BEDA / Brasília – Inventada Um Dia Antes Do Brasil

Brasília II
Torre das estações de rádio, em Brasília

Em abril ocorre algumas das efemérides mais importantes do Brasil. Dia 22, oficializou-se o descobrimento de terras novas neste hemisfério – Ilha de Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz e, finalmente, Brasil. Dia 21, Inconfidência Mineira e inauguração da nova e, supostamente, definitiva capital brasileira – Brasília. Na primeira vez que fui à Capital Federal, trabalhava como roadie de uma banda de São Paulo, que faria um baile no Cassino dos Oficiais da Aeronáutica. Naquela oportunidade, teríamos como atração principal o grupo “Os Originais do Samba”, já sem a presença do Mussum, que deixara o time para se dedicar exclusivamente aos “Trapalhões”. Vivíamos os meados dos Anos 80.

Eu e a minha equipe, fomos de caminhão, levando o equipamento de sonorização e iluminação, em uma viagem que durou 32 horas, por vários problemas que tivemos no veículo durante o trajeto de 1.100 Km do percurso. Ao chegarmos à cidade, em um dia muito quente, amplificado pelo concreto e asfalto, estávamos atrasados e não ajudava em nada verificarmos que, em vez de nomes comuns, as ruas apresentavam quadras, letras e números para identificar os logradouros.

Depois de dar voltas e voltas em torno de edifícios-monumentos, nos dignamos a pedir informações em um ponto de taxistas, sujeitos que mal olharam para nós e responderam, secamente, que não sabiam onde ficava o lugar que procurávamos. Percebemos certa má vontade por parte deles porque, logo adiante, encontramos a rua aonde íamos, bem próxima dali. Aliás, um soldado que a patrulhava, também não soube informar em que altura ficava o Cassino dos Oficiais da Aeronáutica. Conjecturamos que o rapaz não fosse local. Depois descobrimos que quase ninguém de Brasília, que fosse mais velho, nascera na cidade. Com certeza, os apenas muito jovens poderiam ser chamados de brasilienses natos de uma cidade jovem, que fora fundada quase 30 anos no passado.

Enfim, fizemos o evento sem nenhuma intercorrência e voltamos para São Paulo pela manhã, agora podendo observar melhor a vastidão sem fim do serrado, em estradas em que o final se encontrava no infinito, qual em um túnel do tempo. O céu estava limpo, sem nuvens, como era comum, segundo eu soube, naquela estação. Nada de objetos voadores não identificados, como acontecera quando passávamos pela mesma estrada a duas noites antes.

O OVNI que vimos, então, emitia luzes que variavam de tamanho, a medida que se aproximava ou se distanciava. Esse contato de 1° Grau durou uns 3 minutos. A sensação que ficou do episódio foi de sonho, ainda que tivesse sido compartilhado por mais duas pessoas. No dia seguinte, o Capitão B., nosso contratante, ao qual relatamos o ocorrido, nos disse que realmente ocorrera uma informação de um OVNI pelos radares das torres de controle, o que, na verdade, não era incomum. Além disso, um dia depois, tivemos a notícia, com filmagem, de uma aparição no Rio de Janeiro, idêntica a que havíamos testemunhado.

Essa lembrança de Brasília, entre a frieza de alienígenas brasilienses, em dia quente, e o encontro de visitantes de outras dimensões, permeou a minha impressão sobre essa cidade do Planalto Central durante a minha vida toda até que vim conhecer pelas redes sociais pessoas que interagi a ponto de ir de encontro a elas em viagem ao Planalto Central. Hoje, fico feliz em poder encontrar seres que me estimulam, em vários sentidos, mesmo que “estrangeiros”, a adotar uma visão mais completa da nossa Capital.

Assim como São Paulo, Brasília é uma cidade adotada e de adotados. A sua multiplicidade arquitetônica e humana não é para fracos. Mesmo que atrasado, desejo um feliz aniversário a você, Brasília! Você começou a ser engendrada no ventre da Nação que se formaria, a partir do peito de um português que gritou, há 519 anos, no dia 22 de abril: “Terra à vista!”…

BEDA / Jerry Adriani

Jerry Adriani
Jair Alves de Sousa (1947-2017)

Há uns vinte e cinco anos, fui contratado para sonorizar um evento no Clube Gonzaga Nipo-Brasileiro, em São Caetano do Sul, que além da banda teria como atração principal a Jerry Adriani. Filho dos Anos 60, um garoto que pedia para a mãe comprar a calça “Tremendão”, do Erasmo e a camisa de franjas do Rei Roberto Carlos, tinha uma grande expectativa para ver o antigo ídolo da Jovem Guarda de perto.

