17 / 10 / 2025 / Os Olhos Dela

como se entrasse num labirinto
dei de me perder nos olhos dela
parece que me tragavam para dentro de um mundo novo
perdido em antigas tramas de atração fatal
embarcado em nau amarrado ao mastro central
ouvia como que um canto de sereia em calmo mar
da boca que movia os lábios como se fossem ondas
de luz das águas profundas de seu olhar
meu coração batia como se montado em corcovo
de indomável cavalo selvagem em campos de pleno sol
bastava ver bater os cílios de seus olhos em miragem de morte
como se buscasse sugar a minha seiva de depauperada árvore
que tomba como se tivesse cortados caule e ramagem
forças naturais que se avultam em poder e vingança
ao mundo que tenta destruir a vida que palpita
no meu peito de homem velho
parte daqueles que sangram o sangue de escuro vermelho
marcando o chão da estrada na caminhada da terra de perdido brilho…

Foto por Ennie Horvath em Pexels.com

16 / 10 / 2025 / Gratidão*

Quando alguém demonstra por ações claras a gratidão que sente por chegar onde chegou, muita gente critica.

Vejam só, anistiar quem deixou de usar máscara de proteção em meio a uma Pandemia que matou (oficialmente) mais de 700 mil pessoas, ainda mais sendo a autoridade suprema do País, dando um exemplo negativo, é apenas ser grato ao seu padrinho. Eu acho lindo!

Anistiar multas lavradas às concessionárias que prestaram péssimos serviços à população do Estado, deixando de arrecadar milhões de Reais, eu acho justo! Afinal, estamos nadando em dinheiro. Somos um Estado rico e estamos sinalizando que podem continuar a fazer o que não fazem.

Assim como querer entregar nas mãos da iniciativa privada uma empresa superavitaria para cumprir promessa de campanha e devolver o investimento feito no seu projeto, tudo bem! São exemplos de gratidão. Quem critica, são pessoas que não entendem que ao receber, é digno ter que devolver.

*Postagem de Outubro de 2023

15 / 10 / 2025 / Professar

Eu professo. Não como profissão, ainda que seja uma profissão de fé no espargir do conhecimento. Sempre que posso, tento transmitir o que sei, o que aprendi, mas não deixo de conjecturar que seja uma imposição de “saberes” aos quais a quem atinjo com a minha suposta sabedoria não requerida. Fico pensando que o meu entendimento possa ser mal compreendido como algo supérfluo. Ou que eu mesmo o transmita de modo a parecer uma imposição. No entanto, há professores que agem com arrogância por atingir um patamar de conhecimento certificado. Antes, eram tratados como semideuses em uma sociedade que respeitava o estudo. Ao mesmo tempo, com o passar dos tempos e as mudanças sociais e tecnológicas, há quem olhe para o estudo como algo anacrônico numa época em que o acesso à Internet transformou as relações de acesso ao “saber” imediato.

Algo que é mais recente, a IA, em menos de dois anos revolucionou a identificação da realidade com a possibilidade de certo grau de ficcional. Se tudo é possível, quase nada possa ser afiançado como verdadeiro. Distinguir entre o que é relevante e o que não é num cenário que passa a ser suspeito de manipulação, ultrapassa os limites aceitáveis de estabilidade social em que as disputas políticas atingem níveis extremos de radicalização. Ou seja, as versões ganham patamar de suspeição de lado a lado. O conhecimento perde valor dessa maneira, porque é manipulável como, aliás, sempre foi. Apenas que a manipulação atingiu um nível de ciência nunca antes alcançado. Ou seja, chegamos ao paradoxo de que desenvolvemos tanto conhecimento tecnológico que, num apertar de botões, podemos torná-lo obsoleto como meio de vivenciarmos a realidade.

Como me chamam de um sujeito professoral e que, em última instância seria a profissão pela qual gostaria de ser reconhecido — Professor — homenageio àqueles que têm a dura tarefa de transmitir a seus alunos as condições necessárias para que possam escolher o caminho que queiram tomar entre tantas variantes atraentes, mas suspeitas de serem insatisfatórias para as suas vidas.

