O interessante na ocorrência das Super Luas em Sampa, é quase nunca a percebemos. Simplesmente porque calha de haver sempre muita nebulosidade a nos impedir de senti-la em todo em seu esplendor. Aqui, coloco dois textos referentes a duas ocasiões diferentes…
Em 2015…
Sem Super Lua…
Apenas superação…
A eterna ação
da Terra em movimento…
Em uma viagem de velocidade controlada em torno do Sol.
Bilhões de pessoas já viram céus
e astros mudarem de lugar quando,
em verdade, foram elas que se moveram
vida adentro, do nascimento à morte…
Essa é a nossa eterna sorte…
Nossa fraqueza…
E a nossa redenção…
Em 2018…
Nota De Esclarecimento
Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim meu pai, quase um homônimo – Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar num romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Envio um abraço forte a todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.
Para este dia, a Lunna programou colocarmos uma foto para cada dos últimos seis meses deste 2022 que se encerrará em 25 dias. Foi interessante rever imagens que a minha memória foi aos poucos jogando para escanteio. Especulo que minha postura em não me apegar a situações passadas e focar no Presente talvez ajude nesse processo. O benefício dessa condição é me surpreender com situações que ganham novo olhar. Para balizar as escolhas feitas, me propus colocar quadros que são recorrentes, como luares e crepúsculos, fotos com familiares, meus passeios por Sampa e com os meus companheiros de quatro patas.
O mês de Julho ainda guarda a temperança do Outono, mas o Inverno costuma ampliar a descida dos termômetros, ainda que nosso clima esteja em transição devido a todas as circunstâncias que influenciam as variações de calor. Alguns entardeceres são pródigos em luminosidade feérica e cores. Ao mesmo tempo, como ocorre nesta imagem, as luzes da cidade ajudam a criar um clima de passageira beleza inesperada.
Apesar de Agosto ser o mês ideal para fotografar crepúsculos, devido à obliquidade solar, preferi retratar uma manhã em que eu circulei pela região central de São Paulo. Este edifício sempre me impressionou por sua beleza e imponência. Como fundo, um azul celeste. Chama-se Edifícios Viadutos, com função residencial. Construído entre 1950 e 1956, seu estilo mescla Art Nouveau, Art Decó e Holywoodiano. Tombado pelo CONPRESP, foi restaurado em 2014. Tem como arquiteto e engenheiro, Artacho Jurado, responsável por várias belas obras da cidade, que eu conseguia identificar assim que as via. Esta também é uma oportunidade para falar desse homem incrível. Filho dos imigrantes espanhóis Ramón Artacho e Dolores Jurado, começou a trabalhar na década de 30 e sua produção se aprofundou nas décadas de 40 e 50. Apesar de não ser arquiteto, Artacho Jurado idealizava os prédios e pedia para algum arquiteto assinar as plantas. Artacho não frequentou escolas porque seu pai, anarquista, se recusava a deixar seu filho jurar a bandeira, cerimônia obrigatória nas escolas da época.
Setembro, quando entra, deveria ser para boas novas. No entanto, em ano eleitoral, aumentou de forma descomunal a pressão sócia-econômica-política-psicológica-mental-estrutural por conta das campanhas eleitorais. Envolvia pautas totalmente fora de contexto (aparentemente), mas para metade da população eram pertinentes à administração pública. A defesa da tradicional família brasileira ganhou ares rodrigueanos, mesmo porque como todos sabemos, a disfuncionalidade da famiglia palaciana une todos os ingredientes de um drama daqueles que envolve transgressões de todos os naipes. Eu estava com problemas na minha conta, que sofrera um golpe. Tudo foi resolvido depois, mas na descida pela Angélica, derivei pela direita e entrei pelo Cemitério da Consolação e caminhei por monumentos aos mortos por duas horas. Revivi…
Outubro é o mês em que nasci, mas também foi o mês em que o destino do País estava em jogo, como num pêndulo, indo da direita para a esquerda, com tremores ao centro. Como numa catarse coletiva extremada, mergulhamos num vórtice de abjuração da Realidade tanto para o Bem quanto para o Mal. Ao final de tudo, no penúltimo dia do mês, marcamos a virada com alegria na perspectiva de melhores tempos. Mas não me iludo…
Quando conhecemos uma pessoa desde que nasceu e a vemos cumprir algumas das etapas dos percursos a que todos estipulamos como “naturais” – nascer, crescer, estudar, namorar, casar, procriar, envelhecer, morrer… Colocado dessa maneira, até parece fátuo e sem sentido. Essas não são marcações discricionárias. São pontos como facas marcadas no peito. A não ser que o amor componha o cenário. Foi o que pude perceber no casamento do meu sobrinho, o talentoso Roney, com a linda e preparada Rubia. Os dois já estavam juntos há alguns anos. A cerimônia apenas sacramentou uma situação em mostraram que o compromisso que estipularam para si era sincero. Novembro findou no cumprimento desse ritual da vida.
