Cauby Peixoto*

Cauby Peixoto, se apresentando no antigo salão social da S.E. Palmeiras, por ocasião do aniversário do clube, em 2005.

Grandioso. Estrela no palco. Protagonista na vida. Voz cristalina, mesmo com o corpo envelhecido e alquebrado. Donde suponho que a sua voz incrível não era daqui. De onde quer que ela tenha vindo, voltou para onde veio… A minha mãe brincava que poderia ter sido o meu pai… Por vários motivos, sabemos que seria impossível…

Mas Deus me deu a oportunidade de estar algumas vezes com ele, ouvindo-o de perto, através do meu trabalho. Uma de suas características era falar bem baixinho quando não cantava, tanto para se comunicar quanto para se fazer ouvir entre as canções. Na ocasião da foto acima, um dos espectadores reclamou que a sua fala estava quase inaudível, ao que respondeu que não era nossa culpa, mas porque ele tinha o costume de preservar a sua voz o máximo que pudesse, a não ser quando cantava. Para ouvi-lo no camarim, tínhamos que nos aproximar bastante devido a essa precaução.

Outro de seus costumes era o de chamar de “professor” a cada um dos colegas de trabalho – incluindo músicos e técnicos – equiparados num título de deferência. Educado e apesar de no final de sua carreira estar perdendo a audição, não saía fora do tom equilibrado. A minha admiração por ele crescia conforme o tempo o debilitava, ainda que mantivesse a excelência no canto. Provavelmente um artista de ouvido absoluto, num projeto do qual participei, observou discrepâncias nos arranjos que estavam sendo montados para os shows. Foi a única ocasião em que o vi se alterar um pouco, ainda que mantivesse a elegância.

Que seja bem recebido de volta às outras estrelas, ao brilho que tentava reproduzir em suas roupas. Obrigado por compartilhar conosco da sua magia, Cauby!

*Texto de 16 de Maio de 2016, por ocasião do passamento de Cauby Peixoto, um dia antes, aos 85 anos.

Nos Tempos Da Faculdade De Educação Física*

Salto com o auxílio do plinto, na aula de Atletismo do Profº. José Luís Fernandes – 2010

Entre 2009 e 2013, fiz Licenciamento E Bacharelado Em Educação Física. Quando eu o iniciei tinha então 48 anos e fui incentivado pela Tânia, preocupada com possíveis sintomas da chamada “Síndrome do Ninho Vazio” pela ausência cada vez mais acentuada das nossas três meninas na minha rotina diária. Com dois cursos anteriores não terminados na área de Ciências HumanasHistória E Letras, na USP – decidi terminar o terceiro na área da Saúde justamente pelo desafio físico e cronológico: um velho entre os jovens. Até um tempo antes, pensava que ter feito o curso foi muito importante apenas para mim em termos de entendimento do corpo e seu funcionamento, já que acabei por não atuar na área, o que também nunca foi a minha intenção, apesar de ter surgido algumas oportunidades.

Com as Lembranças do Facebook surgindo de tempos em tempos, recuperei muitas mensagens enviadas por meus pares perguntando sobre todos os assuntos, cada vez mais estimulados pela atenção com a qual os atendia. Percebi que a minha maior missão não fora somente me aprimorar no autoconhecimento e desenvolvimento da consciência corporal, mas especialmente auxiliar os meus companheiros de turma da Educação Física, hoje atuantes como professores em escolas, instrutores em academias e “personal trainers“.

Logo no Primeiro Semestre, cheguei a sofrer restrições de alguns devido à minha curiosidade em fazer perguntas no final da aula, os impedindo de sair antes do término. Sintomaticamente, muitos deles foram ficando pelo caminho. Com a continuação do curso fui ganhando a confiança da turma e passando coordenar a realização de alguns trabalhos na parte teórica. Na parte prática, não ficava devendo (quase) nada aos demais alunos, excetuando aqueles que mesmo na idade deles talvez não conseguisse alcançar. graças à tecnologia dos modernos celulares, pude registrar grande parte da minha incursão rica em experiências com jovens em busca de um sonho. O texto abaixo é de 2013*, na fase final do curso.

“Pessoal, como alguns que me acompanham sabem, estou no oitavo e último semestre do curso de Educação Física. Uma das disciplinas que tenho na grade chama-se Psicologia Aplicada Ao Esporte. O esporte competitivo tem exigido e carreado cada vez mais recursos para que o atleta ou a equipe ao qual ele está inserido apresentem resultados satisfatórios frente aos grupos para os quais atuam – clubes, torcidas e patrocinadores.

