02 / 01 / 2025 / Regai Por Nós

Bem, o dia ainda vai se desenrolar com alguns acontecimentos dignos de nota. Ou não. Pelo sim e pelo não, confecciono esta nota relativa ao penúltimo dia de 2024. Dia 30 de dezembro foi o único que tive na agenda para ir à podóloga, como faço todos os meses nos últimos anos, controlar as minhas unhas dos dedões dos pés que encravam vez ou outra. Se há um dinheiro bem gasto, é esse. Já passei muito sufoco com as minhas unhas encravadas. Já diabético desde 2007, cuidar de possíveis infecções tornou-se fundamental para que pudesse manter a saúde equilibrada, sem aumento excessivo da glicemia. Sim, porque as bactérias nas infecções produzem aumento de açúcar na corrente sanguínea. E os “bichinhos” são vorazes.

Procuro fazer o trajeto da minha casa até o Cantinho dos Pés, justamente à pé. Adepto da caminhada como recurso de atividade física, percorro 6Km e meio e a mesma distância, na volta. Passo por subidas e descidas – o que em sentido contrário evidentemente se alternam – com gosto, ouvindo música, podcasts ou noticiários. Suo. Enfrento chuva, frio e pensamentos fugidios que insistem em invadirem a minha cabeça, quando decido não o fazer. Ganho consciência do meu entorno, observo a tudo como eterna novidade e me surpreendo enxergando detalhes que me assolam a imaginação. Parece algo bom, mas as ideias me chicoteiam de tal forma que me sinto torturado, porque sei que muitas delas se perderão pelo caminho.

Antes de uma das descidas, ao passar por um gradil, vi pendurado um papel em que estava escrito: “regai por nós!”. Imaginei no mesmo momento que fosse um erro ortográfico a troca do “o” pelo “e”. Depois, confiei que alguém alterou de modo proposital uma expressão que dessa maneira ganhou dimensões novas de entendimento. Eu poderia especular sobre várias delas, mas deixo para quem me lê essa tarefa, se lhe aprouver. Fujo da tentação de eu mesmo colocar aqui algumas delas. A minha editora diz que devo deixar ao leitor trabalhar com as possíveis interpretações dos textos que produzo.

Foto por cottonbro studio em Pexels.com

01/01/2025 / 22:00h

Passei o dia acalentando o projeto de escrever pelo menos uma nota por dia durante 2025. Após passar as primeiras horas do primeiro do novo ano trabalhando, até às 5h da manhã, na volta para São Paulo estive entregue à sonolência e aos sonhos (ou algo parecido) ao estar no carona da nossa van, a Porquinha, em estado de semiconsciência — aquela situação quase catatônica de estar em cena. O Humberto dormiu pesado, segundo ele mesmo me disse, e quando acordou estranhou que eu estivesse desmontando o palco sozinho. Ao “apagar” sequer teve ciência que a banda fez uma hora e meia Ano Novo adentro.

Ainda hoje, mais tarde, mudamos a carga para o evento de amanhã. Veio até aqui e almoçou com uma das minhas filhas — a Romy — a nossa irmã, Marisol e a Tânia, com quem sou casado. Atualizei alguns arquivos na expectativa de que tivesse tempo para escrever a nota do dia, mas antes varri e passei um pano na parte debaixo da casa, lavei a louça e atendi o portão. Às 22h. Um rapaz, tímido, perguntou se tinha latinhas vazias para doar.

Falei que tinha, mas que o saco que reservava aos recicláveis tinha outras coisas que poderiam lhe servir. Aceitou. Quando fui lhe entregar, perguntou se tinha alguma coisa para comer. “Os lugares que aceitam recicláveis estão fechados e não comi nada o dia todo”. Pedi para que esperasse novamente. Relatei o caso à Tânia e ela se encarregou de reunir arroz, lentilha, frango na cerveja e maionese. Colocou tudo num pote de sorvete e eu peguei um garfo e uma colher de plástico, além de papel. Completei com uma lata de água alcalina e observei à ele que poderia utilizá-la para acrescer às suas outras latinhas.

Eu nem relataria sobre esse fato, se eu tivesse mais tempo para escrever o que pretendia, mas o cansaço me pegou de jeito e preciso descansar para o dia seguinte. Sempre tento encontrar algum significado (ou sentido ou propósito), mas não vi nenhum, a não ser pelo fato de que no ano que se inicia as coisas não mudaram magicamente apenas porque mudamos de números no calendário.