Foi nessa ocasião que comecei a perceber mais de perto a dimensão do sucesso e as suas diversas facetas, a incluir o declínio. Na época que foram lançados, todos os cantores pertencentes ao movimento da Jovem Guarda carregavam atrás de si uma legião de fãs enlouquecidos que chegavam a obstruir as ruas em torno do local onde se apresentariam. A calma da região do clube onde haveria a apresentação de então contrastava amplamente com o que cresci vendo acontecer na infância.

De certa maneira, essa histeria coletiva, nunca a considerei saudável. Porém, ao mesmo tempo, vinha a demonstrar o quanto a mensagem ou a imagem que um ídolo externa impacta no imaginário de quem a expressa. Antes da apresentação, Jerry foi ao palco e demonstrou ser acessível e muito educado, característica que presenciei em 98% dos componentes da Jovem Guarda com os quais vim a trabalhar esporadicamente ao longo dos anos, individualmente e em shows especiais que reuniam vários deles. Credito esse traço em comum ao fato de serem filhos do Flower Power e da mensagem de Paz e Amor. Até hoje, por mais que possa parecer uma frase de mercado, eu mesmo a levo bastante a sério.

Ao longo dos anos, devido ao perfil que quisemos imprimir ao nosso negócio, de porte pequeno para médio, com atendimento pessoal e restrito, eu e meu irmão, Humberto, pela Ortega Luz & Som tivemos contato com artistas do canto que estavam tanto iniciando suas carreiras como aqueles que já haviam atingido o auge de popularidade e agora atendiam a eventos que atraíam saudosistas, em sua maior parte. Há aqueles que ainda carreiam grande prestígio, a ocupar o qualitativo de cults e fãs de novas gerações. Normalmente, são artistas que nunca foram tão bem-sucedidos em termos de divulgação, mas que sempre transmitem uma mensagem peculiar ou apresentam um apelo perene, ainda que muitas vezes indecifrável.

Há dois anos, no dia 23 de abril, em meio a um evento que sonorizávamos, na sua maior parte frequentada por pessoas que gostam de dançar juntinhos, característica passadista, recebi a notícia do desenlace físico de Jerry Adriani, aos 70 anos. Além do homem que partia, mais um ícone de uma época que marcou uma geração inteira, saía de cena. Descia do palco físico o gentleman, o homem com planos ainda a realizar, o artista de voz única (ou quase).

Quando surgiu Renato Russo, me perguntava quem era aquele sujeito que tentava imitar Jerry Adriani. Achei irônico Russo revelar que não o conhecia, demonstrando o fosso entre as gerações. Depois, chegaram a aparecer juntos em apresentações, por causa da semelhança vocal. Tive a boa sorte de poder participar infimamente de seu percurso, assim de como vários outros músicos da mesma era. Além de ter o prazer de trabalhar com a máquina do tempo que a música põe em movimento, tive a oportunidade de de-cifrar os meandros da minha própria história.

BEDA / Auto

 

Auto

Vivemos frequentemente situações que condições externas nos impõe restrições de movimentação e de visão. Em uma longa viagem de ônibus ou metrô, temos rostos de estranhos postados tão próximos quanto o de amantes. Paisagens repetidas tornam-se, com o passar do tempo, visões de quadros de artistas sem talento. A solução mais ao alcance de nossas mãos, olhos e ouvidos, tem sido nos distrairmos com a leitura de um livro ou, mais assiduamente, utilização de aparelhos de nexos – ou dispersão.

Vez ou outra, podemos até realizar outras ações nas raras vezes que conseguimos sentar. Lembro-me que um dos meus melhores trabalhos na Faculdade de História foi feito, literalmente, nas coxas, na hora e meia que me levou de casa à USP. No entanto, era outra época, no final dos 80, e os trabalhos podiam ser realizados à mão e as distrações  talvez fossem menores.

Estamos cada vez mais vinculados à Rede,  onde quer que estejamos. Se a Nossa Senhora  das Conexões nos permitir, através dos instrumentos eletrônicos de mediação, como celulares e computadores, podemos jogar contra adversários virtuais de países amigos, recebermos mensagens do além Rio Tietê, nos inteirarmos de novidades que temos urgência em sabermos antes que se tornem antigas na próxima hora, ouvirmos canções de amores perdidos-encontrados e conversarmos com pessoas do outro lado mundo, enquanto o próximo ao seu lado está sendo sonoramente ignorado.

Há alguns anos, ao estar ouvindo o noticiário matutino pelo celular, com os fones de ouvido enterrado nos ouvidos, fui facilmente furtado da minha carteira e de outro celular por um heterogêneo bando de mulheres dentro do ônibus. Foi um perfeito trabalho de equipe – enquanto uma das moças impedia que eu avançasse (uma baixinha que mal alcançava a barra de cima) outras duas se assenhoravam do conteúdo da bolsa de couro que usava para ir à faculdade.

