Vila Madalena / O Carlos

– Me paga uma cerveja?

Levanto os olhos do meu computador, onde escrevo o meu novo artigo e vejo Karl Marx… ou alguém muito parecido. A luz que vinha da janela do bar onde, num canto, eu tenho uma mesa cativa quase debaixo da pequena escada caracol, lhe emprestava uma aura de eternidade. Não o conhecia, mas lhe indiquei a cadeira à frente, sempre vaga para os meus encontros profissionais ou amigáveis. Chamei à Cíntia com a mão e pedi para que lhe trouxesse uma caneca com uma cerveja que eu gostava, artesanal.

– Bom dia! Como você se chama?

– Ah! Bom dia! Desculpa a falta de educação! Fico assim quando estou com fome… Meu nome é Carlos

– Quer comer alguma coisa?

– Oh, não! A cerveja já me basta como alimento… O senhor é escritor?

– Nada de “senhor”! O meu nome é Francisco. Sou escritor, sim…

– Desculpa em interromper o seu trabalho. Eu o vi de fora e fiquei fascinado por sua “ausência”. Como se fosse um pianista executando uma partitura em seu momento de transe.

– Gostei da sua imagem. Também escreve?

– De outro modo. Sou compositor, mas atuo apenas como músico. Lançar composições autorais no mercado do jeito que está – concorrido e parcial – é só para os mais fascinados pelo sucesso comercial… e que não se importam em fazer concessões. Prefiro tocar em barzinhos…

– Que instrumento toca?

– Baixo, guitarra, violão… o que estiver precisando.

– Sabe o que é interessante? O meu artigo é sobre a letra de uma música. Não é o caso de decifrá-la, mas interpretá-la. “O Quereres”, do Caetano

– Eu amo “O Quereres”! É quase perfeita! Dentre os vários versos, há um que até entendo o que Caetano quis dizer, mas não acho que não sejam tão opositores assim…

– É? Qual passagem?

– “Onde queres família, sou maluco / Onde queres romântico, burguês”…

– Por que, não?

– Olha, só um doido para querer formar uma família nos dias de hoje… E o romantismo é uma criação burguesa. Surgiu no Século XVIII, com a Revolução Francesa, ascensão da burguesia, da liberdade individual. Nada mais burguês, já que não estar preso às convenções é algo apenas reservado às classes econômicas mais aquinhoadas, que não precisam seguir regras. Já estão com a vida ganha… Trabalhador não pode transpor certos limites…

– Você fala bem… como um professor…

– Ah, não queria parecer professoral. Já dei aula antes de viver como instrumentista. Sou formado em Sociologia.

A cada frase terminada, Carlos pontuava tomando um pequeno gole de cerveja, como se quisesse economizar.

– Você deve andar na corda bamba. Ser professor ou músico não deve ser fácil… Mas olha quem está falando… Tenho que produzir bastante para pagar as contas. Às vezes, trabalho no automático. A dona do bar é minha amiga. Permite que ocupe esta mesa. Disse que dá uma um certo ar intelectual ao lugar. Na verdade, ela gosta da minha presença. Sempre que recebo uma visita, a pessoa se torna freguês.

Um belo rapaz se aproxima da minha mesa e se posiciona ao meu lado. Ao virar o rosto, ele me dá

uma bitoca.

Fala, querido!

– Tô indo para o apartamento, tá bom, Chico?

– Fica à vontade! Berenice está com saudade de você!

– E eu, dela! Ela melhorou das dores nas pernas?

– A mesma coisa… se puder, faça uma massagem nas suas pernas e pés, tá bom? Esse é o Carlos, músico. Estamos discorrendo sobre um artigo que tenho que entregar.

– Olá! Tudo bem?

– Sim! Prazer em conhecê-lo…

Matheus! O meu nome é Matheus!

– O prazer é meu!

– Até mais, Chico!

– Inté!

Trocamos outro beijo leve nos lábios. Logo após a saída de Matheus, Carlos sorriu e perguntou a quanto tempo conhecia o Matheus.

– A vida toda, dele…

Diante do olhar entre espanto e censura, expliquei.