Foto por Pixabay em Pexels.com

14 / 10 / 2025 / Reencontro*

*Em 2014, escrevi: “Voltando a ser adulto aqui no Face, se bem que com uma foto tirada em um lugar que me remete ao melhor da minha infância, junto ao Mar. Nessa faixa de areia, em vez de ser o velho, me torno um com os elementos — o fogo do Sol que me abrasa, a brisa do oceano que me refresca, a areia que me sustenta o pé (ainda que de forma deslizante) e a água salgada, que ainda será o futuro do Planeta Terra, assim como foi no passado”.

13 / 10 / 2025 / As Chaves*

“Tenho tido pequenos lapsos de memória. Tenho me dispersado frequentemente ao realizar tarefas básicas. Eventualmente, tenho até esquecido de comer. No entanto, a não ser que tenha sido levada por seres alienígenas ou tenha entrado por uma porta interdimensional, uma coisa eu garanto: as minhas chaves de casa estão em algum lugar sobre a face da Terra!” — 2014.

Escrito a 11 anos, no parágrafo acima descrevo uma circunstância comum na vida muita gente, de tal forma que as respostas dadas a ele relatava vários casos como esquecer o óculos de leitura na própria cabeça, trocar os itens de compra no supermercado por outros que já tinha em casa, deixar o celular perdido em algum ponto. Quando eu ainda tinha telefone fixo, uma das suas únicas utilidades (além de receber propagandas) era o de ligar para o celular para saber onde o havia deixado. Outros brincavam dizendo que era a idade que provocaria esses lapsos.

Pode até ser que estivesse piorando, mas o que sei é que sempre fui disperso. Isso me propiciava diversas situações embaraçosas que faziam com que me isolasse cada vez mais. Preferi evitar conviver mais de perto com as pessoas para não criar pretextos para discussões. Era usual eu me perder em divagações em meio a conversas com parentes e amigos. Na escola, buscava me concentrar o máximo possível e, no meu trabalho, descobri que conseguia manter a atenção redobrada, levando tudo a bom termo. Na escrita também ficava tão envolvido que todas as experiências vividas ou intuídas fluíam em prol da sua elaboração. Os textos, após ser entregues, os esqueço. Aos relê-los depois um tempo, muitos ressurgem como se fossem inéditos para quem os escreveu.

Minha dispersão é estimulada algumas vezes pelo encantamento por palavras ditas ou lidas a esmo, além de cacos de lembranças ou visões que me levam para longe — um efeito reverberante, inexplicável e imprevisível. Até provar para o meu interlocutor que minha desatenção não é proposital, o estrago já está feito. Ao mesmo tempo que saiba que isso possa ser prejudicial às minhas relações, eu receio que ao tentar reverter esse sintoma (seja lá de que forma for) me ajuda na redação meus textos, tornando-se quase uma dependência.

O isolamento provocado pela Pandemia de início propiciou o tempo necessário para escrever. Porém, a falta de contato com a vida em movimento foi reduzindo paulatinamente os estímulos que colaboravam para um melhor desenvolvimento de meus temas. Receber referências indiretas — por livros, filmes, músicas, artes plásticas — são desejáveis igualmente, mas sempre preferi beber na fonte do cotidiano humano que apreendia através da minha percepção. Passei por uma crise criativa, muito parecida por ocasião da doença e morte de meu pai, três anos antes.

Encontrar as chaves que possam deixar abertas as portas da minha percepção como escritor enquanto consiga conviver sem parecer alguém com sintomas escapistas inconciliáveis requer um esforço grande, mas necessário. Ainda que me sinta desconfortável em compartilhar minhas embaraçosas idiossincrasias pessoais, praticar a escrita ao revelá-la torna-se um duplo exercício de criação e auto perdão que me trazem prazer e certa redenção.