Essa imagem é como se fosse a mistura do movimento vago com o vazio produtivo. Costumo ficar algum tempo a especular sobre o Nada, gestor de Tudo. Se não faz sentido, não é para fazer. Porque pouca coisa faz. A não ser que escolhamos brincar com as possibilidades do que forjamos como realidade. As notícias confirmam a contradição entre o que achamos que somos e o que fazemos, denunciando a mentira que nos habituamos a divulgar como perfil. Albert Camus já dizia que o pensamento falseia a nossa condição, mas as emoções não. A Alma é conspurcada pelo corpo, ao mesmo tempo que o corpo seduz a Alma. Para alçarmos voo, devemos deixar a gaiola para trás, ainda que a carreguemos. Por Medo. Nossa maior prisão.
Categoria: Crônicas
06 / 01 / 2025 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meus Melhores Momentos
Retrospectiva de trás para frente, ontem, a Fernandinha Torres recebeu um Globo de Ouro por “Eu Ainda Estou Aqui“, filme ao qual assisti no final de 2024, assim como em 1971. Na cena em que os meganhas da Repressão invadem a casa de Eunice Paiva, revi os mesmos sujeitos que entraram porta adentro da nossa casa, muito simples, em busca de provas do envolvimento de meu pai com terroristas. Dois deles o seguravam, um terceiro realizava uma busca. Nada foi encontrado. Fico imaginando o que deve ter acontecido em sua volta às celas do DOI-CODI. Lívia, minha filha mais nova, sentada ao meu lado no cinema, percebeu o aumento dos meus batimentos cardíacos e quando comecei a hiperventilar na cena em que um deles fechou as cortinas. Eu estava lá…
A atuação de Fernanda como Eunice foi bem diferente do que a minha mãe teve. Ela era uma mulher em que a emoção aflorava à pele por qualquer motivo. Eu havia cruzado com Eunice quando Eva Wilma a interpretou em “Feliz Ano Velho“, também baseado em livro de Marcelo Rubens Paiva, filme no qual fiz figuração, em 1986. A história de Eunice e da família Paiva, da Dona Madalena e da nossa família, de tantas outras mães, irmãs, esposas, familiares e amigos ocorreu e até hoje repercute na memória de quem a viveu, não sem algumas lágrimas que brotam intrusas no meio do vazio…
Esta foto mostra alguns componentes do grupo que participa de um dos cursos ministrado por Lunna Guedes, da Scenarium Livros Artesanais. Além de mim, do meu lado está Flávia Côrtes (Farfalla); acima, Roseli Pedroso, do lado dela, Antônia Damásio; acima dela, Lunna Guedes e ao seu lado esquerdo, Isabel Rupaud (Isabeau). Também participam Rozana Gastaldi, Nirlei de Oliveira, Heloisa Helena (HH) e, pontualmente, outras figuras. São pessoas que vibram no sentido da busca do aprimoramento da escrita pessoal, individualmente e no esforço de criação coletiva em algumas das propostas de lançamentos do selo Scenarium. Quando nos reunimos, sinto participar de um conjunto de pessoas que sintonizam a mesma frequência. Alguns dos encontros fizeram muitos dos bons momentos que vivi em 2024.
Algumas das melhores horas que vivo em meus dias têm a participação dos meu companheiros cães, seres também da família. Três deles aparecem nesta imagem — Alexandre, Bethânia e Arya. Todos foram resgatados, incluindo os outros três que não estão na imagem. Além do Bambino, meu neto, em visitas itinerantes, moram conosco minha outra neta, Lolla, Nego Véio e Dominic, a mais veterana. Com eles, aprendo sobre paciência, alegria pueril, humildade e amor.
É comum acontecer de encontrar o Sol nascente a pontuar no horizonte após o meu trabalho que é realizado mormente à noite. A Lua passeia por nossas noites muito mais vezes, mas é comum serem atrapalhadas pelo brilho das luzes da cidade. Em viagens por cidades próximas, a estrada oferece horizontes mais amplos, em cenários que me revigoram ainda que cansado da labuta. Quando tudo dá certo, aproveito para relaxar os olhos da balbúrdia urbana.
A imagem que coloco aqui parece muito com a de cima, não? Bem, a diferença é que foi produzida em um entardecer na minha Periferia. A luz solar tem esse poder de pintar de beleza os eventuais defeitos no perfil irregular das residências, colorindo de amarelo resplandecente onde toca. Fico muitas vezes a observar o crepúsculo até a Terra continuar o seu caminho pelo espaço e a girar sobre o seu eixo, em uma ininterrupta dança astral.
Esta imagem foi produzida hoje. É demonstrativa de momentos muito gostosos em que passo nesse perímetro que fica na parte da frente de casa. A Tânia costuma utilizar essa área também para o plantio de flores e outras plantas artesanais. Ali, temos dois tipos de bananeiras — a nanica e a prata –, mamoeiros, ora-pro-nóbis, ameixeira, limoeiro e um abacateiro em crescimento. Controlado por um vaso, evitará que se desenvolva para além do que o espaço permite. Estar feito um Tarzan periférico entre as plantas me energiza.
05 / 01 / 2025 / Os Impulsos Da Bethânia
Bethânia foi resgatada em dia de chuva. Abandonada à própria sorte, parecia estar em busca de ajuda, pequena feita um rato orelhudo, esquisita por certos padrões, quando chegou em casa, tomou um banho, após comer algo, lhe ofereci o primeiro colo. Adormeceu profundamente. Desde então, tornou-se ligada a mim e eu, a ela. Na minha ausência de um mês no início de 2021, era dela que sentia a maior falta. Com os seres humanos, conversava diariamente. Com ela, apenas conexão mental.