– Ele é meu filho. Ele sempre me chamou por meu apelido. Nos cumprimentamos com selinhos desde que ele era bem novinho. Gostava de beijar todo mundo. A mim, minha ex-mulher… os tios, primos…

– Ele tem um porte atlético! O que faz?

– Estuda Direito. Fica um pouco comigo, um pouco com a minha ex-mulher e o pai biológico dele. Mas é a mim que considera como pai e assim me chama quando quer conversar sobre algo mais íntimo.

– Quantos anos ele tinha quando você se casou com a…?

Ella, com dois “eles”… Estávamos namorando e ela anunciou que estava grávida. Logo, providenciamos os papéis. Eu sempre quis me casar! Apesar de acalentar o sonho de ser escritor, eu trabalhava com comércio exterior, acredita? Ganhava bem… até que…

Inesperadamente, fiquei emocionado. Não esperava que a velha história ainda me tocasse daquela maneira. Mesmo sendo tão clichê…

Matheus tinha 14 anos e percebeu que a mãe estava se comunicando frequentemente com um tal de Raul, como ouviu chamá-lo. Ciumento, me falou sobre ela estar namorando pelo telefone, marcando encontros. Ao interpelá-la, me confessou que estava tendo um caso com o sujeito. Perguntei a quanto tempo. Respondeu que quando me conheceu, tinha acabado de romper com ele. Gostou de mim. Eu parecia ser cara legal, além de estável financeiramente. Achou que talvez o esquecesse… Preciso também de uma cerveja…

Sinalizei para a Cíntia para que nos trouxesse mais duas canecas. Carlos rapidamente tomou o que restava da primeira. Com os seus olhos de pensador alemão parecia me ouvir com um ar de real tristeza, como se fosse um velho amigo.

– Foi então que fez a revelação que me derrubou. Ella havia tentado ainda mais uma vez voltar com Raul. Saíram, foram prá cama e ela engravidou. Quando revelou sobre a gravidez, Raul disse que não se importava… Ela que tirasse! Pai e mãe religiosos, sem nenhuma outra opção, me usou. Foi a melhor coisa que poderia ter feito. Mesmo iludido por considerar Matheus meu filho natural, nunca me separaria dela. Estava apaixonado por minha família. Só ocorreu a separação porque voltou a encontrar a quem sempre amou. Raul havia se separado da esposa, deixando a casa para ela e o casal de filhos, irmãos do Matheus.

– Nossa! Que história! E Matheus, com quem ficou?

– Tivemos que contar tudo com muito cuidado, mesmo porque Raul queria conhecer o menino. Apesar de tudo, era seu direito, assim como era direito do Matheus saber. Mas menti quando disse que sabia desde o início não ser seu pai biológico. Mesmo porque, era estéril…

– Caramba! Até nisso mentiu?

– Sim e não! Sempre tentamos ter outra criança. De fato, era mais um desejo dela do que meu. Após a revelação, procurei fazer um exame que constatou a minha esterilidade. Quando Matheus soube de tudo, ficou desesperado. Disse que queria ser meu filho, não daquele sujeito que nem conhecia direito. Como já tinha 14 anos, apesar dos apelos da mãe, ele escolheu ficar comigo. A Berenice, nossa auxiliar, nos ajudou muito. Com a ausência tanto dos meus pais quanto os de Ella, que morreram quando Matheus ainda era pequeno, ela representou muito bem o papel de avó. Nós a amamos como tal!

– E quando mudou de atividade?

– Quase ao mesmo tempo em que ocorreu a separação. Acho que precisava de uma sacudidela para mudar. Dei sorte de ter conhecidos que me indicaram para a realização de artigos na área de comércio exterior. Gostaram de meu estilo menos pomposo para explicar o funcionamento do mercado, esse ser invisível. Logo, estava escrevendo sobre outros assuntos.

– Que legal! Nunca imaginei que teria uma manhã tão inspiradora apenas porque desejei matar a minha sede! Você é foda, Francisco!

– Pode me chamar de Chico! Nunca havia contado essa história para ninguém de maneira tão aberta! E para quem nem conhecia. Foi a cerveja mais bem paga que banquei! De repente, me senti aliviado!

