BEDA / Anhangabaú*

Vindo do norte, rumo ao sul, adentro o túnel do Vale do Anhangabaú e tudo parece adquirir um tom imaginário no crossover de luzes, metais e cimento. Originário do Tupy-Guarani, Anhangabaú vem de anhanga-ba-y, que significa rio dos malefícios do diabo. Os povos originários da região acreditavam que aquele riacho de águas escuras provocavam doenças físicas e espirituais. Provavelmente, devido ao fato de serem um tanto paradas, as águas eram propícias como criadoras de mosquitos.

Ainda hoje, na época das chuvas, o antigo rio, mesmo canalizado, retoma a sua antiga rotina de atormentar a vida dos moradores de São Paulo das Terras de Piratininga, inundando e impedindo por carro a passagem subterrânea de um lado para o outro da cidade.

*Foto e texto de 2011.

BEDA / Heterocrômico

Eu sempre fui fã do Homem Que Caiu Na Terra, ou melhor, do ator que o interpretou David Bowie , também compositor, cantor, músico, produtor, homem à frente de seu tempo. No filme, ele interpreta um papel que parece ter sido feito especialmente para ele: “um ser andrógino, impúbere, alto para os padrões terráqueos, delicado, magro, polido e que tenta se adaptar à vida terrestre para sobreviver entre os humanos”.

Quando vi o filme, eu me vi na personagem, apesar das característica físicas discrepantes. Andrógino, impúbere, era. Mas me faltava a delicadeza e a polidez num garoto que era açoitado pelas condições que me cercavam, das quais era obrigado a me defender. Apenas mais tarde, percebi que por mais um detalhe me assemelhava à Bowie heterocromia. A minha, é natural, a dele, provocada por um acidente.

No colégio, aos 15 anos, a sua pupila esquerda ficou permanentemente dilatada depois de levar soco de um colega. Um olho ficou azul claro, enquanto o outro, escuro. No meu caso, o direito é castanho claro levemente esverdeado, enquanto o outro, verde escuro.

Da violência, surgiu uma característica que David Bowie adicionou à sua postura alienígena não apenas no filme de 1976, mas também como artista performático através das suas personas como Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Halloween Jack, The Thin White Duke, Major Tom e O Profeta Cego…

Para mim, a heterocromia é apenas mais um ponto de contato que me ajudou a escrever este texto. A personagem do filme, Thomas Jerome Newton veio de Anthea para a Terra em uma missão desesperada para salvar os poucos habitantes que ficaram em seu longínquo e desconhecido planeta.

Para isso, precisava construir aqui uma nave que pudesse trazer os 300 de sua espécie que ainda viviam em um planeta onde a água acabou e os recursos são cada vez mais escassos. O tema do livro de 60 anos antes, de Walter Tevis (1963) e quase 50, do filme de Nicholas Roeg, parece reverberar em nossa situação planetária atual. O alienígena David Bowie e, junto com ele, as suas personas, se foram. Nesse andamento, mais em algumas décadas, a sua obra perecerá, junto com todos da nossa espécie…

Amigos De Penas*

Tempos de secura e, segundo soube, condição que pode afetar a produção de ovos, explicaria a razão de que há mais de uma semana eu não ter encontrado um ovo sequer no ninho “oficial”.

Em outra ocasião, as Kardashians escolheram um recanto menos óbvio, em meio a um monte de gravetos e folhas resultantes de podas, para botarem. Só percebi quando vi uma delas, a Kendall, saindo do buraco que mostrava o casulo onde estavam depositados alguns ovos. Dessa vez, após procurar por todos os cantos, nada de encontrar um suposto esconderijo.

Eu fui granjeiro quando menino. Eu ajudava a minha mãe, que passou a criar galinhas para sustentar a casa na ausência do meu pai. Morava na casa ao lado, que hoje é da minha irmã. Quando o terreno que ocupo foi comprado e doado para nós por minha avó, transferimos a criação para cá, voltada a maior parte para a venda de galinhas e frangos.

Naquela época um tanto precária, os galinheiros eram improvisados e os animais viviam soltos. A produção de ovos caipiras garantia que tivéssemos algum alimento quando botavam. O que nem sempre acontecia. Era normal o plantel envelhecer (algumas galinhas se tornavam minhas amigas e ganhavam nomes próprios) ou por alimentação deficiente, resultado da falta de dinheiro para comprar milho. Com ele, eu fazia quirela para os animais mais novos com um velho moedor.

