até sua presença azulada. Perguntou se, após a demonstração pessoal do seu afazer, não gostaria de realizar o questionário que preparei.

Ainda um tanto perturbado com o que a vidente dissera, continuei a perscrutar a minha lista bastante grande de antigos amores. De fato, apenas uma, dentre todos os bem-quereres, eu gostaria de reencontrar — uma menina do tempo de escola que havia me tocado especialmente. Uma que, como Madame Blue, tinha o céu nos olhos. Um pouco depois, apesar de certo temor inspirado pela figura a minha frente, mergulhei no mar de seu olhar. Nesse momento, foi a bela mulher que pareceu se incomodar. Parece ter visto algo que não esperava e me senti como que atravessado, como se ela buscasse algo através de mim. Perguntei o que estava acontecendo. Ela respondeu que via uma estrada de terra, longa e sinuosa, por trás da parede. Respondi que havia uma estrada de terra como essa na cidade onde nasci, no interior de São Paulo.

̶  Eu a percorria para ir à escola todos os dias. A minha casa ficava em uma de suas entradas. Eu estava justamente me lembrando dela agora. A sua predição da volta de uma mulher que amei me levou de volta à Dourado  ̶  a “Cidade Coração”.

Madame Blue pareceu ficar um tanto desconcertada. Baixou os olhos e repetiu: “Cidade Coração…”.

̶  Sim! O pessoal da região chama Dourado dessa maneira. Ela fica no centro geométrico exato do Estado.

̶  Você amou uma moça de lá?

̶  Não amei… Eu a amo. De certa maneira, o que disse sobre a volta de uma mulher importante me fez pensar a respeito. Dentre todos os relacionamentos que tive, apenas o que senti por minha vizinha de sítio valeria a pena reviver. Era um amor puro. Éramos muito jovens. Praticamente crianças. Mas foi tão intenso… Foi por causa dela que comecei a escrever. Quando vim para São Paulo, trocamos algumas cartas, porém fui me desfazendo dos meus laços com Dourado. Quando voltei para o funeral do meu pai, dez anos depois, Valquíria já havia partido para destino desconhecido.

Eu, enquanto falava, me ausentei de tal maneira que não havia percebido que os olhos de Madame Blue haviam se transformado em espelhos d’agua. Estranhei seu comportamento. Perguntei se estava passando mal. Ela acenou afirmativamente e perguntou se não poderíamos continuar em outra ocasião. Respondi que sim, que teríamos tempo. A reportagem estava programada para uma semana depois. Marcamos para dois dias adiante.

Na data marcada, fui recebido novamente por Maurice. Desta vez, seu rosto de deus africano estava iluminado por um sorriso indescritível. Caminhei até a sala que estava bem diferente da primeira vez que a vi. As amplas janelas estavam totalmente escancaradas, deixando a mostra um belo jardim interno. Madame Blue estava em pé, de costas, olhando para ele. Eu a chamei e ela se voltou lentamente. Sorria um sorriso familiar. O cabelo, solto e despenteado, me lembrou uma pessoa. A mesma da foto que ela me passou assim que me aproximei — meu amor douradense. Ainda que tentasse me conter, meu coração desembestou feito o alazão Corisco com o qual brincávamos. Eu reconheci a menina na mulher adulta. Lágrimas desceram feito as cascatas do Rio Boa Esperança. Valquíria e eu nos abraçamos. Nossas bocas com gosto salgado nos lábios se embebedaram de nós. As cartas haviam cumprido sua previsão, resgatando o meu passado e inaugurando o meu futuro…