BEDA / Scenarium / WTF?*

WTF

O relato a seguir foi totalmente inventado e qualquer semelhança com fatos, circunstâncias, nomes de personagens e locais terá sido uma mera e infeliz coincidência.

Waldo fora chamado para fazer um orçamento para o fechamento de teto e revestimento para tratamento acústico na reforma de uma casa noturna. Logo que chegou, verificou que aquele era um salão como tantos que já visitara para executar tal trabalho. O espaço apresentava apenas uma entrada, que seria também a saída. Pequenos nichos posicionados em lados opostos seriam usados como bares. Mais ao fundo, ficaria o palco, os banheiros e a cozinha. Em outro ponto, mais junto à porta, haveria um recuo onde deveriam ser distribuídas as comandas, após uma sequência de grades que direcionariam as filas do público afluente.

O edifício fora construído em um terreno de 300 m² e a área livre, incluindo o palco, os dois banheiros, a cozinha e um depósito para as bebidas e alimentos, não passava de 270 m². Seria sobre essa metragem que Waldo deveria calcular o material que utilizaria, bem como o preço do serviço, que variaria de acordo com a qualidade do revestimento solicitado pelos donos da boate e casa de eventos WTF – Wonderful Tour Freeway. Chamou a atenção de Waldo que o rebaixamento faria com que o teto da WTF ficaria mais baixo do que o ideal, mas os donos achavam que o ambiente ficaria esteticamente melhor, além de mais acústico para a sonorização, sem a utilização de tanta potência e recursos técnicos para distribuir o som. Waldo não se contrapôs. Quando algum cliente desejava a realização de algo que não fosse confortável ou seguro, ele, no máximo, sugeria algumas alternativas, sem ser muito enfático, para não irritar o contratante. Ao cabo, acabava por obedecer às ordens dadas.

A WTF pareceria, após o rebaixamento do teto, a uma grande caixa de sapatos. Sem as outra áreas livres, o espaço reduzia-se a 180 m². Talvez coubesse, de acordo com o padrão internacional de ocupação ideal, de 4 pessoas por m², no máximo, em torno de 720 seres humanos. Os donos disseram que poriam um aviso com a lotação máxima de 1000 fregueses, mas duvidavam que a casa mantivesse um público muito superior a 500 frequentadores. Enquanto conversavam com Waldo, trocavam ideias entre si de como atrair uma maior afluência. Ele chegou a ouvir a proposta de uma noite que se chamaria “Colação”, já que o mote seria que todos estariam tão próximos uns dos outros que seria uma imensa colagem de corpos. Ouviu também a armação de uma estratégia – caso alguém reclamasse da massiva aglomeração, responderiam que a intenção era exatamente aquela – unir as pessoas fisicamente. Os jovens, principalmente aqueles que tinham dificuldade em aproximar-se uns dos outros, adorariam – completaram.  Logo após, ouviu uma risada entremeada por cumprimentos, em que os donos se elogiavam mutualmente por tamanha esperteza. Waldo sentiu um pequeno tremor.

Na verdade, Waldo já havia visto essa estratégia empregada em várias ocasiões, para diversos fins. Corria a solto pelos meios de comunicação a série de anúncios para a Copa do Mundo de 2014, em que acentuava o elogio do tumulto que causaria um evento de tamanho porte realizado sem a infraestrutura necessária para tal, já que não haveria remédio, tempo ou seriedade para resolver os problemas que seriam causados pelo enorme afluxo de pessoas, então. Com o passar do tempo, ele também já elaborara um perfil padrão das pessoas com que lidava. Elas sempre buscavam justificativas precárias para as suas tomadas de decisão igualmente duvidosas. Esse preconceito o aliviava de contra-argumentar certos critérios espúrios, o que o poupava de digladiar-se com o cliente, como já ocorrera no começo de sua atividade, resultando em perda de receita. Afinal, tinha muitas contas para pagar, como todo mundo. Aprendera a adaptar as preferências alheias ao escopo do projeto, mesmo que fosse contra as normas básicas de execução mais segura. Naquele caso específico, os seus contratantes disseram que o revestimento com tratamento anti-chama era muito caro, o que inviabilizaria o trabalho. Perguntaram se haveria alguma alternativa mais barata e Waldo disse que havia, mas que talvez fosse muito perigoso, caso houvesse alguma ocorrência, como um curto-circuito, explosão ou outro fator de risco de incêndio. Nesse caso, a fumaça produzida, argumentou, seria altamente tóxica e se espalharia em poucos minutos.

