O Nego Véio se foi. No final do mês, iria completar dois anos conosco. Já um tanto debilitado pela idade que deveria passar dos 15 anos, sobreviveu a sua vida toda sendo um cachorro de rua. Vivia antes pelas ruas internas da Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha, onde a Tânia trabalhou por algum tempo. Acarinhado por muitos, recebia sempre um afago na cabeça e algum petisco para beliscar. Como ficara cego, pela catarata avançada, estava atrapalhando a circulação das pessoas e talvez não se apresentasse como exemplo de hóspede que o hospital acolhesse sem receber certa apreensão em quem não conhecia. Provavelmente veio da comunidade ao lado dele e acolhido de alguma forma pelos funcionários, tornou-se uma personagem do lugar. Magro, nos últimos dias, deixou de se alimentar e mais do que nunca passou a nos chamar para ser erguido de onde estivesse caído. Uma das coisas que o impelia a pedir ajuda era o de não querer urinar ou defecar onde dormia. Então, foi comum nas últimas semanas eu ficar vigilante até tarde da madrugada para impedir que se prolongasse os seus pedidos latidos.
A Tânia dormiu mal por vários dias, assim como eu. Nestes últimos dois, ele ficou na sala da TV, sendo acompanhado por mim que, depois de tantos anos tendo bichos, percebia que ele não resistiria muito mais tempo. Não conseguia mais andar, coisa da qual gostava, ainda que não enxergasse, mesmo que de forma claudicante. Percebemos que sentia dores através de seus lamentos e respiração ofegante. Começamos a medicá-lo para minimizar o seu sofrimento, até que na madrugada de 09 para 10 deixou de respirar em posição relaxada, deitado de lado, maneira que era rara, pois sempre apoiava a cabeça entre as patas, como se estivesse sempre alerta. Quando o trouxemos para casa, sabíamos que não viveria muito mais, porém a sua resiliência era dos bravos, daqueles que não se entregam tão facilmente. Queria tê-lo conhecido desde que nasceu, fico imaginando as suas tribulações e percalços de cão abandonado e acredito que fizemos a coisa certa ao recebê-lo. Que possa continuar a explorar como gostava todos os cantos do Universo, Nego Véio!
Categoria: Crônicas
08 / 03 / 2025 / 08 De Março
8 de Março é o dia em que foi instituído pela ONU aquele em que a mulher é reverenciada na busca de seus direitos e da conscientização quanto ao protagonismo de atuação na sociedade humana. Num país em que o número de mulheres que são executadas é galopante por serem mulheres com voz suficientemente forte para dizer “NÃO!”, isso é especialmente importante. Enquanto houver homenzinhos que não conseguem conviver com a rejeição de quem dizem amar, este dia tem que ser lembrado como de exaltação da dignidade feminina como ser humano.
A mulher tem a sua existência precarizada desde pequena num mundo voltado para reverenciar o homem como aquele que deve vir à frente de todas as atividades humanas, restando à mulher assisti-lo, cuidar dele e de sua prole. Quando surgem mulheres que preferem fugir a esses desígnios, são atacadas como objetos descartáveis, indignas por não obedecerem à palavra do Senhor –– um “homem” superior, obviamente. Eu vou num sentido totalmente contrário a esse. Este mundo está como está porque justamente seguimos a orientação de machos escrotos que assumem os postos de poder.
Não desconheço que há mulheres que abençoam o poder machista como algo natural, afinal como disse Simone de Beauvoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. Beauvoir também ressaltou que “não se nasce mulher, mas torna-se mulher”. E essa construção passa pela liberdade, que passa pela construção de seu desenvolvimento profissional, de que a mulher seja reconhecida pela capacidade técnica, intelectual e até física, para chegar ao sucesso.
Beauvoir também disse que “todas as vitórias ocultam uma abdicação”. Se essa abdicação seja o de desejar constituir uma família tradicional ou produzir descendência, mesmo que sem a assessoria (ou peso) de ter um companheiro ou companheira, é uma prerrogativa de cada mulher. Diriam que eu falo da boca para fora. Não, eu acredito na liberdade de escolha das minhas três filhas de que venham ou não ter filhos. Não me preocupo que o meu gene seja propagado para além de mim. Abdico dessa opção que surge como uma coerção social machista.