Logo que fizeram o serviço, desceram rapidamente, deixando uma bem vinda clareira na área em meu entorno e na minha bolsa. Com certeza, teria percebido a movimentação estranha se estivesse com meus sentidos em alerta. Enquanto recebia notícias dos tumultos na França, a ação perniciosa de algumas pessoas tumultuava a minha vida.

Outro dia, mais recentemente, ao tentar descer no meu ponto, solicitei ao rapaz à minha frente, em voz alta, que me desse passagem. Como ele não se movimentava, toquei em seu braço como se a minha vida dependesse daquela oportunidade e ele me olhou com a expressão de quem estivesse sendo agredido por um monstro. Percebi, de imediato que ele estava com fones de ouvido. Os dois ou três segundos que se passaram nessa “conversa” de sensações, foram o suficiente para que o ônibus fechasse as portas e, célere, saísse em seguida para aproveitar o semáforo sinalizado em verde. Desci apenas no ponto seguinte.

Fiquei plenamente desconcertado com a situação. Na época, havia deixado de usar dos fones de ouvido, desde o furto que sofrera. Ajudou-me a decidir admoestações da minha mulher, que se sentia ofendida com a minha “ausência”, mesmo quando estava em casa. Por um tempo, abri mão daquele instrumento. Voltei a usá-los mais assiduamente nos últimos anos, desde que deixei de atender clientes no tempo devido em algumas ocasiões. Para meu desgosto.

Ao empregarmos o tempo ocioso dessa forma, nos distanciamos do mundo real… ou do que chamamos de mundo real, que eu traduziria livremente como a arena em que jogamos as nossas individualidades. Como contraponto, podemos começar a exercitar a conversa “ao vivo” com quem esteja presente, ali, do lado. Porém, quem se permitiria ser invadido dessa forma por um desconhecido?

BEDA / Se Não For Para Causar, Nem Caso

Fogo & Gelo

Maria, figura esfuziante e autossuficiente, trazia o sol atrás de si aonde quer que chegasse. Era desejada por homens e mulheres, mas não se prendia a ninguém. No trabalho, sorriso aberto, conseguia conduzir aos seus comandados com facilidade e seriedade. A chegada das sextas à noite, saia com o grupo de amigos, muitos, antigos colegas de escola. Todos a amavam. Quase todos a tiveram nos braços, mas sabiam que ela era uma espécie de patrimônio da humanidade. Como conseguia equilibrar tantas emoções que provocava, era um mistério que nunca conseguiram desvendar. Ou se aceitava Maria ou se afastava para tentar nunca mais vê-la. Porém, tamanha a sua força atrativa, poucos a deixavam. Era fogo que aquecia.

José, recolhido e triste, enviuvara há pouco tempo, sem filhos. A sua personalidade plasmada em gesso sem acabamento, ganhou feições de grandiosidade de um deserto aberto. No entanto, sempre prestativo, era querido por muitos. Gostavam de tê-lo por perto porque era aquele que parecia concordar com tudo o que fosse dito, calado que era. Poderia se dizer que fosse uma figura decorativa, porém indispensável. Eficiente em suas funções de contador, não sabia contar quantas dores já sentira na vida, sensibilidade à flor da epiderme mais basal. Era gelo que não derretia.

Ora, pois então, deu-se que um dia acabar por se encontrarem, em uma tarde de outono, Sexta-Feira Santa. Maria, reservava um dia por semana para estar só ao sol – amigos estelares que eram. José, ainda que companheiro silente preferido de muitos, se sentia melhor quando confirmado em sua solidão tranquila. Ela, a buscar a luz por entre o arvoredo do parque; ele, a se sentir acolhido pela sombra oferecido pelas folhas – encontrão, peito com peito, distraídos dos dois, absortos pela Natureza. Olhos nos olhos, antes da queda… ou quase, já que ele, em um movimento de insuspeita agilidade, a segurou nos braços. Fogo e gelo em pleno Horto Florestal. Desculpas recíprocas. O sorriso dela a queimar a pele dele. A profundidade do olhar dele a abarcar a energia dela.

Tão diferentes, que não se estranharam. Antes, curiosos por viajarem por terras tão distantes, se sentiram atraídos pela aventura de se conhecerem. Decerto, não era algo que faltasse a um e outro. Ambos se sentiam completos, ao seu modo – uma, pela opulência; outro, pela falta. Não precisaram trocar palavras ou gestos efusivos. Apenas o dançar suave de mãos e olhares, jogo de silêncios e risos sem motivos aparentes. Ela, em sua presença, brilhava ainda mais; ele, na dela, se aprofundava mais firmemente em sua segura e sólida guarida. Longe da multidão que os cercavam, no entanto, se reconheceram amantes mutualmente. Já, naquele dia, o finalizaram em batismo de fogo e gelo. Queimaram e umedeceram os lençóis noturnos e, mais tarde, matutinos. Final de semana prolongado da Paixão.