Dessa forma, a Psicologia como disciplina tem amplo campo de atuação nessa área de atividade humana. Mas, como lembra o meu professor nessa disciplina, Ricardo Rico, não uma Psicologia independente das motivações e aspectos mentais e emocionais que movem os atletas, ou seja, a Psicologia que conhecemos aplicada no esporte, porém gerada no âmbito de competitividade extrema ou, como diria eu, a vida levada ao limite da exibição de força, aplicação (e transgressão) de regras, vibração, aprendizado de como vencer e (mais importante, porque ocorre com a maioria dos competidores) como perder – enfim, uma Psicologia do Esporte.

Na última segunda-feira, o meu grupo tinha que apresentar uma entrevista com um ‘Coach‘, um especialista cada vez mais requisitado para atuar de forma individual ou coletiva junto a grupos profissionais e/ou sociais que buscam alcançar realizar metas objetivas. Devido a vários motivos que não irei declinar, domingo de manhã ainda não havíamos conseguido a entrevista prometida e eu tive que recorrer, meio a contra gosto (porque poderia parecer que fosse um abuso de confiança), à minha lista de amigos ‘facebookianos‘ e um deles, o Alberto Centurião, se predispôs a responder o questionário que elaboramos.

Foi uma agradável surpresa para mim que uma pessoa do quilate de Centurião tenha se colocado tão generosamente à disposição para tal empreitada em um domingo de Dia das Mães, praticamente na hora do almoço dessa data especial. Ele foi consciencioso e prestativo de tal forma que me senti impelido a agradecer-lhe publicamente aqui neste espaço. Meu grupo e eu realizamos a apresentação da entrevista e, aparentemente, fomos bem na empreitada. Despeço-me agradecendo à mamãe do Centurião que merece um beijo grande e um abraço forte por ter forjado um homem como o seu filho”.

Como Conheci A Tânia

Imagem de 13 de Maio de 1988. Participação especial da Romy, nossa primeira filha, testemunha aninhada no útero da Tânia, aos cinco meses de gravidez.

Dois ou três anos antes de me casar com a Tânia, sequer a conhecia. Ela veio com a minha prima Vanir e a amiga Neuza, de Volta Redonda para São Paulo, com o objetivo de realizarem testes de admissão em hospitais da capital paulista. Vanir era filha do tio Manoel e da tia Ermelinda, irmã mais velha de minha mãe que, junto com o meu tio Benjamin foram os dois únicos dos sete irmãos Nuñez a nascerem no Brasil. O nosso tio Manoel era preto. Esse dado não teria nenhuma importância se não fosse um fato que marcou a tia Ermelinda aos 12 anos de idade, quando chegou no Porto de Santos, vinda de navio da Espanha, junto com outros quatro irmãos, nos anos 20 do século passado. Ela mesma nos disse que ao ver o primeiro homem preto de toda a sua vida, provavelmente um estivador, se assustou tanto quanto ficou impressionada.

Assim como era impressionante o nosso grande tio Manoel. Ele trabalhava na Siderúrgica Nacional e se distinguia pela inteligência, apesar do pouco estudo e, notadamente, por seu olhar penetrante. Eu gostava de ficar ao lado dele e ouvir suas histórias quando visitávamos a ele, a tia e os primos, todos muitos bonitos e enormes. A prima Vanir me adorava e quando me apresentou para a Tânia, se referindo a eventual beleza e personalidade do primo, a minha futura mulher depois me revelou que chegou a rir por dentro naquele momento. O sujeito que eu era, de cabelos desgrenhados e vestindo camisas postas ao contrário, calças sujas e um tanto bruto não era nem bonito e muito menos interessante. Ao vê-la, não me lembro de ter dito alguma coisa. Talvez tenha grunhido algo, não mais do que isso. Com certeza, aquela magrela com voz de taquara rachada não havia chamado a minha atenção.

As Técnicas de Enfermagem Tânia e Neuza passaram no teste para o Hospital Israelita Albert Einstein. A Vanir foi trabalhar no Hospital 9 de Julho. Acabou por residir com parentes em Suzano, município próximo. As outras duas moças foram morar temporariamente com a Dona Madalena, minha mãe, em um dos quartos disponíveis na casa que antes era ocupado por minha avó Eloisa, da qual minha mãe cuidava, que morrera um pouco antes. Eu continuei em nossa antiga casa, sozinho. Como a Tânia trabalhava bastante e fazia cursinho para fazer vestibular para o curso de Enfermagem, pouco a encontrava. Quando nos víamos, era comum acontecer um ou outro desconforto. Certamente, não nos simpatizávamos mutualmente. Depois de algum tempo, ela e a Neuzinha, se mudaram para um outro local. Não desgostavam da Dona Madalena, mas no mínimo achavam engraçado que minha mãe lhes fornecesse achocolatado barato e leite tipo C e pó de Chocolate do Padre e leite tipo B, para mim. Na época, eu era vegetariano e fazia uma grande quantidade de saladas de frutas, sopas de legumes e vitaminas que mal oferecia para as moças. Cortesia social não era o meu forte.