Quis e quero que a minha companheira e minhas filhas tenham a liberdade de serem o que quiserem, gostarem de quem quiserem, confio na eventual orientação que demos dentro de casa. Eu as quero fortes e independentes, porque lindas elas já são… outra imposição à mulher que deveria ser suficiente para que fosse aceita como uma mulher de sucesso. Infelizmente, é uma mulher de sucesso quem alcança uma idade avançada sem sofrer alguma violência, sobrevive a um casamento opressor ou possa caminhar por onde quiser sem medo.
Tenho como sonho que este mundo de homens perceba que só tem a ganhar se se deixar feminizar.
Foto: Comigo, na imagem, estão da esquerda para a direita — Romy, Lívia, Ingrid e Tânia.
07 / 03 / 2025 / O Astronauta E A Lunar
Neste registro, temos o Astronauta e a Lunar, entre outras duas pessoas que o trabalho conjunto, pela Scenarium propiciou que a arte da escrita fosse impulsionada de forma a constituir uma plataforma da qual sou fã pelo seu caráter artesanal. Nessa ocasião, em 2017, foi lançada REALidade, meu primeiro livro de crônicas, do qual extraí o texto que fala sobre esse encontro que modificou a minha trajetória pessoal, assim como a de outros escritores.
“Cartesiano, o rapaz estava sempre a analisar todos os seus passos… a medir as consequências de seus atos. Chancelar sob a égide dos números os resultados buscados.
Construtor de sua própria vida, a sua base era o chão… a partir do solo, vinha estruturar os seus projetos, fazer as sólidas fundações sobre as quais viria a erguer seus prédios, barragens e vias de trânsito.
Constituiu família, organizou caminhos, fundou relações, espaçou contatos. Gostava de gente — mas, talvez, por serem humanas demais… as considerasse irregulares componentes de seus projetos, aceitando-as por fazerem parte da equação da existência — dados sem os quais os problemas não existiriam, porém, não seriam solucionados. E, como gostava igualmente de desafios…
Positivamente, a moça era nefelibata. Alguns a sabiam lunar ou vinda de alguma outra parte… que não a Terra. E, por isso, vivia em conflito com os habitantes do lugar onde caiu, em uma fatídica noite de chuva de meteoros. Dos seus, foi a única que chegou de seu lar de origem. Poderia jogar tudo para o alto… contudo, buscou entender aquele povo estranho — sendo, para eles, igualmente estranha.
Nada como ouvir suas histórias… o que era perfeito, já que ouviria tudo do ponto de vista de alguém de fora — a forasteira.
Conheceu a generosidade entre os gentios humanos. Propôs-se salvar-se ao salvá-los, principalmente aos que se sentissem, da mesma forma, deslocados em seu próprio planeta. Nada melhor que fosse pela palavra, pelo verbo. Para tornar tudo mais grandemente complicado, se viu jogada em novas paragens, plagas ainda indomadas, quase civilizadas, mas nem tanto… nova língua, novas dores, quase recebidas com alegria.
A estrangeira era excêntrica mesmo — adquiria novas receitas de como sofrer… porque sabia que nada a atingiria como um dia já havia atingido a dor maior.
Ser ‘Sim’ é uma atitude de alma. Há tanta gente ‘Não’, que o mundo não consegue desvendar os seus mistérios sem caminhar por trilhas tortuosas, becos escuros, pisos esburacados, céus velados, visão nebulosa…
Os do ‘Sim’ e os dos ‘Não’ habitam o mesmo ambiente, respiram o mesmo ar, bebem da mesma água, mas não comungam vivências.
Foi pelo ‘Sim’ que Yoko conquistou John, que o homem subiu aos picos do Himalaia, um negro governou um País que o viu nascer segregado, o Astronauta fez o seu Marco na Lua.
Assim, um dia, o Cartesiano encontrou a Nefelibata… a revolução demorou a se dar. Começou com olhares de admiração a se sobreporem aos de estranhamento, porque perceberam que havia terra firme onde podiam pisar os pés, no meio pantanoso da convivência social em que estavam.
