sim porque o sol é a razão da vida existir no planeta e acredita o ser humano que seja singular no incomensurável universo o único inteligente até mesmo na terra e nisso erra esquece de bichos que são sencientes de outra maneira que conseguem conviver com as forças naturais que se adaptam até com as agressões daquele que está no topo da cadeia alimentar que destrói em nome do poder que detém o bicho homem a conceder quem vive e quem morre é tão triste o que ocorre esse egocentrismo destempero desespero por ser tão diminuto sabendo que na eternidade vive apenas um minuto que nos tempos estelares não passa de poeira cósmica e que no grande teatro da metagaláxia não passa de uma tragédia cômica…
caminho por ruas calmas de uma primavera indecisa como são todas primaveras não é a toa que nasci em outubro a estação parece mimetizar a minha personalidade em desatino ou sou eu a imitar suas preferências titubeantes entre chover ou queimar as cabeças dos transeuntes com o sol a pino passo por casas antigas que imitam um tempo passadiço por algum motivo lembro de minha mãe deslizo de alegria nos cortes de alegria que o silêncio impõe numa época que o novo deus é chamado de inteligência artificial numa delas um velho casal se surpreende por sua cachorrinha vir em minha direção abanando o rabo como se me conhecesse de outra vida perguntou a ela (não a mim) se já me conhecia respondi que talvez tenha reconhecido a minha aura massageei o seu pescoço de pelo cor de cobre com um carinho paternal fui pai de outros tantos durante toda a minha vida que não duvido que ela seja a reencarnação de um deles mais à frente passo por um jardim composto com requintes de simplicidade duas rolinhas se posicionam descansando da faina de trazer alimento para os filhotes parei para observá-las se deixaram fotografar registrei como quem escreve uma cena de uma tarde que arrefece entre o tudo e o nada direciono o meu olhar escolho a composição da página eternizo o verso e reverso do casal de poesia alada…
sentado em meu trono me pergunto ora quem é o dono de meu destino aproveito para forçar a saída e em um segundo defino que é meu intestino evacuar definiu o caminho da humanidade civilizações que criaram meios de como recolher nossos dejetos e encaminhá-los para longe de nós se tornaram as mais desenvolvidas as mais aptas a dominar às outras por saber lidar com seu cocô o intestino que bem funciona impulsiona o poder mental de quem o carrega não há intriga não há dúvidas nem desvios o sorriso prevalece se sente feliz por poder evacuar com regularidade com o prazer de deixar marcas em barro por onde passa constato o que é claro o que sempre se soube quem é senhor de sua mente não desmente — sabe que tem o rei na barriga.
todos juntos acima do chão a caminho de buscar respostas guardadas no peito como pássaros que vão em direção ao por do sol além do horizonte as encontrarei? provavelmente não porque respostas não há se sabe que não são o fim em si em sim em mim…
A Lívia foi a última a chegar. Mas a não menos importante para compor a nossa família. Hoje, completa 30 anos (!). Parece que foi outro dia que eu ficava insistindo para comer um pouco mais enquanto ela fazia manha. Das três, foi a que aceitou fazer natação e treinar basquete porque o pai esportista gostaria que fosse eventualmente uma atleta. As três irmãs são muito unidas e eu, ingenuamente me surpreendi ao saber que criaram um grupo de mensagens entre elas em que os pais talvez sejam um dos tópicos ou nem tanto. Não sei o que é pior…
Há um ano ou menos — não sou afeito ao calendário factual — alugou com o namorado Pablo um apartamento em que ensaiam a vida de casados. Como acontece frequentemente, deixou a filha Lolla Mariaaos cuidados dos avós. Não porque não quisesse, mas porque ela não se adaptou ao espaço. Cheia de manias e de uma eterna fome, ficava latindo quando não encontrava seus humanos em casa.
Lolla Maria
O nome Lívia deriva de Liv Ullmman — atriz, diretora de cinema, além de escritora — por quem fui apaixonado quando jovem, assim como fui por Romy Sceneider e Ingrid Bergman, que deram nome às outras duas filhas. A minha paixão pelas mulheres não é apenas física, mas sou fascinado pelo poder que carregam e que os homens tentam de todas as maneiras obliterar. As mulheres que inspiraram a nomear as minhas filhas são exemplos de pessoas que marcaram seu tempo com comportamentos que fugiam ao estereótipo da mulher conformada com o papel tradicional da fêmea da espécie. Das três, apenas Liv vive e continua atuante como artista, depois de 60 anos de carreira.
Lívia & Pablo em seu apartamento
Talvez as minhas filhas sintam que eu esteja um tanto distantes delas, mas acho que devo dar espaço para que encontrem sem pressão os seus caminhos, façam as suas escolhas e tomem as suas decisões. Elas sabem que estarei sempre à disposição para apoiá-las no que quiserem. Eu desejo que a que encerra a fábrica Ortega alcance todos os seus propósitos, incluindo os artísticos, com a Elebonde, seu projeto de DJs com o Pablo. Quem sabe, um dia, não participem de um festival desses grandes por aí? De você, menina, eu não duvido de nada!