Dezembro mal começou. As imagens dos últimos 31 dias de 2022 não são tantas que mereça uma seleção longa. Escolhi um luar entre tantos, expresso em uma paisagem exuberante cores iluminadas no entorno noturno num local de trabalho – uma das minhas expressões – em que tento manter uma postura mais solta. Afinal, não é por ser trabalho, que tenha que ser pesado. A Lua concorda…
“Aprendi com as palavras o que eu não consegui com as asas: voar!”, por Suzana Martins, em (In)Versus
Quando adolescente, fã de séries de viagens espaciais, ficava intrigado com as que eram realizadas num átimo como em Jornadas Nas Estrelas, através das “dobras espaciais”. O veículo através da qual a comunidade múltipla-humana viajava o Espaço – a fronteira final – era a nave estelar Enterprise, “em sua missão para explorar novos mundos”. O contato com seres humanoides, de formas físicas diferenciadas dos Homo sapiens, com adaptações adequadas aos seus ambientes originais, propunha uma interação possível entre as várias raças e conformações.
Um mandamento que foi colocado de forma clara era o de não intervenção direta no desenvolvimento das civilizações originais dos planetas visitados. Mas, como não iria deixar de acontecer, o Capitão Kirk, o comandante da missão, era um humano que infringia as normas frequentemente, tendo em contraponto Mister Spock, cujo planeta carrega a racionalidade como característica principal, se opunha quase sempre às aventureiras opiniões de seu capitão, sendo ele o segundo em comando. O interessante é que o homem de Vulcano trabalhava a razão num contexto em que tudo inspirava a imaginação. Diante de muitas novas descobertas, o sábio ser desferia a expressão: “fascinante!”.
Para mim, o planeta ao qual me foi dado a explorar é este no qual vivemos. Por ter um olhar de estranhamento quanto a praticamente tudo que me cerca, me pego acordado a sonhar. Ou a sonhar acordado. Quando pequeno, voava sobre as casas do meu bairro, fazendo rasantes junto aos morros em que a vegetação verde ainda imperava. Lembro que percorria ruas que não conhecia ainda, a frente ou abaixo da qual morava. Confirmando depois seus caminhos. Deem o desconto de que a minha memória não é confiável. Mas quando menino cria que fosse assim. Ainda assim, percebi que a forma mais rápida de viajar era o pensamento.
As minhas asas eram invisíveis (para os outros) ou eu as mantinha escondidas para não parecer mais estranho ainda aos olhos dos outros. Através das palavras as materializava. Quando me perguntavam de onde surgiam tantas ideias para escrever não poderia dizer que armava as minhas asas para visitar as diversas realidades. Para parafinar minhas penas, lia bastante. Tudo me interessava. Nunca se sabia onde encontraria os melhores temas para desenvolver novas histórias. Essas construções buscavam reproduzir mundos ideais. A maldade humana era sempre suplantada. O Bem, poderoso, ao final vencia o Mal.
