Manhãs E Tardes Permanentes

Nesta mesma data, em 2014, nós, da Ortega Luz & Som, saímos cedo para trabalhar. Quando os primeiros raios solares iluminavam o dia, lá estava esse casal de cães ora sentados, ora brincando juntos durante o tempo que estivemos abastecendo os carros para seguirmos viagem. Formavam um lindo casal. Essa cena se espraiou pelo resto do meu dia. E hoje, ao relembrá-la, melhorou a minha manhã. Apenas os bons romances resistem à luz do dia…

Rio de lavas
passeiam pela tarde
lavada de chuva,
sob o oceânico céu
do verão
deste final de ano…
Cores e fogo espraiados
em intensidade líquida
de nebulosas ondulantes que serpenteiam
no horizonte do sem fim
no fundo de meus olhos…
Que sejam prenúncio de alvíssaras,
ainda que saibamos que serão tempos
tempestuosos…

Super Luas

O interessante na ocorrência das Super Luas em Sampa, é quase nunca a percebemos. Simplesmente porque calha de haver sempre muita nebulosidade a nos impedir de senti-la em todo em seu esplendor. Aqui, coloco dois textos referentes a duas ocasiões diferentes…

Em 2015…

Sem Super Lua

Apenas superação…

A eterna ação

da Terra em movimento…

Em uma viagem de velocidade controlada em torno do Sol.

Bilhões de pessoas já viram céus

e astros mudarem de lugar quando,

em verdade, foram elas que se moveram

vida adentro, do nascimento à morte…

Essa é a nossa eterna sorte…

Nossa fraqueza…

E a nossa redenção…

Em 2018…

Nota De Esclarecimento

Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim meu pai, quase um homônimo – Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar num romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Envio um abraço forte a todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.

Sou Argentina Desde Criancinha

No final dos Anos 60, Dona Madalena e seus três filhos – entre eles, eu – fomos parar em Posadas, capital da Província de Missiones, Argentina. Lá, morava a minha avó paterna, Dona Dora Parodi, que abrigava o meu pai, ativista refugiado do Partido Comunista Paraguaio. No Brasil, estávamos em plena atividade da Operação Condor, que reunia os países dominados por ditaduras de Direita que, coordenados pelo Governo dos Estados Unidos da América, perseguiam, prendiam, torturavam e/ou matavam os seus opositores.

Eu tinha 5 para 6 anos e fui jogado com meus irmãos dois e quatro anos ao meio de uma realidade da qual guardo várias lembranças. Em São Paulo, apesar de pobres, tínhamos uma estrutura razoável. Em Missiones, no norte do país platino, no contexto da região da Tríplice Fronteira – também formado por Paraguai e Uruguai – começamos a utilizar expedientes que nos acostumaríamos mais tarde, quando voltamos para o Brasil: tomar banho de canequinha, usar água guardada em bacias, restrição alimentar. Mas isso é outra história…

Tive muito contato com os filhos de uma moça de origem indígena, assim como o meu pai. A passagem mais marcante ocorreu num Natal em que recebi um cofrinho de plástico em forma de Papai Noel. Hoje, eu sei que foi algo dado com muito carinho. Afinal, aquele pessoal mal tinha dinheiro para comer. Mas eu era uma criança e lá percebei o quanto el pibes eram muito valorizados. Mesmo as famílias mais humildes faziam festinhas para comemorarem os aniversários de seus filhos.

Ficamos cerca de oito meses por lá. Estudando, me dei conta que a nossa volta para cá coincidiu com o golpe militar na Argentina, em 1966, que instaurou um regime de exceção aos moldes do brasileiro, porém mais violento, em um estado de sítio permanente. Retornamos quando se iniciava a minha idade escolar. Na escola, falava espanhol, usava poncho como vestimenta no Inverno e me sentia olhado com desconfiada curiosidade pelos coleguinhas, como se fosse um bicho estranho. Mesmo novo, tinha adotado os cabelos compridos como marca. Ou seja, eu era um pequeno argentino em Sampa.