Passado o período inicial de ausência depois da mudança, em suas folgas, a Tânia voltou a frequentar a casa onde a minha mãe morava, principalmente quando não tinha outro compromisso. De vez em quando, nos encontrávamos. Um dia, se surpreendeu com um cara de cabelo aparado e vestido como gente. Aparentemente, descobriu que eu era o rapaz ao qual a Vanir se referiu. Por meu turno, passei a agir de uma forma mais cordial e gentil. Começamos a sair para irmos ao cinema e conversarmos. Começamos a nos entender e a sentir vontade de ficarmos mais tempo juntos. Até que começamos a namorar. De início, escondemos nosso caso. Mas…

… para ajudar, Dona Madalena teve a ideia de alugar a casa da família na qual apenas eu morava para a Tânia e a Neuzinha. Elas ficariam em um quarto e eu, no outro. Sem o conhecimento da minha mãe, os namorados passaram a dormir juntos. Quatro meses depois, não me lembro se nosso namoro fosse presumido ou não, me lembro de estar tomando um café na cozinha. Simplesmente saquei de um envelope o exame de ultrassom ao qual mostrei à minha mãe. Era a “imagem” do seu primeiro neto ou neta. Ela desabou em uma das cadeiras e começou a fazer perguntas sobre como tudo aquilo tinha acontecido. Acho que brinquei sobre o “como”, porém, tão assustado quanto da primeira vez que a Tânia me mostrou o exame, nem me lembro do resto da cena. Estabelecido o fato da gravidez, a movimentação de ambas as famílias foi no sentido de que nos casássemos o mais rápido possível. Mas essa é outra história…

BEDA / Rachaduras Ou BBB 2022

Há dez anos, em abril de 2013, escrevi sobre a foto acima: “Um interessante painel de arte no túnel do Metrô Consolação e eu só conseguia olhar para as linhas de rachaduras marcadas a giz, sinalizando o tamanho que apresentavam, enquanto esperava o trem que me conduziria ao Paraíso. Que mal me assola que me faz olhar para além do que deveria ser o principal alvo de minha atenção? O que me conduz, me condiz?”

De certa maneira, esmiuçar fatos, verificar repercussões e buscar efeitos por menores que sejam derivados ou mesmo alheios ao acontecimento principal, é um “defeito de meu olhar”. Um dos exemplos que exponho é sobre algo que vejo com interesse sociológico desde que surgiu. No início de sua formulação, assisti a três edições seguidas. Depois, deixei de prestar atenção por anos, mas em 2020 voltei a me interessar por perceber que espelhava um processo político-social para além do que qualquer pesquisa pudesse demonstrar. Afora de ter surgido no bojo da Pandemia de Covid-19. Eu me refiro ao “reality showBig Brother Brasil ou simplesmente BBB, como passou a ser chamado. Nome formulado a partir do título do incrível 1984, de George Orwell, que retrata uma sociedade controlada e vigiada 24 horas por dia, típico de um regime político opressor.

A ideia do confinar pessoas sem aparentes conexões, de origens socioeconômicas, posicionamentos ideológicos, identidades de gênero e raciais díspares em um mesmo local por meses seguidos, com jogos e imposições aplicadas a partir de regras preliminarmente aceitas por contrato, se bem que os participantes não tenham conhecimento do que seja imposto, configura para mim quase como se fosse a estrutura imposta de fora para dentro em nossa Sociedade, ainda que seja considerada uma Democracia. Esse isolamento deixar quem está confinado alheio aos fatos mais recentes, fazendo com que contem apenas com o suporte de suas experiências pessoais, sem as balizas que normalmente usamos das informações que recebemos dos confrontos ideológicos estremeados a elas pela Mídia. Porém, os seus destinos metaforicamente sofrem a pressão de grupos organizados exteriormente, interessados em alavancar ou enterrar os percursos de cada participante.