Celulares religados, mensagens e chamadas perdidas os fizeram perceber que o mundo os queria por perto – familiares e amigos, carentes do corpo caloroso de Maria e da presença refrescante de José. Logo, perceberam que não queriam se separar, talvez não conseguissem. Ambos estavam surpreendidos pela força que os uniam, ainda que não precisassem o que fosse ou como denominar aquilo que sentiam. Talvez fosse amor, uma doença grave ou uma dependência psíquica, vício imediato, feito crack. Decidiram revelar ao mundo de entorno de cada um, a partir daquele instante, estariam juntos… Quase em uníssono, se perguntaram, como se tivessem uma plateia a inquiri-los: “Até quando? ”… Quase que imediatamente, responderam: “Não sabemos! ”… Riram gostosamente.

Feita a excursão por seus respectivos planetas, souberam que a aliança entre as partes não seria facilitada por seus habitantes. Seguiram em frente, alheios ao antagonismo – puro egoísmo de quem se acostumara a companhia constante de seres tão especiais. Com o tempo, a percepção de que ambos os lados não perderam amigos, mas ganharam outros, trouxe paz ao sistema solar.

A contrariar todas as expectativas e suas próprias convicções pessoais, quiseram fixar um núcleo central. Um lugar de reconhecimento como sendo a casa do Sol e do Gelo. Um ponto de referência. Já que não precisavam casar, porque não casarem? Reuniram a turma toda e anunciaram o enlace. Com o seu jeito faceiro, Maria completou: “Se não for para causar, nem caso!”… “E quando será?”… “Está sendo”…

E foram declarados: Vida e Paixão…

Imagem: https://magawallpaper.wordpress.com

BEDA / Dos Perigos De Viver

Cajueiro
Cajueiro

Em canção dos Anos 70, que conheci na voz do imenso Wilson Simonal, ouvia: “Papai, mamãe não quer que eu suba no cajueiro. Ela falou se subir eu caio da galha do cajueiro…” (Galha do Cajueiro). Subir em árvores era um perigo, com certeza, mas nenhum garoto deixava de abraçar troncos e agarrar galhos para se posicionarem mais alto e melhor para pegar uma fruta. Fazia parte da formação do repertório de movimentos que a liberdade daqueles dias permitia. Tempos de caminhos desobstruídos e campos abertos.

Jogar bola na rua ou em campos de várzea era programa obrigatório, não no sentido de obrigação, mas de prazer. Antes ou depois da escola (e no intervalo das aulas), os meninos buscavam o perigo de ralar o joelho, lanhar a canela, bater a cabeça. Nossos impetuosos corações nos pediam que agíssemos como se não houvesse amanhã. No máximo, acalentávamos o sonho de nos tornarmos jogadores de futebol.

Ao crescermos, acrescentamos obrigações nem tão prazerosas. Porém, na mesma canção, há a seguinte passagem: “Me tira, mamãe, me tira, me tira deste castigo. Eu subo naquela galha. Não corro nenhum perigo. Eu quero tirar caju. Eu vendo e ganho dinheiro. Me deixa, mamãe, subir, deixa subir na galha do cajueiro!”. O garoto tem consciência que o dinheiro é a maneira pela qual intermediávamos o desejo pelo objeto e a satisfação do desejo.

Não passava pela cabeça que haveria outro modo em conseguir o que se queria, por maior que fosse a privação pela qual passássemos. Em algum momento, em nosso percurso como País, nos desviamos de nossos propósitos de como obter algum bem. Se pudéssemos adentrar na mente de algum garoto desassistido, certamente a facilidade da vida criminosa será muito mais atraente do que trabalhar pesado para conseguir realizar o sonho imediato de conseguir o tênis da moda ou o celular “da hora”.

Ontem, um rapaz de 20 anos foi morto por estar desatento aos perigos de viver nos dias de hoje. Usava fones de ouvido, escutava as músicas de sua preferência, se divertia após deixar a jornada de trabalho. Era noite, estava no ponto de ônibus. Iria para a casa. Não chegou. Dois rapazes, provavelmente da mesma faixa social, montados em uma moto, o mataram para obter o que conseguiu com seu esforço.

Menino, suba no cajueiro! Viva o perigo de viver livremente! Venda caju! Consiga com o seu trabalho e abnegação os recursos para crescer, namorar, casar, constituir família – viver! Que o presente do País não o impeça de sonhar…

https://m.youtube.com/watch?time_continue=35&v=lJOVBAjRvt4