– Olha, preciso ir ensaiar! Eu vou me apresentar junto com uma cantora ótima, na próxima quinta-feira. Lá no Bar do Pereira, conhece? Vai lá me visitar! E sempre que tiver chance, virei aqui com segundas intenções…

Após engolir de uma vez um pesado gole de cerveja, testemunhei o sisudo Karl Marx a rir desbragadamente. Saiu, caminhando rua abaixo. Há 1 Km, ficava o Bar do Pereira. Vila Madalena confirmou que continuava a ser um país incrível!

Imagem ilustrativa do Bar São Cristovão, na Vila Madalena.

A Árvore*

Avenida São Luís, em dia de chuva em março de 2013

Na tarde de ontem caiu uma tempestade típica de março, o mês que fecha o verão. Logo, o trânsito ficou complicado e, em alguns pontos da cidade, andávamos (sobre rodas) a passos de tartaruga doente. Na Avenida São Luís, enquanto esperávamos para nos mover por mais um metro, olhei para a árvore à minha direita e disse a ela, em meu pensamento:

— Estamos todos parados como você, mas acho que a sua situação é bem mais confortável que a nossa…

Passados alguns instantes, ouvi uma resposta:

— Eu estou certa disso! Eu sei quem eu sou, onde estou e para onde vou!

Olhei para os lados para ver se mais alguém percebera o nosso diálogo supostamente silente. Fiquei certo que a nossa conversação ocorria somente em minha mente. Retruquei:

— Eu acho estranho você dizer que sabe para onde vai. Não parece que você vá a algum lugar…

— É o que parece, não? Você provavelmente se prende ao fato de nós, árvores, não nos movermos fisicamente. Isto não quer dizer, necessariamente, que não tenhamos consciência de tudo o que nos rodeia. Apenas, não precisamos ir de um ponto ao outro para isso…

Percebi certa ironia daquela árvore sobre a minha condição de ser momentaneamente paralisado. Com certa indignação, retorqui:

— Eu acho que a sua condição talvez não seja tão confortável assim. Você tem consciência que foi plantada por homens e que homens podem vir aqui retirá-la do lugar?

— E você, também não foi “plantado” por homens e homens não podem a qualquer momento vir a “desplantá-lo” do mundo? Não estamos, todos nós à mercê da vontade de terceiros e a situações inesperadas? Você para onde está indo?

— Estou indo (ou não indo) trabalhar. Tenho que buscar subsídios para a minha sobrevivência. Você sabe o que é trabalhar?

— Meu caro, sou uma trabalhadora nata! Sou o ser mais preparado que existe para subsistir. Eu sou a minha própria indústria de alimentos! No entanto, a questão que coloco é mais genérica — você sabe para onde vai?

Sem resposta, retribui a questão:

— E você, sabe?

— Sim, eu sei!…

Suspendi, por instantes, a respiração. Será que eu teria a resposta de umas das mais prementes indagações do Universo?

— Eu vou para onde estou… E estou onde deveria estar. Sem essa certeza, estaria desenraizada. Observo, dias e noites, vocês passarem de lá para cá, percorrendo trilhas marcadas, buscando algo que, em verdade, já está com vocês.

Aquela árvore deve ter sido um sábio chinês em outra encarnação. Percebi que a sua sabedoria não me alcançaria naquele instante. Estava mais preocupado em chegar ao evento programado na hora marcada. Antes que o carro ultrapassasse a quadra onde ela estava estacionada, perguntei:

— Porque você falou comigo, especialmente?

— Ora, porque você se colocou como um ser igual a mim. Normalmente, as pessoas não conferem essa dignidade a nós. Não somos sequer notadas…

— Eu sempre converso com as plantas, mas nunca me responderam antes. Eu acredito que fazemos parte do mesmo ambiente, vivemos o mesmo tempo, interligados… Olha, parece que já estou conseguindo me mover…

— Parece que você já está no bom caminho, amigo… Boa viagem!

Consegui me adiantar bem, deixando para trás aquela nova amiga e tendo a sensação de que estava mais certo do percurso que percorreria dali para diante, mesmo que parecesse estar ainda andando em círculos… 

* Texto original de março de 2013 que, editado por Lunna Guedes, veio a compor o livro de contos curtos Rua 2, pela Scenarium Plural — Livros Artesanais

#Blogvember / Os Espinhos

Foto de A Mulher Do Padre, um filme dirigido por Dino Risi, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, de 1970.