Crescida, foi demonstrando o seu ciúme, superprotetora, a ponto de dormir à porta do quarto do casal. Isso, quando não nos descuidamos e a descobrimos entre as cobertas pela manhã. Sofre muito com o frio. Tem o pelo curto e, muito musculosa, tem pouca gordura. Exímia saltadora, utiliza a mureta da varanda para acessar a laje da vizinha, minha irmã, andando feito cabra montanhesa por sua beirada. De lá, observa o movimento da rua abaixo, denunciando a passagem de cães intrusos.
Fixada em pedras do jardim, costuma colecioná-los, tendo a sala como ponto de exposição. Ultimamente, apaixonou-se por bolinhas com as quais brinca quando as deixa no alto da escada até vê-los cair em sua direção. Mesmo adormecida, procura se certificar de que não fiquem longe de sua atenção. Impulsiva, “cheia de manias, toda dengosa”, ocupa o nosso dia com as suas expressões quase humanas e latidos ricos em referências e significados. Sincera, fala pelo olhar muito mais do que certas pessoas. Quase diria que é o meu ser senciente favorito…
Post Scriptum: esqueci de seu pendor para roer zíperes das almofadas. Reclamação constante da Tânia, que agora mesmo está consertando mais uma de suas proezas.
04 / 01 / 2025 / Sapatinhos Cor-De-Rosa
Numa dessas caminhadas pela manhã, passei por um par de sapatinhos cor-de-rosa. Lado a lado, jaziam junto ao meio-fio. Poderiam ser de uma moça ou até de uma criança mais desenvolvida. Como chegaram lá, caberiam várias especulações, todas com algum toque de dissabor envolvido. De aspecto simples, durante o tempo em que passei pelo par e voltei, ninguém o quis. Tristinhos, abandonados, fizeram a alegria de alguém… até que não mais. Úteis enquanto caminharam no mesmo sentido de quem os calçavam, os sapatinhos ficaram pelo caminho. A discórdia resultou em dissenção. Cada qual para o seu lado, será que serão recordados por quem os deixaram? Caso de amor perdido? Ou perdidos por amor não correspondido?
03/01/2025 / Seres Sencientes
Ainda cansado das atividades de final de ano, acordei cedo, fora do horário que gostaria, porque o Nego Véio, já resgatado cego e com problemas de locomoção, começou a latir sem parar. Com o tempo, comecei a interpretar os latidos de nossos companheiros à depender de entonação, modo de emissão (mais agudo ou grave) e frequência. É comum ele se deslocar pelo quintal em busca de algum espaço onde poderá evacuar ou fazer xixi. Em algumas ocasiões, as pernas traseiras, já sem tanta força, ficam travadas em alguma posição que o impossibilita de se levantar. Falei em voz alta de mim para mim que não havia cuidado do meu pai como que eu cuidava dele.
Eu o encaminhei até o local onde dormia — um pequeno banheiro do lado de fora — e após beber água na vasilha que dispomos na entrada, ele se ajeitou como sempre faz, puxando os panos com as patas dianteiras até entender que estão do jeito que quer. É um ritual seguido dele parar e descer lentamente o corpo velho até encontrar a base onde ficará quieto durante algum tempo.
Talvez, alguém venha a perguntar o significa a imagem das árvores depois do título. Respondo: o prefeito reeleito desta cidade colocou em resposta às alegações contra os seus projetos de remanejamento de pessoas de suas moradias e da extração de árvores cinquentenárias de uma via da cidade dizendo que haverá reposição dessas árvores em outros locais como compensação ambiental. Assim como as pessoas que moram em “favelas” — na verdade, casas simples de uma vila antiga — para um lugar “melhor”.
Onde será que árvores irão aportar para compensar a destruição de todo um ecossistema que inclui os habitantes das árvores arrancadas, além da eliminação do sistema de comunicação que há entre as árvores de um local onde as suas raízes se comunicam como um sistema nervoso central? Quantas “histórias” essas árvores presenciaram e agora se perderão na bruma do tempo à golpe de machadadas e serras elétricas? Esses seres antigos — tanto em idade de surgimento na Terra, como de tempo cronológico — não podem sequer protestar tamanha falta de sensibilidade por essa remoção.
E as pessoas? Que lugar melhor é esse em que os laços da antiga convivência se desvanecerão como por um encanto de um mago do mal? Será perto de onde estão? Manterão o contato de amizade reforçado em conversas de amigos sentados em cadeiras na porta de casa? Seus filhos continuarão a encontrar seus antigos vizinhos ou lhes será negada a oportunidade de crescerem nessa rede de afeto?
Essa história mal contada de melhorar a mobilidade de endinheirados da região passa por interesses outros ligados ao sistema em que beneficia poucos em detrimento de muitos. Está na lei da constituição do poder. Não deveríamos nos surpreender se no fim de todo esse processo, o dinheiro público se torne encampado por setores privados, em prejuízo da coletividade. Como serão… e assim caminhará a humanidade até a I.A. (então mais inteligentes que nós) perceber que ela só atrapalha a existência deste planeta e seremos transplantados para fora daqui…
Foto por Min An em Pexels.com