Vivências diversas, anacronismo em suas repercussões pessoais… de facto, o fato se estabeleceu — perceberam que gostavam um do outro.
Depois de tantos dissabores, de desencontros em suas histórias, o ‘Sim’ se fez presente. É tão penoso ser o ‘Não’ de alguém que, quando o inverso acontece, devemos festejar o acontecimento… mesmo que isso contrarie aqueles que creem que as regras devam ser cumpridas, ainda que contra a felicidade de quem quer apenas amar.
O rapaz, de tão jovial, até parece um “Bambino”, apesar de o mundo ter dado mais de vinte mil voltas sobre si mesmo, desde que chorou pela primeira vez.
A lunar presença dela parece não querer revelar a sua origem, o seu ser, a sua cronologia…
A depender da luz, o seu olhar é de criança que não cresceu, ou de uma maestrina atemporal. Os dois criaram um projeto de vida, a dar vida ao papel — alquimia moderna — a valorizar a imaginação, a expressão, o ‘Sim’.
Os seus filhos são gestados por aqueles com quem eles aceitaram compartilhar a visão que espelha o poder dos que adotam o ‘Sim’ como profissão de vida e coragem de Ser. E sou um deles.
Esta história é idealizada. Tanto pode ser real quanto fictícia. O mais belo de escrever é que arranhamos a verdade quando mentimos, e revelamos a verdade quando criamos o fictício. Quem quiser que acredite nas mentiras ou negue as verdades, que são feitas da mesma matéria que todos nós”.
Querido Marco , sentiremos saudade…
06 / 03 / 2025 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / #TBT
Desfilarei por aqui algumas imagens através do tempo. As imagens têm o poder de preservar uma idade, uma feição, um corpo, um tempo, um lugar. Tanto quanto deveria preservar a memória. Mas isso cabe a nós que passamos por ele. E isso varia de acordo com a capacidade de cada pessoa. Há a condição de envolver certas cenas em torno de fantasias ou desejos. A memória prega peças e é comum que fiquemos saudosos de certas épocas ao rever-nos mais jovens. Eu, que tento viver um dia de cada vez, vou deixando a saudade de lado sempre que possível. É comum sentir que estou tratando de outras pessoas em cada visão.
E essa cabeleira? Pois, é! Devia ter meus 22 anos. Estou do lado de meu irmão, Humberto. Essa imagem foi produzida no centro da cidade de Matão, onde o meu pai herdara uma fazenda, a qual estava arrendada para uma usina de produção de etanol. Nessa visita, constatamos que a fazenda, antes distante da cidade, estava cada vez mais perto. Mais alguns anos, certamente os bairros se aproximariam do canavial. Nunca voltei por lá para constatar. Tempos depois, a fazenda foi vendida para usina.
Mais uma foto com o Humberto. Este registro foi feito no salão do Clube Piratininga, por ocasião de uma apresentação de uma orquestra de baile de salão, em 2005. Foi um tempo gostoso de ser vivido, apesar do desgaste físico que representava subir equipamentos pesados até o palco pelas muitos degraus de suas escadas.
Estava eu em frente ao mar, um sol para cada um, tempo de sobra depois de ter montado o palco… o que poderia fazer? Mergulhar nas águas quentes de São Sebastião, no Litoral Norte. O tempo gasto no trabalho pode ser também de usufruto de bons momentos. Fiz bem! Depois desse mergulho, trabalhei por 30 horas seguidas…
Em 2021, completei 60 anos. As minhas filhas me deu de presente uma viagem à Paraty (RJ), cientes de meu apreço pelo Mar. Foram dias incríveis que eu e a Tânia usufruímos com prazer. Nessa viagem também tive contato com a História e a Natureza em momentos inesquecíveis.
