participamos todos de uma grande comédia: eu, você e o maior de todos — Charles Chaplin — aquele que ousou ser senhor do tempo e da palavra não dita e de quando a usou foi para denunciar a sanha maldita do Nazismo quando nestes tempos de dramas redivivos vemos que os donos do mundo encenam a comédia mórbida da morte e do desterro da boca que cala agindo no sentido de reproduzi-lo em larga escala em multiplicação de corpos destroçados e enterros de ossos em barrancos ainda que o mendigo saltimbanco traga a esperança do riso solto para o simples e para o douto nos sentimos presos a liames invisíveis poderosos apocalíticos de terras arrasadas — teatro sem aplauso mas urros de fome e dor — público de mãos atadas…
Zezé nasceu e cresceu na rua. O único sobrevivente de seis irmãos. Se alimentava de restos e do que lhe ofereciam os moradores do bairro. Sua mãe, moradora de rua, igualmente abandonada, viveu tempo suficiente para amamentá-lo. Não teve agilidade bastante para desviar de um carro que acelerava ligeiro pela rua, que agora tem uma lombada para tentar impedir acidentes.
Zezé começou a circular pelas ruas em busca de cantos. Seu jeito de criança sapeca angariava simpatia por onde passava. Foi adotado várias vezes. Seu desejo por liberdade, no entanto, fez dele um exímio escalador de muros. Ele queria circular ruas, dobrar esquinas, não ter horários-regras. Uma alma livre a vagar calçadas, dormir em praças e a correr de vassouradas e pedras que atravessavam seu caminho.
Sua movimentação era noturna. Pela manhã queria dormir e, para isso, se apropriava de algum quintal para descansar. Sombra, comida e água fresca, sempre sabia onde encontrar.
O rapaz tornou-se conhecido ao salvar um bebê do fogo que consumia um barraco na favela do bairro. Ao espiar a fumaça e as chamas saindo pelas frestas da construção, feita de madeira seca, ouviu o que ninguém mais ouviu: um choro vindo de dentro.
Com toda a agilidade que faltou à sua mãe, adentrou pela porta fechada e abocanhou a roupa da criança, arrastando-a para fora. Coisa de herói. Foi exaltado. Recebeu banho, uma boa refeição e um nome.
De vira-latas a Anjo… o melhor amigo de todos na vizinhança. Era ele quem acompanhava — faceiro — as moças na volta da faculdade. Sabia rosnar alto-forte. Ninguém se atrevia em seu caminho. Todos sabiam de sua força. Muitos o tinham como confidente. Enquanto dividiam com ele um pedaço de pão, conversavam com seu olhar de compreensão… o melhor dos ouvintes.
Zezé foi encontrado morto na mesma praça em que brincava com as crianças da vizinhança. Foi envenenado.
A notícia surpreendeu todos os moradores da rua dois, que acabaram por promover um velório ali mesmo. Uma cova bem rasa e uma pequena lápide de madeira onde se lê: “Tão livre que foi invejado pelos encarcerados em si. Anjo de quatro patas, amoroso demais para viver entre seres inferiores”.
*Conto constante de RUA 2, livro de contos curtos lançado pela Scenarium Livros Artesanais, como Morador Da Rua 2.
Presente da amiga e companheira de Nave-Mãe, Marineide. Pode parecer uma simples base térmica para colocar panelas ou formas quentes, mas para mim, representa o Círculo da Vida — em que o fim se confunde com o começo, mesmo porque, não há confusão, há fluição — nem início, nem final, apenas fruição…
Pode ser a última lua… A última vez que atua… Pode ser a sua última noite… A derradeira hora do açoite… O último abraço e o colo quente… O último suspiro e o beijo ardente… A última chance de perdoar… A última oportunidade de amar…
Não, não é vinho e nem conhaque… Um pouco antes, essa taça realmente continha vinho tinto seco. Mas como estou com poucas horas dormidas, e como quero aguentar até às 23h, quando termina mais um episódio de Game Of Trones, apenas aproveitei a taça para tomar um bom café! Com certeza, café é uma bebida que também merece requinte e majestade…
A vida, na ponta de um dedo…
Passarela sobre a Rua Riachuelo, que une dois prédios da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo — Largo de São Francisco.