Além disso, os ninhos que montávamos nem sempre eram apreciados e simplesmente não encontrávamos os que as “meninas” faziam. O mais chato é que, sendo uma área quase rural — cinquenta anos antes — outros bichos também se interessavam por “nossos ovos”. Além de ratazanas, havia a Fofinha. A esperta cachorrinha conseguia fazer um buraquinho e chupava o conteúdo dos ovos, deixando a casca praticamente intacta. Durante muito tempo achávamos que fossem cobras as responsáveis…

Vez ou outra, achava os esconderijos. De início, não pegava os ovos. Ficava à espreita para saber se estavam sendo chocados. Se não, os recolhia. Não era incomum vermos ressurgir galinhas sumidas com pintinhos atrás de si em sinfonia de pios. Buscavam a proteção da comunidade e do galo. Para não haver confusão e brigas, mantínhamos apenas um. Garbo, tamanho, força e comportamento protetivo nos davam as pistas para referendarmos o escolhido.

As minhas filhas querem filhotinhos das Kardashians e talvez não quisessem que eu encontrasse o esconderijo das galinhas garnisés. Mas hoje me surpreendi por vê-lo escondido embaixo do galinheiro que fica um metro acima do solo. Elton John já demonstrou ser um bom galinho, dedicado a Kim, Kendall e Kylie. Ajudaria a cuidar dos pintinhos.

Mas ainda não tenho certeza de que seja o momento. Recolhi as quase uma dúzia e meia de ovos quase irmãmente divididas — seis de cada uma. Eu os reconheço por terem cores diferentes. Os da Kim são azuis; os das Kendall são amarelos escuros e os da Kylie, claros.

A atual comunidade apresenta bichinhos de personalidades diferentes para quem sabe observar. Quando garoto, ficava muito tempo olhando o comportamento da criação e algumas galinhas se acostumavam tanto com a minha presença que ficavam menos assustadiças. Os frangos e galos mantinham a distância de machos que têm como prorrogativa desconfiarem de tudo e se manterem alerta, assim como o Elton John o faz.

A Kim é a mais confiante e curiosa, a ponto de não se assustar comigo e de ter saltado para fora do perímetro do galinheiro, ficando à mercê das cachorras. Tive que cortar metade de uma de suas asas. A Kendall é impetuosa e logo que chegou, escapou para a rua. A Kylie é a mais nova e ainda tem a personalidade em formação, se adaptando às outras. No futuro, é bem possível que tenhamos pintinhos as acompanhando. Aguardemos…

*Texto de Julho de 2021

Postscriptum: Após uma temporada de dois anos, Elton John & Kardashians se mudaram para dois sítios. Elton John e Kim, voltaram para a mesma cidade de onde veio – Arrozal / RJ -, mas em outro lugar, mais espaçoso. Kylie e Kendall foram para o interior de São PauloSalesópolis – onde botaram muitos ovos, acabando por gerar muitos pintinhos. O espaço que temos é um em que a Tânia está montando um jardim. E galinhas, como sabemos, são os modernos dinossauros, devastando qualquer verdinho que se apresenta. No final, foi uma bela experiência reviver meus tempos de jovem granjeiro.

O Lenhador*

Ontem e hoje, utilizei uma serra à motor que alugamos para podar duas de nossas árvores uma goiabeira e uma mangueira. Para a primeira, até tive que subir na laje da minha irmã. Na segunda, foi mais simples, pois acessei a varanda. Detalhes à parte, afora ser uma ação trabalhosa, tanto pelo peso do motor, quanto pela resistência de alguns galhos mais grossos, a cada um que caía era um perdão que pedia.

A necessidade da poda se dá por duas motivações: para impedir que entulhassem a calha de folhas, flores e eventualmente frutas, que juntas estão junto a coberturas; a outra, para que produzam mais e melhor. A mangueira está instalada em sua posição desde antes da nossa casa. De fato, a casa foi construída de maneira que não a prejudicasse. Ainda assim, nessa situação me imaginava um sujeito armado e perigoso, infligindo o mal à vida. Não ajudou em nada essa minha impressão, ao encontrarmos pequenos frutos presos a alguns dos galhos. Em pleno inverno, parece que não apenas a floração se adiantou, mas também a frutificação.

