19 / 06 / 2025 / Indie*

Domingo primaveril… frio e nublado. Do meu lado, no sofá, elas descansam. Uma, Maria Bethânia, um ser estranho — um longo pescoço com rabo — mais velhinha na casa e na idade, deixa de provocar por um tempo a recém-chegada Pomarolla Indie Quitéria Mary Kay — nomes estampados nas caixas de produtos que fazem as vezes de caminhas provisórias. Indie e Quitéria são opções surgidas para dar identidade a uma cachorrinha resgatada na rua pela Lívia.

Peladinha, enrugada, com feridinhas causadas pela coceiras constantes, Indie apresenta um quadro de desnutrição. Nós a estamos tratando para que se recupere e possa ser adotada por alguém. Da maneira que está, parece mais um “filhote de cruz-credo” — um termo antigo que significa algo feio, eu acho… Mas, a seu modo, ela é bonitinha, talvez por parecer tão desamparada.

O que me impressiona é que, mesmo estando há apenas uma semana em casa, ela já passeia pelos cômodos com a confiança de quem sabe que é aceita. Brincalhona, como qualquer criança, Bethânia encontrou um par para as suas estripulias. Devido à lotação praticamente esgotada aqui em casa, essa fêmea abandonada terá que ir para outro lar que a receba com carinho que merece. Por enquanto, que esteja confortável enquanto estiver conosco e que fique logo saudável para alegrar a quem cativar com o seu olhar de anjo.

E, mais uma vez, aconteceu. A Indie Quitéria Janjão, oficialmente apenas de passagem por nossa casa, buscou e conseguiu a proteção amorosa da velha Penélope. De espírito aberto e carinhoso, mesmo que de início venha a estranhar a nova companhia, logo se rende à aproximação dos novos amigos. A Penélope tem o coração maior que o mundo!

*Texto de 2018

16 / 06 / 2026 / 15 Fatos Sobre Mim*

Fui desafiado a postar 15 curiosidades sobre mim. Sinceramente, não vejo em que isso possa interessar a alguém, mas percebo que esta possa ser uma oportunidade de não levar as coisas tão a sério. Quando falamos de nós, tendemos a melhorar o nosso perfil, principalmente neste espaço do Facebook. Olhando retrospectivamente, há alguns detalhes curiosos que acho indicativos do caminho que percorri até aqui…

1 – Nasci a fórceps. Eu estava invertido, sentado. Esse detalhe serviu de piada para que em casa se justificasse a minha aparente falta de vontade de fazer as coisas que pediam –– pai e mãe. Em verdade, quase sempre estava ausente, viajando para bem longe…

2 – Nascido no centro de São Paulo, vivi no Largo do Arouche até os meus 5 anos de idade. Eu me lembro de ter sido feliz e conversava com fantasmas.

3 – Também fui feliz ao me mudar para a Penha. Vivi no bairro por três anos. Lá, aprendi a empinar pipas, a andar de bicicleta, subir em árvores e a escrever. Foi lá também que tive as primeiras experiências de carnaval de rua, na Vila Esperança. Queimei o meu rosto quando joguei gasolina em uma fogueira onde o meu tio cozinhou um tatu. Levei uns tapas da minha mãe.

4 – Ainda na Penha, como a minha mãe demorava em nos pegar na escolinha do bairro, a mim e meus irmãos, decidi levá-los de volta para casa. Andei pela antiga Estrada de São Miguel Paulista por dois quilômetros e quase matei a minha mãe do coração quando não nos encontrou. Devo ter levado outros tapas! Perdoa, mãe!

5 – Até os meus oito anos, a minha mãe dava o meu café com leite na mamadeira.

6 – Tive incontinência urinária noturna até os 9 anos de idade. Somatizo. Fiquei com a boca torta quando garoto e, quando adulto, tive lesão cervical por estresse emocional. Quase morri duas vezes — uma, por conta de uma gastrite hemorrágica e em outra por ocasião de uma crise hiperglicêmica. Desenvolvi Diabetes.

