O Lenhador*

Ontem e hoje, utilizei uma serra à motor que alugamos para podar duas de nossas árvores — uma goiabeira e uma mangueira. Para a primeira, até tive que subir na laje da minha irmã. Na segunda, foi mais simples, pois acessei a varanda. Detalhes à parte, afora ser uma ação trabalhosa, tanto pelo peso do motor, quanto pela resistência de alguns galhos mais grossos, a cada um que caía era um perdão que pedia.

A necessidade da poda se dá por duas motivações: para impedir que entulhassem a calha de folhas, flores e eventualmente frutas, que juntas estão junto a coberturas; a outra, para que produzam mais e melhor. A mangueira está instalada em sua posição desde antes da nossa casa. De fato, a casa foi construída de maneira que não a prejudicasse. Ainda assim, nessa situação me imaginava um sujeito armado e perigoso, infligindo o mal à vida. Não ajudou em nada essa minha impressão, ao encontrarmos pequenos frutos presos a alguns dos galhos. Em pleno inverno, parece que não apenas a floração se adiantou, mas também a frutificação.

Por dois dias, feri, cortei, arranquei, serrei… Deixei marcas à força. Realmente, devo estar em uma fase muito sensível, para me sentir assim, malfadado. De toda forma, apesar de tudo, espero ser perdoado…

*Texto de Julho de 2021

Posfácio: Infelizmente, a goiabeira, de uns 25 anos, já atacada por formigas, acabou morrendo há um ano. Podá-la também tinha a intenção de melhorar a sua produção, cada vez mais escassa. A mangueira, de uns 35 anos, continua forte e linda.

Citadino*

Você me chamou e não a ouvi
Estava absorto na faina cotidiana
Navegava pelos rios de asfalto da cidade
Percorria os túneis de fuga terra adentro
Para fora de mim mesmo
Sempre apartado do meu corpo
O que poderia ser um sinal de independência
Não se cumpria
Pois os pensamentos arquitetados
Por outras mentes
Eram absorvidos pelos meus olhos
Invadiam o meu cérebro
E eram caminhados por minhas pernas
Se incorporando à minha rotina
Como se meus fossem através do poder de intervir
Consumado pela arquitetura citadina
Realizada pelos planejadores do ir e vir
Estava partindo para um lugar certo
Porém não pensava nisso
Mesmo querendo parecer borboleta
Ainda que formada e liberta
Voltava para o meu casulo
Que me atraía
Como tal, as minhas asas voavam um voo curto
Mais decorativas do que eficientes
E termino sendo um simples humano ser
Fingindo um próprio querer…

Foto por Erick Blanco em Pexels.com

*Poema de 2015

Pequenininhos* & Comestíveis*

Pequenininhos

“Paê, para onde está indo o Sol?”

“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol. E ele é apenas uma estrelinha entre milhões de outras na Via Láctea, em torno das quais giram outros tantos planetas como o nosso. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto deste Universo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.

“Pôxa, paê, isso eu sei… Sou o menor da escola…”.

*Texto de Julho 2016

Comestíveis

Bananas ao Sol invernal na manhã
desta terça-feira de feira.
Estão, a manhã e as bananas,
lindamente vestidas
de amarelo comestível…

*Poema de Julho de 2015

Muito Além De Uma Pisadinha*

A semana começou com notícias vindas de vários lugares do mundo a demonstrar o quanto as realidades se intercalam em maiores e menores escalas de reconhecimento.

No Brasil, começamos com as repercussões segundo dia da derrota da seleção brasileira de futebol na Copa América pela Argentina de Messi. Trazida para a “Pátria Amada” pelo Governo Central que, mesmo enfrentando a Pandemia, preferiu bancar a sua realização numa típica manobra da Antigo Império Romano de proporcionar o Circo e obter possíveis dividendos políticos. A final ocorreu na noite de sábado, quando eu estava trabalhando, situação que aparentemente voltará a ser menos ocasional, já que minha atividade envolve apresentações de bandas, cantores, bailarinos e/ou atores, com a reunião de pessoas em buffets, clubes e auditórios. O que poderá ser viável com o avanço da vacinação. Eu só soube do resultado após o término da decisão e não senti nada. Em nada parecia com o garoto que amava o futebol e sofria com as derrotas como se fossem pessoais.

O sentimento de ausência de alegria ou tristeza, certamente tem a ver com a situação que vive o País, em que comemorar vitórias ilusórias diante de tantas derrotas reais impingidas pela Covid-19 a fez campeã negativa de nossos dias. Quando vi a reportagem sobre o jogo e constatei a emoção de Leonel Messi, caindo sobre os joelhos sob o peso de sua história particular, um talentoso e vencedor atleta em seu clube, mas que nunca havia angariado um título pela seleção nacional, me alegrou um pouco. Do outro lado, estava o “menino Ney”, um sujeito que infelizmente não cresceu como homem e vive “pisando na bola”. Uma das crônicas de REALidade, meu primeiro livro, o enaltece no episódio de sua contusão na malfadada Copa de 2014. Daí em diante tem se mostrado um ídolo com pés de barro, ainda que talento futebolístico não lhe falte.