Enquanto isso, lá fora, onde eu não voava; onde os homens conseguiam vencer trapaceando; onde as mulheres choravam por seus filhos mortos; onde as botas pisavam sobre as cabeças dos subjugados; onde a Polícia matava pela ação dos esquadrões da morte (motivo de temor constante na Periferia); onde meu pai se ausentava; onde eu apanhava da Turma do Louquinho; onde a minha única alegria era jogar bola, apesar da miopia que crescia – eu me sentia Ícaro, em voo cego rumo ao abismo.
“… as memórias ficam suspensas dentro de mim…”, por Mariana Gouveia, em As Estações
Eu me lembro de meus sonhos de infância, mas a própria vivência infância está envolta em nebulosidade. Várias das minhas lembranças entraram para a galeria de memórias em suspeição – sonhos ou vivências? Que não melhorou com a chegada da adolescência. São recorrentes os momentos em que evito encontrar colegas de escola por não me lembrar de seus nomes. É comum começarem a descrever situações que lembram como se tivessem acontecido ontem, enquanto eu mal me recordo de episódios recentes. Não que seja de todo desmemoriado. É que a minha atenção recai sobre assuntos e episódios totalmente aleatórios, muitas vezes sem importância ou conexão com circunstâncias importantes. Com isso, costumo chamar a minha memória de “randómica”.
Como consequência, acabo por me ver envolvido em discussões que tem os seus bons motivos: não me lembrar de coisas relevantes para as pessoas com as quais convivo – colegas, amigos, familiares – próximos ou não. É como se eu não desse a mínima para eles. E por mais que seja involuntário, não deixo de sofrer com isso. Essa dispersão-suspensão de fatos no tempo talvez tenha explicação – sintomas de TDA – que eu consideraria leve. Esse autodiagnóstico leva em conta que eu consiga me concentrar no trabalho e quando escrevo, ainda que os padrões não se assemelhem quando comparo essas atividades.
No trabalho, consigo planejar todas as etapas, horários e uso de equipamentos. Bem, vez ou outra, o nosso sistema de checagem e re-checagem falha. Na escrita, parto de ideias que surgem de repente ou de bases bem definidas, pré-estabelecidas. Apesar de, nas duas vertentes de produção, frequentemente me deixar viajar na construção do texto, busco demonstrar certa unicidade no estilo.
Essas duas funções – de prestador de serviços e escritor – são como ilhas no meio do oceano revolto ou um oásis no deserto. Consigo lhe dar com os problemas que surgem como se soubesse de causas e consequências. No trabalho, a norma tem sido o de resultados exitosos. Na escrita, tenho conseguido chegar aos finais em série com satisfação. Ainda assim, o sentimento é o de constante esforço no sentido de aprimorar os mecanismos de execução e a conquista de melhores textos.
Mas eis que após o término dos eventos, não fosse a gravação e a produção de fotos que venham a recordá-los, as várias etapas são dispensadas para o porão da memória, a não ser que tenha ocorrido alguma falha. Nesse caso, as uso como aprendizagem. Quanto aos textos, então, acho que nunca deixamos de reescrevê-los. Alguns “são” o que “são” ou ficam como ficam. Outros, “merecem” melhor sorte. Principalmente, depois que os relemos. A minha desmemória ajuda a torná-los muitas vezes “inéditos”. É comum me surpreender com histórias que sei que escrevi como se não as tivessem escrito.
Essa nuvem passageira que é a coleção de minhas recordações evanescentes, apresentam as suas dificuldades. Fico a imaginar se esses recortes de situações díspares não seja uma forma de defesa contra eventuais traumas. Na confecção de um de meus livros, cheguei a abrir portas emperradas de quartos fechados e não tive coragem de ir adiante. Quem sabe, um dia, eu consiga estar preparado para mergulhar em mim…
Obdulio, penso sobre essa missiva, enquanto ouço Belchior cantar que “estava mais angustiado do que o goleiro na hora do gol” pelo celular. Estou retomando aos poucos as idas à academia, após dois anos e meio em que a Pandemia impediu que me exercitasse devidamente. Caminho os quase 3Km para a Humanas e pretendo registrar este dia – 20 de Novembro de 2022 – para deixar como se fosse uma carta numa garrafa dentro de uma garrafa. Talvez deva voltar a ler este texto, além de hoje em que o escreve, depois de muito tempo. Espero que viva num período menos opressivo que o atual, mas não há nenhuma garantia de que isso venha a acontecer.