7 – O que se chama atualmente de “pakour”, praticava nas lajes do bairro no qual vivo até hoje, dos 8 (quando mudamos) até os 12 anos de idade, quando comecei engordar além da conta.

8 – Junto com o meu pai, fui catador de papel. Nós íamos com a Gertrudes (nossa Kombi) para os bairros mais nobres de São Paulo onde recolhíamos papel e papelão, além de alguns metais, para revender. Acho que isso durou até os meus 14 ou 15 anos.

9 – Graças à função de catador de papel, recolhi vários livros que guardo até hoje, aos quais devorava. Essa circunstância deu ensejo para que o meu pai vivesse pegando no meu pé, pois atrasava o nosso serviço, além de diminuir a receita que auferíamos.

10 – Nem sempre fui míope! A minha personalidade ganhou óculos aos 12 anos. Graças a isso, deixei o meu sonho de jogador de futebol de lado. Tudo bem! Sempre fui um jogador apenas razoável, apesar do chute forte e bem colocado…

11 – Fui granjeiro, criador de galinhas, patos e vendedor de ovos produzidos em nosso quintal. Um projeto de minha mãe. Também trabalhei nos dois bares que ela montou por alguns anos até os 21 anos.

12 – Aos 21 anos, depois de crises existenciais, leve síndrome do pânico (hoje, eu sei que passei por isso), três repetições de séries, um ano sabático fora da escola, passei na FFLCH-USP, no curso de História. Deixei História e entrei para o curso de Português, na mesma faculdade. Depois de outras crises, incluindo financeiras, também saí da USP.

13 – O principal motivo foi porque casei, aos 27 anos, com a minha mulher, Tânia, e precisava trabalhar. Ela estava grávida e eu, desempregado. Havia deixado de trabalhar como “roadie” em uma banda e tentei entrar na TV como técnico em iluminação. Como não deu certo, voltei a trabalhar depois de algum tempo com sonorização e iluminação, locando equipamentos através da nossa pequena empresa, acompanhado de meu sócio e irmão, Humberto. Completamos, neste ano, 25 anos de empreitada com a Ortega Luz & Som.

14 – Até os 16 anos, fui ateu ou agnóstico, a depender da amplitude do conceito. Um livro mudou a minha percepção do mundo: “Autobiografia De Um Yogue Contemporâneo”, de Paramahansa Yogananda. Eu me tornei vegetariano aos 17 e o fui durante dez anos. Estava, então, bastante influenciado por filosofias orientais. Estudei várias religiões –– Budismo, Hinduísmo, Espiritismo, Cristianismo –– e mesmo não sendo católico de alma (estudei História, lembram?), quase entrei para a Igreja, na intenção de vestir o hábito franciscano. Por essas e por outras motivações, apenas com a Tânia tive a minha primeira relação sexual. Casei de branco, mas a Romy já estava a caminho. O meu casamento completou 27 anos, em maio.

15 – Eu sou um homem muito rico: tenho uma linda família, que eu amo! Sou feliz por poder ter dado ensejo à expressão e compartilhamento das vidas das minhas filhas RomyIngrid e Lívia

*Texto de 2016

13 / 06 / 2025 / Seis Anos

A imagem acima, devidamente datada, demonstra que a nossa amizade data de bem antes do que seis anos que o Facebook preconiza. É claro que colocam o tempo em que a minha filha, Romy, e eu nos tornamos “amigos” pelo aplicativo. Essa faceta reducionista mostra bem o quanto ocorre o desvinculamento das redes sociais da Realidade. São instâncias diferentes e díspares quanto à verdade de sermos e estarmos. Atualmente, prestes a completar 36 anos de existência, metade da minha idade, homenageio a resistência do que é real sobre o que é falso.