“A carta foi escrita com os espinhos que ninguém plantou”, por Mariana Gouveia (As Estações

Não pude evitar me apaixonar por aquela bela mulher – mãe zelosa, ativa batalhadora de causas humanas, trabalhadora incansável que não deixava de oferecer o melhor para seus dois filhos – apesar da falta do marido que a deixou sem explicação alguma. Até que as amigas descobrissem que ele fugira com uma delas, vindo a morar em outra cidade. A ex-melhor amiga de LucindaAlexandra – já mantinha um caso com Carlos Alberto há alguns anos. O que o afastou definitivamente de Lucinda foi por considerar a mãe de seus filhos autossuficiente demais. Em conversa com Alexandra soube dessas reclamações de Carlos Alberto. “Comigo, ele se sente o homem da casa, mesmo porque fico apenas à disposição dele”. De fato, com Lucinda o tipo se sentia diminuído por ela bancar grande parte das contas da residência.

Lucinda conseguiu se diplomar em Administração de Empresas a duras penas. Mesmo grávida dos dois filhos durante o tempo do curso, conseguiu completá-lo com mérito. Com o canudo na mão, pôs em pé um plano que reunia pequenos negócios da região onde vivia, tendo mulheres à frente. A cooperativa foi um sucesso. Na época da Pandemia, implantou as vendas Online que a mantiveram em expansão. Apesar do declínio da Economia de maneira geral, as Filhas de Lilith se tornaram referência de qualidade e penetração mercadológica. No entanto, Lucinda nunca saiu do bairro que crescera. Católica, de frequentar as missas todos os domingos, não deixava de tomar a Eucaristia e confessar… comigo.

Eu me lembro de tê-la advertido quando me falou do nome que daria ao projeto da Cooperativa que era derivado de uma versão judaica da criação da mulher junto com o homem, não dela da costela dele, como na versão bíblica conhecida. Aliás, suas raízes fincavam em chão bem mais antigo. Ela me olhou através da tela vasada do confessionário com aqueles olhos que me abduziam e o sorriso que me fazia sorrir, explicando: “eu gosto de muita coisa do Cristianismo. Mas a força do mito de Lilith é o que mais se aproxima do que eu penso sobre a nossa existência neste planeta. Mas os motivos que eu tenho de frequentar a Igreja tem a ver com outros, além do sentido do congraçamento”.

Ao terminar de falar, Lucinda atravessou a tênue barreira que nos separava com a força de seu olhar e soube, naquele momento que ela me amava como eu a ela. Conversei com o meu confessor que me aconselhou a pedir transferência e deixar a Paróquia. Escrevi uma carta para Lucinda, falando de tudo o que sentia e que aquele sentimento era um impedimento para que continuasse o meu ministério sacerdotal. Completei que a carta fora “escrita com espinhos que ninguém plantou”, a não ser o Destino. Após escrevê-la, passei a noite acordado e por mais que tentasse encontrar em minha fé os motivos para continuar o sacerdócio, os olhos de Lucinda me iluminavam os pensamentos.

Fui falar com ela no escritório d’As Filhas de Lilith, do lado de sua casa. Ela me recebeu com aquele sorriso abrasador. A minha intenção inicial era o de entregar a carta, dizendo que só a lesse quando eu não estivesse mais presente. Mas diante dela, achei que merecesse um diálogo mais franco, sendo Lucinda um exemplo de coragem. Quando comecei a falar, ela ficou com os olhos marejados, enquanto mordiscava a sua boca sedutora. Quando disse que estava apaixonado por ela, estendeu as suas mãos e tocou as minhas devagar e invasora até espalmá-las.

Padre… não, sem padre… Sérgio, eu também o amo! Sempre quis ser a mulher do padre! – rindo seu sorriso mais lindo.

