Sobre Pragas*

“Eu sei que tem muita gente gostaria de um Corona Vírus para apimentar a nossa vida de perigo. Não precisamos. Vivemos em um País com péssimo Saneamento Básico, causador de doenças endêmicas; crescimento de mortes por Dengue e Chikungunya; a volta da Paralisia Infantil, Sarampo e da Tuberculose, por falta de vacinação, resultado de pura ignorância estimulada pelas Redes Sociais – assim como “adquirimos” este desgoverno –, que cogita diminuir a assistência aos doentes de AIDS, que resultaria no aumento de casos de doenças oportunistas, principalmente daquelas que se aproveitam de pessoas que não se previnem ou estão desassistidas por políticas públicas de saúde deficientes.

O portador de AIDS normalmente se cuida, toma precauções e se medica convenientemente, segundo mostra estudos recentes. O comportamento de risco geralmente se dá por parte daquele que se considera eleito pelos deuses, geralmente “homens” socialmente aceitos como acima de qualquer suspeita – os piores – que transmitem a doença às esposas, alheias a vida dupla de seus companheiros. Para piorar, a base de tudo – a Educação – que desenvolve cidadãos mais conscientes e aparelhados de conhecimento para sanear a Sociedade de lixo mental e desinformação, está sendo alvo de um processo silencioso e paulatino de desmonte. O desinvestimento nessa área se inicia desde a infância, com a retirada de verbas para creches.

Como estudante de História, parece que estou a ver acontecer no cotidiano uma representação de fatos antigos, de séculos passados, que julgava ultrapassados para este novo milênio. O que surge como exercício de distopia – uma das matérias preferidas de escritores – está sendo reeditado como obra de péssimo autor. Já estou a prever a procissão de hordas de convictos caminharem, por ordem superior, até a beira da Terra Plana para saltarem…”.

Este texto de 2020, em plena Pandemia de Covid-19, tentava identificar as circunstâncias que envolviam aquele moimento histórico. A nação, então, estava sendo capitaneada pelo Ignominioso Miliciano que ao final do seu (Des)Governo conspirou francamente para continuar no poder através de um Golpe de Estado. Após a sua saída, ainda tentou um último movimento com a invasão e depredação dos edifícios na Praça dos Três PoderesCongresso Nacional, Palácio da Justiça e Palácio do Planalto.

Passado o tempo, o surgimento da figura política do Ignominioso Miliciano deu ensejo para que outras personagens assomassem do submundo utilizando o caldo da subcultura reacionária que permanece por baixo da pele do brasileiro médio, criado num mundo de desigualdade como projeto político idealizado como natural. Nossa tradição escravista repercute sub-repticiamente nas mentes de todos nós e faz com que aventureiros com estratégias advindas de suas práticas em redes sociais as empregue como se discursassem para um público ávido para ser enganado, feito aquela namorada que sabe que o sujeito está mentindo, mas se entrega porque ele sabe mentir muito bem.

A Noiva*

Em setembro de 2019*, por onde eu andava — um shopping — passaram uma noiva e o noivo, acompanhados por damas de honra, todos devidamente paramentados. Enquanto uma senhora sorriu e expressou que amava ver noivas, outra falou baixinho: “que ridículo!”… Eu, que só achei a cena bonita, dei por mim que qualquer coisa pode ofender a quem está de mal com a vida, principalmente quando vê outra pessoa vivendo um momento especial.

Mulher De Malandro

Vivemos uma época em que homens e mulheres não sabem onde colocar o desejo. Por mais que tenham se estruturado em torno de um arcabouço em que busquem responder de forma diferente à superestrutura patriarcal, escorregam em demandas internas que os movem em direção à irresponsabilidade comportamental em Sociedade. Não importa o nível social, o econômico (apesar das duas coisas se imiscuírem), o intelectual ou da capacidade de uma pessoa ser solidária ao outro em condição de fragilidade — o que poderíamos chamar de moral. Eu poderia também chamá-lo de solidário ou empático — compaixão.

Há muitas outras maneiras de acondicionarmos as características de alguém especificamente. Em uma figura pública — artista, política, esportista ou qualquer proeminência — jogamos sobre ela predicados que consideramos ideais. Quando esta entidade comete algum erro ou vai em sentido contrário ao que acreditamos, trai a confiança que desenvolvemos sobre o ser humano… por ser humano demais. Seres errantes sobre a Terra, somos seres que erram.

A notícia de que um homem eminente se deixou levar (até prova em contrário) por seus impulsos primitivos, jogando por terra uma construção idealizada sobre a sua personalidade — homem preto, professor acadêmico de carreira fora do País, defensor dos direitos dos despossuídos, pensador estudado, que chegou à alta administração do País — como se fosse a definição completa do sucesso de alguém que se colocou acima das expectativas de sua raça e/ou nacionalidade. Correndo o risco de referendar o uso de frases antigas que reafirmam preconceitos arraigados advindos do útero brasileiro — o Escravismo.

