Projeto Fotográfico 6 On 6 / Por Onde Andei…

“Por onde andei
Enquanto você me procurava?
E o que eu te dei?
Foi muito pouco ou quase nada…” (Nando Reis)

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Ano viçoso, de novo que é, em seu sexto amanhecer – Dia de Reis – me fez querer falar por onde andei nestes últimos tempos. Lembro que era comum iniciarmos o ano letivo com redações a discorrer sobre o que havíamos feito durante as férias. Naqueles anos, restávamos rememorar eventuais idas às casas dos tios ou descidas à Praia Grande, onde minha avó paterna tinha uma casa. Nessas viagens rumo à praia, comecei a desenvolver um relacionamento íntimo com o mar. Mesmo que, por algumas horas, em intervalo de trabalho em Caraguatatuba, no último dia de 2019, tive um encontro com as águas salgadas do tempo. Mergulhei em mim…

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Passei o Natal com os familiares da Tânia, em Arrozal, Distrito de Piraí-RJ. Desde que comecei a visitá-la, mudou bastante – ampliou o número de residências e moradores – mas não deixou de apresentar características de Interior – pessoas que se cumprimentam na rua, mesmo sem se conhecerem, casario antigo e movimento muito menor do que em qualquer bairro paulistano. No entanto está cada vez mais tornando-se uma extensão do Rio e seus problemas. Ainda resta quem adorne seus jardins de flores e luzes, observáveis através de muros baixos.

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Fiz uma caminhada por Arrozal, a revisitar pontos que não via há três anos. Busquei novos ângulos, tentando encontrar referências perdidas na memória do lugar, como se buscasse seu espírito antigo. A cada lugar, me ausentava do presente e tateava as paredes desbotadas para ouvir histórias que me contavam. Passei frente ao portal da Igreja de São João Baptista e, respeitosamente não entrei com os sapatos sujos de meus preconceitos e descrença. Apenas apontei a câmera do celular para registrar a simplicidade do altar. Quando fui postar a foto, divisei a presença de uma fiel, nos bancos à esquerda. A nave, aparentemente vazia, estava plena da verdadeira comunhão de quem crê e ora…

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No segundo dia de caminhada, logo cedo, tive a companhia de um jovem cachorro que se juntou a mim quando passei pela praça central. Não era por minha causa, mas pela Bethânia. Vim a descobrir que, mesmo castrada, ela ainda pode liberar o odor que atrai os machos da sua espécie para o acasalamento. Ela estava irritada com o assédio. E o tipo não ousava se aproximar tanto, não apenas por mim, mas também pela rejeição da donzela. Em uma das ruas, me detive uns dez minutos. Observei um belo cavalo que se alimentava do capim do terreno baldio. Ao me aproximar do gradil, Pi (o chamei assim devido ao símbolo que carregava no corpo) também se aproximou de mim. Não demonstrou medo e aceitou meus afagos em sua majestosa cabeça. Em tempo, eu não monto. Certa ocasião, tirei uma foto em cima de um cavalo manso, no qual as crianças subiam como se fosse o meu antigo cavalo de vassoura dos tempos pueris de cowboy. Depois do registro, logo que pude, desapeei. Terminada a troca de olhares e palavras mudas com Pi, voltei à praça, na tentativa de me livrar do acompanhante indesejado. Deu certo. Ao perceber que estava em um lugar com cheiros familiares, ficou a observar por um tempo nos afastarmos, como a decidir se deveria correr atrás de seu amor de verão ou não. Voltou o dorso e se foi.

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No último domingo de 2019, fomos, Tânia, Romy, Niff (um amigo) e eu, ao Bar Estadão, típico ponto culinário da cidade. Aberto 24 horas por dia, serve ao povo paulistano desde 1968, com movimento assíduo de boêmios, músicos e trabalhadores da noite e do dia – de empresários a empregados, em ambiente democrático. Estacionamos o carro em uma rua próxima e caminhamos através de uma feira livre em pleno Centrão. Estava no final do expediente. A turma da xepa se fazia presente, assim como os que estavam simplesmente atrasados. A aparente discrepância entre as tradicionais barracas de frutas e legumes e o fundo recortado por espigões, apenas acrescentava charme à esta cidade que amo. Mais tarde, subi à Paulista, fechada ao trânsito de carros. As pessoas, fora de seus veículos, carregavam os mesmos erros de bom comportamento na fluidez dos seres. Muitos desconhecem o Princípio da Impenetrabilidade, amparada na chamada Lei de Newton, que ensina que “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo”.

