Sobre Panelas E Tampas

TAMPAS

Dizem que jogar xadrez não o torna mais inteligente, mas apenas um melhor jogador de xadrez. Eu prefiro pensar de outro modo e acho que ele nos ensina sobre estratégia e como saber se antecipar às jogadas que a vida nos contrapõe. Similarmente, dizem que as tarefas caseiras são apenas cansativas e não trazem nenhuma contribuição pessoal. Mas, para mim, qualquer coisa me serve de base para filosofar: varrer, limpar, lavar utensílios de cozinha e guardá-los, por exemplo. Por acaso, descobri que nem sempre encontramos as tampas para as respectivas panelas e vice-versa… Um mistério na cozinha e na vida…

O Poder Velho*

Surprised senior woman looking at laptop.
Inclusão digital…

Antes, os mais velhos eram mais valorizados porque o conhecimento evoluía com mais vagar. Um determinado afazer, que mantinha as suas práticas e técnicas perdurando por gerações, acabava em muitas oportunidades por determinar nomes familiares e definindo caminhos para a sociedade, à medida que crescia a importância de certas profissões. Hoje, os mais novos, normalmente mais afeitos às novidades cotidianas, findam por adquirir um poder espetacular – chamemos de “poder jovem” – que, no entanto, não precisa, não pode e não deve ficar restrito às pessoas de pouca idade e vivência menor ainda, principalmente porque suas parcas experiências primam, justamente, pela virtualidade. Para que tal processo se consubstancie, é necessário que tomemos o corajoso caminho da auto-renovação constante, um gesto imperativo para que possamos fazer parte deste tempo. Isto pode levar a enganos, da mesma forma, espetaculares, se decidirmos adotar apenas novas soluções diante de fatos que são tão reais hoje quanto foram ontem, tomando o ser humano como medida. Nem sempre o conhecimento recente poderá resultar como melhor ou mais efetivo diante certos acontecimentos. Saber escolher a melhor maneira de viver deve passar por sabermos distinguir entre a boa nova e boa velha.

*Texto de 2011

Copa de 2014*

COPA DE 2014

Ainda garotos, fanáticos por futebol, eu e o meu amigo Beto, combinamos de irmos juntos assistir a uma Copa do Mundo de Futebol, em algum lugar do planeta Terra. Nas voltas que o mundo dá, a Copa do Mundo voltou a ser jogada em nossas terras e foi o Planeta que veio nos visitar. Mesmo morando por aqui, não irei a nenhum estádio assistir a algum jogo “in loco”, assim como a grandíssima maioria dos brasileiros também não irá, principalmente se considerarmos o preço dos ingressos. Mas não reclamo. Como atuo na área de eventos, normalmente trabalho nessas ocasiões e assim será na competição deste ano. Agradeço a Deus por isso! Eu me lembro do relato de presos políticos na Copa de 1970, no México, que mesmo a sofrer torturas, torciam para a Seleção, ainda que as vitórias pudessem vir a ser capitalizadas pelo Regime Militar. Apesar de todos os problemas de corrupção que enfrentamos para podermos realizar a edição desta Copa de 2014, o menino dentro de mim, na hora devida, tomará conta da minha mente, me transportará para dentro dos campos, jogará junto com o time canarinho, suará tanto quanto os atletas. Ao final de tudo, o menino rirá ou chorará tanto quanto a maioria dos torcedores…

*Texto de 12 de Junho de 2014
Dia da Cerimônia de Abertura da Copa do Mundo de 2014 no Brasil

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Através Da Minha Janela, Eu Vejo…

São muitas as janelas pelas quais enquadramos o nosso olhar. A depender de onde estejamos, as paisagens mudam. Atualmente, vivemos o isolamento social provocado pela Pandemia de Covid-19. Os cenários são quase sempre os mesmos. O ano de 2020 vai pelo meio e é como se estivéssemos em compasso de espera para um novo tempo… ou não. Voltaremos a ser os mesmos? Nós nos comportaremos como se nada tivesse ocorrido ou mudaremos nosso relacionamento social? Por qual enquadramento veremos a “nova” realidade?

Janela A

… um urubu!

Da casa da minha irmã, a oeste, um urubu pousou no telhado da vizinha. Seria mau agouro ou apenas uma parada para descansar de seu majestoso voo? A ave feiosa e de má fama, apenas por ser a lixeira da Natureza, quando alça voo e plana, ganha nobreza, acima das sujeiras humanas.

Janela B

… a Bethânia.