Lucinda, sou casado com a Igreja e você, com o Carlos Alberto, apesar de ele estar com a Alexandra… e…

Ela me interrompeu. Disse que o Carlão, como o chamava, tinha vindo com um papo de pensão, já que a Cooperativa estava fazendo sucesso. Nós nos separamos e assinamos um acordo em que ele concordou em receber um salário-mínimo por mês.

É o pai dos meus filhos. Não poderia deixá-lo desamparado. Mas é jovem, pode muito bem trabalhar. Depois, eu me apaixonei por você desde que percebi seu entusiasmo pelos trabalhos devocionais. Meus filhos falam mais de você do que do pai. Eles o admiram e gostam de frequentar os cursos de música que a Paróquia dá junto com os profissionalizantes e alfabetização.

– E eu me apaixonei por você por sua entrega, coragem e alegria no auxílio às pessoas carentes.  Você é uma mulher maravilhosa, Lucinda! Eu queria…

– … me beijar?

Nesse instante, fui ao seu encontro atrás da mesa e a beijei… minha primeira vez entre todas as vezes que passei a beijá-la o mesmo beijo apaixonado. Perguntei:

– Quer ser mesmo a mulher do padre?

– Desde menina…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins

#Blogvember / Tempo Presente

“Enrolo em laços e fitas a linha do tempo presente”, por
Nirlei Maria Oliveira, em palavr(Ar)

Dona Generosa afastou-se um pouco para me ver nos olhos. Estava cada vez mais impressionado com a profundidade de seu olhar. Eu me senti um tanto intimidado, como se ela pudesse ler os meus pensamentos. Voltou a encostar a sua cabeça no meu peito, ouvindo o meu coração acelerado.

Ele ainda está aqui… – disse.

Convidou-me para entrar pela porta de sua casa simples, mas estranhamente majestosa. A cozinha ficava logo na entrada, perfumada de bolo de fubá e café. Ela, ao me ver salivar, perguntou se aceitava um pedaço de um e uma xícara de outra dádiva de vida. Sorri que sim. Desviei o olhar para o lado e vi uma moça que amamentava uma criança sentada num sofá do que parecia ser uma sala contígua. Pedi desculpas, mas a jovem sorriu e disse que não havia problema. Completou que a neném, uma menininha com olhos de jabuticaba, a assaltava de uma em uma hora, gulosa que era.

Ao contrário do que aconteceria antes, mesmo sendo uma moça muito bonita, eu não encarei a cena como algo para além do que era. Ela se comportava de maneira tão natural naquela circunstância, que me identifiquei com aquele ambiente como se tivesse vivido nele a minha vida toda. Agir sem malícia ou segundas intenções, fazia com que eu me sentisse bem comigo mesmo. Passei a ter certeza de que o jovem Geraldo, filho da dona da casa, morto aos 22 anos, era um rapaz muito especial. E que seu coração, que agora batia no meu peito, me tornava uma pessoa melhor. Não completamente, porque chegava a invejá-lo por sua mãe, sua mulher, sua casa e sua filha…

Apenas para confirmar, perguntei a Dona Generosa se sabia quem eu era.

– Eu estive no hospital ao saber que você receberia o coração do Geraldo. Pelo menos, isso… Orei durante toda a intervenção cirúrgica. Quando soube que tinha dado tudo certo, fui embora.

Mais uma situação que me fez perceber a natureza ímpar daquele ser iluminado. Olhei de lado, enquanto a moça recolhia uma das mamas intumescidas de leite que acabara de alimentar a pequenina neta da anfitriã. Perguntei o seu nome.

– Meu nome é Sarah. E esta é Viola… – apontando para o pequeno ser humano que agora dormia profundamente.

– Tem seis meses. Geraldo pode vê-la antes de partir. Começou a trabalhar mais para poder nos dar o máximo que pudesse. Preferia que estivesse conosco…

Sarah emoldurou um sorriso melancólico e seus olhos se tornaram uma piscina onde eu mergulharia de tão translúcida quanto as águas das praias onde passava os meus melhores momentos. Quebrou o silêncio momentâneo com a frase que me fez apaixonar por ela completamente:

– Que bom que o senhor nos trouxe um pouco dele para nós…

Aquele “senhor” saindo de sua boca, me fez sentir um tanto desconfortável. Chegara aos 40 anos com um corpo de 60, mas o coração era de 20 – o do seu amor, Geraldo. O sentimento que passei a ter por Sarah era algo mais evoluído. Ela, aos 20 anos, parecia ter a maturidade de uma mulher experiente e não duvidava disso. Por ser preta, viver onde vivia, em condições que antes eu consideraria precária, apesar de rica em referências valiosas, devia tê-la temperado feito aço no fogo.