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Em minhas idas e vindas por estradas e caminhos, meu olhar passeia pelos cenários de forma mais rápida que os meus sentimentos possam objetivar. Porém, em suma, percebo crescer em mim um êxtase quase religioso pela Natureza. De horizontes a perder de vista a flores que me perfumam a imaginação; dos pássaros que voam livres na matas e montanhas, aos seres que pisam e rastejam na terra úmida ou dos que evoluem em rios e mares – tudo e todos merecem a minha reverência de coadjuvante que sou em uma jornada na qual estamos todos imersos. Que em 2020, possamos fazer crescer a consciência de unicidade e respeito à vida em todos os seus níveis. Sentimento crescente, principalmente quando parece que há grande interesse em crestar o chão e poluir as águas do planeta.

 

Também andaram por aí…

Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Mariana Gouveia — Lunna Guedes

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / É Noite, Tudo Se Sabe

É Noite

Durante alguns anos, dos 8 ou 9 até os 13 ou 14, eu tive um radinho de pilha japonês, com o qual ouvia programas logo de manhã e antes de dormir. Durante todos aqueles anos era um garoto auto recluso, que preferia músicas nem tão populares de Nat King Cole, Ray Charles, Frank Sinatra, Soul Music dos grupos negros americanos, além de MPB. A minha emissora favorita era a Rádio Panamericana AM, de São Paulo. Na maviosa voz de Ana Maria Penteado, a partir das 22h, tendo ao fundo o tema de ”Summer Of 42”, de Michel Legrand, era anunciado: “É noite, tudo se sabe” – frase que reverbera até hoje em minha mente. A sentença consegue dizer tanto sem revelar nada, porque não precisa. Se não sabemos, intuímos, o que é, muitas vezes, mais poderoso do que propriamente sabermos.

 

É Noite, Tudo Se Sabe (4)Muito do que se intui da noite é suscitado pelo luar. É quase sonho de leite a boiar na negritude do café adoçado de estrelas. Hora se mostra, hora se esconde por entre ramos e nuvens, vãos e desvãos de nosso lugar de observação. Há certas ocasiões que não somos nós a observá-la, mas ela a nos encontrar apartados de nós e de outros em imenso espaço vazio. Quando parece crescer, é para se fazer presente e mais próxima por piedade de nossa solidão.

 

É Noite, Tudo Se Sabe (10)

A noite é o tempo preferido para amar. A escuridão, que a muitos assusta, serve de cobertura para os amantes. Os encontros se dão após um dia inteiro de labuta, mas nada impede que ocorra na hora do almoço ou happy hour. Eu trabalho quase sempre em eventos festivos noturnos, se bem que a preparação se dê ao longo do império solar. O registro acima foi feito em São José dos Campos, onde estava a trabalho, com a visão do vale em movimento incessante de carros pela Dutra e vias vicinais. Em sugestivo lilás, um grande motel se destaca ao centro. No Brasil, motéis ganharam a conotação de lugar para encontros sexuais. Em um país de progressiva mentalidade repressora, imagino o dia em que templos como esse serão combatidos pelos defensores de templos concorrentes, aqueles que alegam professar outro tipo de amor, naturalmente a soldo. É o mercado das almas…

É Noite, Tudo Se Sabe (9)

Minha filha canina, Betânia, gosta de vigiar a vizinhança, tanto de dia quanto de noite. Seus latidos emitidos em função de quaisquer coisas que se movam ou produzam algum tipo de som, continuam ainda que a admoeste. Equilibrada em beira de laje ou na mureta, ela olha para mim, percebe que fico no mesmo lugar e volta a latir pelo puro prazer de se expressar contra a natureza do invisível. O que me resta é registrar a imagem, como faria um pai babão com as artes e artimanhas de sua criatura.

 

É noite, estrada

O negrume pelo caminho é riscado por luzes em formas variadas. Ainda que saibamos se tratar de automóveis – carros de passeio, vans e caminhões – seriam perfeitamente reconhecidos como objetos voadores-movediços não identificados, pela ilusão que causam ao passarem por nós, em qualquer sentido. O som contínuo do motor parece o de uma máquina de perpetuum mobile, monocórdico e entediante. O cansaço e o sono ajudam a produzir a sensação onírica de viagem astral. É noite, tudo se sente…

 