Por dois dias, feri, cortei, arranquei, serrei… Deixei marcas à força. Realmente, devo estar em uma fase muito sensível, para me sentir assim, malfadado. De toda forma, apesar de tudo, espero ser perdoado…

*Texto de Julho de 2021

Posfácio: Infelizmente, a goiabeira, de uns 25 anos, já atacada por formigas, acabou morrendo há um ano. Podá-la também tinha a intenção de melhorar a sua produção, cada vez mais escassa. A mangueira, de uns 35 anos, continua forte e linda.

Muito Além De Uma Pisadinha*

A semana começou com notícias vindas de vários lugares do mundo a demonstrar o quanto as realidades se intercalam em maiores e menores escalas de reconhecimento.

No Brasil, começamos com as repercussões segundo dia da derrota da seleção brasileira de futebol na Copa América pela Argentina de Messi. Trazida para a “Pátria Amada” pelo Governo Central que, mesmo enfrentando a Pandemia, preferiu bancar a sua realização numa típica manobra da Antigo Império Romano de proporcionar o Circo e obter possíveis dividendos políticos. A final ocorreu na noite de sábado, quando eu estava trabalhando, situação que aparentemente voltará a ser menos ocasional, já que minha atividade envolve apresentações de bandas, cantores, bailarinos e/ou atores, com a reunião de pessoas em buffets, clubes e auditórios. O que poderá ser viável com o avanço da vacinação. Eu só soube do resultado após o término da decisão e não senti nada. Em nada parecia com o garoto que amava o futebol e sofria com as derrotas como se fossem pessoais.

O sentimento de ausência de alegria ou tristeza, certamente tem a ver com a situação que vive o País, em que comemorar vitórias ilusórias diante de tantas derrotas reais impingidas pela Covid-19 a fez campeã negativa de nossos dias. Quando vi a reportagem sobre o jogo e constatei a emoção de Leonel Messi, caindo sobre os joelhos sob o peso de sua história particular, um talentoso e vencedor atleta em seu clube, mas que nunca havia angariado um título pela seleção nacional, me alegrou um pouco. Do outro lado, estava o “menino Ney”, um sujeito que infelizmente não cresceu como homem e vive “pisando na bola”. Uma das crônicas de REALidade, meu primeiro livro, o enaltece no episódio de sua contusão na malfadada Copa de 2014. Daí em diante tem se mostrado um ídolo com pés de barro, ainda que talento futebolístico não lhe falte.

Em Wimbley, estádio lotado de torcedores de ambas as agremiações, vimos a seleção da Inglaterra perder a decisão nas penalidades máximas para o da “Azurra” italiana. Gostei da vitória da Itália, que mesmo estando acostumada a vencer títulos mundiais, ficou fora da Copa de 2018. A vitória está sendo considerada um sinal de reavivamento do seu futebol. De antigo destino dos sonhos de meninos do planeta bola, o País perdeu projeção internacional nos últimos 20 anos. Adotando a valorização da posse de bola e do ataque além da tradicional defesa forte, desenvolveu a formulação de um futebol total, estando há mais de 30 jogos sem perder.

A maior derrota inglesa, porém, se deu fora de campo. O aparente ressurgimento dos famigerados holligans marcou a realização do jogo. Houve ataques racistas contra os jogadores que perderam os pênaltis, de origem não caucasiana. Os torcedores racistas ingleses não conseguem alcançar que mesmo nascido como esporte de elite, o futebol se popularizou a ponto de penetrar em todos os recônditos do planeta, praticado por todas as etnias — de originários do Brasil, a asiáticos, passando por africanos, árabes e aborígenes. Eles não perceberam que só chegaram aonde chegaram por causa da miscigenação do time. Os rapazes pretos tiveram a coragem de fazer as cobranças numa decisão de tamanha importância, enquanto os brancos se eximiram de fazê-lo — não deveriam também serem cobrados por isso? Quando Saka teve seu chute defendido pelo goleiro italiano Donnarumma, considerado o melhor jogador da competição, chorou porque sabia o que viria pela frente, não apenas por ele, mas por outros de sua origem.