Os sócios se entreolharam e com o tempo acertado de percussionistas que estavam bem ensaiados, bateram na madeira do palco de bateria três vezes – “Deus me livre! Isso nunca acontecerá!” – disse um deles. Outro completou que tomariam todas as medidas de segurança possíveis, com a utilização de equipamentos elétricos de primeira e iluminação de última geração – Importada! – finalizou.

– Então, está bem! Com o material que escolheram, o preço cai pela metade.

– Ótimo! Pode providenciar o serviço! Temos pressa! Precisamos reinaugurar a casa logo no início do ano, quando os estudantes, que constituem a maior parte de nosso público, voltarem às aulas!

– Estará pronto no prazo! Apenas não sei se dará tempo para a liberação do alvará!

– Não precisa se preocupar com isso, meu amigo! Temos um acordo com o pessoal da prefeitura. Somos amigos, inclusive, do prefeito. Ajudamos muito na campanha para a reeleição.

– E os bombeiros?

– Tranquilo, meu amigo! Costumo dar passe livre para vários soldados da corporação. É muito comum termos também policiais, delegados, além dos soldados do batalhão da cidade frequentando o nosso salão. Caso aconteça algum fato estranho, teremos o lugar mais seguro do mundo!

Mesmo já tendo observado que não havia saídas laterais, Waldo perguntou, por desencargo de coincidência:

– Outras portas, além daquela pela qual entramos?

– Não, meu amigo! O brasileiro, se puder, não paga nem o enterro da mãe! Não podemos dar a oportunidade de que saiam sem pagar! Ainda que colocássemos seguranças para vigiar essa saída, teríamos uma despesa extra, desnecessária! Além do que sempre haverá a chance de alguém molhar a mão dos caras para saírem sem pagar a comanda…

Duas coisas incomodavam a Waldo naquele momento: primeiro, o fato daquele senhor chamá-lo de “amigo”; segundo, pelo que vira na tabela de preços a frente de um dos bares, os valores eram abusivos. Vasilhas de refrigerantes, águas e energéticos custavam quatro a cinco vezes mais que o preço normal de compra em supermercados. Fora os coquetéis e outras bebidas a base de álcool, em que a imaginação para instituir os valores era ampla e irrestrita. Isso incentivaria a tentativa de não pagamento da comanda. Em contrapartida, justificaria arriscar a vida das pessoas ao não disponibilizar saídas de emergência? De qualquer forma, pensou, aquele serviço seria grande e renderia um bom dinheiro. E ele faria da melhor forma possível, como bom profissional que era.

Logo após acertar o contrato, ele saiu à luz do dia, se sentindo aliviado por ter saído daquele ambiente opressor. Um sentimento de angústia chegou a assaltá-lo momentaneamente. Ainda trazia, vívida na lembrança, a descrição das câmaras de gás feitas pelo autor de um livro sobre o Holocausto que lera recentemente. Criadas pelo engenho humano para executar o maior número de pessoas com o menor custo e em menor tempo possível, a sua construção era extremamente simples. Uma caixa, como aquela, em que hordas de crianças, homens e mulheres se dirigiam a uma armadilha, com a promessa de um banho redentor, que restituiria um pouco da humanidade perdida. Marcas de unhas resistiram à passagem do tempo, entalhadas na parede. Mais um pouco, Waldo deixou esses pensamentos de lado e convenceu-se de que deveria acatar o que os contratantes mandavam. Ele, por seu turno, apenas estaria cumprindo ordens…

*O incêndio na Boate Kiss ocorreu a 27 de Janeiro de 2013. Nessa mesma data, 68 anos antes, em 1945, o Exército Vermelho libertou Auschwitz, o maior e mais terrível campo de extermínio dos nazistas. Em suas câmaras de gás e crematórios foram mortas pelo menos um milhão de pessoas. Esse dia é considerado o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia — Lunna Guedes