É Noite, Tudo Se Sabe (8)
Prédio Caetano de Campos, na Praça da República

Vivo em São Paulo. Quase não passo por algum ponto que não esteja minimamente iluminado. A luz artificial se faz de tão modo presente que sua ausência é razão de desconforto, como se faltasse algo a nos completar. Precisamos desses sóis particulares para nos identificarmos como seres. Não bastaria sabermos disso, temos que confirmar nossa condição de habitantes da pólis banhada em claridade. A noite nos pertence como tema, atrativo e contraponto – somos entes da luz emprestada e da sombra permanente. Sei disso, porque vivemos em noite eterna…

 

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Inverno De Cada Um

Até outro dia, vivíamos um dos invernos mais quentes e secos dos últimos tempos. Praticamente, um veranico de meio de ano. Apregoam que é culpa do El Niño. Para mostrar como a Natureza se manifesta em uma escala bem maior do que as marcações diminutas de nossos dias, o que acontece no Pacífico reflete nas costas do Atlântico – um continente inteiro pelo meio. No entanto, para cada um de nós, existe um inverno diferente. Para quem gosta do frio, hoje está sendo um dia ideal, assim como para os lojistas, que estão a se livrar do estoque abarrotado de peças deste “inverão” de 2019.

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Apesar da quentura que envolve a cidade, as sombras das manhãs invernais não se enganam. Oblíqua, a luz do sol, sombreia os corpos dos edifícios da cidade que amanhece. Para quem acha que a sombra esconde algo talvez não se dê conta que é a própria sombra que está a se mostrar como protagonista.

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Ainda sobre a luz invasora que antes se mostrava soberana – os obstáculos se tornavam adornos ao seu toque. Os perfis banhados, lambidos, vestidos e desnudos pelo sol ganhavam outra identidade. A vida acontecia tanto sob seu brilho como à sua sombra. Contraste digno de pintores renascentistas – “chiaroscuro” de Caravaggio – imposto mesmo aos olhos dos incautos-incultos.

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As nuvens nos dias claros do início do Inverno, antes do cinza total que se apresenta agora, desenhavam quadros que têm um quê de tempos idos e são bem-vindos aos novos olhares. Creio, mesmo, que enquanto puder ver, tudo se apresentará a mim como símbolo da novidade de existir.

Inverno

Outro dia, em uma dessas manhãs frias, um jovem casal passou por mim em passos céleres. O rapaz carregava o filho no colo, enquanto a companheira ao seu lado, bolsa e mochila. Iam de mãos dadas, algo tão incomum nos dias que passam, que chamou minha atenção. Em determinado momento, o moço trocou o filho de braço. Soltaram as mãos por instantes, até as unirem novamente. Dobraram a esquina e logo chegaram à porta colorida da casa onde entregaram a criança, a beijaram e a viram entrar confiante entre abraços das “tias” da creche. De novo de mãos unidas, encetaram o caminho em direção ao ponto de ônibus. Essas cenas aqueceram meu coração…

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Inverno de eclipse solar total. No entanto, aqui, em Sampa, às 17h39 do dia 2 de Julho – quando o fenômeno natural atingiria seu auge – o meu olhar em direção ao horizonte não viu o astro-rei encoberto pela Lua. Encontrei a tarde a declinar como sempre, nublada e tenuemente clara. E ela me encontrou meditativo e levemente obscuro. Certas manifestações ocorrem e não ocorrem: questão de ângulo e lugar.

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Finalmente, o Inverno chegou ao seu tempo. Aqui em Sampa, por onde passa a Linha do Trópico de Capricórnio e abaixo, nos Estados sulistas, costumamos sentir as estações mais ou menos delineadas em seus parâmetros “ideais”, somente que de modo bem mais suave que as terras do Hemisfério Norte costumam apresentar – Primaveras floridas, Verões “callientes”, Outonos desfolhantes, Invernos nevados. A chegada da frente fria à cidade, trouxeram chuvas torrenciais, o maior índice pluvial para um único dia desde 1976, quando eu tinha de 14 para 15 anos de idade. Tentei lembrar se a mesma situação foi marcante, mas tantas águas passaram por mim desde então que não consegui me deter sobre qualquer fato relevante em qualquer das estações daquele ano. Estou muito ocupando com o hoje-agora-instante, pesado o suficiente para dar alguma importância a fatos passados, ainda que influencie meu Presente. Temperaturas de -4ºC no Rio Grande do Sul, geadas e eventualmente nevascas intermitentes atraem pessoas que se sentem transportadas para fora do Brasil tropical. Enquanto pessoas, entidades e campanhas do agasalho tentam minimizar os efeitos do frio naquelas que sofrem a condição de viverem no Brasil real. É o Inverno de cada um – dores, amores perdidos, corações conquistados e partidos – frio e calor. Antes assim, que o que é morno não me move…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Serendipitia / Três Horas Por Três Minutos

Há situações que ainda que não esperemos de nenhuma forma, acabam por nos trazer um grande prazer, muitas vezes pelo ineditismo da situação ou porque, se fôssemos imaginar que acontecesse, seria um exercício de impossibilidades, como ganhar no jogo, principalmente quando não jogamos, a se concretizar de maneira tal que talvez só um sonho explicaria.