Os números que importam continuam a denunciar o descaso de quem pode fazer alguma coisa e vários deles acabam de assumirem cargos públicos como mandatários prometendo em “me esforçar em conseguir manter o meu propósito de realizar o que prometi” — como o desta cidade colocou em seu discurso de posse. Palavras circulares ditas para não se responsabilizar realmente.

Sempre haverá a quem culpar, menos a si, caso não consiga cumpri-las.

Foto por George Becker em Pexels.com

BOMBAS & COPOS DE PLÁSTICO PARA JESUS

De hoje para a amanhã, celebraremos o Natal. Gosto do termo em espanhol – Navidad – o que soa quase como ” novidade”. O que condiz com um episódio tão revolucionário quanto o nascimento de uma criança que pregaria o amor como conduta numa época em que a hegemonia das armas sobre populações de países ocupados ditava as normas, a violência como linguagem de dominação. Quer dizer, as coisas não mudaram tanto assim… apenas as armas se sofisticaram a ponto de poder matar mais e pior, em fogo e dor.

Amanhã, não estarei em casa na passagem da meia-noite. Estarei em atividade, longe dela. Mas sei que haverá espocar de fogos de artifício ou simples rojões. Os cães que moram conosco estarão dentro de casa, tendo o olhar compreensivo de seus tutores, o que deverá tranquilizá-los um pouco, mas ainda assim, haverá sofrimento. Fico imaginando se em vez de tanto barulho, misturado à execução de músicas de gosto duvidoso em volume excessivo, houvesse o silêncio que uma criança recém-nascida merece ao chegar ao mundo. Se as pessoas percebessem que a grandiosidade de tal fato maravilhoso, o aceitariam com a reverência de quem compreende a sua importância.

Em sua simples manjedoura no estábulo onde os animais o aqueciam com a sua respiração do frio do ambiente externo, a criança ficaria tranquila, assim como as outras espécies que participavam dessa aventura que foi o surgimento de alguém que mudaria a História. A sua família, por causa do anúncio de sua chegada, viveu em fuga, assim como tantas centenas de milhões antes e depois dela, por perseguição política, religiosa ou étnica. Como tantos antes dela e depois dela, seus filhos foram perseguidos por suas ideias, enfrentaram o padecimento do corpo físico, torturados por buscar melhores condições de vida para seu povo. Como a falta de um lugar para morar.

É tão estranho ver representantes da massa que se dizem cristãos, quando eleitos, tentarem impedir que isso se torne realidade. Porque dessa maneira sempre haverá mercado para promessas fáceis de serem esquecidas. Alguns contrapõem espertamente: “A casa de meu Pai tem muitas moradas” – disse Jesus. Acenam com uma vida idílica fora deste lugar, enquanto vivem como nababos em templos sem fé.

Por aqui, ontem de manhã, recolhi um saco grande com copos plásticos que desceram por um duto feito para escoar a água da chuva da parte de cima da vila. A noite toda, dava para ouvir o som alto da festa que rolou durante horas. Assim como nos outros anos, desde antes da meia-noite, as ruas serão fechadas para a reunião de jovens que beberão como se não houvesse amanhã. Jogarão os copos na rua e a chuva se encarregará de conduzi-los para outros pontos. Vivemos em comunidade, mas a consciência comunitária passa longe de quem quer apenas usufruir o momento que passa. O feriado e seu motivo, qual seria mesmo?

Quem chegou até esta linha, talvez duvide que este texto tenha inspiração natalina, mas assim como aqueles que beberão até cair ou se empanturrarão de comida pesada, aproveitei a data para expressar a minha escrita – um defeito meu. Valorizo tanto o Natal que não participo dele como os outros. Ainda que pela Ortega Luz & Som participe viabilizando tecnicamente que músicos possam interpretar canções que alegram convidados nos eventos que realizamos. Contraditório, não?

Mas reservo dentro de mim a força de uma revolução sagrada que marcou e marca a minha vida por anos. Eu reservo o meu espírito para vivenciar intimamente a magia de um acontecimento que me mantém no desejo de transcender, ainda que encarnado, ainda que em busca de me manter materialmente contrariando algumas das minhas convicções. Sei que vivemos na corda bamba entre sermos no que acreditamos ser e entre o que é possível ser.

Que todos possam vivenciar um Natal ideal, de alegria e amor!

Foto por Zuko Sikhafungana em Pexels.com

Nós & Eles*

A publicação acima foi extraída do Instagram e mostra uma situação que eu vivenciei de perto. Eu trabalho com eventos. Em muitas ocasiões, “invado” espaços que normalmente não frequentaria pela sofisticação do lugar. Aliás, fugiria deles se fosse me dado a escolher.