06 / 06 / 2025 / Projeto Fotográfico 6 On 6 On 06 / Minhas Leituras de Outono

O tempo urge. De tal maneira que ele nos atropela e 24 horas já não são suficientes para conseguir fazer tudo o que queremos, principalmente se somos pressionados por limitações temporais. É o caso deste “6 On 6“, em que acrescentei outro “On 6“, por estarmos no mês seis, o último do primeiro semestre de 2025. O tema remeteria aos textos e livros que eu tenho lido nesta estação do ano em que a temperatura começa a baixar, mas que os sinais de sua chegada haviam se antecipado, com a queda das folhas das árvores já em meados do último Verão. Esse atropelo temporal, também ocorre no Clima, cada vez mais instável e imprevisível. Mesmo a edição deste coletivo faço um dia depois, como se fosse parte do processo. Estava ocupado com o meu trabalho e não houve como publicá-lo na data correta, ontem. Para arrematar esta introdução, pensei em relatar as minhas leituras de livros, mas como tenho me dedicado a “pescar” os meus próprios textos em publicações no mar das redes sociais ao longo dos anos, decidi colocar parte delas, ainda que sejam pequenas notas, para ilustrar o projeto fotográfico. São pequenos capítulos de minha trajetória como escritor-repórter do meu tempo.

Bem me quer?

O medo de não ser querido
impede que eu faça à margarida 
a pergunta decisiva: “bem me quer?…
Ou mal me quer?”…
Ainda que o amor me diga “sim!” ou “não!,
jazerá, 
a branca flor,
tristemente despetalada
ao chão…

Há, dentro de mim, uma briga
Momentos em que o meu coração grita
Esperneia dentro do peito
Com o pulmão se atrita
Rebela-se contra os órgãos que abastece de sangue
Veja se pode?

Autoritário, tenta impor as suas certezas
Rumar contra as correntezas
Chega a sugerir que sonhe a mente
Mente que aguentará outras aventuras
Que não sofrerá com outra aversão
Confia na sua característica demente
A da mente que se engana facilmente

Porque sabe que ela não se exprime 
Para além dos sentidos
Aprecia pela visão
Enternece-se pelo som
Subjuga-se pelo toque
Submete-se pelo gosto
É uma mente limitada
Ao mundo que apreende pelas demandas do corpo

Onde está a minha alma, que não toma o controle?
Por que não assume a posição de senhora?
No conjunto, creio que saibamos a resposta
Buscamos todos
Ainda que pela experiência sensorial
Pelas vidas afora
Encontrar outra alma perdida
De mim, para mim
Amém!

LONGO MAL SÚBITO

Ronco de motores rodovia movimentada
motoqueiro fantasma sem capacete
deve ser parado pária da sociedade
calção chinelos camiseta pobre
desce do cavalo se posiciona com respeito
aqui é autoridade autoritarismo
práticas de tempos passados
por chefes no poder incensados
não reclama não fala se cala
continua sem voz além das muitas na sua cabeça
tomo remédio olha as cartelas
não queremos saber você é fora da lei
eu só quero respeito não cometi crime nenhum
está sem capacete nós estamos protegidos com os nossos
somos senhores da vida e da morte
você deve aprender e quem nos observa também
fica assolado no chão nossas botas na sua canga
vamos aplicar a nossa sentença
culpado por ser brasileiro sem rumo sem ganho
sem profissão
para ganhar o pão
um verme como tantos outros
porque essa tortura?
queria voltar para a casa
vai para a nossa casa ambulante
receberá a lição estamos em guerra
contra quem nos interpõe
representamos o topo do poder
nunca mais repetirá a ousadia de contestar
mataram mais de vinte no Rio
um a mais ou a menos
não sou bandido sou trabalhador
tenho família filhos pai mãe primos
todos tem
ratos que se multiplicam
olha a nossa viatura
a chamamos de carro de dedetização
eliminamos pragas as degustamos com pimenta
me tirem daqui
me desamarrem
abram a caçamba
não sou lixo sequer indigente
sou gente
ah! meus filhos mulher não estou aguentando
me perdoem
não consigo respirar
estou deixando a escuridão
vou para um lugar sem Luz
e sem resposta
mesmo sendo de Santos Jesus
até quando?