Ao contrário de um regime opressor, ninguém chega à Casa por imposição, mas por escolha. O chamariz seria o prêmio em dinheiro, mas ser visto, conhecido e afamado a ponto de alavancar o que queira fazer são outros prêmios menores decorrentes dessa exposição transmitida pela TV o tempo todo ou em edições especiais e programadas. A dinâmica da mútua convivência é potencializada pelas circunstâncias que englobam gradações que refletem referências exteriores Camarote, para os aquinhoados; Pipoca, para os seres comuns estipulados muito mais por critérios de penetrabilidade pública do que por capacidade financeira.

Mesmo assim, a simpatia por pessoas conhecidas pode ser algo que pode mudar de acordo com a direção do vento ou humor dos telespectadores que, em última instância (supostamente), são quem decidem os vencedores entre os confinados nos chamados “paredões”. Os “heróis” passam por provas para designar quem irá passar pelo escrutínio do público. O desempenho nessas provas, a depender do olhar do telespectador, pode até angariar simpatia pelos perdedores, a depender de como se dá o embate de forças colocadas em movimento.

O que normalmente acontece na Sociedade de maneira mais velada é estimulada por armadilhas colocadas no caminho dos participantes, como os chamados “jogos da discórdia” que, entre outras, fazem explodir palavras exaltadas que expõem fraturas da convivência diária. A violência física é punida com a morte (expulsão). Ao contrário do que nem sempre acontece no mundo exterior. A alimentação ou a falta dela, mormente para quem vai para a Xepa (em referência aos restos de fim de feira), é um dos outros fatores que estimulam brigas entre “brothers and sisters”, o acaba por me fazer lembrar de uma das frases de minha mãe: “Onde falta comida, todos brigam e ninguém tem razão”.

A edição de 2020 foi reveladora de como as ações aparentemente inocentes de personagens sem relevância social ou política, podem vir a refletir, por uma conjunção de fatores, condições externas ao programa. Comecei a observar a identificação de uma torcida aguerrida por um dos participantes, raiando o fanatismo, por Felipe Prior, que apresentava um comportamento exaltado e bastante identificado com o dos simpatizantes do governo central. No “paredão” entre ele e a cantora Manu Gavazzi, de postura oposta à dele, a votação passou do bilhão de votos. Em proporção bastante equilibrada, o rústico participante foi eliminado, dando a nota do crescimento da rejeição aos posicionamentos ideológicos ligados a ele. Ao final, a vencedora foi a médica preta Thelma Assis, o que revelava a preponderância de ideias mais abertas ao contrário do viés conservador então vigente do público.

Na edição do BBB de 2021, a fórmula de colocar famosos no “reality” causou uma onda de “cancelamentos” em série de pessoas que não estavam acostumadas à pressão de lidar com os choques diários na convivência com pessoas que comumente não contestariam seus comportamentos na Sociedade “aberta”. Presos no mesmo espaço, em situações limites de confronto, a antipatia por alguns participantes chegou a quase 100%, como no caso de Karol Conká em sua eliminação. A possibilidade de poder odiar alguém de forma tão franca, intoxicou o público. Assim como amar desbragadamente a concorrente Juliette Freire, que venceu com mais de 90% dos votos.

Juliette, que passou a ser chamada apenas pelo primeiro nome, atraiu um número enorme de seguidores que a acompanham nas redes sociais e adquirem os produtos que anuncia de forma consistente, incluindo ingressos para temporada de shows como cantora. Ou seja, bem aproveitada, a exposição propiciada pelo BBB, para além do prêmio para o vencedor, se nada de mais de interessante tiver a apresentar, pode catapultar a uma “carreira de celebridade” algo intangível quando a pessoa é afamada por ser famosa corriqueiramente se alimentando de citações ou referências midiáticas, ditando modas e/ou se expondo em situações espetaculosas.

A edição deste ano apresenta participantes anódinos, sem o carisma de um Gil do Vigor, por exemplo que, ainda que não tenha vencido a competição passada, conseguiu desenvolver uma carreira sólida fora da “casa mais vigiada do Brasil”. Esse interesse em esmiuçar o comportamento de pessoas colocadas em circunstâncias que desafiam a estabilidade emocional e o equilíbrio mental em um ambiente controlado, mediante estímulos arquitetados para os colocarem em circunstâncias precárias, diz muito sobre como os telespectadores comuns aqueles que vivem em condições controladas por um sistema invisível para a maioria deles que passam horas votando para o seu favorito, discutindo apaixonadamente o destino de vidas que são fuziladas nos “paredões”. A mesma paixão que falta na defesa de direitos sociais e na clareza do processo político é dirigida na consumação de objetivos imediatos, em uma espécie de catarse coletiva.

