Projeto Fotográfico 6 On 6 / Quando Tiramos A Roupa

Eu estava procurando um texto meu, quando me deparei com Nudez. Parece-se com uma espécie de ensaio que versava sobre esse controverso assunto – a depender de quem o lê ou comenta. Encontrei outras vezes em que cito a nudez como expressão visual em algumas postagens. Colocarei a seguir exemplos desse desnudar em imagens, sentimentos e ideias.

No Centro Velho de São Paulo, a menina nipônica na porta da garagem agita uma bandeira branca… da paz? Como aquela área já fez parte da zona de meretrício, talvez a pintura compusesse a entrada de um local afim… Talvez, a pouca vestimenta da moça fosse inspirada na nudez de valores hipócritas… Talvez, o artista não tenha tido nenhuma outra intenção além de preencher o espaço da porta… Talvez… (2016).

Na legenda do Facebook escrevi: “Mais uma de seminudez. Afinal, é verão neste hemisfério! — em Litoral Norte”. O que significa que não era incomum que aparecesse sem camisa ou menos… Saudade desses óculos (2011).

O sempre impactante e contraditório monumento à figura da ama-de-leite compulsória dos filhos de classes abastadas — Mãe Preta. Eu a conheço (a estátua) desde garoto. Nunca deixou de me causar uma forte impressão. As formas opulentas da personagem criada por Júlio Guerra, inaugurada em 1955, seria uma homenagem à participação da raça negra na História do Brasil. Rendo todas as honras à todas essas pessoas que doaram os seus corpos para que hoje vivêssemos as nossas atuais contradições. Não o faço àqueles que, um dia, exploraram seres humanos como objetos… Tanto quanto nos dias que correm…

Entre 2009 e 2013, fiz a faculdade de Educação Física. Estava com 49 anos à época e me sentia à vontade em meio aos mais jovens. Competia de igual para igual com o resto da turma. Coloquei como legenda: “Último dia do Curso de Natação, no final de 2010. Comigo, estão Saulo (de costas), Vitaum e Danilo. Garotos (alguns mais novos, outros nem tanto) à beira da piscina Clube Esperia”.

A escultura tumular foi, principalmente na primeira metade do Século XX, uma das mais ricas expressões das artes plásticas no Brasil. Grandes escultores, como Victor Brecheret, Galileo Emendabili, Bruno Giorgi, Materno Giribaldi, Nicola Rollo, Francisco Leopoldo e Silva, executaram obras que compõem o acervo do Cemitério da Consolação. Apesar de belo, o conjunto aqui mostrado não tem o autor identificado. Normalmente, as obras buscavam representar a passagem para a “vida eterna” de uma maneira que exaltasse a grandeza da família que detinha a posse daquele cobiçado espaço no chão paulistano. Aqui, vemos Cristo, de corpo quase totalmente exposto, sem vida, sendo pranteado e cuidado para ser colocado no túmulo do qual saiu depois de três dias, ressuscitado (2022).

Em outubro de 2021, ao completar 60 anos, ganhei das minhas filhas uma viagem para Parati, situada entre São Paulo e Rio de Janeiro. Foi uma experiência prazerosa em que a Tânia e eu usufruímos de belas paisagens naturais, além dos casarios e ruas antigas da cidade. Fizemos trilhas, visitamos quedas d’água, visitamos uma destilaria das muitas que produzem as famosas pingas da região, conhecemos bons restaurantes e passeamos de escuna, quando tive oportunidade de nadar no mar. Aqui, uma imagem desse passeio, junto a uma das paradas — uma das belas ilhas do arquipélago do litoral sul fluminense.

Participam, com temas diversos: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

Carta Do Passado Para Todos Os Tempos*

LALÁ,

demorei a lhe falar porque normalmente declino um monte de asneiras. Mas com você sinto-me à vontade para expô-las. O que digo aqui provavelmente não conseguiria dizer para a maioria das pessoas mais próximas do meu relacionamento, já que levo uma vidinha bem provinciana em termos familiares e amistosos. Discussões sobre a intimidade divina não passam dos anúncios de aforismos cristãos e de tentativas de relacionar-se com Deus através do temor.