Em um desses sábados, pelo Whatsapp, Weslei Matta, jovem cineasta – diretor, roteirista, editor de imagens, cinegrafista – que conheci através de minha caçula, em um desses encontros de contemporâneos intemporais, me consultou sobre a disponibilidade de atuar como Don Alighieri, um mafioso do futuro. O ator que o faria, ficara impossibilitado. Acertado para a manhã de quinta-feira seguinte, restaria a mim, em cinco dias e meio, decorar as falas, encontrar o tom de expressão exato de alguém poderoso, convicto de sua invencibilidade e… morrer.

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RONIN: Eu achei que você seria um desafio, Don, mas estou decepcionado… DON ALIGHIERI: Você trapaceou… Seu hacker maldito!

O set para a realização das cenas “no armazém” teria lugar no Instituto Criar de TV, Cinema E novas Mídias, fundada em 2003, aproveitando construções típicas do início do século XX, comum na região, de indústrias ou armazéns desativados remanescentes do surto desenvolvimentista paulistano do início do século passado. O Bom Retiro, um dos bairros mais antigos da região central de São Paulo, sofre um rápido processo de especulação imobiliária voltada a edificações de condomínios residenciais. Os antigos conjuntos de graciosas casas operárias pouco a pouco deverão se extinguir e as ruas por hora tranquilas darão lugar ao esquemático tom monocórdico dos novos empreendimentos.

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Não seria a primeira vez que atuaria sob o convite de Wes, como eu o chamo (em referência a outro cineasta – Wes Craven). Na outra oportunidade, Wes me dirigiu, mas desta vez a direção caberia a Pedro Oliveira, que eu conheci como cinegrafista de “Da Sacada”, clipe baseado em uma canção de Marcos Wilder, pela mesma St. Jude Produções. Por alguma razão insondável, acharam que poderia atuar daquela sorte e diante do imprevisto, voltaram a me chamar. Acordei cedo, com a cidade lavada em um típico dia paulistano dos bons tempos da garoa e lá fui eu para a região do velho Bom Retiro, para as cenas programadas.

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Instituto Criar de TV, Cinema E novas Mídias

Wes conhecia o espaço porque estudou no “Criar”. A diária estava programada para até às 14h30. Cheguei a tempo de poder ver outras cenas já gravadas do primeiro episódio de “2099”, que se passa num futuro pós-apocalíptico em que os jogos virtuais se tornam fonte de disputas entre forças antagônicas. Na trama, sou Don Alighieri, capo da realidade virtual que enfrenta Ronin, um matador de aluguel, personagem manipulado-incorporado pelo jogador Jon no mundo real. Ficamos à espera dos outros atores participantes das cenas. O ator amador se sentia estranhamente tranquilo, um veterano, não apenas na idade. A expectativa era que tudo corresse bem, principalmente porque sabia do talento dos jovens envolvidos no projeto. O que veio a se confirmar plenamente.

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Durante as filmagens, a discussões sobre como se desenvolveria as tomadas dos planos e ângulos das ações eram interessantes e demonstravam a capacidade de cada um dos envolvidos. Todos demos sugestões – atores e realizadores – acatadas aqui e ali –, mas o respeito pela liderança de quem conduzia a filmagem era inquestionável. O saber se sobrepunha à vaidade e a busca das melhores soluções para que chegássemos ao melhor resultado me permitiu viver uma realidade virtual-exemplo do que poderia ser a realidade palpável deste País. Como referência cruzada, o escritor não pode deixar de notar que até um livro de Bukowski – O Amor É Um Cão Dos Diabos – fez as vezes de apoio da câmera para proporcionar o ângulo exato para a realização de uma cena.

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Como um ser humano comum levanta um outro pelo pescoço com apenas uma das mãos?

