17 / 08 / 2025 / BEDA / Roy Lichtenstein

Em 2012, escrevi numa postagem do Facebook: “Sempre que passo por aqui, na Avenida Tiradentes, na altura da Passarela da Rua das Noivas, imagino que este grafite seja uma homenagem indireta ao grande Carlos Zéfiro… — em Avenida Tiradentes.

Porém, um amigo, conhecedor emérito de arte, Nilton Jorge, respondeu: “Grande, não tenho certeza, mas a referência não é a Roy Lichtenstein? Claro que preferiria que fosse a Carlos Zéfiro, mas foi quem me veio à cabeça primeiro… de qualquer forma, ótima postagem, adoro seus álbuns e olhares!”

Respondi: “A minha filha, Romy, que não conhece o Zéfiro, identificou a imagem como um trabalho de Roy Lichtenstein, um artista da Pop Art. O americano Lichtenstein utilizava referências de outros quadrinistas. O brasileiro tinha um trabalho original, mas em preto e branco. Ele confeccionou os famosos “Catecismos”, de cunho erótico.

16 / 08 / 2025 / BEDA / Papel Em Branco

Eu encontrei no quintal uma folha em branco. Quase a descartei entre os recicláveis quando me lembrei do respeito que tinha por papéis em branco. O meu pensamento estava voltado a só escrever. Eu não desperdiçava nenhum espaço onde pudesse colocar no papel as minhas ideias que jorravam aos borbotões. Cada raciocínio novo era escrito como se a minha vida vida dependesse de sua expressão. Eu me tornara um explorador a tentar desvendar os segredos de um mundo desconhecido: eu mesmo.

A minha curiosidade por mim se devia ao fato de eu não me sentir conectado ao espaço em que vivia. Algo que cultivei com uma certa vaidade, como se fosse superior. Apesar de ter provas cabais de que não era. Mais velho, percebi que estava passando apenas pela adolescência, fase em que somos monstros em desenvolvimento — inadequados, rebeldes, impulsivos, desarmoniosos de mente e corpo. Nesse momento da minha vida, explodiam poemas, contos, pensamentos não articulados com a realidade que, aliás, contestava. Chego a sentir saudade daquele garoto absurdamente ingênuo, tímido, relutante em amar, como se fosse uma fraqueza.

Eu desenvolvia concepções espúrias, mas criativas. Brincadeiras com a verdade pré-estabelecida. Percebi que era absurdo acreditar em “verdade”, já que a depender de quem carregava a sua bandeira falseava os fatos, os adaptando aos seus conceitos. A criatividade eu buscava domar para que não parecesse mais estranho ainda do que percebia que fosse. Mas vez ou outra eu deixava escapar uma palavra diversa do que se proclamava como fato para estabelecer um parecer diferente do deveria se considerar como padrão. Eu era o esquisito.

Desde então mudei tanto meus conceitos, expressões, visões, entendimentos, olhares, razões que posso me proclamar um ser contraditório dentro de parâmetros que estabelecem um padrão razoável de comportamento. Uma pessoa comum.

15 / 08 / 2025 / BEDA / 2020

Em 2020, vivíamos a Pandemia de Covid-19. Uma das precauções necessárias para que o vírus dessa síndrome gripal não se multiplicasse era o isolamento social. O meu trabalho, que envolve aglomerações populares, que é o de eventos, foi o que mais sofreu, tendo as suas atividades obstadas. O que eu concordei. Principalmente porque sabia que era uma providência necessária para impedir que a doença prosperasse.

No Rio, o prefeito da época em que postei a frase acima era o Sr. Marcelo Crivella, do Republicanos. Pastor evangélico, alinhado com as ideias do então presidente, que prefiro chamar de Ignominioso Miliciano, que via no distanciamento social algo que prejudicaria a Economia, criou uma medida para que as pessoas poderiam frequentar a praia, mas quadrados demarcados. Obviamente, os efeitos econômicos ocorreriam, mas evitaria a morte que passou a acontecer em número absurdo proporcionalmente à população brasileira. Oficialmente, 700.000 pessoas perderam a vida.

Várias que eu conhecia — do setor de eventos — que continuaram a trabalhar quase que clandestinamente, sucumbiram à doença, não sem sofrerem muito antes do óbito. O Sr. Crivela não se reelegeu, assim como o seu mentor político, que, aliás, está sendo julgado por tentativa de Golpe de Estado. Mas o crime maior certamente está relacionado a esse período em que tentou obstar de todas as maneiras a vacinação da população. Quando percebeu que fosse inevitável o uso da vacina, tentou obter lucro com a desgraça através de compras sem nenhum tipo de garantia de qualidade e nem de entrega. Um golpe de bilhões de dólares que foi impedida pela vigilância dos setores responsáveis como a ANVISA.

Enfim, ainda chegará o momento, eu espero, em que o Ignominioso Miliciano pagará também por esse crime que ceifou a vida centenas de milhar de cidadãos, além de trazer o luto para a família dos sobreviventes.

14 / 08 / 2025 / BEDA / Incógnito

Ao passar por uma rede social, surgiu para mim uma entrevista de Marília Gabriela com Arnaldo Antunes — ex-componente dos Titãs à época. Logo depois, ele viria a participar dos Tribalistas com Marisa Monte e Carlinhos Brown, outro projeto exitoso. Mas o melhor ficou para o final quando a entrevistadora pergunta: “Arnaldo Antunes por Arnaldo Antunes“. O olhar que o entrevistado fez foi icônico. Aturdido, respondeu que não esperava tal questão e de que não tinha ideia do que poderia responder: “Não sei!”, respondeu finalmente.

Fiquei pensando sobre a minha própria autodefinição e conclui que também não poderia responder decididamente quem eu seria aos meus próprios olhos. As informações que poderia passar são apenas relativas: “estou em busca de equilíbrio físico e mental, me coloco como alguém de tendência política à esquerda, acredito na transcendência do ser e não sou obcecado por dinheiro”. Mas a certeza máxima é de que sou um escritor. Tudo o que acontece ao meu redor presencio como história e vejo as atores como possíveis personagens.

E isso deriva do fato que acredito que o planeta seja um grande cenário em que os seus habitantes participam de uma grande espetáculo. Se há um diretor central e ou se todos nós participamos de uma grande dinâmica coletiva em que somos levados de um lado para o outro por movimentos internos e/ou compartilhados, é algo a se definir. A todo momento surgem supostos líderes que assumem a responsabilidade de comandar o fluxo e refluxo das situações. De modo geral, as forças que engendraram o enredo no qual estamos envolvidos, em dado momento tentou ser guiada por grupos hegemônicos através da violência.

Logo depois do evento Arnaldo Antunes, a Lunna me fez uma pergunta retórica: se eu havia mudado muito de opinião ultimamente. Avaliei que sim. Aliás, surpreendentemente até para mim. Eu me julgava uma pessoa estável em termos de postura, mas no decorrer dos anos, agi de maneiras diferentes do que faria antes em várias ocasiões. Concluí que Raul Seixas acertou quando se proclamou uma “Metamorfose Ambulante” — uma definição que (agora) adoto cabalmente, principalmente porque estou a envelhecer na cidade…

13 / 08 / 2025 / BEDA / Errar

Para compensar o erro de tomarmos a estrada errada, nos deparamos com o outro lado do Pico do Jaraguá — o ponto mais alto da Cidade de São Paulo. Logo depois, retomamos o caminho. Quilômetros a mais, gastos a mais, fruição a mais. Muitas vezes, pagamos por nossos erros com o maior prazer do mundo…