por que não me chama?
que esta chama que me abrasa queima que dói…
nos unimos para brincar de fogo
coisa de jovens
ainda que muito mais jovens já fomos
bebemos um do outro a água
que saciou a sede mas não matou a seca
renascida a cada estação de dias
rios desviados e ventanias
ciclos de algo que não conhecemos a profundidade
sentimos que ainda não chegamos ao fim
por mais que estejamos partidos em mil pedaços
como que espatifados contra a concretude da realidade
lutamos contra as forças inequívocas da natureza
que nos moldaram os corpos fadados a desejar
em evoluções de cantos músicas danças
esperas e ânsias esperanças
quando deitamos levantamos
pernas braços membros expectativas
vontades redivivas para não morrermos em vida
que viver é morrer todos os dias
para a solidão que nunca deixa de tentar prevalecer
sobre a bola azul
resta amar é muito mar mais que terra
a boca fala e a língua diz muito tanto
as mãos tocam as peles se pronunciam
as entradas se expõem às penetrações
e abrasões com pupilas dilatadas
movimentos de placas terremotos
volta ao mundo consumação do gozo e da dor
da roda que gira e roda que roda
sem sentido e sem nexo
o sexo é sexo
mas o amor
ah! o amor é foda…
Autor: obduliono
Fifty*
Há treze anos*, ao nono dia de outubro, completava meio século de vida. Como legenda da imagem coloquei que estava me sentindo meio a meio. Estava fazendo o Curso de Educação Física e conseguia, mesmo estudando com jovens com metade da minha idade, acompanhar as atividades práticas. Esta foto foi feita num ambiente festivo – um evento surpresa – que reuniu parentes e amigos em um buffet próximo de casa. Nunca imaginei que o sujeito que jamais havia tido uma festa de aniversário quando menino, pudesse participar de uma montada especialmente para si. Agradeço à todos que dela participaram. E, principalmente, à minha família, que pôde me proporcionar esse momento único.
Projeto Fotográfico 6 On 6 / Quinquilharias
Estou cercado de quinquilharias. Quando jovem, imaginava que viveria à margem da Sociedade, uma vida alternativa em que não precisasse de penduricalhos para me afirmar como pessoa. Eu estaria sempre em trânsito, mochila nas costas, usufruindo da Natureza para sobreviver, trabalhando para me sustentar minimamente. Sonhos de uma noite de verão juvenil. Passadas as décadas, estou atulhado de objetos, muitos supérfluos. Outros, nem tanto. Ao me casar, fui transportado para outra plataforma de vida. As circunstâncias me obrigaram a entrar como colaborador do Sistema.
Para complicar, fui criado por pais que passaram necessidades materiais. Guardavam tudo o que podiam. Principalmente, o meu pai. Graças às suas latinhas de manteiga que abrigavam parafusos pregos, porcas, elásticos e outros utensílios, e pelas quais era fascinado, comecei a escrever, desenhando as letras. Queria saber o significava aqueles desenhos que “enfeitavam” as embalagens. Comecei a reproduzi-las. Ao longo do tempo, o acervo de guardados do meu pai aumentou exponencialmente. Para ajudar, ele se tornou recolhedor de materiais recicláveis. Daí, pude começar a minha própria coleção de quinquilharias. As mais importantes, os livros.
Livro se come? Não, mas a depender do interesse que desperta em mim, eu o devoro. Livro é um item supérfluo em muitos lares brasileiros. Seria uma quinquilharia dispensável. É raro irmos a algum apartamento, por exemplo, e encontrar um cantinho em que haja livros dispostos a ocupar o espaço físico. O que não quer dizer que o morador não possa ter o hábito da leitura. As bibliotecas estão aí para suprir essa demanda.
Um dos motivos para guardar quinquilharias apresenta apelo sentimental. Os objetos expressam, de alguma forma, as lembranças que venha a ter de um determinado fato. No caso do trofeuzinho quebrado – cada vez menor ao longo do tempo – eu o recebi como prêmio num festival escolar de música. Esta envolto a tantos outros objetos, embalagens e dispositivos que larguei por ali até ser finalmente desprezado, como as pilhas que precisam ser dispensadas com segurança para não poluir o meio ambiente.