Nunca deixamos de vivenciar, mesmo depois da suposta abolição da escravidão, a estrutura escravista como modelo básico do desenvolvimento da sociedade brasileira. Passa pelo Patriarcado como alicerce, a condução de nossos caminhos pessoais em todos os níveis — psicológicos, principalmente — não deixando de penetrar no arcabouço mental de quaisquer homens (e muitas mulheres), de todas as raças. Ainda que se eduque bastante, que busque fugir dos paradigmas impostos pelos preconceitos, poderão vir a sucumbir a desejos mais rasos, mesmo que tente reprimi-los de todas as maneiras.

Ou pode surgir outra explicação. O sujeito nunca deixou de ser uma pessoa que deu vazão aos seus impulsos e tudo o que fez foi construir em torno de si uma superestrutura que o colocasse à vontade para exercer o seu poder de abusador. A favorável visão externa o colocaria à salvo de tal maneira que a forma como envolve as suas vítimas a fazem duvidar de que estivessem sendo abusadas: “ele sempre muito gentil com todos, não creio que tenha cometido essas faltas”. Aqui, está o escritor a se colocar de acordo com o conhecimento que tem da alma humana como matéria de criação.

Numa conversa com as minhas filhas, defensoras das minorias e de causas sociais, elas objetaram a minha opinião sobre um vídeo em que garotos pretos referendam posicionamentos de um ativista branco de extrema-direita. No cerne de suas posições, umas das mais caras passavam pelo racismo e pela misoginia. O que faz com que aqueles rapazes defendam essas pautas? Coloquei que, para mim, era o fato de se considerarem pertencentes ao gênero masculino, antes de se considerarem pretos. Essa condição talvez seja tão forte que obliteram o viés preconceituoso ao tipo de ideologia exposta. Sorridentes, quase ouço de fundo a fala dos subjugados pedindo benção ao “Sinhozinho”.

Outra consequência do efeito que o caso de abuso causou a mim foi de eu começar a vigiar a minha própria atuação como homem, pai, amigo, esposo. De que maneira eu poderia estar agindo que pudesse estar sendo interpretado como avanço indevido ou não autorizado ou até uma agressão? Eu gosto de mulher, para além da ordem sexual, eu a admiro como o gênero superior na relação da espécie. Dessa maneira, tenho que deixar claro que as minhas condutas devam carregar demonstrações desse respeito.

No trabalho, um jovem rapaz que cuidava do telão de led para a projeção do evento estava tendo dificuldades com o aparelho transmissor. Até que conseguiu arrumá-lo. Perguntei se era algum cabo defeituoso, ao que ele respondeu: “Não, gosta de apanhar, que nem mulher de malandro”. Quase que imediatamente, perguntei por que ele achava que mulher de malandro gosta de apanhar. Ele não soube responder. Obviamente, ele ouviu essa expressão (que já repetira várias vezes na mesma idade dele) do pai e/ou amigos, colegas de trabalho ou escola.

Eu contra-argumentei que sendo mulher de malandro, a mulher saberia que se revoltasse, vivendo numa estrutura fragilizada, poderia até ser morta, como aliás tem acontecido em todos os níveis econômico-sociais quando a mulher tenta obter a sua independência. O Patriarcado faz tanto mal à mulher (que é vitimada por ser mulher), quanto ao homem. Vítima e algoz, filhos, amigos e parentes sofrem com a violência no lar, no trabalho, na rua. Começa pela palavra, pode terminar no punhal ou na arma de fogo. No mínimo, pode matar biografias até então ilibadas…

INDIFERENÇA*

O Sol é indiferente à nossa sorte. De certo, quando envelhecer mais uns 6,5 bilhões de anos, se expandirá a ponto de engolir todos os planetas que o circundam. Mas não se preocupem, terráqueos! Nós, seres humanos, mataremos Gaia antes do próximo bilhão de anos, quando a vida em nossa superfície ficará impossível de continuar pela expansão de sua luminosidade, a não ser em suas formas mais simples. Nestes tempos de seres pandêmicos, mentiras virais tidas como reais e vírus, apenas sobrevivemos…

*Texto de 2020, plena Pandemia de Covid-19

Antônio De Godói*

Em setembro de 2022*, eu voltava da Rua Santa Efigênia quando quis tomar um café. Entrei em uma lanchonete que fica quase em frente ao terreno baldio onde antes ficava a antiga sede da Polícia Federal que, depois de abandonada, foi ocupada por moradores em situação de rua. No dia 1° de Maio de 2018, após um incêndio, o edifício de ferro, concreto e aço, desabou matando nove pessoas. Informação lateral, na parede da lanchonete vi este pôster da rua congestionada em direção ao Largo do Paissandu registrada dois dias depois de eu nascer, a 9 de Outubro de 1961, quando John Lennon fazia 21 anos. O garoto de Liverpool havia formado um ano antes com Paul McCartney, George Harrison e Pete Best, Os Beatles. Um ano depois, Rindo Starr substituiu Best e, a partir daquele 1962, Os Beatles se tornou a maior banda pop de todos os tempos. Atualmente, a Antônio Godói tem mão de trânsito invertida e serve mais como estacionamento do que via de passagem de carros. Os Beatles passeiam por todas as criações pop que já foram compostas desde então…