Mediante isso, fora da casa, grupos de interesses os mais vastos, operam como se fosse uma indústria paralela, mas bastante identificada com o “jogo” em que são simuladas vidas por um fio. A eliminação é lamentada como se fora uma morte real e a permanência com a alegria de um (re)nascimento. Neste ano, um dos possíveis vencedores apresentava um controle exemplar sobre o seu comportamento, usando argumentos que operavam nos enganos e falas comuns lançadas a esmo por seus adversários, sendo colhidas e trazidas para o centro das discussões. Bem treinado na profissão de ator, geralmente no papel de mocinho, manipulava com astúcia todas as situações, improvisando quando o seu comportamento falseado sofria algum reparo. Encontrou como principal adversária justamente uma moça rica, empresária e “influenciadora” acostumada desde menina a reconhecer pessoas dissimuladas. Ao se postar como vítima de perseguição, tentava trazer para si a simpatia de quem se sente humilhado no meio social. Sairia vencedor usando os mesmos expedientes que muitos políticos aprendem em cursos de “marketing”. Ou seja, foi eleito o preferido por ser um típico manipulador. O público o aprovava, reverenciando sua “inteligência” e habilidade em ser um bom jogador. Sua vitória seria uma antevisão do pleito mais importante do início deste milênio no Brasil?

Os outros dois participantes finalistas carregavam a similaridade de serem pretos. Assim como o outro, fizeram parte do Camarote. Exemplarmente, têm atividades que são aquelas nas quais normalmente alguém dessa origem racial se sobressai na Sociedade brasileira esportiva e/ou artística. Mas afora isso, a sobrevivência na Casa do BBB se deu por angariarem a simpatia do público versus a antipatia por outros participantes. Vencer esse “reality show” competitivo, apesar de todo “trabalho” dos grupos de influência, demonstra o que perpassa por trás do que eu chamaria de forma discricionária de “inconsciente coletivo” brasileiro e aos seus efeitos, por menores que aparentam, equivaleriam às rachaduras na parede social do País irreparáveis por décadas ainda, mas escamoteadas eventualmente por “jogos reais”.

Comemoração dos finalistas do BBB-22: os atores Arthur Aguiar, Douglas Silva e o atleta Paulo André

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

BEDA / A Cobra Mordendo A Calda*

Bombardeio na Ucrânia pela Rússia

Há inclinações das quais certas pessoas não conseguem escapar. Elas simplesmente não conseguem deixar de ser… elas mesmas. O perigoso baixinho que comanda a Rússia, talvez com a mania de grandeza de Napoleão, quer reviver tempos de Stalin. Não é a toa que criticou Lênin, mas não ao outro que promoveu ações que mataram pelo menos vinte milhões de pessoas, a começar pelos antigos colaboradores mais próximos. São famosos os registros que mostram o desaparecimento da foto inicial de seu governo de companheiros apagados um a um, ano a ano por intervenção mecânica.

Uma dessas medidas foi o expurgo étnico de tártaros na Crimeia. A mesma Crimeia anexada à força em 2014, no aniversário de 70 anos da intervenção criminosa de Stalin. É tudo tão óbvio que me perturba o posicionamento de alguns brasileiros que absolvem o ex-agente da KGB, adotando o discurso do invasor, sob o pretexto acalentado secreta ou abertamente de um arraigado antiamericanismo. Muitos, talvez saudosos de uma URSS que desejam rediviva, assim como Putin.

“A Deportação dos tártaros da Crimeia foi um processo de limpeza étnica de mais de 191 mil Tártaros que aconteceu entre 18 e 20 de maio de 1944. Foi executado por Lavrentiy Beria, chefe da segurança nacional e polícia secreta soviética, seguindo ordens de Joseph Stalin. Entre os tártaros, é conhecida como Sürgünlik (‘exílio’).

Sob o pretexto da suposta colaboração dos tártaros com os nazistas durante a ocupação nazista da Crimeia entre 1941 a 1944 (embora o percentual de colaboradores dos tártaros não sejam visivelmente diferentes de outros grupos étnicos) o governo soviético decidiu pela expulsão total do povo tártaro da Crimeia.” – Wikipédia

Ao final do vídeo legendado de “1944”, defendido por uma famosa cantora ucraniana – Jamala – que acabou por vencer o Festival de Música Eurovision de 2016, há mais informações sobre o lastimável episódio.

*Texto de 26 de Março de 2022

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi