cabeça ombro joelho e pé
joelho e pé
olhos ouvidos boca e nariz
cabeça ombro joelho e pé
crescemos brincamos partes do corpo
se nos são retiradas um a um
e recolocadas pouco a pouco
seres humanos descremos
crescidos decrescemos
nossa consciência corporal de estarmos bem
nos recusam viver
nos acusam pelo prazer
são contra as leis contra o coração
desde sempre retirado de nosso peito
modelos feito bonecos sem emoção
de integridade desintegrada finalmente
jogados no meio da calçada
como objetos descartados lixo último nicho
sem cabeça para ficar…
sem pés para onde ir…
Categoria: Arqueologia pessoal
13:13*
Para aqueles que dizem ter fé, que se dizem cristãos, que têm esperança em Jesus – sinônimo de amor –, mas não suportam quando o amor se pronuncia seja de que forma for.
Para aqueles que preferem seguir ídolos com pés de barros, ignóbeis que se pronunciam em nome do Mestre.
Aquele que não busca Deus dentro de si, mas O coloca acima de todos, sem intimidade ou conexão, como algo inalcançável. Quando expressa que o Brasil está acima de tudo, esquece de informar qual país é este, mas sabemos que deseja um longe dos brasileiros comuns.
Claro favorecedor de brasileiros de perfis claramente identificáveis – senhores de engenhos em pleno Século XXI. Muitos vivem nas metrópoles, tantos outros, nos condomínios do Interior e os piores são os quase indigentes, que pagam aluguel, compram carros a prestações a perder de vista e defendem o status quo como se pertencessem à elite – a faixa mais atrasada em termos culturais. Aliás, a exemplo de uma frase supostamente dita por Herman Göring, chefe da Gestapo e braço direito do Führer (ídolo do Ignóbil Miliciano) – “Quando ouço alguém falar em Cultura, saco o meu revólver” – esses tipos tentam simplificar a expressão ao mínimo de sofisticação, copiam o que lhe parecem mais vistoso, com brilho excessivo e pouco valor.
Como já disse Isaac Asimov: “O anti-intelectualismo tem sido uma ameaça constante a se insinuar em nossa vida política e cultural, alimentado pela falsa noção de que a Democracia significa que ‘a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento'”.
É como se todo o progresso tecnológico que operou as mudanças que permitiram que imbecis se pronunciassem e ganhassem alcance seja, ao mesmo tempo, renegado como algo perigoso para os seus planos hegemônicos. Assim como as vacinas tomadas pelos mesmos que a atacam.
Mas, como na frase em destaque, maior é o amor e venceremos pelo amor!
*Texto-declaração de voto, escrito e publicado no Facebook em 28 de Outubro de 2022.
Excertos Temporais
Após anúncios de raios e trovões, acabou por chover pesadamente. A luz do Sol ficou escondida pelo corpo da Terra que gira sobre o seu eixo, enquanto passeia pelo espaço nesta parte da Via Láctea a 100.000 km/h. Durante todo o dia a revolução atuou, a translação se perpetuou, as estações representada neste quadrante pelo Verão, nos aqueceu, No entanto, a minha lembrança se fixou na solitária nuvem, desgarrada da grande nebulosidade, tão mais alta e distante. Com o tempo, deve ter sido absorvida pelas outras nuvens, maiores e mais fortes. Não duvido que tenha se precipitado em água agora há pouco, feito lágrimas do céu. Há casos em que a solidão não é uma opção, a liberdade não existe e o fim é compulsório…
A tarde findava em tons de azul. Debaixo da chuva leve, o homem solitário caminhava a esmo, a colher imagens da imensidão azulada… Convenientemente, o último dia de veraneio terminou sem a luz dourada do Sol… A solidão é azul…
A chuva, ciumenta, assumiu o controle do curso do dia. No entanto, agora à tarde, ela não pôde impedir o triângulo amoroso entre a Terra, o Céu e o Sol. Silenciosamente, os três combinaram de se encontrar no leito macio do horizonte… O encontro foi breve, porém… Logo, entre raios e trovões, a chuva, furiosa, reassumiu o controle da situação. Pois é, quem está na chuva, é para se molhar!
Há onze anos, em Outubro de 2011, completava meio século de vida. Como legenda da imagem coloquei que estava me sentindo meio a meio. Estava cursando Educação Física e conseguia, mesmo estudando com jovens com a metade da minha idade, acompanhar as atividades práticas. Esta foto foi feita num ambiente festivo — uma festa surpresa — que reuniu parentes e amigos em um buffet próximo de casa. Nunca imaginei que o sujeito que nunca havia tido sequer uma festa de aniversário quando menino, pudesse participar de uma montada especialmente para si. Agradeço à todos que dela participaram. E, principalmente, à minha família, que pôde me proporcionar esse momento único.
Ciúme*

Ciúme, o seu nome é Maria Bethânia. Quando começo a acarinhar as outras, ela logo se põe a protestar veemente! Chega a morder a minha mão e atacar fisicamente as demais do grupo, não importando o tamanho dos alvos, diante de sua contrariedade desmedida!
Quando quero chamar a sua atenção ou quando a chamo e ela não me atende imediatamente, uso sempre o expediente de passar a mão pelas cabeças das amigas, o que é suficiente para transformá-las em oponentes, vindo em nossa direção, a enfrenta-las, ainda que saiba que são maiores e mais fortes do que ela.