Houve uma época que era totalmente avesso a fotos. Fugia como se quisesse proteger a minha alma, feito um indígena que imaginava que ela ficaria refém da imagem. Nessa, devo estar com 19 anos, num visual típico dos Anos 80. Na época, era vegetariano e acreditava que sequer namoraria, quanto mais que me casaria. Mas o mundo dá voltas…
Para finalizar, volto ao início, de onde trago esta foto junto àquela através da qual aprendi amar às mulheres. Eu devia ter por volta de um ano de idade (1962 ou início de 1963) e as praças de São Paulo eram lugares bem mais aprazíveis do que são agora. Ao fundo, provavelmente, pelo que pesquisei, apesar de não haver sequer uma foto para identificá-la, está “Mulher Nua“, de Charis Brandt. Ela desapareceu da Praça da República em julho de 1994; era uma obra em bronze com 1,70m de altura e pesava cerca de 105 Kg; ficava sobre um pedestal de granito rosa.
04 / 03 / 2025 / Ainda Estou Por Lá
No domingo passado, dia 2, após realizar a sonorização da Matinê do Clube Círculo Militar de São Paulo, cheguei em casa na expectativa da transmissão pela TV da entrega dos Oscars. Época de Carnaval, um país devotado à festa de Momo, no entanto as atenções também estavam voltadas a milhares de quilômetros do Brasil, em Los Angeles, EUA, local da outra festa, mais formal.
O Brasil tem uma história bastante antiga com a arte do movimento. Inventado oficialmente em 1895 pelos irmãos Lumière, a primeira exibição de cinema no Brasil não tardou a acontecer. Em 8 de julho de 1896, na Rua do Ouvidor (Rio de Janeiro), numa sala alugada do Jornal do Commercio, foram projetados oito filmetes de cerca de um minuto cada, retratando cenas pitorescas do cotidiano de cidades da Europa.
Apenas um ano depois já existia no Rio uma sala fixa de cinema, o Salão de Novidades Paris, de Paschoal Segretto. Atualmente, considera-se que o primeiro filme gravado no País foi Chegada do Trem em Petrópolis, de 1897. Esse filme grava uma estação, em Petrópolis, a chegada de um trem que carregava o Presidente Prudente de Morais. Assim como esse, a maioria dos filmes eram documentais.
O filme “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles foi indicado a três Oscars — melhor filme, melhor filme estrangeiro (ao qual venceu) e melhor atriz, com a magnífica Fernanda Torres, que interpretou a incrível Eunice Paiva, mulher de Rubens (o sensacional Selton Mello). Ela é mostrada na imagem acima, após as cortinas da sala, que recebe a claridade e desnuda a paisagem externa, serem fechadas por um dos milicos do Regime Ditatorial. Essa cena, especialmente, quando assisti ao filme, me trouxe dolorosas lembranças. Ao revê-la, tive uma estranha sensação de estremecimento e o sentimento era que eu ainda estava lá, naquele dia e lugar.
Foi o dia em que três desses homens trouxeram o meu pai para fazerem uma busca de armamentos do grupo no qual ele militava, do Partido Comunista Paraguaio. Logo que eu o vi, corri para abraçá-lo. Incontinente, me afastou de seus braços. Criança dos meus nove, dez anos, recebi aquilo como uma algo incompreensível, que me magoou… tanto, que fiquei por muitos anos avesso a abraços. Ação que só retomei quando por volta dos 27 anos, comecei a namorar a minha esposa. Prática que foi reforçada com a chegada das minhas três filhas.
Ver uma história com a qual tenho vínculos emocionais evidentes ser reconhecida por sua violenta delicadeza,, em que somos convidados a estar com uma família que tem retirada de seu núcleo àquele sobre o qual girava, engrandecendo a presença austera e forte da mulher que a sustentou e que tinha tudo para desmoronar, incluindo o acidente que deixou o garoto Marcelo Rubens Paiva tetraplégico. E foi através de seu registro em livro que essa história magnífica de enfrentamento da realidade, exemplo de resiliência de seus membros, além da sobrevivência da memória.
Aproveito para homenagear a minha própria mãe que perdeu o marido para a Ditadura, apesar dele continuar vivo, ainda que tenha sofrido todas as modalidades possíveis de tortura ensinada pelos militares americanos no cerne da Operação Condor. Nunca voltou inteiro. Como a vida é cheia de contradições, estou prestando serviço num lugar que os militares patrocinam, comemorando um prêmio oriundo do mesmo País que apadrinhou a Ditadura por aqui.