Esse laço com a Argentina foi se estreitando ao longo das viagens que fazia para visitar a minha avó, até seu falecimento. Inclusive, acabamos, minha irmã e eu, por sermos escolhidos como padriños de nuestro hijado, Luís Sosa, filho de uma amiga da família. Eu, jovem rapaz, caminhava pelas ruas de Posadas e me admirava ao ver en la calles, los niño jugando fútbol. Impressionado com o estilo de toques e deslocamentos rápidos do “toca y mi voy”, percebi a razão da dificuldade do meu São Paulo em vencer os times argentinos na Libertadores da América.

O País Argentina, institucional, tem os seus problemas, mas ao conhecer o povo, sei que merece um alívio no seu sofrimento. Assim como os brasileiros, açoitados pela péssima escolha de um governante que surfou na onda do Negacionismo e de medidas que demonstraram que boa parte de sua população possui uma postura elitista, totalmente avessa à nossa formação multicultural e multirracial. É como se quiséssemos fugir de nossa gênese. Ao mesmo tempo que chamamos de “Menino” o maior ídolo no futebol, nota-se a nossa tendência em absolvê-lo por sua conduta ética dúbia. Enquanto Messi demonstra garra e vontade aos 35 anos, o outro, aos 30 se sente exaurido. Na minha ótica, isso tem mais a ver certa frustração vaidosa. A mesma que um garoto adota ao não querer mais brincar quando não consegue ganhar dos adversários.

Messi deixou de vencer quatro Copas do Mundo. Isso o impediu de tentar novamente? Não! Com certeza, as decepções o tornaram mais aguerrido. Deixar de torcer pelo time do país vizinho de nuestros hermanos argentinos, demonstraria apenas que somos um povo ressentido que, ao não vencer, prefere que o irmão também perca.

Do outro lado, enfrentará um time oriundo de um país com tradição colonial, mas que incorporou ao seu time jogadores de origens diversas, como o craque Mbappé, filho de um camaronês e uma argelina – africanos – o que ajudou a dinamizar o futebol francês. É como se houvesse um processo que aliou a técnica de atletas de origem imigrante com o apuro tático europeu.  Aliás, mais da metade da equipe francesa era composta por descendentes de países colonizados ao final do jogo contra Marrocos. Eu acredito imensamente na assimilação cultural como saída para a convivência entre os povos. Seja pelo Esporte, pela Arte, pela criatividade, enfim.

Ainda que na Argentina o perfil racial seja menos ou quase nada misturado, como um ou outro de origem originária, torcerei pela agremiação sul-americana. Porém, como aconteceu quando a seleção brasileira jogou, não investirei minha emoção fátua na vitória de qualquer um dos dois. Serei um privilegiado expectador do drama. Ao final de tudo, tudo é uma questão de mérito prático – quem fizer mais gols, vencerá – e a minha vida não mudará por causa disso.

Fim De Festa

O clima de “fim de festa” impera entre os perdedores. Muitos, dopados pela alegria que alcança os seus picos com a valiosa ajuda de aditivos e vontade de ultrapassar limites. Após a terceira dose, qualquer banda “meia-boca” se torna a melhor, não importando as “bolas nas traves” de instrumentistas e cantores. Qualquer bandeja que cai dos braços dos garçons é motivo para dançar. As mulheres substituem os saltos-altos pelos chinelos ou pés descalços. Os homens, arrancam as gravatas, as camisas abrem os peitos, as retiram das calças. Beijos entre desconhecidos de minutos antes são trocados. Todos estão irmanados na sensação de felicidade baseada na possibilidade de eterno gozo. Porém, vivemos na Terra, na realidade transitória deste plano – típica do próprio planeta – que um dia será engolido pela explosão do Sol.

A operação de rescaldo é realizada por aqueles que não participam do evento como convidados, a não ser para servir a ela. Os músicos guardam os instrumentos, os técnicos desmontam o equipamento de som e iluminação. Os garçons recolhem pratos, talheres, os restos alimentares e os conduzem para a cozinha onde serão lavados e guardados. Logo mais, haverá outro processo de catarse – para o “bem” ou para o “mal” – sempre haverá registros dos quais muitos se ressentirão, quando a intenção seria o de festejar. Aliás, a depender dos que estavam festejando antes do tempo, ao perceberem que terão “contas a pagar” após o encerramento do furdunço, o arrependimento bate fundo…  Se não, será o momento das explicações. Que as aceitem quem o quiser. São lobos que ao perderem os dentes, virão outros a substituírem.