Em Wimbley, estádio lotado de torcedores de ambas as agremiações, vimos a seleção da Inglaterra perder a decisão nas penalidades máximas para o da “Azurra” italiana. Gostei da vitória da Itália, que mesmo estando acostumada a vencer títulos mundiais, ficou fora da Copa de 2018. A vitória está sendo considerada um sinal de reavivamento do seu futebol. De antigo destino dos sonhos de meninos do planeta bola, o País perdeu projeção internacional nos últimos 20 anos. Adotando a valorização da posse de bola e do ataque além da tradicional defesa forte, desenvolveu a formulação de um futebol total, estando há mais de 30 jogos sem perder.

A maior derrota inglesa, porém, se deu fora de campo. O aparente ressurgimento dos famigerados holligans marcou a realização do jogo. Houve ataques racistas contra os jogadores que perderam os pênaltis, de origem não caucasiana. Os torcedores racistas ingleses não conseguem alcançar que mesmo nascido como esporte de elite, o futebol se popularizou a ponto de penetrar em todos os recônditos do planeta, praticado por todas as etnias — de originários do Brasil, a asiáticos, passando por africanos, árabes e aborígenes. Eles não perceberam que só chegaram aonde chegaram por causa da miscigenação do time. Os rapazes pretos tiveram a coragem de fazer as cobranças numa decisão de tamanha importância, enquanto os brancos se eximiram de fazê-lo — não deveriam também serem cobrados por isso? Quando Saka teve seu chute defendido pelo goleiro italiano Donnarumma, considerado o melhor jogador da competição, chorou porque sabia o que viria pela frente, não apenas por ele, mas por outros de sua origem.

Em contraposição, vemos os campos vazios do Brasil atrasado na imunização por vacinas contra o SARS-COV-19, muito devido a “tenebrosas transações” nos corredores do Ministério da “Doença”, restaurantes e gabinetes palacianos de Brasília. Processo levado adiante por sujeitos que se arvoravam ilibados porque nunca se provou nada contra suas práticas espúrias — apesar de sabidas — ou porque considerassem seu comportamento “normal” dentro de um sistema viciado. Entre a hipocrisia ou a falta de consciência por parte dessa gente, voto pela simples desfaçatez: “me chama de corrupto, porra!” — enquanto a CPI do Senado sobre ações e omissões do Governo Federal continuará a buscar comprovações da política nefasta na condução da boiada porteira afora. Quanto ao perigosamente cada vez mais desconexo Ignominioso, vejo a possibilidade de quatro ocorrências: impeachment, renúncia (para evitar o processo e consequente inelegibilidade) ou tentativa de Golpe de Estado. Se houver eleição, perderá…

Acontecimentos considerados inéditos, em Cuba, houve passeatas em nome da liberdade política e por avanço na imunização precária, enquanto a notícia divulgada antes é de que sobrava vacina, a ponto de estrangeiros serem vacinados quando chegavam à Ilha. As imagens são inegáveis e não devemos deixar, por miopia ideológica, de verificar o que acontece, uma longa ditadura que empobreceu o País. Na Espanha, uma morte causada por comportamento homofóbico contra um gay de origem brasileira, ainda repercute no país inteiro, com passeatas e cobrança por justiça. No Brasil, nada inédito no país considerado o mais perigoso para quem se identifica para além da dicotomia de gênero, uma cidadã trans foi morta ao ter o corpo queimado por um adolescente que carregava, apesar de novo, os preconceitos passados de pai para filho neste sistema patriarcal que prejudica a homens, mulheres, transgêneros e identidades diferenciadas.

Em Fortaleza, um expoente (em termos de veiculação) da música popular atual apareceu, por imagens gravadas por câmeras de segurança interna de sua casa, espancando sua ex-esposa, estivesse ela sozinha, diante de outras pessoas ou de sua filha de nove meses, com socos, pontapés, puxões de cabelo e, não devemos duvidar, por palavras ofensivas de fundo moral. Para se justificar, o acusado culpou a vítima. Só se a mulher espancada buscasse se defender de alguma forma. Se há algo que enraivece quem agride é que o agredido se defenda da agressor. Quem ataca dessa maneira quer humilhar, rebaixar a vítima à condição de nada-ninguém, deseja pisar nela como se fosse um pano de chão. Para quem ataca, trata-se de uma “pisadinha”, para quem é atacado, torna-se uma quase morte, uma antevisão de seu aniquilamento. Pior ainda se for uma “simples” mulher que não deveria sair de seu lugar de pessoa de segunda categoria, de acordo com o pensamento do típico protomacho brasileiro.