Robôs Sinceros

RS

Fui à boca do caixa. Das três disponíveis, havia uma única ocupada por um ser humano. Quando fui chamado, apesar da espera, me senti reconfortado por não estar falando com uma máquina, ainda que o atendimento da bancária tenha sido, de certa maneira, robótica. Não a recrimino, já que o trabalho que desenvolve é um tanto entediante. Está ali para cumprir tarefas que qualquer robô faria e fará, sem exceções, em futuro próximo. Aliás, o banco tem alardeado publicitariamente que o futuro já chegou e que grande parte das relações financeiras entre a instituição e seus clientes estão sendo eficazmente intermediadas pela Inteligência Artificial.

De forma derivada, brinco com a concepção da artificialidade intelectual apresentadas por algumas pessoas, observável quando não conseguem estabelecer uma comunicação razoável, ainda que se digam inteligentes. Em muitos casos, adotam comportamentos, expressam argumentos e realizam atividades obviamente dirigidas e emprestadas, tornando-se, ao invés de produtoras, meras replicadoras de ideias simplistas.

No entanto, aparentemente, as virtudes dos robôs são amplas, a ponto de sermos levados a entendê-los como seres humanos melhorados – capacitados, confiáveis e sinceros – a ponto de acreditarmos que se forem questionados se são robôs, responderão que são. Afinal, qual seria o objetivo de haver esse tipo de pergunta ao fazemos um cadastro online como quesito de segurança, se não houvesse a certeza que um robô, talvez um tanto envergonhado por querer se passar por uma pessoa, “sonho” de toda máquina inteligente, declinasse de sua pretensão de assumir, com dignidade: “Sim, sou um robô! Desculpe-me por querer passar por um ser vivo!”. Acresce-se que ao aparecer para mim o receptáculo em que devo assinalar o “X” em “Não Sou Um Robô”, fantasio com a possibilidade que me descubram, finalmente.

Isaac Asimov, em 1950, no livro “Eu, Robô”, acabou por desenvolver as três Leis da Robótica: 1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

Se já fossem tão desenvolvidos, talvez não ocorresse tantos episódios de fake news que fazem tanto mal às relações humanas. Mais recentemente, diante da realidade que se impõe cada vez mais aceleradamente de convivermos com máquinas que simulam comportamentos humanos, o exponencial desenvolvimento da tecnologia se chocará, mais cedo ou mais tarde, com nosso atraso como exemplares de “unidades de carbono defeituosas”, como nos nominou V’Ger, em Jornada Das Estrelas, de 1979.

Nesse filme de Jornada Das Estrelas, V’Ger originou-se da sonda espacial Voyager 6, que de fato originalmente nunca foi ao espaço pelo programa de sondas exploratórias espaciais norte-americanas lançadas a partir de 1977 para estudar os planetas do Sistema Solar e que posteriormente prosseguiriam para o espaço interestelar. Pelo enredo, a Voyager 6 acabaria por acumular tanto conhecimento que desenvolveu autoconsciência e voltou à Terra para encontrar seu “criador” – o próprio homem. Por encontrá-la infestada de seres subdesenvolvidos, a ponto de não entenderem o sinal lançado por ela, tornou-se seu objetivo limpar o planeta daquelas “unidades de carbono defeituosas”. A máquina consciente deseja, além disso, unir-se fisicamente ao criador. O filme soluciona a questão de maneira interessante, baseado no sacrifício humano, aliado ao amor, expressado inclusive de maneira carnal, o que nos salvará de sermos varridos do planeta ao qual fazemos tanto mal.

Há várias previsões alarmistas que nos levam a acreditar que o conflito entre o Homo sapiens e as máquinas capacitadas com inteligências artificiais hiperdesenvolvidas será uma questão de tempo. Não duvido, se compreendermos que a lógica do desenvolvimento de uma espécie como hegemônica passa pela violência e aniquilação de adversários. É o que fazemos com os outros seres com os quais convivemos no Planeta. Por enquanto, não tem sido preciso que as máquinas com Inteligência Artificial se revoltem contra seus criadores e nos exterminem progressivamente. Nós mesmos, com a ajuda da tecnologia que desenvolvemos, estamos fazendo esse trabalho sujo de maneira criativa e exemplar.