Eu tenho um quarto que fica fora da casa em que guardo parte do meu equipamento de trabalho e que não uso tão frequentemente, além de ferramentas e peças de uso eventual como pregos, parafusos, fitas, elásticos, lâmpadas e os recicláveis que dispenso para os catadores de recicláveis no dia da passagem do caminhão de lixo. Mas antes de ter uma parede reformada para organizar a bagunça, ela aumentou consideravelmente com o acréscimo de outras coisas, como esses quadros que estão à espera da parede reformada.
Eu tenho certa dificuldade de me desapegar de certas coisas. Uma meia velha e rasgada, a qual gosto muito, deixei a encargo da Tânia dispensá-la. Objetos que fizeram parte da história das crianças, também. A dispensa acontecerá, certamente, mas o exercício do apego é um tanto viciante.
Há objetos que ficam em trânsito, indo de lá para cá e em sentido inverso, igualmente. Vivem em estado “provisório-permanente”. Até que sejam recuperados ou definitivamente colocados fora de nosso alcance. Por um tempo, cumprem a sentença de ostracismo.
Gosto muito desses lagartos fujões! Retirados da parede da sala para reforma, ainda penso vê-los a nos observar largados nos sofás vendo TV. Ou escrevendo ou me vendo a participar dos cursos de literatura da Scenarium etc. Por enquanto, estão descansando em um ponto diferente, longe dos nossos olhos cotidianos.
Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Silvana Lopes
Coração & Mente*
Em 2021*, neste dia, escrevi:
“Há exatos dez anos (2011 – data da foto), fazia o 5°. Semestre do curso de Educação Física na UNIP-Marquês. Escrevia algumas crônicas postadas no Facebook, mas por respeitar muito a função, apesar de meu espírito de escritor, eu não me assumia como tal.
No Dia das Bruxas e da Poesia (em homenagem ao nascimento de Drummond) de 2011, fiz uma pequena postagem que achei pertinente. Desde então, sinto que não mudou muito o meu estado mental.
‘Gosto de pensar enquanto ando. Hoje, pensei bastante… Coisas do coração… Ainda bem que temos a cabeça para tal mister! Como já disse Pessoa, ‘se o coração pensasse, pararia’.”
Não poderia deixar passar a coincidência entre uma coisa e outra. No Brasil, hoje, é Dia do Saci-Pererê, também. O verdadeiro representante do imaginário mágico brasileiro a ser festejado nesta data, já que mistura elementos das culturas indígena e africana. Apesar do viés um tanto racista de Monteiro Lobato, o escritor ajudou a divulgar bastante a figura do garoto preto e pequeno, de uma perna só, sapeca como poucos, que chega num pé-de-vento – uma característica que demonstra o seu inconformismo e desapego aos “bons costumes”. Ser poeta, igualmente é nadar contra a corrente em tempos de mensagens rápidas e esquecíveis.
Dançando Em Mim
Não foi sob o luar,
na praia, mata ou montanha…
Foi na depressão,
plena escuridão,
prenha de minha solidão
semivivo entre semimortos,
iguais em devoção à profundeza rasa…
Mergulhado em mim,
eu era um Não em busca de Sim,
recusado,
a repelir qualquer luz
que me ofendesse o isolamento…
Distraído, fui pego de surpresa…
Tornei-me presa,
arrebatado,
sem pressa devorado
pela rústica delicadeza
de uma quimera
em corpo pequeno e ágil…
Eu,
imenso em nulidade,
tive meu universo iluminado
por estrela em céu sem lua,
planetas e sol.
A dançar,
chegou para me negar…
Ela me apresentou o amor,
recriou meu universo.
Passou a alimentar o meu corpo — sangue
submisso aos desejos,
a me tornar dependente de sua força rubra.
Quando o mundo acabar — massa de energia
absorvida por buracos negros,
ainda serei seu palco até o fim.
Coreografia da paixão — o amor
dançando em mim…
Foto por KoolShooters em Pexels.com