Creio que Deus seja o deus do possível e tudo que passa por nosso pensamento é passível de existência. Se não existe no mundo material, palpável, pode passar a existir em nossa mente, onde criamos mundos inteiros. Com a imaginação, conseguimos subverter as leis e a ordem natural das coisas. Ou antes, a ordem natural das coisas passa por nossa ordem pessoal das coisas. Em última instância, mesmo que nós, como observadores, queiramos manter-nos distantes do mundo que nos cerca, normalmente interferimos na sua definição. Porque ao fazê-lo, usamos expressões e palavras, normalmente inexatas, parciais ou corrompidas por usos anteriores. Enquanto não tivermos a capacidade de nos comunicarmos por puras ondas mentais, quaisquer materializações, por palavras, símbolos e ações, dificilmente será entendida em sua integridade. Ainda mais porque a Matemática, língua oficial de Deus, não é alcançada pela maioria das pessoas e quem as utiliza talvez estejam presas a ditames que obedecem a fronteiras delimitadas.

E mesmo crendo que as construções linguísticas de que dispomos não sejam suficientes para o entendimento humano, confesso: como gosto de brincar com as palavras! Sinto-me bem, principalmente quando elogiam o que eu digo. Sinto-me envaidecido ainda mais quando crio uma expressão que consegue penetrar o âmago de alguma questão. Antes, quando não nos comunicávamos tão celeremente como fazemos hoje em dia através das redes sociais que nos agrupam em uma “sala”, estejamos aqui ou no Haiti, a única maneira que poderia existir para me apresentar (eu, por minhas palavras) seria escrevendo um livro que fosse publicado ou conversando com colegas e amigos, em rodas menores de contato direto. Da maneira como ocorre atualmente estamos criando uma poderosa máquina de comunicação, ainda que não compreendamos tão prontamente todo o seu alcance e força. Ao final, espero que a vacuidade da minha vaidade intelectual não me desvie do objetivo primordial que é conhecer-me através dos outros.  

Para adentrar no assunto que me levou a lhe escrever, digo que gostei muito do modo como o Prof. Laércio expôs a sua teoria sobre o Cosmo, integrando a Física – a Quântica e a Tradicional ( ainda mágica, mesmo assim) – à ainda subentendida dimensão espiritual. Ao discorrer sobre a existência de uma base plausível de ordenação do Universo visível e invisível, pela primeira vez em muito tempo, senti-me confortável em ouvir sobre equações e leis estruturais do átomo. Fiz anotações, como em uma aula normal, enchi o meu caderno de rabiscos e expressões e coloquei, lado a lado, números, questionamentos filosóficos, incitados pela Física, o princípio da incerteza e a confrontação entre a Matemática estatística e a objetiva.

Mas não passarei para você coisas que você já ouviu no vídeo, porque isso seria só repetir o curso. Darei a minha impressão sobre o que mais me chamou atenção – a menção feita de forma meio solta, quase casualmente, no terço final da palestra: somos um projeto de “extraterrestres”, seres de um dos níveis de energia do Campo Unificado. Para isso, mesmo temendo ser enfadonho, farei uma introdução.

Em cada passo que dava, o Homem enxergava uma ameaça à sua espreita – a cada animal ágil e voraz, a cada urro que ecoava pelos ares, a cada forte ventania que arrancava árvores inteiras do chão, a cada raio que riscava o horizonte. Porém, cada vez que via surgir a luz do dia ou a cada estrela que reluzia na abóboda celeste à noite, a cada flor que se projetava fora do manto de neve no início da primavera ou a cada canção produzida pelo roçar da brisa nas folhas das árvores, o mesmo Homem podia sentir a vibração da Vida a se afirmar.

Entre o medo e o encanto, a nossa espécie sempre preferiu se encantar e ultrapassar os seus próprios limites físico. Ela preferiu se identificar mais com o voo do pássaro do que com o rastejar da cobra e passou a se utilizar de sua poderosa imaginação para se desvencilhar das amarras que a prendiam à Terra. Tentou encontrar um sentido para o Mal, um equilíbrio no aparente Caos e se dedicou a se projetar de encontro ao Infinito, ao Invisível, à Força que percebeu existir por trás de cada acontecimento em seu entorno. Creio que a organização civilizacional ao longo do tempo, ao tornarem as crenças em instrumentos de castração e não de libertação espiritual, criou prisões em que o antagonismo se evidencia e se transforma em violência.   