Não busco resumir, a partir desses acontecimentos, quaisquer receitas a serem passadas adiante como modelos de viver e pensar. O que sei é que o sucesso profissional, artístico, financeiro e/ou social não engradece o Homem, mas a maneira como recebemos as vitórias e como lidamos com os nossos próprios insucessos na busca do equilíbrio mental, emocional, sentimental e espiritual. Esta última instância não tem a ver com religião dogmática, mas como uma visão transcendente da vida.

Para quem crê que tudo se restrinja à realidade imediata do mundo, ganhar o mundo muitas vezes é não o reconhecer em sua finitude tanto na questão de tempo quanto na de espaço. Somos seres mais e melhores, potencialmente. Basta querermos ultrapassar as limitações que tentam nos impor desde que nascemos através de ideologias segregadoras e por receitas de sucesso esporádico e finito. No entanto, e principalmente, enquanto estamos no mundo, é mister que defendamos os excluídos, os agredidos, os ultrajados e os que são mortos por uma política violenta e insultante da dignidade humana contra os poderosos de plantão. Que a Justiça terrena alcance e puna os representantes de um modelo de dominação que já não encontra lugar em nosso País e Planeta.

Quando Perdemos*

A bola veio de encontro ao craque. Poderia ter sido rebatida para o outro lado do campo, mas, como se diz, a bola parece procurar “quem sabe”. Muito provavelmente tem mais a haver com a noção de ocupação de espaço que os quem sabe têm do jogo. Era preciso pará-lo de qualquer forma!… E assim foi feito! O menino bom de bola, desde cedo acostumado a enfrentar os parrudos zagueiros dos times adversários, utilizava o seu alto desenvolvimento do tônus muscular esquelético para escapar meio segundo antes das entradas maldosas vindas de frente, do lado e até de algumas mais furtivas, por trás. No entanto, a oportunidade, unida à rapidez, chegou zunindo “zunigando”, zás-trás, com força e má intenção, com o joelho apontado para as costas do alegre inimigo, certeiro como uma bala perdida que atinge um inocente em seu berço.

Por um instante, a dor fez com que a vítima perdesse o ar e que, pior, tivesse a plena sensação de que ali se encerrava um ciclo. Bem possivelmente, chegou a passar por sua mente que a função para qual nascera para exercer também se encerrava. Acostumado a ser visto e reverenciado por sua irreverência, saía do “campo de batalha” ferido e em prantos, colhido que foi pelo trem desgovernado e carregado dos vários matizes das dores físicas e mentais.

Este país que produz tipos tão diferentes quanto um franzino garoto do litoral ou um “Hulk” no interior brasileiro, tal e qual a personagem de um quadro de Portinari, e os reúnem em um mesmo time, agora tem que ver os seus filhos darem um pouco mais de si para alcançarem a vitória contra uma equipe mais equilibrada, estável e bem dirigida, representante de uma nação que é mais desenvolvida em todos os setores da atividade humana, da cultura ao esporte, da economia à política. Bem por isso, não prescinde de se fazer prevalecer também no futebol.

Se passarmos pelos alemães, e chegarmos à final, não seremos melhores que eles nos outros aspectos, mas nesse, pelo menos, poderemos arrogar superioridade. O rato rugirá mais alto do que o leão, Davi derrubará o Golias e mais um épico moderno se consumará. Esperemos…

*Texto de 4 de Julho de 2014

Posfácio

O texto acima foi feito no calor da hora, tendo os dados imediatos como referência. O tempo passou, há dez anos as circunstâncias eram contraditórias, visto que claramente houve superfaturamento nos custos na construção dos estádios – uma festa para políticos de ocasião – enquanto o povo festava a possibilidade de um hexacampeonato. A maioria das personagens permanece como protagonistas de novos escândalos e outros foram ultrapassados pelas novas condições do movimento cíclico da História.

Uma dessas personagens que diminuiu em conceito foi o protagonista da crônica. Enquanto evoluía em termos de ganhos financeiros mais decaiu em minha avaliação pessoal. Apesar de absolvê-lo inicialmente de algumas peripécias, não houve como deixar de perceber que o ser humano em questão não passava de um macho escroto, politicamente aliado à causas espúrias, metido em negociatas, amigo de estuprador que pagou a fiança. Alguns diriam que foi fiel ao amigo. Eu diria que ele ajudou a si mesmo a fugir de acusações como a que o amigo se envolveu.

O então governo Lula esteve no centro das acusações de desvio de verbas na construção dos estádios. Precisou haver uma ameaça de Golpe de Estado no horizonte para reabilitá-lo como figura política viável e, apesar de ter as críticas, tem realizado um trabalho razoável, dada as condições contrárias, já o Congresso Nacional está eivado de agentes do Reacionarismo. Continuamos perdendo, de uma forma ou de outra…