Foto: Robô iClub, que tem habilidades motoras avançadas que o permitem pegar e manipular objetos. Ele interage e aprende com o ambiente de forma semelhante a uma criança de dois anos de idade.

BEDA / Scenarium / O Último Texto

O Último Texto
Marley

Neste mesmo momento em que começo a escrever este texto, ouço “Vilarejo”, com Os Tribalistas. Sou fã de Arnaldo Antunes (quase digo Baptista), Carlinhos Brown e Marisa Monte – uma paixão sucedânea a Elis Regina – amor eterno. Acabo de me inscrever no canal da Marisa no Youtube. O que é estranho. Provavelmente por desatenção, deixei de fazê-lo antes. Hoje, dia 21, de Tiradentes, em que venho a moldar o corpo desta mensagem, poderá vir a sofrer acréscimos eventuais até quando vier à publico, no último dia de Abril, diante do fato de estarmos em meio à voragem dos acontecimentos, cada vez mais rápidos-delirantes. Sem nenhuma tentativa de parecer fatalista, eu mesmo poderei não estar presente. Cada dia é um dia…

Deitado a meus pés, Marley, um cachorro “emprestado”. Confia tanto em mim, que chega a roncar seu descanso de estrepolias com seu companheiro de solidão, Fred. Eles “pertencem” à residente fantasma (outra história) da casa da frente. Estamos, os três, na propriedade da família na Praia Grande, no litoral sul de São Paulo. Isolado há três semanas dos humanos, então, na data de 30 de Abril de 2020, tanto poderei estar neste mesmo lugar quanto em casa, na capital. Como é comum na vida de um escritor, falo no presente-passado sobre uma data futura, que ocorre a partir do instante que lanço palavras ao ar no meu blogue – ¡Com Licença Poética! Serial Ser. Para quem estiver lendo este texto em um futuro distante, caso não a tenha vivido, estamos em época de Quarentena por efeito da pandemia da Covid-19.

Atualizando os fatos mais recentes, além da saída do Ministro da Saúde (Mandetta), em meio a uma grave crise de saúde pública, o da Justiça, Moro, um dos pilares de sustentação do governo que propagandeava o combate à corrupção, tendo a Operação Lava-À-Jato como  carro-chefe, saiu do seu comando. O motivo é a interferência direta do “presidentezinho” na Polícia Federal no momento que investigações levadas à efeito estão chegando perto dos filhos-milicianos que acumulam os cargos de assessores-criadores de fake-news oficiais. Com o tempo, perceberemos quais as repercussões dessa saída. Porém, a acusação levada ao ar em rede nacional indica que o capitão miliciano está a adotar o modus-operandi da velha política, mesclado ao crime organizado com sede no Rio de Janeiro. Para demonstrar sua intenção de controlar a PF, nomeou como Diretor Geral seu guarda-costas, cuja credencial maior é o de ser parça de seus filhos.

O que é interessante é que, ainda que estejamos a viver-e-a-ver corpos a cair à esquerda e à direita, ultrapassando o número de mortos da China – “E daí? Lamento, quer que faça o quê? Eu sou Messias, mas eu não faço milagre” –, muitos cidadãos deste País preferem não acreditar que estamos em meio a um surto de proporções globais. As informações que temos hoje a respeito da Covid-19 é que não se trata apenas de uma “gripezinha”, porém de uma doença que além de atacar os pulmões, repercute no sistema linfático e circulatório  que repercutirão pelo resto das suas vidas, caso sobrevivam, incluindo efeitos neurológicos. Na época da endemia de dengue, em 2015, eu a contraí, com todos os efeitos mais pesados. Anos depois, ainda apresento reflexos de sua passagem. De igual forma, a experiência da atual pandemia repercutirá em nosso tecido social por nossa História muito tempo ainda, por mais que a esqueçamos – tendência doentia do brasileiro.