Sempre me impressionou, conforme eu estudava o corpo humano, a capacidade plástica do cérebro, que parece ter sido feito para atender ao crescimento exponencial da inteligência humana. E como tudo é aparência, conforme as leis físicas conhecidas já deixaram descortinar ao tentar desvendar o Universo, do infinitesimal ao Infinito, aproveito para brincar com as possibilidades que o Prof. Laércio lançou com as suas ideias.

A capacidade desenvolvida pelo ser humano (ou para o ser humano) para chegar ao entendimento, ainda que mínimo, de sua condição foi resultado da evolução ou da criação? O chamado “desenho inteligente” do corpo humano seria uma prova inconteste alegada pelos criacionistas de que fomos criados pelas mãos de um ser superior. Não me oponho a essa ideia. No entanto, acredito que o surgimento do Homo sapiens obedeceu a um projeto engendrado pela Inteligência Universal para o nosso planeta, convertido no que poderíamos chamar de um grande laboratório existencial.

Na explanação do Prof. Laércio, ele citou que uma inteligência de fora deste plano que utiliza este planeta para que a Consciência, individualizada em corpos, se desenvolva para além das limitações impostas pelos invólucros corporais. Neste caso, a maior frequência de oscilação do campo energético desenvolveu a sua individualidade. Mesmo sendo uma “perturbação na Força”, não deixa de ser maravilhoso que essa manifestação da Criação apresente uma identidade diferenciada, um projeto “pessoal” de Deus.

Eu elaborei ao longo do tempo essa mesma percepção que, das formas mais básicas de vida até a “criação” do ser humano, fomos desenvolvidos em um processo supervisionado por entes “próximos” de nós. Este lugar onde vivemos é onde a nossa essência vivencia, vestida de homem ou de mulher (ou de…), as experiências necessárias para a nossa emancipação.

Mas a Terra não pertence só aos seres superiores (como vaidosamente consideramos ser), mas também às outras espécies que hospedam níveis de consciência mais diluídos ou ainda não totalmente desvendados. Por isso, devemos aprender a equilibrar a demanda de recursos, preservando a existência dos outros entes que convivem conosco nesta nave.

Muito mais besteiras poderia alinhar em sequencias absurdas, mas se você chegou até a estas últimas frases, aproveito a oportunidade para agradecer por estimular novamente esta minha vertente onde brotam ideias destrambelhadas, mas intimamente ligada ao melhor de mim.

                                                                                                                               Abraços!

*Texto de 2011

São João Gualberto*

O Humberto e eu fizemos uma caminhada até o Horto Florestal ou, como é oficialmente nomeado, Parque Estadual Alberto Löfgren. A sua origem se deu no século XIX, quando foi desapropriado o Engenho da Pedra Branca, em 1896, para instalação do Horto Botânico. O naturalista e botânico sueco Albert Löefgren foi o seu primeiro diretor, de 1907 a 1909. O Horto Botânico tornou-se a base para a criação do Serviço Florestal, hoje Instituto Florestal, órgão vinculado à Secretaria do Meio Ambiente do Governo de São Paulo.

Lá, encontramos um pedestal com uma imagem de São João Gualberto, padroeiro da floresta. Fundador da Ordem dos Monges Beneditinos de Vallombrosa, seguindo com rigor a disciplina e austeridade às Regras da Ordem, João Gualberto implantou no Vale de Vallombrosa — no território da Comuna de Reggello, na cidade metropolitana de Florença, na região italiana da Toscana — um centro tão avançado e respeitado de estudos que a própria Igreja enviava para lá seus padres e bispos para aprofundarem seus conhecimentos. Todos oravam e trabalhavam a terra, replantando os bosques do Vale e plantando o alimento do mosteiro, por isso são considerados precursores da agricultura auto-sustentável.

