Sessenta E Dois Sóis

Numa segunda-feira como esta, às 2h da manhã, eu comecei a sonhar esta vida terrena. Aos 62 anos, continuo a sonhá-la, vivendo a carregar o fardo do passado, preparando o futuro, o presente como sentido. Vivê-lo é um presente que alguns poucos conseguem receber. Ele não nos é dado. Temos que buscá-lo. Mas não é fácil. Temos que contemplar o passado como experiência, o futuro como possibilidade que, só é viável se, no presente, o direcionarmos. Tudo é presente. Construído minuto a minuto. Ou desconstruído.

O Tempo não é passível de ser descontruído, a não ser os seus efeitos. Feito um impassível Kronos a observar com curiosidade a nossa passagem, somos nós que passamos por ele… até sermos devorados. É nossa prerrogativa empreendermos essa desconstrução. Somos nós, que navegamos o nosso corpo-identidade-mente, que devemos reverter as expectativas, mudar o nosso rumo dentro do Tempo, quantificado em números, aos quais nos referenciamos.

Para confirmá-lo, é comum registrarmos a nossa presença em imagens – algo que nos exterioriza – que nos coloca presentes no mundo, ao mesmo tempo que nos coloca no passado.  Ao contrário dos povos que temiam a fotografia por acreditarem que roubavam as suas almas, ela reafirma a nossa presença. A própria visão no espelho nos mostra milionésimos de segundo depois, entre o reflexo e a sua recepção.

O nosso corpo sofre a deterioração física, constantemente pressionado pela gravidade que nos puxa para o centro da Terra. Resta a nossa mente voar, quando não são através das máquinas que inventamos para fazê-lo. Certa vez, saltei de paraquedas. Sentir a vibração do corpo no abismo contra a resistência do ar, me permitiu perceber o quanto somos frágeis. Antes de abrir o paraquedas, contemplei a finitude. Mas me sentia feliz. Livre. Vivo.

Neste marcador temporal, convivo com a permanente sensação de queda no abismo. Diferente daquele salto, estou sem paraquedas. Porém, me sinto no controle da situação. O que não quer dizer que saiba quando pousarei no chão. A contradições existem, dão o tom, mas aprendi a conviver com elas. As balizas que uso para estabelecer certa normalidade se mostram cada vez mais instáveis, como se fossem feitas de areia junto ao mar.

Ser do dia 9 de Outubro é ter como companhia John Lennon e Mário de Andrade. Somente por esses dois nomes, a cota de gente proeminente já estaria preenchida. Mas não sou em vão e nem a minha vida, vã. Sei que importo para algumas pessoas. E graças a elas e por elas, oro. Orar é desejar o bem oralmente ou mentalmente. A oração é circular. Faz bem a quem pratica tanto quanto a quem é dirigida. Devolve boas energias em nosso entorno. Uma forma de amor.

Na contramão, sinto que a minha curiosidade está sendo suplantada pelo cansaço em ver tudo se repetir como novidade, ilusão criada através do uso das novas linguagens. Por mais que venha a rebuscar os termos, talvez esteja vivendo apenas uma crise de meia-idade. Ao pensar dessa forma, consigo até sorrir e esperar a chegada da liberdade da alma ao tempo do corpo fenecer como o sol que ao fim do dia vai repousar para além do horizonte. Mais uma ilusão que se desvanece…

Sob o guarda-sol da diversidade…

Vale Do Matarazzo*


Quantas informações pode conter uma foto? Nesta, tirada de um posto de Inspeção Veicular (para quem é de fora de São Paulo, era uma inspeção para verificar os índices de emissão de poluentes de um veículo, a ser paga pelo proprietário do mesmo, o qual ele apenas recebe o valor de volta se passar na primeira vez, o que muitíssimas vezes não ocorre já que os parâmetros são muito baixos), podemos ver três velhas chaminés, constituindo a chamada “Casa das Caldeiras” à esquerda.

À direita, um dos prédios de um novíssimo conjunto residencial, fazendo sombra à primeira casa do homem mais rico do Brasil no começo do Século XX, responsável por cerca de 1% do PIB à época. Tratava-se de Francisco (Francesco Antonio Maria) Matarazzo, que construiu no Vale da Barra Funda, ao longo de alguns quilômetros, o primeiro grande parque industrial de São Paulo, o maior complexo da América Latina — as Industrias Reunidas Matarazzo — com fábricas que produziam vários tipos de produtos, de alimentos a condimentos. Linhas de trem, às quais podemos ver as estruturas das torres eletrificadas, recebiam as matérias-primas e levavam os produtos para todos os cantos do País.

Como nada é para sempre, a fortuna construída pelo pioneiro, foi dissipada por seus herdeiros. Ao fundo, ainda vemos parte do Shopping Bourbon e o andamento da construção do novo estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras, cujo o terreno onde se localiza foi uma doação do Conde, assim condecorado pelo governo italiano em 1917, tornando-se Don Francesco Antonio Maria, Il Molto Onorevole Conte Matarazzo (Castellabate, 9 de março de 1854 — São Paulo, 10 de dezembro de 1937).

*Texto de 2013

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Paleta Urbana

Originalmente, paleta designa a peça de madeira ou louça, geralmente oval, com um orifício para enfiar o polegar, onde os pintores põem e misturam as tintas. Mas com o tempo, devido ao fato de haver sobreposições de tintas, passou a designar justamente gradações de cores percebidos em objetos, paisagens, pinturas e ideias que, convenhamos, são tão variadas e díspares que observamos que há pensamentos que vão da escuridão à luz plena.