O Último Texto A
Fred

Apesar de documentada anteriormente, a pandemia da Gripe Espanhola, que dizimou populações inteiras entre 1918 e 1920, apresentando o saldo de 50 milhões de vítimas, portanto bem mais mortal, não teve o acompanhamento global em termos de documentação que temos atualmente. Mesmo assim, após a sequência de guerras e mortandades em massa ocorridas em vários níveis – o que talvez nos tenha anestesiado – seguimos a viver como se nada tivesse acontecido ou viesse a acontecer.  De fato, após seu advento, vivemos os loucos Anos 20. Eu chamo a esse evento, particularmente, de “Fenômeno de São Francisco” (a cidade americana). Seus habitantes “sabem” que, a qualquer momento, a bela cidade poderá ser destruída por um grande terremoto, já que se assenta sobre a falha geológica de San Andrés. Contudo, vida que segue, mesmo que todos os dias possam ser o último, os refutadores da atual pandemia assentam suas posições nas mesmas premissas, capitaneada pelo “Cavaleiro do Apocalipse do Planalto Central”. Afinal, segundo suas próprias declarações “todos vão morrer um dia”. Se é assim, que seja um trabalhador de baixa renda ou um idoso aposentado, consumidor de recursos do INSS.

Mirando nos efeitos financeiros danosos para o atual sistema, que eventualmente impeça que ele venha a se reeleger em 2022, começa a arquitetar um Golpe de Estado, lançando balões de ensaio a esmo através de eventos programados. Com declarações dúbias lançadas ao vento, é comum não confirmar na fala seguinte a impressão que deixou no dia anterior. Em meio a claques ensaiadas da “Seita das Carreatas da Morte”, quele que diz que não é coveiro, refuta as ideias que deixou no ar, feito vírus que se espalha entre os desmascarados de plantão. Usar máscara (de proteção), aliás, parece estar associada à oposição às falas do capitão miliciano. Confesso aqui que, por mais que tenha denunciado durante o ano anterior a sua eleição os posicionamentos de viés fascista do sujeito, ver acontecer diante dos meus olhos a gestação do monstro da exceção democrática, ainda que a Democracia já tenha sido aviltada tantas vezes, é triste, decepcionante, tenebroso…

Não é isso que gostaria deixar para as gerações futuras, depois de ter minha vida marcada pela luta insana entre direita e esquerda baseada na ocupação sem opositores, sem argumentação, sem diálogo, sem concerto social democrático quanto ao Poder Central – a ditadura como régua. No presente, as relações entre os poderes estão tensas porque chegou ao poder, após vários erros cometidos pela esquerda brasileira, um ser canhestro, uma pessoa nefasta, representante da direita mais simplória, gestor de uma família igualmente disfuncional, todos, ocupantes do “Gabinete do Ódio”, que infectaram nosso claudicante sistema democrático com o germe da morte, inoculada nos anos de chumbo, mas ainda atuante de forma latente, mesmo depois de tantos anos após a suposta “cura” pela abertura e pelo estabelecimento de eleições livres. Os efeitos funestos da ocupação do poder por militares deixaram um hiato que demorará a ser remediado. Com certeza, não será enquanto eu viver (que poderá ser daqui a pouco). Talvez, nunca…

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / O Vírus Do Amor

Vírus

Moravam no mesmo andar do antigo edifício. Velhos conhecidos por olhares, pouco se falavam. Os jovens, filhos do interior, vieram para São Paulo para estudar. A instauração da Quarentena foi apenas mais um capítulo na marcha de acontecimentos. A súbita decisão governamental pelo isolamento social os encontrou hesitantes entre ficarem ou retornarem às suas famílias. A capital apresentava o maior número de casos e, receosos que pudessem eventualmente infectar pais e avós, decidiram ficar. Tudo isso foi tema da primeira conversa mais longa que tiveram, a voz meio difusa pelo uso das máscaras. Iniciada no elevador, continuou no corredor junto às portas de seus apartamentos, com a distância protocolar.

