Esta é uma lembrança em que tudo se justifica. Tudo passou. Nesta imagem, de 2012, estamos, eu e meu irmão, atuando pela Ortega Luz & Som para sonorizarmos a apresentação de Elvinho Álvaro Neto no Beale Street Memphis, que apresentava atrações musicais em seu pequeno palco. Hoje, o local está fechado. A Ortega Luz & Som está com as suas atividades paralisadas, pois os artistas, a quem damos suporte técnico para se expressarem, também estão. Enfrentamos um período em que celebrar a vida em público virou risco de morte, como disse Cazuza à respeito de seu prazer. Devemos ter em mente que essa é uma condição excepcional que o comportamento errático do brasileiro, auxiliado por uma ideologia destrutiva e desgovernada do governo federal, fará que seja infelizmente estendida para 2022, como disse que ocorreria no final de 2020.
Um interessante painel de arte à frente e eu só conseguia olhar para as linhas de rachaduras sinalizadas com giz, marcando o tamanho que apresentavam no túnel do MetrôConsolação, enquanto esperava o trem que me conduziria ao Paraíso. Que mal me assola que me faz olhar para além do que deveria ser o principal alvo de minha atenção? O que me conduz, me condiz?
* Postagem de 2013
A Ilhota
Onde estou?… Em São Paulo, junto à Represa de Guarapiranga. Esta cidade é imensa e plural, onde podemos conviver com a decadência arquitetônica do Centrão por descuido dos administradores ou percorrer caminhos juntos à novos edifícios, construídos feitos Torres de Babel, nas marginais do Rio Pinheiros, poluído e mal cheiroso… ou apreciar a Natureza em todo o seu esplendor de força e beleza, como aqui pode se perceber. — em Clube Atletico Indiano
As Mexeriqueiras
Além da Penélope, Dorô, Domitila e Frida aguardam que eu distribua a mexerica que tanto gostam. Como não tenho certeza sobre o efeito que causam o seu consumo para elas, apenas distribuo um quarto da fruta para cada uma…
Observação: nenhumas delas está mais conosco fisicamente. Até a mexeriqueira deixou de produzir. Mas todas passeiam por nossas lembranças, imagens e coração até que nós também deixemos de atuar neste plano. Em um outro, nos encontraremos, ainda que sejamos somente pura energia compartilhada alhures.
A Intrusa
Cerca de 75% do peso de um músculo de um ser humano é composto por água. O sangue, por sua vez, contém 95% de água, a gordura corporal, 14%, e o tecido ósseo, 22%. Pelos resquícios da festa de ontem, creio que algumas pessoas estão mal informadas a respeito…
Há dois anos, postei imagens de um #TBT de *2020, quando fiquei “preso” na nossa casa da Praia Grande. Foi decretado o fechamento das estradas como as que a ligavam para São Paulo. Esse período de isolamento só não foi ideal porque o acesso às areias e o mar foi também interditado. Uma medida radical, visto que ainda não havíamos entendido completamente os efeitos do vírus, tão misterioso quanto letal. As praias foram retomadas por pássaros como gaivotas, garças e gaviões. Pude observar essa dinâmica durante as minhas caminhadas ou deslocamentos por bicicleta. Os pombos, muitos espertos, perceberam que não havia mais à disposição os restos alimentares dos seres humanos e migraram para o lado das moradias, continente adentro onde, como na minha casa, tinham a ração à disposição dos cães para se alimentarem. Por elas, era acordado pelo alvoroço ruidoso que faziam ao invadirem o comedouro do Fred e Marley, que passavam presos dentro de casa (se não o fizesse, a casa acordaria de pernas para o ar) às 6h da manhã, quando as minhas despertadoras entravam em ação. Para quem crê que os efeitos do que aconteceu há dois anos deixaram de repercutir na vida social, é só observar a baixa vacinação contra a Dengue entre crianças. Muitos dos pais embarcaram na ideia negacionista quanto aos avanços científicos. Para se ver que os vírus de várias cepas atacam de morte a estrutura social.
#TBT de dois antes, em 2020, pleno início da Pandemia de Covid-19 e dos pesadelos do negacionismo, desassistência institucional do Governo Federal e da mortandade que crescia em proporção assustadora. O sorriso da primeira foto escondia o temor da exposição a um vírus desconhecido que matou, até o final do ano passado, antes do advento da variante Ômicron, cerca de 6 milhões de pessoas no mundo todo. Segundo a revista científica Lancet, o número pode ser três vezes maior do que o apurado.
O Brasil, que gosta de ser grande em tudo, incluindo o do desequilíbrio social e econômico, perdeu para os Estudos Unidosda América o posto de maior possuidor de mortos pela doença causada pela Covid. 10% das mortes ocorreram por aqui. 30 milhões de casos deixaram vários acometidos com sequelas pelo o resto da vida. Há dois anos, mal sabíamos todo o sofrimento que se desenrolaria graças a uma confluência de fatores, incluindo a péssima administração do governo central, entremeado por corrupção acobertada por orçamentos secretos, atraso na compra de vacinas e orações para o deus dinheiro.
Comecei a reparar que um ponto luminoso surgiu de início pequeno. Depois, feito o Sol que se agiganta pouco a pouco a cada manhã de Verão, se instalou do lado direito de quem vê a tela do televisor. Nesta cena de Fallout, está lá o meu sol particular a fazer parte da paisagem apocalíptica, assim como na Inglaterra nublada de Pobres Criaturas ou em jogos da NBA ou da Premier League do Futebol inglês.
Procurei saber do que se tratava e descobri que é causado por um defeito resultado do descolamento de refletores que são posicionados na frente dos LEDs, criando esses pontos de luz na tela. Esses refletores tiveram algum problema no processo de colagem, caindo sozinhos, resultando nesse problema. Nada poético, portanto, tem a ver com o surgimento de meu solzinho, por enquanto sozinho no firmamento de minhas paisagens irreais ou reais.
Esse buraco branco luminoso acompanhará as minhas imagens televisivas por um bom tempo. Não vejo necessidade premente em trocar de aparelho ou mesmo “consertá-lo”, pois o processo é trabalhoso e nem sempre satisfatória a consequência. Ou mesmo que não fosse. Esse “sol-efeito-defeito” foi me dado inesperadamente e não consigo me desapegar dele, como a me lembrar que esse ponto que irrompe em minha tela talvez exista para manter a minha fé na imperfeição da Vida…
Como podemos perder a noção das coisas, estando na posição errada, apenas como observadores — no horizonte, o Sol parece apenas um pequeno corpo luminoso — quase sendo alcançado pelos urubus que volteiam próximos ao morro. No entanto, sabemos que essa estrela é milhões de vezes maior que o nosso planeta e é por seu calor que nos mantemos vivos na Terra. Creio, mais intensamente ainda, que o que é mais importante não nos é dado a ver através de nossos olhos de carne.