Vilões*

O texto abaixo é de 2013. Poderia ter sido escrito atualmente. Eu o denominei de “Vilões”. Até então, eu não havia atentado para a origem do termo “vilão”. Vilões eram os habitantes das vilas que cercavam os castelos, compostos de pessoas mal vistas por quem ficava protegido entre as muralhas. Ou seja, nas vilas viviam os trabalhadores mais simples ou mesmo sem função, os despossuídos de bens, caçadores, colhedores, agricultores. Quase similarmente aos favelados dos dias de hoje, vistos da mesma forma por aqueles que dominam a maior parte da riqueza, encastelados em seus condomínios.

Que saudade de quando os nossos piores vilões eram tão melhores dos que hoje vicejam em nosso noticiário! Eles estão no cotidiano de três dias do Congresso Nacional e no trabalho full-time dos ladrões do nosso erário! Nos assaltos dos pés-de-chinelo, que mesmo assim, já estão armados com um berro de numeração raspada e na ação na surdina dos sofisticados hackers da web. Nas notas de rodapé de pais que matam os filhos, quando não são os filhos que decidem fazê-lo primeiro. É claro que sempre houve crimes na História do homem! Desde o Gênesis, convivemos com a nossa maldita herança! Somos filhos de Caim! Mas a nossa santa inocência contrabalançava um pouco o mal que grassava pelos campos onde os lírios floresciam. Enfim, parece que na verdade, estou com saudade de mim mesmo… Percebo que viver na ignorância chega a ser uma benção!

Na imagem, os vilões Pinguim, Charada, Mulher Gato e Coringa da série da TV, Batman, do final do Anos 60.

La Vie*

Quem é aquela jovem mulher que desce a escada?
Olho de novo e busco saber de onde a conheço
Busco a bela moça em minha memória escavada
Perco-me por dois segundos, desde o fim até o começo

Aquela parece ser minha filha menor, parece ser a caçula
Que desce do andar de cima com um novo andar
Que deitou menina pequena e acordou qual mulher de fábula
Transformada em novo ser, com um novo olhar e menear

Como ocorreu de maneira tão célere essa passagem?
De bebê à criança, à menina, à moça, até ser mulher?
Como se deu a consumação desses dias em voragem?
Qual o nome da força que mal consigo, por um instante, conter?

Será a vida, irrefreável e absoluta, que nos coloca o prumo?
Será o tempo, impassível e frio, como um rio a transbordar?
Já antevejo o dia em que a levarei ao altar, para um novo rumo
E o ciclo a se completar, tendo no colo o futuro a me recordar…

*Poema de 2013

Conversa Solar

Conversei com o Sol, hoje.
É comum, ao me sentir solitário,
pedir que ele reflita sobre mim
a sua luz mais amiga,
aquela que aquece, mas não queima:
a que clareia, mas não cega;
a que se afoga no crepúsculo
para ressurgir na aurora;
a que nos ensina a viver
e nos dá a dádiva de morrer.
Quando escurece e parece se ausentar,
ilumina a Lua,
como a revelar o poder da Natureza
de sempre estar presente…

Mar Vermelho*

Tarde, quase noite,

saí para pescar no mar vermelho

do céu…

Por entre retas paredes de corais

e rochedos de formas estranhas,

balançava a vegetação

ao sabor do vento acidental…

Por fim,

quando já alcançava

o seu refúgio final,

consegui capturar,

através do olhar,

a estrela do mar continental…

Poema de 2017, baseado na imagem registrada em Indaiatuba no início da Primavera.

Poeminhas

Larga
Vida larga
Sempre se impondo
Sobre a morte amarga
A corajosa largatixinha
Larga a antiga casa
Larga a vidinha
Rasa
Fechada
Que tinha
E se torna
Do seu destino
Rainha.

Igreja nossa que estais na terra
Onde um ritual divino se celebra
Se eleva a alma e desce a lágrima
Que seja o amor a sua obra prima.

Caminho…
a cada passo no chão,
deixo marcas dos meus pés
nas nuvens…