Surgiu uma conexão imediata entre os dois desgarrados. Estabeleceram o hábito de conversarem postados nas respectivas varandas, em entardeceres ultrajantes de tão belos, espraiados em céus outonais-vanilla–sky. Certa noite, madrugada silente, ele a ouviu chorar. Tiago chamou por Ana. Não obteve resposta. Bateu na porta da vizinha. Ao abri-la, se derramou em seus olhos avermelhados e inchados. Indo contra os protocolos, dispensadas as palavras, se abraçaram. As bocas se procuraram. As línguas caladas-eloquentes trocaram saliva e sorveram prazer. Desobedientes civis, mergulharam sem máscaras no desejo um do outro. O amor a iluminar a noite, virulento. Sentiram-se eternos.

Revezavam os leitos, alastrando ambos os apartamentos do fogo da paixão e da alegria da entrega. Camas e lençóis, contaminados de seus joviais fluídos, refletiam as primeiras luzes da manhã em composições cada vez mais inauditas de corpos entrelaçados. Apesar do sofrimento coletivo, os dois quase abençoavam a quarentena que os uniu. Planos para o futuro naturalmente surgiam em meio a longas conversas e beijos amiúde. Ainda assim, omitiram das respectivas famílias o encontro proibido. Esperariam tudo passar para que não ficassem aflitos com os jovens amantes. Por isso, os pais de ambos receberam com surpresa a notícia da internação dos filhos como sendo um casal de namorados com insuficiência respiratória.

Os jovens não apresentavam tosse. A febre confundia-se com o calor que geravam na sofreguidão do amor. O mal estar se instalou quase ao mesmo tempo. Preocupados um com o outro, procuraram os postos de saúde. Lotados. Devido ao fato de serem jovens, foram dispensados. Voltaram para casa, cansados e ofegantes. Quando pioraram, pediram ajuda ao porteiro que chamou a ambulância. Permaneceram intubados por alguns dias e vieram a óbito com um intervalo pequeno entre as partidas. Entre tantas mortes, a história dos estudantes apaixonados passou despercebida, a não ser entre os habitantes das pequenas cidades de onde vieram.

O País, enlutado, ainda teria que passar por outras tragédias – resultantes de uma doença incubada dois anos antes.

BEDA / Scenarium / A Pizza E A Forma

Pizza

Em Quarentena, estando isolado na casa da praia, não tenho horários específicos para as refeições. Quase dez horas da noite, decido fazer pizza. Saio, compro os ingredientes necessários e, ao revirar o armário em busca da fôrma, encontro a máquina do tempo, ainda que incompleta, sem as presilhas. Nela, produzo uma boa pizza de atum e cebola com molho de tomate.

A minha mãe adorava novidades em apetrechos para o lar. Logo que foi lançada, Dona Madalena adquiriu uma fôrma que poderia assar pizzas utilizando as bocas do fogão. Economizava o uso do forno, em tempos de escassez, além ser mais prática e rápida. O segredo era saber dosar o volume do fogo para que não queimasse. E foi através daquele utensílio que voltei para mais de quarenta anos antes no tempo.

Vários instrumentos caseiros usados em décadas anteriores vieram para a casa da praia. Volta e meia, me deparo com pratos, xícaras, louças, copos e talheres antigos, além de vários outras coisas-mecanismos que me fazem voltar ao passado. Quase imediatamente, despontam visões da minha mãe a manipulá-los, como se fossem videoaulas de utilidades domésticas.

A pizza ficou boa. Sei fazê-las – as pizzas – assim como outras comidinhas, de maneira que minhas filhas voltam sempre a pedi-las. Nunca busquei aprender anotando ou medindo dosagens de ingredientes. Simplesmente comecei a reproduzi-las quase magicamente. Feijão, arroz, sopas, misturas variadas e outros componentes de refeições ou lanches se materializam concluídas e saborosas. O segredo – eu era ajudante de cozinha de minha mãe. Acho que, ainda que não estivesse atento, a repetição cotidiana foi apreendida de algum modo.

Talvez seja isso ou mamãe se apossa de minhas mãos e por elas revive o prazer de cozinhar para aqueles que ama. O ingrediente secreto, porém, é evidente – aquele que torna os alimentos mais simples em experiências tão saborosamente dolorosas, na verdade, uma junção rica de saudade e amor.

Beda Scenarium