A Periferia é pobre, mas a tarde é bela.
O povo é despossuído, mas a sua natureza é singela.
A rua é íntima amiga, muitas vezes serve de abrigo.
A violência existe e, em contrapartida muito amor.
Que a tarde abrigue este momento confortador…
Categoria: Arqueologia pessoal
02 / 05 / 2025 / Só, Mas Acompanhado
caminho só mas acompanhado
circunspecto
quem bem eu quero não está por perto
sei que ela pensa em mim
assim como penso nela sim
em nossos encontros esporádicos
erráticos
arrancados feito saborosas goiabas no pé
aos quais nós comemos até o caroço
deixamos os lençóis em alvoroço
passeamos sem culpa por avenidas e ruas
baixo a sóis e além de luas
quase alcançadas mas nunca vivenciadas
quem sabe um dia?
enquanto isso nos servimos de ambrosia
para mitigar da distância as dores
para nos alimentarmos de sabores
saudosos de beijos e ventanias
que nos abatem por onde formos
porque somos o que somos
a soma de desejo e paixão
e bem querer em demasia
em cortejo de procissão
adoradores do coração
caminhantes e amantes
se quero uma vida alternativa a que tenho
vou em frente não me detenho
sonho e componho
na ausência do toque de sua boca
um poema que me acompanhe…
Foto por Vika Kirillova em Pexels.com
01 / 05 / 2025 / Arya Stark*
“Vinha a minha sobrinha, Verônica Ortega, a caminhar pela rua em direção à minha casa, quando percebeu que uma mocinha acompanhava os seus passos. Quando chegou ao portão, recebeu uma comidinha, um pouco de meu carinho e o olhar desconfiado dos outros moradores de quatro patas. Logo que a Verônica entrou, começou a chorar. Eu a deixei entrar, o que fez sem dar bola para os seus iguais, a distribuir simpatia, percorrendo a garagem como se a conhecesse. Mais tarde, ela e a Vê saíram para buscar os eventuais cuidadores que estivessem a procurá-la. Sem sucesso. Alguém disse que ouviu falar de um motoqueiro que deixou um cachorro por ali, mas não saberia dizer se fora ela. Enfim, de volta a casa, recebeu banho e mais um pouco de comida. Cansada, dorme desde a tarde, tranquila e afável. Talvez, o nome pelo qual comecei a chamá-la não seja tão adequado, visto o viés intenso e tenso guerreiro da Arya Stark original, mas senti necessidade de homenagear uma moça porreta. Com vocês, Arya!”
*Esta postagem é de 2019. O interessante é que um tempo depois, a Arya desenvolveu Cinomose, uma doença tão severa que a maioria dos cães afetados vem a falecer. Então, ela se mostrou tão guerreira quanto a personagem de The Game Of Thrones e sobreviveu, apresentando apenas pequenas sequelas que cuidamos, como uma certa irritação no órgão urinário. Seu comportamento continua doce e, sendo tão fofa, frequentemente a chamamos de “Clemosa“.
29 / 04 / 2025 / BEDA / Humanos*
A minha luta constante, interna, é contra a vaidade (mental, não física) e o egoísmo. Inveja, presumo não ter. Pelo simples fato de que eu, sendo eu, não posso desejar ter o que o outro tem, na aparência, sem saber o que outro vive profundamente. E eu preso muito a minha profundidade, muitas vezes indecifrável para mim mesmo.
Eu, sendo um mistério em meu âmago, quero continuar a me descobrir. Em conversa informal com a Romy, me dei conta de uma coisa muito simples e que, por isso mesmo, era quase invisível, pelo menos para mim: se desejo o bem da humanidade, devo necessariamente desejar o meu próprio bem. E isso não é egoísmo. É altruísmo. É desejar o bem estar do próximo em mim mesmo, o ser mais próximo de mim.
Se eu não estiver bem, não há como compartilhar o bem estar. Se estou sofrendo, não há como enxergar a paz para além do imediatismo limitado pela dor a ser superada. Para amar o próximo como a mim mesmo devo, antes de tudo, amar a mim mesmo e, em mim, a minha humanidade. Que todos tenhamos um dia melhor. Que todos possamos nos valorizarmos individualmente e nos amarmos coletivamente. E humanamente…
*Vivia Abril de 2021. Em Janeiro, havia tido uma séria crise de ansiedade. Eu me refugiei por Fevereiro inteiro em Ubatuba e de lá voltei renovado. E com um livro escrito: Curso De Rio, Caminho Do Mar.