A luz é o diferencial para expressar as cores de múltiplas formas. Nossos olhos a percebemos e a interpretamos a depender do que vivenciamos, ou seja, a maneira de olhar. Muitos de nós estão mais abertos à percepção da paleta que se nos apresenta a todo instante. Basta buscar com interesse especial, para além de vermos, para enxergarmos o inusitado, o diferente, mas não apenas. Porque contemplar o óbvio nem sempre é tão fácil.

Caminhando por aí, um olhada lateral e lá está algo que destoa do cinza imperante. Este registro foi feito numa área da região central de São Paulo, entre construções mais antigas e mais recentes, mas que não deixam de ter pelo menos trinta anos de construção. Uma surpresa bem vinda mais ou menos próximo ao Ponto Zero da cidade.

Há momentos em que o meu olhar viaja carregando a mim à bordo. Luz e Sombra se misturam a formas que podem não significar nada, a não ser fruição artística. Aqui, é como se o Sol e a Lua estivessem do lado de fora da janela contribuindo para que a imagem se revele como delírio.

Queria muito que São Paulo fosse conhecida como a cidade dos grafites. As diversas linguagens artísticas nesse campo trazem sempre expressões que vão do alucinação ao realismo. O que não significa que possa brincar com o entorno para criar algo novo.

Esta cruz fica na região de Guarulhos, cidade ao lado da região norte de São Paulo. A paleta que apresenta é simbólica. Fica em frente a uma igreja, do lado de um teatro onde trabalhei em alguns eventos. Fiquei bem impressionado não apenas pelo Teatro Padre Bento, mas pelo antigo estádio e as instalações do antigo hospital construído para tratar os hansenianos. O teatro foi construído pelos próprios internos e inaugurado em 1936, no bairro Gopoúva. Já o Hospital Padre Bento, de 1931, foi um sanatório referência no tratamento da hanseníase (conhecida na época como lepra). O modo escolhido para tratar os hansenianos foi a internação compulsória, oficializada por meio de medida decretada em 1933 por Getúlio Vargas. Os pacientes eram obrigados a ficar em lugares como o Padre Bento, construídos especialmente para abrigá-los. Passaram a serem liberados de locais como esse a partir da década de 1960. A simples adoção de um medicamento, a Poliquimioterapia (PQT) passou a curar a hanseníase, interrompendo a transmissão e prevenindo deformidades. Atualmente, está disponível gratuitamente em todos os postos, centros de saúde e unidades de saúde da família.

Esta imagem eu colhi perto de casa. É uma vista lateral de uma imensa árvore que pertence ao Piscinão Guaraú, onde ficava uma antiga plantação de hortaliças do sítio de japoneses, responsáveis por vários negócios na região. Havia também uma olaria e um lago, que recebia as águas de riachos que formavam a bacia do Guaraú, que desagua no Tietê. A paleta em gradações em verde é um refresco para os meus olhos todas as vezes que volto do centro cinzento.

Esse registro é tão aleatório que nem me lembro quando ou onde o fiz. Apenas gosto dele. São reflexos produzidos ao acaso pela passagem da luz filtrada por uma janela, porta ou algum objeto pendurado ou posicionado numa mesa. Não me lembro. Mas aí está porque foi produzido num local onde moram pessoas, na cidade que moro. Urbaníssima.

Participam>

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Roseli Pedroso – Cláudia Leonardi

Vilões*

O texto abaixo é de 2013. Poderia ter sido escrito atualmente. Eu o denominei de “Vilões”. Até então, eu não havia atentado para a origem do termo “vilão”. Vilões eram os habitantes das vilas que cercavam os castelos, compostos de pessoas mal vistas por quem ficava protegido entre as muralhas. Ou seja, nas vilas viviam os trabalhadores mais simples ou mesmo sem função, os despossuídos de bens, caçadores, colhedores, agricultores. Quase similarmente aos favelados dos dias de hoje, vistos da mesma forma por aqueles que dominam a maior parte da riqueza, encastelados em seus condomínios.

Que saudade de quando os nossos piores vilões eram tão melhores dos que hoje vicejam em nosso noticiário! Eles estão no cotidiano de três dias do Congresso Nacional e no trabalho full-time dos ladrões do nosso erário! Nos assaltos dos pés-de-chinelo, que mesmo assim, já estão armados com um berro de numeração raspada e na ação na surdina dos sofisticados hackers da web. Nas notas de rodapé de pais que matam os filhos, quando não são os filhos que decidem fazê-lo primeiro. É claro que sempre houve crimes na História do homem! Desde o Gênesis, convivemos com a nossa maldita herança! Somos filhos de Caim! Mas a nossa santa inocência contrabalançava um pouco o mal que grassava pelos campos onde os lírios floresciam. Enfim, parece que na verdade, estou com saudade de mim mesmo… Percebo que viver na ignorância chega a ser uma benção!

Na imagem, os vilões Pinguim, Charada, Mulher Gato e Coringa da série da TV, Batman, do final do Anos 60.

O Sol*

O Sol não é indiferente à nossa sorte. De certo, quando envelhecer mais uns 6,5 bilhões de anos, se expandirá a ponto de engolir todos os planetas que o circundam, incluindo o nosso, evidentemente. Estamos na distância exata que propicia a vida como a conhecemos, da mesma maneira que não escaparemos de sua morte. Mas não se preocupem, terráqueos! Antes do próximo bilhão de anos, quando a vida em nossa superfície ficará impossível de existir pela expansão da intensa luminosidade e calor solar, nós mesmos teremos matado Gaia. Sobre a sua superfície, se houver vida, será aquela a não ser em suas formas mais simples. Nestes tempos de seres pandêmicos, mentiras virais tidas como reais e vírus mortais encarados como fantasia, o Sol é a reafirmação de nossa face luminosa, porém fátua.

*Texto produzido em meados de 2020, durante a Pandemia de Covid-19.