Perguntei para Dona Generosa se poderia vir mais vezes. Que ela me fez sentir em casa e tão bem quanto não chegava a me lembrar dessa sensação. Aliás, voltando para o Passado, não me lembrava de estar nesse estado de contentamento como naquele momento. Queria, como num pergaminho precioso, “enrolar em laços e fitas a linha do tempo Presente“. Ela respondeu que a casa era minha. Que voltasse quando quisesse. 

Ao me despedir, o meu lado empresarial, acostumado a projetar as suas ações, já havia traçado todo o percurso que faria para “limpar” a minha biografia, Eu me separaria da dupla Carla & Djanira, lhes daria uma pensão generosa para que ficassem longe de mim. Promoveria algumas ações na empresa que tornasse o ambiente de trabalho menos pesado – uma creche para as crianças e outra para os pets, uma cafeteria a preços promocionais, local para descanso nos recessos dos períodos de trabalho. E, certamente, tentaria ajudar, sem tentar ser muito invasivo, Dona Generosa, Sarah e Violinha.

Sabia que, apesar da falta de condições materiais, pareceria ofensivo que eu considerasse que não vivessem bem. Ao contrário, por mim me mudaria, junto com a Petúnia para aquela casa menor que a minha sala de estar. O meu senso de proteção foi aguçado de tal maneira que finalmente percebi a importância da família – a criação de um elo de amor, proteção, confiança e uma casa para qual tivesse vontade de voltar. Finalmente, eu sentia estar me tornando um homem.

Participam: Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes / Roseli Pedroso

#Blogvember / O Transplante

“Coração transplantado procurando resquícios do que já foi humano”, por Lua Souza, em Estratosférica.

O meu coração já não funcionava bem há algum tempo. Dr. Nino já havia me alertado para que eu mudasse o meu estilo de vida ou não conseguiria ultrapassar os próximos dez anos sem sérios riscos de ter um infarto. Dei de ombros. Continuei trabalhando 12 horas por dia. Comia irregularmente. Passava a maior parte do tempo sentado diante do computador ou fazendo reuniões de intermináveis. Encontrava motivos diversos para permanecer o mais distante que pudesse de casa, onde encontraria Carla, minha esposa. E a sua mãe, Djanira.

Carla era a típica mulher-troféu. Ideal para apresentar nas festas e esfregar na cara das pessoas a minha vida de sucesso. E só. No mais, além de sapatos e roupas, colecionava amantes. Sabia de todos. Mantinha um deles como meu informante. Bem remunerado, ele me alertaria caso surgisse algum mais esperto que quisesse avançar sobre a grana da família. Aliás, qual seria essa família? Não tinha filhos. Quando Carla engravidou, eu a avisei que abortasse se quisesse continuar com o bem-bom. Eu havia feito vasectomia e não revelei a ela essa pequena informação quando nos casamos. Órfão desde os 15 anos, quando meus pais morreram num acidente de carro, o único ser ao qual amava era Petúnia, uma viralatinha que apareceu jogada no jardim de casa entre as flores desse tipo. Aliás, muitas vezes a trazia para a empresa, onde tinha um espaço feito apenas para ela. Se bem que, na maior parte do tempo, ela preferisse ficar aos meus pés.

Numa dessas ocasiões em que me abaixei para acariciá-la, senti uma dor absurda na lateral do pulmão esquerdo, que me fez perder os sentidos. Soube que os insistentes latidos de Petúnia alertou a minha secretária, que chamou o médico de plantão na empresa. Fui levado para o hospital rapidamente, o que impediu que eu morresse naquele dia mesmo, há cinco anos. O meu médico disse que o meu caso havia se deteriorado tremendamente. As ausências contínuas nas consultas agendadas contribuiu para que ocorre a formação da tempestade perfeita. Colocado na fila de espera, voltei para casa e praticamente pagava para que sogra e esposa passassem fora a maior parte do tempo. Isso durou três meses. Até que fui chamado para fazer a cirurgia. Um coração compatível surgira. Era de um jovem rapaz, entregador de aplicativo de alimentação que foi jogado para o canteiro central da Marginal Tietê por um caminhão.