Poucas vezes me senti tão bem. O velho encontrou, entre pessoas que carregavam um terço a metade de sua idade, o amor pela realização da arte – transformar ideias e pensamentos em algo vivo-em-movimento. O jogo entre realidade pós-apocalíptica e virtualidade de alguma maneira encontra ressonância nos tempos que vivemos. Por três horas trabalhamos para que três minutos de ação se tornassem uma visão consubstanciada de algo concreto – ilusão de outra vida – espírito ganhando um corpo. Iludir para entreter-fazer-pensar é um sucedâneo para a existência iludida imposta cotidianamente por mistificadores-algozes que grassam na cena brasileira.

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“E você me inventou e eu inventei você e é por isso que nós não damos mais certo.” (camas, banheiros, você e eu…; p.129) – Charles Bukowski, in O Amor É Um Cão Dos Diabos, 1977

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meus Livros

Sou escritor. Ao falar sobre “meus livros”, poderia citar apenas dois, oficialmente lançados – REALidade e Rua 2 – pela Scenarium. Outros, são projetos em andamento-inacabados. Aliás, mesmo que impressos e publicados, os citados também são – coisa de quem é escritor-re-escritor – ao lermos o que publicamos, tudo merece reparo e revisão. Dos livros publicados por outros autores, há alguns que envelhecem bem e ganham possíveis reinterpretações a cada leitura. Com alguns outros, sentimos certo gosto de passado mofado. É comum não desejarmos voltar à suas páginas para que não percam o encanto da primeira leitura. Nossos “clássicos” particulares – aqueles livros que nos influenciaram definitivamente – muitas vezes montam uma biblioteca inteira e remontam à nossa história pessoal, a ponto de mudarem nossa visão de mundo e inspirarem a escrita. Exporei a seguir, arbitrariamente, os livros que formaram meu caminho como leitor-escritor-leitor.

Meus Livros

A palavra “alfabeto” é uma das mais incríveis que conheço. Remete à cultura grega, formadora de nossa estrutura mental-filosófica. Fico a imaginar que se conversássemos com um sábio grego antigo, talvez conseguíssemos nos fazer entender, assim como ao contrário, ainda que aquelas mentes privilegiadas, nas mesmas condições no alcance de subsídios que temos hoje para nos desenvolvermos, estariam à frente de nosso tempo, se não tivessem ímpetos de fugirem correndo da civilização, buscando entender porque tanto desenvolvimento material não redundou, necessariamente, em aprimoramento humano. O livro didático de alfabetização “Caminho Suave” deu ensejo para que eu aprendesse a ler de maneira prática. Lembro de outros livros escolares, mas esse é o clássico de quem frequentou a escola desde o final do Anos 40 e o foi pelos 50 anos seguintes, até meados dos Anos 90. Apesar de ter dado lugar a publicações para atual alfabetização de orientação construtivista, ainda são vendidos mais de 10.000 exemplares por ano com a mesma formatação.

MEUS LIVROS - 1

Alfabetizado, comecei a ler o que caísse em minhas mãos – de anúncios comerciais a bulas de remédio. Na biblioteca da escola, busquei os autores disponíveis. Já ouvira falar de Monteiro Lobato e Júlio Verne. Do primeiro, me apossei de “Reinações de Narizinho”. Do autor francês, “20 Mil Léguas Submarinas”. As aventuras fantásticas elencavam minha preferência literária. Apesar de atualmente ser considerado um autor que poderia figurar no Índex do Politicamente Correto como passível de revisionismo – o que considero absolutamente ridículo – me influenciou definitivamente. Ao reler há pouco tempo um trecho de sua obra, encontrei maestria na confecção do texto e voltei a viajar no mundo particular que criou no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eventualmente, seu comportamento público sofrerá, sob a visão atual, restrições e questionamentos, entre elas, as críticas feitas à Anita Malfatti, algo estranho para quem tinha capacidade em criar conexões com o fantástico, porém não conseguiu escapar do nacionalismo estreito.

“Entrando, verificou que era assim. O guarda dormia um sono roncado. Esse guarda não passava de um sapão muito feio, que tinha o posto de Major no exército marinho. Major Agarra-e-não-larga-mais. Recebia como ordenado cem moscas por dia para que ali ficasse, de lança em punho, capacete na cabeça e a espada à cinta, sapeando a entrada do palácio. O Major, porém, tinha o vício de dormir fora de hora, e pela segunda vez fora apanhado em falta.” – In: Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato

Meus Livros - 2

Não temo ser redundante quando se trata de Machado de Assis. O escritor abriu, com a sua obra, os meus olhos para o comportamento do brasileiro, em suas raízes. Invadi portas e janelas das casas nacionais. Quase uma pesquisa antropológica em forma de literatura, comecei a ver suas personagens a passear pelas ruas que caminhava. Passei a identificar Bentinho, Capitu e o agregado José Dias; os irmãos Esaú e Jacó; Brás Cubas, sua amante, Virgília (e o marido Lobo Neves); Quincas Borba e as pessoas e situações evocadas por Aires, em seu memorial. De “Memorial de Aires”, inclusive destaco este trecho que me deu vontade de relê-lo:

“9 de janeiro

Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: ‘Vai vassouras! vai espanadores!’. Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.”