Umbaúba, Sergipe, em 26 de Maio de 2022 – dois anos depois da morte de George Floyd, em outro Hemisfério e outro “não consigo respirar”.

Imagem de 20 anos antes…

UM DIA DEPOIS (10 de Agosto de 2020)

Um dia depois do Dia dos Pais,
o que mudou no País?
Para tantos pais, filhos e famílias,
o segundo domingo de agosto não foi comemorado.
Pais não receberam seus filhos,
filhos não abraçaram quem os gerou
cuidou,
trabalhou,
viveu por…
Muitos, estavam vivos, mas distantes
e distanciados, por força do isolamento
ou pela desavença e litígio.
Eu, mesmo,
passei os últimos anos de meu pai,
alienado da sua presença.
Outros, partiram pela doença do descaso.
Cem mil vezes pranteados.
Há ainda os que estão acamados,
entubados,
estratificados.
Todos, marcados
por estatísticas macabras.
Eu pude estar com as minhas filhas.
Percebi o quanto sou agraciado
por ser beijado,
abraçado,
por me sentir amado,
entrelaçado
pelo enredo familiar.
A minha alegria carregava um travo.
Em domingos sequenciais,
vivemos dentro de uma bolha boçalizada,
em ilhas isoladas,
de mar que se nega a aprofundar.
É como se o oceano não fosse salgado,
suas águas não quebrassem em ondas ao chegarem às praias,
não se permitisse abrigar sereias,
miríades de outros seres,
tesouros naufragados
e continentes perdidos — raso de vida, mistérios e poesia.
Contudo, se aproveitam da crença no fantástico
e renegam a profundidade da Ciência.
Existimos em realidade paralela,
afirmando nossa indecência.
Negamos o conhecimento e festejamos a morte.
Entre plantas — coqueiros e bambuzais —
o supremo mandatário deglute a nossa humanidade.
À caminho da segunda centena de milhar,
o chefe do jogo do bicho medonho continua sem paradeiro.
Quem o impedirá o testa de ferro insubordinado de continuar a jogar?
Há remédio
para evitar que muitos mais pais e filhos
estejam separados no próximo Dia dos Pais
,
por arte e obra da desconsideração por brasileiros,
por arte e obra da estultice de eleitores brasileiros?

Ao varrer esta plataforma, encontrei marcas que não havia percebido antes. Como faz alguns anos que foi feita, fiquei me perguntando quem teria deixado este registro para a posteridade. Lembrei das amigas que nos deixaram fisicamente. Não deve ter sido a Penélope, labradora que tinha o corpo e o coração grandes demais. Talvez fosse da Dorô, tão doce e amada por ter crescido junto com as crianças humanas. Ou da Frida, as de olhos de avelãs, quieta ilusionista, que surgia do nada em algum ponto da casa. Da Domitila, que ainda está conosco, também não, pelo tamanho maior do que está marcado. Enfim, o que sei é que daquele patamar as marcas poderão sumir um dia por alguma reforma no piso. Do meu coração, enquanto eu existir, jamais! 


Natural (Outubro de 2021)

Nascido há 60 anos em terra, no centro de São Paulo, na maternidade de mesmo nome (hoje demolida), sob Libra, signo do Ar, é na Água que me sinto em meu elemento. Adorei saltar, flutuar em queda, atravessar o azul, mas ao mergulhar é que me percebo um com a Natureza

Em 2019, escrevi:
“Quem tem cachorros (na verdade, são eles que têm a nós), não deveria usar roupa preta. Ou não se importar com demonstrações de carinho. Pelo amor, nunca pelo contrário, só a favor…

Participam:
Claudia Leonardi
 /  Mariana Gouveia / Lunna GuedesRoseli Pedroso / Silvana Lopes