O Dr. Nino me disse que esses rapazes eram os doadores mais comuns de órgãos no sistema. Nos dias que fiquei internado, não queria visitas, mas Carla apareceu para ver como eu estava. Não duvido que quisesse boas notícias, como a que anunciasse que operação não teria dado certo. Mal sabia que não ficaria com nenhum centavo, caso eu morresse. No afã de assinar os papéis do casamento, não percebeu que estava incluído um contrato pré-nupcial. Mas estranhamente, fiquei bem ou até melhor. Senti que algo havia mudado em mim. Cresceu um sentimento de dívida de gratidão para com o meu doador desconhecido. Simplesmente, alguém precisou morrer para que eu sobrevivesse.

Coração transplantado, passei a procurar resquícios do que já foi humano em mim. O que via antes como dispensável, como um sorriso ou o desabrochar de uma flor, ganhou significados que não sabia explicar. É como se o coração do rapaz morto me induzisse a caminhar na direção contrária à que sempre fui. Comecei a perceber que na minha vida eu sempre havia buscado os limites do que me trazia prazer ou repulsa. Casar com Carla fez parte de uma jogada para ganhar uma concorrência, já o que pai dela era dono de casas de aluguel que impediam a construção de duas torres de escritórios na Aclimação, com um grande potencial de crescimento imobiliário e lucro garantido. O Seu Genaro era um homem probo, mas a sua linda filha percebi no momento que a vi que era, como dizia a minha mãe, uma aventureira. Talvez influência da minha sogra. Foi um negócio como outro qualquer. Por louvor a ele, mesmo que me separasse, não as deixariam desamparadas. Aliás, só havia me permitido pensar dessa maneira depois do transplante.

Como me sentia quase sendo outro, fiz o teste mais confiável. Olhei nos olhos da Petúnia, como fazíamos de vez em quando. Após um minuto, ela me lambeu, como de costume. Eu ainda habitava o meu corpo, com um coração não apenas novo, mas renovado. Decidi conhecer a família do rapaz que me doou o órgão. O Dr. Nino me passou todas as informações. Morava na Zona Leste, praticamente uma outra cidade dentro de São Paulo. Eu apenas passava ao largo dela quando o meu motorista me levava ao Aeroporto de Guarulhos. A mãe de Geraldo, meu doador, morava numa comunidade que antes, sem conhecer, chamaria de favela, com todo o peso preconceituoso que carregava. Para não chamar muito a atenção, pedi o carro do meu motorista emprestado para me aproximar de sua residência. Próximo, perguntei onde morava Dona Alba. Ninguém soube me responder. Talvez desconfiassem de um tipo que nunca haviam visto antes. Para um senhor, citei que se tratava da mãe do rapaz que morreu, o Geraldo.

– Ah, é a Dona Generosa… Ela mora ali, naquela casa cheia de vasinhos com flores e plantas penduradas. O senhor veio por causa da indenização? Nossa! Ela e a nora estão precisando muito de dinheiro. Ainda mais com um bebê novo em casa.

Sem saber o que responder, disse que sim.

O senhor fez questão de me acompanhar até a casa.

– Dona Generosa! Oh, Dona Generosa!

A voz poderosa do senhor parecia entoar o refrão de uma canção. Soube depois que se tratava do puxador da escola de samba da comunidade, Seu Arlindo.

Diante de mim, surgiu uma senhora preta, de olhos brilhantes, percebidos mesmo por detrás dos óculos. Como a completar a imagem de entidade, uma cabeleira branca conferia a ela o efeito de aura.

– Pois, não?

Sem saber o que dizer, passei a gaguejar. Em dado momento, comecei a chorar feito um menino. Só pude ousar abraçá-la. Abraço retribuído, ela me disse, num fiapo de voz:

– Meu filho…

Participam: Suzana Martins / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Lunna Guedes