Meus Livros - 3

Pelos poetas, comecei a tomar gosto quando moço, na escola. Apesar da época, ainda que pudesse parecer conformista, ao apresentar os poetas tradicionais, através disso tive contato com o lirismo. Sem passado, como contestarmos a realidade atual sem revisitarmos o que já foi produzido? Com certeza, ao invés de criarmos “novas” expressões (há algo “novo”?), sem conhecê-los, corre-se o risco de tentarmos inventar a roda – uma absoluta perda de tempo criativo. Naquela ocasião, conheci Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Álvarez de Azevedo, Olavo Bilac. Apesar de Augusto dos Anjos representar certa revolução com sua temática, apenas ao tomar contato com os modernistas pude realmente me sentir em casa, com Mário e Oswald. Até que aconteceu Drummond, outro Andrade. O único parentesco entre eles, a energia criativa. Drummond representou um olhar revelador sobre como a poesia pode estar nos recantos mais insuspeitos. Antes de me inteirar sobre Pessoa e, mais recentemente Al Berto e Herbert Hélder, outros poderosos poetas da Língua Portuguesa possam me impressionar, os brasileiros são os que coloco entre os autores dos meus livros, porque me formaram…

“Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.” – Carlos Drummond de Andrade

Meus Livros - 4

Coloco entre meus livros uma obra cujo o valor literário talvez não seja considerado alto, mas que orientou o sentido para onde quis caminhar desde que o li. Livro místico, não era igual aos que já havia tomado contato antes, ao estilo de Carlos Castañeda. Feito um Beatle, encetei rumo ao Orientalismo. Comecei a escrever, principalmente poemas, em que a divisão entre viver a vida material e a mística se fez presente em versos de amor físico relutante e descrições de estados d’alma liberta dos liames deste plano. Dali em diante e pelos dez anos seguintes, cumpri um projeto que a vida tratou de alterar. Força vital chamo a todas as circunstâncias que não podemos controlar, incluindo uma espécie de auto sabotagem. Paramahansa Yogananda até que tentou, mas creio que ainda nada esteja definitivamente determinado. Esperemos…

“A fermentação psicológica, não encontrando possibilidade de se expressar através de meu corpo imaturo, dava origem a muitas e obstinadas crises de choro. Recordo-me da desorientação e do assombro que meu desespero provocava em toda a família. Lembranças mais felizes também me ocorrem: as carícias de minha mãe, as primeiras tentativas que fiz para balbuciar frases e dar os primeiros passos. Estes triunfos infantis, normalmente logo esquecidos, criam, contudo, em nós, um alicerce natural de autoconfiança.” – Autobiografia de Um Iogue Contemporâneo – Paramahansa Yogananda

Meus Livros - 5

Tomo posse de todo livro que estou a ler. O livro do momento é “Carol”, de Patricia Highsmith, que estou revezando com “Vermelho por Dentro”, de Lunna Guedes. Fazia algum tempo que não exercitava a alternância de leitura. Era comum, em outros tempos, sem tantas exigências de trabalho e da paixão que é escrever. Isso que faço agora. Nem sempre da maneira que ache bom o suficiente para interessar alguém. Muito autocrítico, talvez não publicasse nada, senão estivesse em busca da sentença perfeita. E só a perpetrarei se continuar tentando – obviamente, uma utopia. Mas como viver sem buscá-la?

“Era uma pessoa diferente daquela que estivera ali três semanas antes. Naquela manhã acordara na casa de Carol. Carol era como um segredo espalhando-se dentro dela, espalhando-se dentro daquela casa também, como uma luz invisível a todos, menos a ela.

– Eu amo você. – Therese disse, só para ouvir as palavras. – Amo você, amo você.” – Carol – Patricia Highsmith

Participam igualmente de 6 On 6:

Lunna Guedes, Mariana, https://aestranhamente.com, https://livrosgatoscafe.wordpress.com