07 / 11 / 2025 / Bologvember / Um Dia Se Despiu…

… para o sol e foi feliz!

sim
porque o sol é a razão da vida existir no planeta
e acredita o ser humano que seja singular no incomensurável universo
o único inteligente até mesmo na terra
e nisso erra
esquece de bichos que são sencientes de outra
maneira
que conseguem conviver com as forças naturais
que se adaptam até com as agressões daquele que está no topo
da cadeia alimentar que destrói em nome do poder
que detém o bicho homem a conceder
quem vive e quem morre
é tão triste o que ocorre
esse egocentrismo destempero desespero
por ser tão diminuto
sabendo que na eternidade vive apenas um minuto
que nos tempos estelares não passa de poeira cósmica
e que no grande teatro da metagaláxia
não passa de uma tragédia cômica…

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia



03 / 11 / 2025 / Blogvember / Deslizar De Alegria Nos Cortes Que O Silêncio Impõe

caminho por ruas calmas de uma primavera indecisa
como são todas primaveras
não é a toa que nasci em outubro
a estação parece mimetizar a minha personalidade em desatino
ou sou eu a imitar suas preferências titubeantes
entre chover ou queimar as cabeças dos transeuntes
com o sol a pino
passo por casas antigas que imitam um tempo passadiço
por algum motivo lembro de minha mãe
deslizo de alegria nos cortes de alegria que o silêncio impõe
numa época que o novo deus é chamado de inteligência artificial
numa delas um velho casal se surpreende por sua cachorrinha vir em minha direção
abanando o rabo como se me conhecesse de outra vida
perguntou a ela (não a mim) se já me conhecia
respondi que talvez tenha reconhecido a minha aura
massageei o seu pescoço de pelo cor de cobre com um carinho paternal
fui pai de outros tantos durante toda a minha vida
que não duvido que ela seja a reencarnação de um deles
mais à frente passo por um jardim composto com requintes de simplicidade
duas rolinhas se posicionam descansando da faina de trazer alimento para os filhotes
parei para observá-las se deixaram fotografar
registrei como quem escreve uma cena de uma tarde que arrefece
entre o tudo e o nada
direciono o meu olhar escolho a composição da página
eternizo o verso e reverso do casal de poesia alada…

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

02 / 11 / 2025 / Blogvember / O Rei

sentado em meu trono me pergunto
ora quem é o dono de meu destino
aproveito para forçar a saída e em um segundo
defino que é meu intestino
evacuar definiu o caminho da humanidade
civilizações que criaram meios de como recolher nossos dejetos
e encaminhá-los para longe de nós
se tornaram as mais desenvolvidas
as mais aptas a dominar às outras
por saber lidar com seu cocô
o intestino que bem funciona impulsiona o poder mental
de quem o carrega não há intriga
não há dúvidas nem desvios o sorriso prevalece
se sente feliz por poder evacuar com regularidade
com o prazer de deixar marcas em barro por onde passa
constato o que é claro o que sempre se soube
quem é senhor de sua mente não desmente —
sabe que tem o rei na barriga.

Foto por Gratisography em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

27 / 10 / 2025 / A Que Encerra

A Lívia foi a última a chegar. Mas a não menos importante para compor a nossa família. Hoje, completa 30 anos (!). Parece que foi outro dia que eu ficava insistindo para comer um pouco mais enquanto ela fazia manha. Das três, foi a que aceitou fazer natação e treinar basquete porque o pai esportista gostaria que fosse eventualmente uma atleta. As três irmãs são muito unidas e eu, ingenuamente me surpreendi ao saber que criaram um grupo de mensagens entre elas em que os pais talvez sejam um dos tópicos ou nem tanto. Não sei o que é pior…

Há um ano ou menos — não sou afeito ao calendário factual — alugou com o namorado Pablo um apartamento em que ensaiam a vida de casados. Como acontece frequentemente, deixou a filha Lolla Maria aos cuidados dos avós. Não porque não quisesse, mas porque ela não se adaptou ao espaço. Cheia de manias e de uma eterna fome, ficava latindo quando não encontrava seus humanos em casa.

Lolla Maria

O nome Lívia deriva de Liv Ullmman — atriz, diretora de cinema, além de escritora — por quem fui apaixonado quando jovem, assim como fui por Romy Sceneider e Ingrid Bergman, que deram nome às outras duas filhas. A minha paixão pelas mulheres não é apenas física, mas sou fascinado pelo poder que carregam e que os homens tentam de todas as maneiras obliterar. As mulheres que inspiraram a nomear as minhas filhas são exemplos de pessoas que marcaram seu tempo com comportamentos que fugiam ao estereótipo da mulher conformada com o papel tradicional da fêmea da espécie. Das três, apenas Liv vive e continua atuante como artista, depois de 60 anos de carreira.

Lívia & Pablo em seu apartamento

Talvez as minhas filhas sintam que eu esteja um tanto distantes delas, mas acho que devo dar espaço para que encontrem sem pressão os seus caminhos, façam as suas escolhas e tomem as suas decisões. Elas sabem que estarei sempre à disposição para apoiá-las no que quiserem. Eu desejo que a que encerra a fábrica Ortega alcance todos os seus propósitos, incluindo os artísticos, com a Elebonde, seu projeto de DJs com o Pablo. Quem sabe, um dia, não participem de um festival desses grandes por aí? De você, menina, eu não duvido de nada!

Elebonde em ação…