A Alma Encarnada

quando encontramos alguém
que a atenção nos chama
pode mesmo sem nos tocarmos
acender uma chama
arrepiar a pele
aquecer a alma
fazer brilhar os olhos
estando encarnados será
por sua linguagem física
que a atração espiritual
se dará
porque também exclama
através do desejo carnal
a possível confirmação
do amor em ação
sem medo
sem moderação
com entrega total…

Foto por Mariana Montrazi em Pexels.com

O TEMPO

falamos tanto sobre o tempo
presente passado futuro
tento viver apenas no presente
o único tempo que realmente existe
não é o tempo que passa por nós
mas sim nós que passamos por ele
ao mesmo tempo que seja uma ilusão que não passa
é uma ideia de que possamos viajar por ele
a não ser mentalmente
o que fica registrado é prova de que?
de mensagens de corpo presente talvez
mas as provas de sua existência se dão no presente
e do futuro podemos não ter provas
sem que o presente se apresente dali a pouco
tudo é presente ainda que venhamos a viver de passado
ou a imaginar o futuro
talvez seja a prova de que vivemos de imaginação
somos seres sonhadores
e do destino não somos senhores
apenas aparecemos como joguetes de movimentos cósmicos
sem metas ou intenções
sugerimos que estamos no comando quando nada é possível
de ser controlado o caminho é insondável
mas o mistério é senhor de tudo e de todos
que vivamos em busca do bem porque se não conseguimos
melhorar o mundo melhoramos nossa passagem
pelo tempo
até vivermos outros presentes em outros tempos…

Foto por Cu0103tu0103lin Todosia em Pexels.com

BEDA / Olhar

quem olha quer ser olhado
e se possível visto
enxergado
debaixo do sol
e do molhado
mas o problema se dá quando
apenas pela aparência
é julgado
entre quatro paredes
Sartre já profetizou que o olhar do outro
é prisão
é o inferno determinado pela íris do algoz
estar sob o escrutínio alheio dessa forma
o deixa encarcerado
baixo um sofrimento atroz
quando nos sentimos bem
nos expomos
mas há sempre aquele que por inveja
ou maldade quer reduzir o outro à pó
para se sentir superior
julga por detalhes de menosprezo
quer se engrandecer e causar dor
suplantar aquele que considera inimigo
luta por recursos menores
triste daquele que vive por um olhar
especial e que lhe traga diferenciação
no lodaçal da atenção é tragado
vivendo por um olhar melhor
viver de migalhas visuais
e mata a presença do outro para dominar…

Foto por Quionie Gaban em Pexels.com

BEDA / A FACILIDADE DO FASCISMO

Mesmo depois de levar o mundo à guerra mundial, a propagação do Fascismo continua a se espalhar por todas as sociedades. Num planeta em que quase nenhum lugar está incólume de receber influência do totalitarismo digital através dos meios de comunicação,, a facilidade de um sistema simplificador em que normalmente não há reflexão sobre os assuntos costuma-se utilizar as chamadas “soluções simples”, que equaliza pela média as questões mais complexas em pauta na Sociedade. É a ditadura da simplificação que não atende as minorias, mas satisfaz os medíocres. Ouvi um filósofo dizer que o Fascismo é a falência do Abstrato e da Abstração, quando conseguimos ultrapassar o básico e atravessar os limites da simplificação, que busca padrões esquemáticos.

Muitas vezes, as soluções simples são as ideais, mas tomar qualquer atividade humana de maneira padronizada sob os auspícios do que é mais elementar, contando com a anuência daqueles que não suportam inovações ou diferenciações, elegendo modelos esquemáticos que acabam por ser impostos pelo poder vigente. No modelo democrático, busca-se o consenso, mas quando se estabelece o poder pelo uso das armas, observa-se que o poder de decidir entre a vida e a morte de segmentos inteiros de populações divididas em estamentos em que os menos aquinhoados de poder econômico, por exemplo, se tornam párias dentro do contrato social.

As raízes do Fascismo é antiga, mas com o crescimento de múltiplas influências dentro das estruturas de Poder Político que desenvolve mecanismos que impedem o crescimento da equanimidade de oportunidades de desenvolvimento positivo entre os cidadãos numa determinada localidade — País, Estado, Continente, Hemisfério — vemos crescer a violência como imposição natural do status quo. Falimos, quando isso acontece, como sociedade emancipada para além do que é padronizado, gerando estagnação intelectual e pobreza de recursos de ideias que poderiam auxiliar na melhora das relações sociais. A figura de uma parede branca bem poderia representar essa situação.

Foto por Monstera Production em Pexels.com

BEDA / Ilusão Pela Paixão

O brasileiro é movido de tempos em tempos pela ilusão induzida pela paixão ao Futebol. De País que duvidava de sua capacidade de vencer até mesmo dentro de casa, como ocorreu na Copa do Mundo de 1950, quando perdemos para o Uruguay de Obdulio Varella, de virada, quando precisaria apenas do empate para ser campeão. A isso o escritor Nelson Rodrigues desenvolveu a ideia da “Síndrome de Vira-Lata“, em que identificava o auto menosprezo como povo, o que nos tornaria incapazes de fazer sucesso num campo como o esporte mais popular do Brasil. E não apenas… Éramos uma coletividade que pertencia ao chamado “Terceiro Mundo“, que surgiu em 1952 e passou a designar os países que não se alinhavam nem aos Estados Unidos da América ou a comunista União das Repúblicas Soviéticas. Vivíamos a época da Guerra Fria.

No Brasil, do eurocentrismo, passamos a perfilar no grupo ligado ao Capitalismo gregário, em que servíamos ao Grande Irmão que nos tratava como área de reserva — uma espécie de “quintal” — como aliás recentemente se pronunciou uma autoridade norte-americana. Mas voltando à ilusão de sermos campeões novamente, eu relutantemente me filiei ao otimismo apenas para não surgir como um estraga prazeres, mas estava claro que apenas por boa sorte conseguiríamos passar pelas fases subsequentes enfrentando equipes muito melhor preparadas. Assim como aconteceu em 2014 na Copa do Mundo do Brasil, em que a Alemanha deu uma aula de organização e competência.

Enfim, enquanto passamos por seleções apenas medianas, ao enfrentar uma que realmente tinha jogadores mais aptos, como os do Dinamarca, como Ramus Halojnd e Christian Eriksen. Com as contusões de Raphinha e Paquetá, percebemos a falta que Rodrigo e Estevão pesaram num time com limitações técnicas evidentes. Mas o pior veio antes, com a desorganização da Confederação Brasileira de Futebol, envolvendo seus dirigentes em corrupção e péssima administração. Nem a contratação de Carlo Ancelotti, um treinador de primeiro nível, conseguiria reverter tantos problemas na preparação para o torneio. A paixão, no final de tudo, se sobrepôs à realidade e a ilusão levou o povo a se embandeirar, enfeitar ruas e se aglomerarem para (dis)torcer pela seleção. Houve choro e ranger de dentes e a população voltou ao modo de homeostase da vivência na precariedade cotidiana.