certa vez ouvi que acordar se assemelhava com um parto mas poderia dizer que sendo adulto travo um duelo com quem é refletido no espelho nunca venço porque aquele que se parece comigo tem argumentos irrefutáveis e me con…vence que deveria voltar para o cama… ou berço… ou útero do qual fui literalmente arrancado me pergunto… por que? por que a razão de tudo… por que nascemos se morremos? por que crescemos se envelhecemos? por que caminhamos se caímos? por que casamos se separamos? por que desejamos se sofremos? por que sonhamos se acordamos? por que amamos se somos deixados? sairei para mais um dia como se vivesse uma vida antiga sorrirei conversarei beijarei o rosto dela agora só minha amiga…
caminho por ruas calmas de uma primavera indecisa como são todas primaveras não é a toa que nasci em outubro a estação parece mimetizar a minha personalidade em desatino ou sou eu a imitar suas preferências titubeantes entre chover ou queimar as cabeças dos transeuntes com o sol a pino passo por casas antigas que imitam um tempo passadiço por algum motivo lembro de minha mãe deslizo de alegria nos cortes de alegria que o silêncio impõe numa época que o novo deus é chamado de inteligência artificial numa delas um velho casal se surpreende por sua cachorrinha vir em minha direção abanando o rabo como se me conhecesse de outra vida perguntou a ela (não a mim) se já me conhecia respondi que talvez tenha reconhecido a minha aura massageei o seu pescoço de pelo cor de cobre com um carinho paternal fui pai de outros tantos durante toda a minha vida que não duvido que ela seja a reencarnação de um deles mais à frente passo por um jardim composto com requintes de simplicidade duas rolinhas se posicionam descansando da faina de trazer alimento para os filhotes parei para observá-las se deixaram fotografar registrei como quem escreve uma cena de uma tarde que arrefece entre o tudo e o nada direciono o meu olhar escolho a composição da página eternizo o verso e reverso do casal de poesia alada…
sentado em meu trono me pergunto ora quem é o dono de meu destino aproveito para forçar a saída e em um segundo defino que é meu intestino evacuar definiu o caminho da humanidade civilizações que criaram meios de como recolher nossos dejetos e encaminhá-los para longe de nós se tornaram as mais desenvolvidas as mais aptas a dominar às outras por saber lidar com seu cocô o intestino que bem funciona impulsiona o poder mental de quem o carrega não há intriga não há dúvidas nem desvios o sorriso prevalece se sente feliz por poder evacuar com regularidade com o prazer de deixar marcas em barro por onde passa constato o que é claro o que sempre se soube quem é senhor de sua mente não desmente — sabe que tem o rei na barriga.
todos juntos acima do chão a caminho de buscar respostas guardadas no peito como pássaros que vão em direção ao por do sol além do horizonte as encontrarei? provavelmente não porque respostas não há se sabe que não são o fim em si em sim em mim…
Saturno ou Cronos, na mitologia grega, devora um dos seus filhos, é uma alegoria da passagem inexorável do Tempo.
Por mais que especulemos sobre a sua natureza física, mecânica, para o comum dos homens o Tempo não existe fora da nossa percepção no final das contas. E dá-lhe fazer contas de mais e de menos para mensurar o quanto vivemos, a estabelecer tabelas com as quais programamos as nossas agendas de encontros e desencontros, trabalho, vacância, lazer, nascer, permanecer e morrer. Efemérides que falham em designar a qualidade do momento que vivemos, o minuto que passa ou Kairós.
Ontem, me reuni com pessoas que se moveram para estar juntas de vários pontos da cidade. Fizemos algo que quase nunca tenho a disponibilidade para fazer: conversar. Falamos sobre assuntos sérios, outros nem tanto. Discutimos sobre o clima, as chuvas, as secas – de territórios e de mentes – o frio e o aquecimento. Este é um mundo que está morrendo. Já ouvi dizer que os entendidos em mudanças climatológicos calculam que em três anos, veremos caravanas de pessoas se movendo para as áreas menos inóspitas em termos climáticos. Projetaram que a continuação do processo que ora se desenvolve resultará, em 2050, em várias faixas das áreas junto aos Oceanos inundadas, engrossando os números dos refugiados do clima. Questão de Tempo.
É triste perceber que as minhas visões juvenis de cataclismas mundiais esteja perto de se realizar. Eu sempre fui muito imaginativo, mas não era isso que gostaria que as minhas filhas venham a vivenciar num futuro próximo. Os meus textos de garoto amante de escritores de ficção científica – Julio Verne, Isaac Asimov, H.G.Wells, Jack Finney – primavam pela revolta da Natureza frente ao continuado ataque dos seres humanos. Eu me tornei abstêmio de carne buscando minimizar os efeitos de minha presença como típico predador pertencente ao topo da cadeia alimentar por isso, também. Não são poucas as vezes que penso em voltar a essa fase que durou dez anos. Não resolverá a questão, mas talvez diminua a minha culpa…
Previsões se baseiam na soma de sequência de fatos passados com a repetição de fatos presentes, resultando em consequências práticas. A experiência da Humanidade na Terra me induz a imaginar que no atual andamento dos eventos, chegaremos a um colapso global em menos tempo do que se esperava. O atual sistema de produção que desenvolvemos ao longo dos séculos, empreendeu um aceleramento que está precipitando em descontrole sistemático. É como se víssemos Cronos devorando os seus filhos. Não terei condições de experimentar o meu Kairós em transcendência de vida, mas sim de morte…