12 / 04 / 2025 / BEDA / O Traço*

Traço e som contínuos, como se não fossem terminar.
Bastaria desligar um botão – linha e grito
se perderiam no infinito apagado
e mudo…
Como se estivesse seguindo um roteiro,
espero pelo túnel de luz…
Que não se abre…
Eu me incomodo, mas nem tanto.
Estava em paz e não me importaria que permanecesse
naquele estado estável de barco a vela em mar aberto
sem vento, sol sem quentura, corpo sem frio…
Até que…
A paz começou a me inquietar…
A quietude a me oprimir…
A solidão a me assediar – um monstro branco e totalitário.
Meus olhos fechados, deslocados de meu rosto amorfo,
começam a queimar…
Ainda que não respirasse, principio a sufocar…
Me pergunto se estou no Inferno – traço de nada.
Tento rememorar minha existência passada…
Percebo que a perdi…
Não sou e nunca fui nada…
Expandido por todos os lados,
sinto falta da contenção que a minha pele proporcionava.
Sinto a ausência do fluxo sanguíneo, da saliva e dos substratos
expelidos pelo sistema excretor – sensação vital…
Ouço murmúrios, como se fosse o som de um pequeno riacho
a passar – pequenas-pedras-que-rolam-entre-margens-sem-fim…
Por um instante, volto ao mundo material…
Pairando sobre o meu antigo corpo,
testemunho pessoas a pressionar o peito do sujeito
e atacá-lo com choques elétricos…
Sei que não sou mais ele.
Entre curioso e saudoso, não impeço (como se pudesse)
que continuem tentando…
Sei que não conseguirão…
Ou não quero que consigam.
A ciência total do que me rodeia – o Infinito –
enceta me trazer felicidade…
Em contagem regressiva,
dou o passo traçado desde o início do meu tempo –
o desenlace – o traço final.
Antes de me perder no Nada pleno,
ainda ouço: “Hora do óbito – Oito e oito”…

*Poema de 2020

11 / 04 / 2025 / BEDA / Meus Bons Pecados*

Sou humano, portanto, carrego pecadilhos, pecados e pecadaços, exceto inveja. Por algum motivo obscuro, não invejo ninguém. Até tento, mas não consigo. Talvez porque seja soberbo demais para admitir. Vaidoso de meus predicados humanos, também não sou avaro quanto a demonstrar em várias circunstâncias e momentos a minha ira. Guloso, abocanho tudo ao meu redor, egoisticamente, como se pertencesse a mim. Preguiçosamente, curioso, espalho olhares que se disfarçam de tímidos, mas são vorazes, a desejarem comer-abarcar toda forma de vida. Creio, mesmo, que se aventurasse me adentrar em cada ser que se move, absorveria a energia que produzem – vampiro de almas, corpos e sexos que sou. Falacioso, por luxúria minto que amo apenas para possuir sem intenção de ficar. Abelha ou beija-flor de flores indefesas, alcanço com a minha boca todos os centros. Mas, no fundo, sou capaz de matar apenas para morrer de amor nos braços dela – somente…

*Texto de 2019

10 / 04 / 2025 / BEDA / Tanto Faz, Nada!

repudio quando cantam “vodka
ou água de côco (sim, eu acentuo!)
gosto quando fica louca
cada vez eu quero mais”…
a loucura é normalizada no sentido
de comportamento e se sentir dividida
perdendo as estribeiras o controle sobre o destino
se esquecem do sentido da demência alienante
sendo que a verdadeira loucura se faz com consciência
cônscio de si e aberto ao verdadeiro sentido da vida
que é se perder e se achar — se buscar
e buscar alcançar o outro a quem amar…

Registro fotográfico de 2014, no Litoral Norte de São Paulo.