Poética

A Poesia tem um poder circular
Sanguínea, etérea, cíclica, cinética
Mística e concreta, razão e paixão
Inspiradora, desestabilizadora, transcendente
Nos mata e nos faz viver o amor
E, do prazer, o gozo, a dor
O preenchimento e o vazio
Nos exalta e nos falta
É e, em sendo, deixa de ser
Para no fim encontrar sentido
Sem direção, livre ou rimada
No começo de tudo, no nada…

Foto por Yaroslav Shuraev em Pexels.com

BEDA / Descascando Cebolas*

Desde que acordei hoje, um tanto tarde, levantei meio melancólico, apesar da noite bem dormida. Estava feliz pelo trabalho no dia anterior que, apesar do frio de 11º C, chuva fina constante e correria, foi a contento. Abri a janela e o ar frio persistia em marcar a sua presença desproporcional, ainda que estejamos no inverno. Desci para tomar café — o dia não começa sem que o café me aqueça —, fui ao jardim conversar com as plantas, o que sempre me faz bem. Elas se deixaram fotografar.

Como já era tarde, fui preparar o almoço Aproveitei que estava descascando cebola e misturei as lágrimas provocadas pelos compostos sulfurados, que se transformam em gases e irritam os olhos, com algumas verdadeiras. Aconteceu sem mais nem menos. Ou, antes, pela a constante falta que sinto de algo indefinível. Ou até que escondo de mim mesmo dar a conhecer. Foram lágrimas que não precisava justificar, enquanto limpava a minha mente de coisas pesadas que repercutem em redes sociais, sem que queiramos ver, mas acabam rebatidas em imagens externas que invadem a nossa existência.

Preferi fazer uma postagem para deixar registrada a simplicidade de um dia de descanso com as minhas próprias imagens. Sempre com a participação de meus companheiros. Não é um descanso comum. O meu tempo não é tão livre, já que com textos a entregar, tenho que produzir. Escrever também é trabalhoso, mas uma “prisão” que é, ao mesmo tempo, prazerosa.

*Texto de 2023, neste mesmo dia.

Foto por mali maeder em Pexels.com

BEDA / Paciência

Na ausência do meu pai, a minha mãe pegou um empréstimo da sua família e construiu um quarto adjacente à lavanderia. Por um tempo, aquele quarto garantiu uma renda extra para a família na sua locação. A única locatária da qual me lembro foi uma senhora com um filho pequeno. Não estranhei que estivesse sem marido. Na Periferia, mulheres sós, com filhos, era regra, não exceção. Incluindo a minha mãe.

Ela se retirou quando o meu pai voltou da prisão política, o ocupando. Eu me perguntava da razão dele não dormir com a minha mãe, sendo casados. Nenhum dos dois me deu qualquer satisfação. Como cabia duas camas, fui dormir com ele. Passado um ano, ele já havia se arranjado em outra casa, com outra mulher e acabei por ficar com o meu irmão na cama que ocupava. A minha mãe acabou por se ausentar na ocasião em que minha avó paterna ficou doente, para cuidar dela. Após o seu falecimento, ela passou a morar na casa da Vila Dionísia. Os meus irmãos se mudaram para lá e acabei por ficar sozinho, cuidando da casa da família.

O meu pendor para a solidão se ampliou e passava boa parte do dia cuidando dos cães, após a escola, lendo e escrevendo. Eu e o quarto convivíamos bem. Como havia umas tintas que sobraram de uma pintura, eu as utilizei para fazer umas experiências visuais excêntricas muito influenciadas por Dali.

Há alguns anos, voltei a visitar o quarto, então abandonado a si, e as pinturas continuavam lá para demonstrar que eu não havia delirado tanto quanto imaginei. Uma palavra pontuava a imagem e resumia o meu credo — PACIÊNCIA — agora encoberta após a colocação de azulejos. Mas o sentido de eternizá-la em minha trajetória é uma busca contínua.