As repercussões duram o tempo que merecem durar. Sempre haverá outra festa, incluindo àquelas que são feitas para desviar a atenção sobre a maior delas. Vida que segue, a ressaca moral só ocorre quando o coração se faz presente. Incluindo a aqueles de certa maneira decidimos não gostar. Se for para errar, que seja pelo coração. A decepção normalmente é do tamanho da expectativa. Quanto maior uma, maior a outra. A narrativa dos participantes é validada por “torcedores” de seus emissores. Aliás, a “verdade” dos fatos depende muito de quem os narra. Da carga de prestígio do narrador infere-se a veracidade.

Porém, é comum que os bons mentirosos se sobressaiam em protagonismo, acostumados que estão ao exercício da vivência pela baseada na ficção. De fato, os fãs esperam ávidos a nova mentira que será proferida, principalmente porque se alinham ao que pensam, não importando que tenham base nos acontecimentos obviamente expostos. É o famoso “me engana, que eu gosto”. Fim de festa, enfim, nunca será o fim. Isso, quando sabemos que festas são feitas para acabar…

Foto por Kindel Media em Pexels.com

#Blogvember / Os Meus Meios-Dias

O meu Meio-Dia, começou às 9h40 da manhã. Apesar do adiantado da hora, mais uma vez dormi as mesmas cinco horas de praxe, não importando que tenha, como ontem, estado em atividade o dia inteiro. Uma vez acordado, já é Meio-Dia. Sol a pino, ainda que chova. Meus Meios-Dias se repetem pelas horas que se seguem como estados d’alma.

Leio as postagens deste #blogvember e passeio por textos que me inspiram. No de ontem, Roseli Pedroso escreveu uma preciosidade em poucas linhas sobre encontros fortuitos, calados, mas definitivos. Como resposta, lembrei de um: “Foi assim que cruzei com os olhos verdes de uma moça que aguardava o ônibus no ponto. A porta traseira foi aberta para que entrasse passageiros – idos do final dos anos 70 – e eu me fixei no brilho do olhar de alguém que jamais voltei a encontrar. Escrevi versos para esse (d)encontro, guardados em algum lugar…”.

Lunna Guedes, deu por si ao Meio-Dia de ontem, quando aniversariava. Fala sobre os plúmbeos e chuvosos novembros de sua vida, incluindo o do dia de seu nascimento. Hoje, não foi diferente. Aproveitei o sol que despontava e saí para ir ao supermercado comprar ingredientes para o estrogonofe do almoço. Voltando das compras, as nuvens toldaram o Sol em dois minutos e uma pesada chuva desabou como se fosse um balde de água fria em cachorros no cio. Era Meio-Dia.

Mariana Gouveia homenageou a nossa editora aniversariante com uma linda missiva. A força do abraço que pulsa em coração lunar é expresso em “palavras que atravessam tempos e se esparramam em cadernos”. Concordo com ela que, com a Lunna, acabamos por criar uma comunidade afetiva em torno da boa escrita.

Assim como Suzana Martins lembra das belezas acidentais de novembro e nos diz que “gosta da confusão equinócia a rasgar o tempo!” – um elogio aos dias intempestivos que aprendeu a apreciar com Lunna.

Em casa, trocada a roupa molhada, começo a assistir mais um jogo da Copa do Mundo de Futebol. França e uma das suas antigas colônias africanas – Tunísia – reproduzem em campo a rivalidade derivada do saldo pesado que toda dominação de um povo pelo outro produz. Terminada a partida, o time do colonizador (carregado de jogadores oriundos de povos colonizados) perdeu o jogo. O time do colonizado ganhou, mas não levou. São os dramas operísticos a reproduzir a História do mundo em realidades simuladas.

Após a chuva, rápida e impertinente, raios solares são refletidos em janelas e paredes. A Luz incursiona por frestas, folhagens, fios elétricos, telhados e peles. Quem disse que chovera meia-hora antes? Minhas roupas molhadas juram que sim. Mas meu olhar perdoa o pequeno inconveniente diante de belos Meios-Dias desta tarde lavada que se repetirão até a chegada da Meia-Noite – o Meio-Dia final…

Participam: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes / Mariana Gouveia