Nasci na Maternidade de São Paulo, já demolida, onde várias personalidades da cidade também nasceram, não que me considere uma. Vivi o começo da minha vida na região do Largo do Arouche, mas depois a minha família e eu, fomos caminhando para os extremos da Capital Paulista. Primeiro à Leste, em seguida ao Norte. Onde até hoje vivo, aliás. Em uma casa, em uma rua com outras casas, um sistema antigo e em extinção nesta Sampa da “grana que ergue e destrói coisas belas”. Prevejo um futuro onde todos viveremos encastelados em edifícios cada vez altos.

Mas, voltando ao assunto inicial, a Ortega Luz & Som foi contratada para sonorizar uma banda para o batismo de uma criança, filha do dono de uma universidade particular. Fomos um dia antes e vários operários estavam ainda montando o local onde se daria a cerimônia e, logo após, seria servido o jantar durante o qual a banda se apresentaria para animar/distrair os convidados. Era uma imensa plataforma colocada em cima da piscina, com compartimentos que faria inveja a várias casas — capela com pia batismal, uma sala enorme para a mesa também imensa, banheiros bem equipados, corredores para a passagem de garçons e outros funcionários. Fiquei pensando que aquilo era grande demais pelo valor que havia cobrado.

Montamos o equipamento, testamos, deixando tudo pronto para o dia seguinte. Várias personalidades, entre artistas e poderosos de ocasião, compareceram ao evento e todos pareciam encantados com a suntuosidade do espaço e a pompa da cerimônia de batismo, levada a termo por um padre da moda. Talvez por meu provincianismo ou por ter uma mentalidade crítica urdida no estudo de História, eu achei tudo exagerado. Interpretei (cabe ressalva) que aquilo não foi pela fé do pai e da mãe, mas pelo espetáculo proporcionado. Demonstração de poder. De qualquer forma, também não foi por esse motivo que decidi escrever este texto.

Tudo aconteceu antes. Quando chegamos para a montagem, o rígido sistema de segurança começava pela chegada do veículo que nos transportava, que parou em uma “caixa” onde tivemos os equipamentos vistoriados e nós, revistados por homens armados. Liberados, chegamos junto ao “cenário” da cerimônia para descarregarmos o equipamento e montá-lo. Foi quando aproximaram três grandes carros pretos. Do primeiro e do terceiro desceram vários seguranças que se posicionaram junto à porta do carro do meio. Dele, saiu o gestor da universidade, protegido como se houvesse uma ameaça por perto, entrando rapidamente na residência. Olhei para além dos muros altos e sequer tinha um prédio naquela região do Morumbi, onde poderia se instalar um atirador de elite que pudesse feri-lo.

Foi quando me dei conta. A ameaça éramos nós — prestadores de serviços —, simples mortais e, eventualmente, uma possível ameaça à integridade física de alguém tão importante. Por sermos de uma casta inferior, nossas mãos e ferramentas de trabalho poderiam ser usadas como armas para agredir o plenipotenciário senhor de um negócio que prosperou na ausência de uma política pública de apoio à Educação de qualidade.

Objetivamente, eu não tinha como odiá-lo por ele ser um homem rico financeiramente. Ele era apenas mais um “esperto” que utilizou o vazio proposital deixado pelos mandatários eleitos por nós para que fossem ocupados por agentes do sistema de castas que impera no Brasil desde sempre. Se não fosse ele e os assim como ele, seriam tantos outros que também transitavam pelo salão artificial que, desmontado, daria lugar à exuberante piscina abaixo. Junto à mansão e à grande casa adjacente, ladeada pelo canil onde se “hospedavam” os cães da bela família apartada em seu mundo da constante intimidação do resto da nossa “perigosa” população.

*Texto de 2023

Atividades Na Pandemia*

Depois do jardim, que ainda não acabou, entramos pela casa e a sala é o próximo alvo. Eu sempre gostei de atividades caseiras, mas devo confessar que nunca foram a minha especialidade a parte da manutenção. Ainda reverbera a frase desencorajadora do Sr. Ortega nesse quesito, muito talentoso: “Você cola as coisas com cuspe e amarra com barbante”. Ele talvez não apreciasse que eu gostasse de ler o que caísse às minhas mãos ou ficasse horas escrevendo em folhas soltas, as quais guardava em caixas de sapato. Se não há tentativa, não ocorrerá o erro, porém muito menos haverá o acerto. E se há algo de certo nesta vida é que o conhecimento se constrói de erro em erro, até aprendermos a fazer. Além disso, é uma terapia incrível, fora eu me sentir produtivo em tempos de intervalo na minha atividade profissional…

*Texto de dezembro de 2020