Passeio pela sombra possível em dia de sol pleno. Dia de nuvens ausentes, por enquanto. Ao dobrar a terceira esquina, do lado esquerdo, uma cena tão comum nos dias de hoje que “entrou em mim como o Sol no quintal”. Debaixo da marquise de uma loja fechada, primeiro reparei num velho cão dormindo profundamente. Depois, na figura tão abstrata quanto poderia parecer um ser humano – quase um Picasso em movimento – andrajos como vestimentas. Junto a barraca de camping (na calçada), fechando o triângulo, mais um cão, tão velho quanto o outro. Essas pessoas que nos últimos tempos ganharam o espaço da cidade, recebem nomes como “moradores de rua” ou “sem teto” ou “em condição de rua”. Por mais politicamente corretos que queiramos parecer, são um fato social. Vieram para ficar?
Um Fusca velho chama a minha atenção e eu o registro em foto. Não pelo objeto em si – uma obra humana criada como máquina – mas que serviria de referência emocional para quem o possuiu, assim como para muitos. Essa tendência que temos em humanizar nossos bens materiais sempre me intrigou. Talvez seja a mesma tendência que transporta para imagens de santos expectativas de intercâmbio transcendental.
Meninos conversam entre si, passos lentos. Diminuí os meus para não me chocar com eles. Ouço um mais alto dizer o outro que parece desconsolado: “ela não merece a sua tristeza”. Mesmo que eu quisesse, não criaria uma frase tão interessante para compor esta carta. O ouvinte olha para o nada e dá um gole numa garrafa com suco de laranja que carrega à mão.
Mais à frente, a comunidade junto ao Piscinão do Guaraú me surpreende com a audição de “Acabou Chorare” dos Novos Baianos. A voz de Moraes Moreira, que este ano nos deixou, me trouxe de volta para quando bem novo adotei a sua turma de Pepeu, Baby e Galvão como uma das minhas bandas favoritas.
Passo em gente ao Jatobá, o ser mais velho do bairro, para o qual peço uma benção. Em poucos metros, encontro dois bares intercalados por Igrejas Pentecostais. Creio que tanto um tipo de estabelecimento quanto o outro, só seja superado em número por barbearias e bancas de pastel.
“Fala”, canta Secos & Molhados em meu ouvido: “Eu não sei dizer nada por dizer / Então eu escuto / Se você disser tudo o que quiser / Então eu escuto / Fala…”. Um conselho que deveria seguir. Constato quando respondo a uma chamada na qual quem me fala, não consigo deixar de interromper. Quem quer falar sobre suas crenças são os apóstolos de Testemunhas de Jeová (nome que acho inspirador) que avançam de dois e dois para portões da avenida na qual se localiza a Humanas. Uma dessas duplas me chama mais a atenção. Trata-se de um casal que sorri de um para o outro, trocam palavras de carinho, enquanto mantém as mãos dadas em palmas. Há amor, acima de tudo. Reconheço um afeto, apesar de uma fé que manifestam preceitos que eu não adoto.
Enganado com o horário que encerra as atividades da academia uma hora antes do que eu achava, volto para a casa disposto em apenas voltar para a casa ouvindo música. Passando em frente a um portão, um cão por trás das grades mantém o olhar fixo para o outro lado da avenida. Desvio a minha visão para o ponto que encontra um outro cão que festeja a sua liberdade junto à sua tutora. Quase vejo materializado o seu pensamento. Ou serei eu a me sentir enquadrado em situações que me faz olhar longe – para um ponto no futuro em que você estará melhor – menos tenso, menos enredado com dúvidas, mais livre, ainda que mais velho ou, até por isso mesmo, mais maduro.