Em contraposição, vemos os campos vazios do Brasil atrasado na imunização por vacinas contra o SARS-COV-19, muito devido a “tenebrosas transações” nos corredores do Ministério da “Doença”, restaurantes e gabinetes palacianos de Brasília. Processo levado adiante por sujeitos que se arvoravam ilibados porque nunca se provou nada contra suas práticas espúrias — apesar de sabidas — ou porque considerassem seu comportamento “normal” dentro de um sistema viciado. Entre a hipocrisia ou a falta de consciência por parte dessa gente, voto pela simples desfaçatez: “me chama de corrupto, porra!” — enquanto a CPI do Senado sobre ações e omissões do Governo Federal continuará a buscar comprovações da política nefasta na condução da boiada porteira afora. Quanto ao perigosamente cada vez mais desconexo Ignominioso, vejo a possibilidade de quatro ocorrências: impeachment, renúncia (para evitar o processo e consequente inelegibilidade) ou tentativa de Golpe de Estado. Se houver eleição, perderá…

Acontecimentos considerados inéditos, em Cuba, houve passeatas em nome da liberdade política e por avanço na imunização precária, enquanto a notícia divulgada antes é de que sobrava vacina, a ponto de estrangeiros serem vacinados quando chegavam à Ilha. As imagens são inegáveis e não devemos deixar, por miopia ideológica, de verificar o que acontece, uma longa ditadura que empobreceu o País. Na Espanha, uma morte causada por comportamento homofóbico contra um gay de origem brasileira, ainda repercute no país inteiro, com passeatas e cobrança por justiça. No Brasil, nada inédito no país considerado o mais perigoso para quem se identifica para além da dicotomia de gênero, uma cidadã trans foi morta ao ter o corpo queimado por um adolescente que carregava, apesar de novo, os preconceitos passados de pai para filho neste sistema patriarcal que prejudica a homens, mulheres, transgêneros e identidades diferenciadas.

Em Fortaleza, um expoente (em termos de veiculação) da música popular atual apareceu, por imagens gravadas por câmeras de segurança interna de sua casa, espancando sua ex-esposa, estivesse ela sozinha, diante de outras pessoas ou de sua filha de nove meses, com socos, pontapés, puxões de cabelo e, não devemos duvidar, por palavras ofensivas de fundo moral. Para se justificar, o acusado culpou a vítima. Só se a mulher espancada buscasse se defender de alguma forma. Se há algo que enraivece quem agride é que o agredido se defenda da agressor. Quem ataca dessa maneira quer humilhar, rebaixar a vítima à condição de nada-ninguém, deseja pisar nela como se fosse um pano de chão. Para quem ataca, trata-se de uma “pisadinha”, para quem é atacado, torna-se uma quase morte, uma antevisão de seu aniquilamento. Pior ainda se for uma “simples” mulher que não deveria sair de seu lugar de pessoa de segunda categoria, de acordo com o pensamento do típico protomacho brasileiro.

Não busco resumir, a partir desses acontecimentos, quaisquer receitas a serem passadas adiante como modelos de viver e pensar. O que sei é que o sucesso profissional, artístico, financeiro e/ou social não engradece o Homem, mas a maneira como recebemos as vitórias e como lidamos com os nossos próprios insucessos na busca do equilíbrio mental, emocional, sentimental e espiritual. Esta última instância não tem a ver com religião dogmática, mas como uma visão transcendente da vida.

Para quem crê que tudo se restrinja à realidade imediata do mundo, ganhar o mundo muitas vezes é não o reconhecer em sua finitude tanto na questão de tempo quanto na de espaço. Somos seres mais e melhores, potencialmente. Basta querermos ultrapassar as limitações que tentam nos impor desde que nascemos através de ideologias segregadoras e por receitas de sucesso esporádico e finito. No entanto, e principalmente, enquanto estamos no mundo, é mister que defendamos os excluídos, os agredidos, os ultrajados e os que são mortos por uma política violenta e insultante da dignidade humana contra os poderosos de plantão. Que a Justiça terrena alcance e puna os representantes de um modelo de dominação que já não encontra lugar em nosso País e Planeta.