Essa companheira de forte personalidade de quatro patas dorme dentro de casa, mas costumeiramente a coloco para fora a fim de tomar o fraco sol de outono. Ao abrir a janela do meu quarto, lá está a Bethânia a observar atenta aos meus movimentos. Espera que eu a chame de volta, apenas para pedir para sair novamente a qualquer som de movimento na rua. Então, a bisbilhoteira só quer correr e emitir irritantes e poderosos latidos, algo inesperado para um ser tão pequeno.

Janela C

… o sol tímido de outono.

Pela janela da cozinha, observo luz cada vez mais inclinada indica que o outono avança apesar de permanecermos estanques. Nossas folhas pessoais caem pelo chão a cada pequeno passo em pequenos espaços aos quais estamos confinados. Se bem que não possa reclamar. Tenho muito mais metros a meu dispor do que muitos. Minha prisão está acompanhada de pássaros nas árvores, borboletas e pipas, empinados pelos meninos em férias eternas.

Janela D

… o rio do passado.

A saudade é um rio. Caminho permanente, de águas passageiras. Pode ser uma imagem em preto e branco. Pode ser colorida ou furta-cor. A imagem acima foi de um rio que passou muitas vezes em minha vida, na ida ou na volta do trabalho ̶ o Tietê. Na ocasião, o sol se levantava a leste, a direita de quem se dirige para a periferia da Zona Norte, onde eu moro. Há meses que não exerço a minha atividade. Provavelmente, por atuar na área de eventos festivos, motivo de aglomeração, serei um dos últimos a voltar a trabalhar.

Janela E

… sombras fracionadas.

Pombas arrulham e a luz do sol inclinado faz assomar suas sombras. Alinhadas no telhado da casa de praia, esperam os cães se afastarem para capturarem a comida dos atentos Fred e do Marley no comedouro. Logo, batem asas, investem, refreiam, arremetem. Não será dessa vez. O vidro canaleta da janela do banheiro torna tudo um jogo fracionado, como se fosse um quebra-cabeças de peças soltas. A imaginação inteira voa.

Janela G

… o nada.

No quarto de hóspedes, onde guardava meus equipamentos de trabalho, há uma janela peculiar. É a única janela térrea em nossa casa que não tem uma grade de proteção. Não podemos deixá-la impunemente aberta, ainda que resida em uma rua tranquila. Devemos pensar como o ladrão. No entanto, a visão direta dá de frente para a parede de outra construção. Areja, mas não faz o olhar divagar. A não ser que projetemos sobre ela nossa visão particular ̶ da memória, dos sonhos, da imaginação, do esquecimento ̶ transgressão ou morte.

Participam desta edição de 6 On 6:
Ale Helga — Lucas Buchinger —  Mariana Gouveia — Lunna Guedes

As Mães Da Periferia*

Mães
No centro desta foto de 25 anos, mais ou menos, vemos minha mãe chegando com comprinhas, tendo duas das minhas filhas à sua espera.

Ah, as mães da Periferia…

Não sei sobre outras mães, mas as da Periferia guardam algumas semelhanças entre elas que vejo desfilar pelas ruas há décadas. Essa impressão veio a se confirmar em minha mente quando fui à padaria comprar pãezinhos quentes para o lanche da tarde. O horário das 18h30 coincide com a chegada das jovens senhoras do trabalho. Por todas pelas quais passava, percebia uma característica que sempre me foi familiar e que se sobressaia sobre as outras. Todas carregavam sacolas – uma, duas, quatro, tantas – que não entendo como conseguiam com apenas dois braços.

Imediatamente, viajei para o passado e me vi como o menino que esperava a mamãe chegar do trabalho, carregando as suas sacolas com algumas surpresas. Isso não ocorria todas as vezes, é claro. Os dias em questão deviam ser especiais… e eram – dias de pagamento. As mães da Periferia sabem que o dinheiro não durará muito, mas logo que o recebem, compram de imediato alguns itens que necessitam de forma mais premente. Entre as urgências se encontram pequenos presentes para os seus filhos. Pode ser uma lembrancinha boba ou uma necessidade real – roupa ou material escolar – mas algum coisa preciosa acabava por chegar. Era preciosa porque, mesmo sem uma importância aparente, carregava uma mensagem maior: “Meus filhos, eu amo vocês!”.

Passado os anos, como a conclusão de um ciclo que se completa, já avós, se desdobram nos cuidados aos netos, pedacinhos de seus pedacinhos em forma de gente. Nós, seus filhos, vemos reproduzidas as mesmas cenas – nossos filhos a aguardarem a chegada desses seres especiais, sendo eles mesmos, o presente que desejam – multiplicadores do amor de geração em geração, como a reafirmar a vida: “Meus netos, eu amo vocês!”.

*Texto de 2012