Considerado herói do perdão — perdoou o assassino de seu irmão, abrindo os braços e caindo de joelhos, implorando perdão e clemência em nome de JesusJoão Gualberto fundou outros mosteiros, inclusive o de Passignano, na Umbria, onde morreu no dia 12 de julho de 1073. Nos séculos seguintes, esses monges se especializaram em botânica, tanto assim que foram convidados para fundar a cátedra de botânica na célebre Universidade de Pavia. Várias instituições, como as de Pádua, de Roma e de Londres buscavam naqueles mosteiros os seus mais capacitados mestres no assunto. Canonizado em 1193, São João Gualberto foi declarado Padroeiro dos Guardas Florestais pelo Papa Pio XII, em 1951.

Corria o mês de de Junho de 2021. Humberto e eu, caminhamos até o Horto Florestal, distante 4Km de nossas casas, utilizando máscaras, obrigatórias ainda que ao ar livre. Vivíamos então, um das fases em que uma das variantes da Covid-19, imperava, causando muitas mortes.

A Questão

Há músicas em que eu me ouço quando as ouço
Há canções das quais eu gosto, sem entender
O significado das letras ou a intenção do compositor
Mesmo quando cantadas na minha língua
Há canções que admiro pela esperteza de suas saídas
Quando pareciam não me levar a lugar algum
E há melodias que, sem dizer palavra, me conduzem
Para o outro lado do verso e do Universo
Há músicas que se tornam a nossa trilha sonora
Mesmo quando não indique quem realmente somos
(Sou Quereres, por exemplo)
Aquelas que talvez digam o que pensamos
Quando nós mesmos não sabemos o que pensamos
E há canções que apenas muito tempo depois
Perceberemos o quanto nos representaram
Em determinada etapa de nossa vida
Ou ainda aquelas que ouvimos repetidas vezes
Até fazer sentido somente em alguma trilha futura
Que estaremos percorrendo
Quando eu não amava
Eu me emocionava com os amores possíveis e impossíveis
Sem saber dizer porque era intenso o amor que se proclamava
Quando um desse amores sem sentido (para quem não amava)
Se fazia  amor compreensível pela  força de sua letra
Era um achado tão raro, tão absorvente, que passava a repercutir
Os seus ecos amorosos pelos anos afora da minha existência…




Mais Dois Para A Conta*

Quando temos um condutor de boiada que toca bem o berrante, o gado responde obediente e o segue. Quando o gado se considera pensante, induz que as tocadas do berrante emitem certas orientações para além da simples entonação. Quando o condutor orienta a derrubarem as matas, extrair madeiras, invadir terras virgens, garimpar em qualquer lugar que considere ter riquezas que, ao final de tudo, sem fiscalização ou controle, acabam por enriquecer qualquer um, menos o País, aplaudem.

Quem assume os negócios escusos não são pessoas do povo que deixam tudo para trás em busca de pedras preciosas, madeira, ouro ou um pasto para si. Mas sim grupos criminosos organizados, da mesma estirpe do condutor do gado. Aparelhados de muito financiamento advindo de negociações que envolvem todo tipo de moeda, incluindo drogas, é possível montar estações de extrações de madeira, garimpagem, caça a animais silvestres para venda e todas as maneiras de dizimar populações inteiras de espécies. Sofrem os habitantes originais da Terra Brasilis, espoliados de seus direitos e locais de vivência.

Estamos sendo governados pelo Ignominioso Miliciano há quase quatro anos. Assim como Scar, na história do Rei Leão, que dizimou o local que comandava, que deu poder às hienas que ajudaram a devastar sua nação, seus asseclas agiram no mesmo sentido. Quem me disse isso, num comentário rápido, foi a minha filha mais nova que fez essa assimilação despretensiosa, mas bastante pertinente.

Esse elemento no poder, num texto de 2019 já o chamei de um d’Os Cavaleiros do Apocalipse, representando a Peste. Hoje, a notícia da localização dos corpos de Dom Philipps e Bruno Pereira é apenas mais um dos efeitos da política predatória desse cavaleiro motorizado do Apocalipse.

A chamada “aventura” dos dois ativistas, segundo as suas palavras, demonstra a sua postura de confronto contra quem quer defender as demandas dos direitos indígenas e dos territórios arruinados pelos comandados por sua postura de Scar. As mortes do jornalista e do funcionário do IBAMA são mais duas para a conta desse Ignominioso Miliciano — dois combatentes a menos contra seu projeto de devastação.

Imagem: Jornal da USP

*Texto de 13 de Junho de 2022