De onde deriva esse ciúme, afinal? Sou aquele que não deve dividir a minha dedicação e zelo com mais ninguém? Ela se sente minha proprietária? Um sentido de territorialidade natural exacerbada talvez explicasse a sua reação, no entanto, o seu cuidado não se estende tão fortemente à sua cama nem ao pote de comida, aliás, quase nada.
A contrariar o fato aceito de que somos a nós a possuí-los (a determinar-lhes o destino), quem decide levar a cabo os melhores cuidados a esses seres especiais, sabe que somos nós a sermos possuídos por eles. Será que chegam a ter consciência que seja um pecado sério dispensar atenção a mais alguém além deles, da família dos canídeos e de outros seres humanos?
O meu desejo de expressar em palavras as minhas suposições foi motivada por um episódio. Quando fui à casa da minha irmã, que mora ao lado, logo na entrada acarinhei a Vitória e a Dominique. Qual não foi a minha surpresa ao ouvir um latido lastimoso vindo da minha varanda. Lá estava a Bethânia, a demonstrar o seu desacordo em relação à minha afetividade por aquelas que conheço há anos! O seu olhar era quase desesperado! As suas orelhas eriçadas quase tocavam o céu!
Maria Bethânia foi resgatada da rua por uma das minhas filhas humanas a pedido da minha mulher. Ela a viu a correr sem rumo por nossa vizinhança e quase entrar debaixo de seu carro, condoeu-se de sua condição. Era um sentimento novo para ela, que nunca foi tão achegada aos cães. A experiência de acompanhar a Dorô em sua jornada de combate ao câncer que finalmente a vitimou, lhe trouxe a inesperada percepção da imensa conexão conosco desses seres únicos.
O meu interesse pela origem do ciúme de Maria Bethânia é quase antropológico – no sentido que o cão é um ser que tem, ao longo dos tempos, adquirido comportamentos assemelhados ao do Homem. De modo geral, além da inteligência básica, são seres-repositórios de emoções e sentimentos puros e sem medidas. Amor e ciúme, sem dúvida, estão entre eles. Nos cães, a força da irracionalidade se expressa, então, de maneira mais acintosa. Amor, ciúme, posse – onde começa um e termina outro?
Há a eterna discussão se o amor é uma construção sociocultural ou uma condição intrínseca aos seres humanos; se a sua base é espiritual ou físico-química; se é algo substancial a ponto de ser verificado expressamente ou uma ilusão mental… Creio que a ligação que desenvolvemos com os outros animais, principalmente os mais próximos de nós, “aculturados”, possa dizer muito sobre a própria condição humana. Talvez possa vir a desvendar se amor e as suas emoções subsidiárias, como o ciúme, revelá-nos animais básicos ou, basicamente, que somos animais confusos demais para sabermos o que sentimos, quando sentimos…
*Texto de 2017, constante de meu primeiro livro de crônicas — REALidade — lançado pela Scenarium, no mesmo ano.
De Lírios E Outros Devaneios
Eu estava limpando a casa e organizando o lugar para que não parecesse tão bagunçado, deslocando objetos daqui para ali. Não sei se pelo meu trabalho profissional, sinto que o meu senso espacial é bem apurado. Consigo colocar sem muito pensar as coisas nos seus devidos lugares. Se houvesse um nome que poderia escolher para o que eu faço é o de aprovisionador efêmero — soluções precárias para momentos oportunos ou que costumo chamar de provisórias permanentes. É bem verdade que quase tudo é passageiro. Algumas coisas além de passageiras, são lindas. Como os lírios que floresceram aqui em casa. Não fosse esta imagem roubada, ficaria apenas o registro da minha memória — talvez a coisa mais fugaz que eu tenho.
Bom dia para você, rolinha, que decidiu fazer seu ninho no cacho de bananas quase no ponto de ser colhido! Escolheu bem o lugar – terá o que comer ao alcance do bico — para você e para seus filhotes. E por ter escolhido uma casa onde as pessoas respeitam a vida — perderemos às doces bananas, mas ganharemos lindas companhias…
Voltava, madrugada alta, e ao olhar para a direita, uma porção de água refletia luzes de barcos estacionados ao longo do horizonte sem fundo da noite. Achei por bem registrar o que queria o que fosse a cena do confronto do branco com o preto, oscilantes. Quando fui buscar as imagens, vi fogo sobre a água e um bastão luminoso como se fosse o cetro da Rainha D’Água emergindo contra a negritude. Mais um devaneio entre tantos…
A insônia não me impede de sonhar. As últimas luzes de ontem, então, brotam em plena madrugada, como planta irrigada por devaneios aquosos. A tarde se faz, tarde da noite quente, seca e escura. Assim, amanheço…
Por onde eu estava, passou uma noiva com o noivo, acompanhados por damas de honra, todos devidamente paramentados. Enquanto uma senhora sorriu e expressou que amava ver noivas, outra falou baixinho: “Que ridículo!”… Eu, que só achei a cena bonita, senti que qualquer coisa pode ofender a alguém quando a pessoa está de mal com a vida.
Tempo seco.
Vida umedecida.
Horizonte dividido
em céus.
Todos meus.
Cores sedentas.
Tarde emudecida.
Coração agradecido…
A nossa boa e saudosa Penélope tinha o mesmo hábito — onde quer que estivéssemos, se postava estrategicamente no meio do caminho. Atualmente, é a Dominic que se põe na passagem. E o que muitos de nós, seus cuidadores, fazemos? Nada. Passamos meio de lado ou por cima, com todo o cuidado para não atrapalharmos o descanso da inconveniente presença. Certo ou errado, é o meu comportamento.












