27 / 09 / 2025 / Dominic

Chegou ao fim a nossa relação física, mas aquela atemporal permanecerá. Ainda que a memória se esvaneça, a energia de amor gerada continuará a fazer diferença no mundo. Ela foi a última filha a falecer da Domitila, mais uma das nossas companheiras resgatadas da rua. Aliás, ela surgiu toda manchada de tinta, praticamente sem pelos. Arte de descerebrados maldosos. Duas de suas filhas (as fêmeas sempre foram mais rejeitadas do que os machos), ficaram na família — Frida e Dominic (eu prefiro o nome afrancesado). Esta, na casa vizinha, minha irmã. Quando Frida faleceu, atropelada numa das poucas vezes que saiu à rua, pedimos para a Marisol cuidar da bichinha que já havia quebrado a pata dianteira esquerda e se encontrava com problemas de pele, além de estar muito magra. Cuidamos dela e em pouco tempo, já mais fortinha, se mostrou bastante gulosa. Tanto que mesmo no período do câncer que a vitimou, continuava voraz. Quando começou a recusar comida, percebemos que não viveria muito mais tempo.

Eu estive com as velhinhas que foram falecendo nos últimos anos. No sábado, quando saí para trabalhar, avisei à Tânia que suspeitava que não resistisse ao final do dia. Fiquei triste que não estaria com ela no final de tudo. Mas a Tânia disse que esteve com ela até o último suspiro. E isso me aliviou. Antes de sair, ainda fiquei um tempinho com ela. Percebi o seu olhar um tanto assustado de quem não conseguia mais respirar como antes. Fiz um carinho que supus de despedida, que acabou por acontecer. Essa senhora passou uns bons 10 anos conosco. Ao falecer, contava com uns 15 anos. Mais isso é irrelevante numa história de amor. Todo amor verdadeiro é atemporal.

Até logo, meu amor!

25 / 09 / 2025 / Conversa Com O Sol

Conversei com o Sol, hoje. É comum, ao me sentir solitário, pedir que ele reflita sobre mim a sua luz mais amiga, aquela que aquece, mas não queima; a que clareia, mas não cega; a que se afoga no crepúsculo para ressurgir na aurora; a que nos ensina a viver e nos dá a dádiva de morrer. Quando escurece e parece se ausentar, ilumina a Lua, como a revelar o poder da Natureza de sempre estar presente.

24 / 09 / 2025 / Estrela Do Mar Celeste

Tarde, quase noite,
saí para pescar no mar vermelho
do céu…
Por entre retas paredes de corais
e rochedos de formas estranhas,
balançava a vegetação
ao sabor do vento acidental…
Por fim,
quando já alcançava
o seu refúgio final,
consegui capturar,
através do olhar,
a estrela do mar continental…

23 / 09 /2025 / Escravocratas Modernos

Pindorama foi invadida por portugueses em 1500 AD. Encontrou povos que andavam nus e disso não davam conta porque era assim que as suas culturas se expressavam. Na terra “onde se plantando tudo dá”, segundo Pero Vaz de Caminha, o mesmo que aproveita da carta enviada ao Rei de Portugal para versar sobre o novo território, pede um emprego para o irmão. E assim, o registro do encontro, alcunhado de “descoberta” inaugura igualmente o compadrio que marca o nosso comportamento institucional até hoje.

Como o nosso litoral estava apinhado de uma árvore que tinha o caule em brasa, os moradores que aqui se instalaram, foram chamados pela profissão dos que extraiam a madeira — brasileiros. Ou seja, a nossa nacionalidade está vinculada à uma função e parece que desde então, valemos por nossa capacidade de gerar lucro. Assim como a tinta gerada pelo pau-brasil, de cor avermelhada, muito apreciada pela a nobreza e pelo clero. Para que essa produção lucrasse mais, decidiram escravizar os gentios da terra. Continuou quando houve a incrementação dos engenhos de cana-de-açúcar, que criou uma classe abastada o suficiente para incentivar a Metrópole Colonial a criar as Capitanias Hereditárias, quase como instituir uma espécie de semi-reinos autônomos de certos pressupostos.

O problema para os Senhores de Engenho e governadores das Capitanias era que os originários de Pindorama morriam como moscas. Não estavam acostumados a usarem a força física de maneira a produzir qualquer coisa, a não ser objetos de uso imediato como adereços e peças como potes, cumbucas, redes, lanças, arcos e flechas. Dessa forma, houve a ideia de trazer homens africanos, escravizados, que tinham uma capacidade física bem mais desenvolvida, além de mais adaptados ao trabalho pesado. Como “compensação” desse novo empreendimento, os lucros gerados pelo aprisionamento, transporte e venda de escravizados gerou um negócio incrivelmente lucrativo. Assim como hoje, apesar de proibido. Ao lado da venda de armas e de tóxicos.

Mas há quem proponha que o escravismo exista de maneira aberta e institucional. Chegou a mim um vídeo de um moderno “Senhor de Engenho” — CEO de alguma empresa — que disse que uma hora de almoço, como indica a legislação, é tempo demais. Que o próprio funcionário poderia querer abrir mão desse tempo excessivo e almoçar apenas em 15 minutos. Fato testemunhado por ele nos EUA em que um operador de máquina comia o lanche com a mão esquerda enquanto operava a máquina com a mão direita.

Essa escravidão consentida pelo escravizado já existe de forma velada. Aceitamos um sistema de trabalho em que não temos tempo de descanso suficiente para descansar por vários fatores — tempo de deslocamento, horas trabalhadas, sistema 6 X 1, 40 horas de função in-loco. Tem crescido o modulo de Home Office que também acaba por absorver um tempo maior de atividade porque a demanda de trabalho é cumulativa.

O Brasil viveu quase 400 anos de modelo Escravista desde a sua criação como nação. É uma marca estrutural tão profunda na gênese de nosso povo que mentalmente estamos pensamos tendo essa concepção de mundo como plausível. Eu, pessoalmente, trabalho como autônomo, e muitas vezes ultrapasso com facilidade as 40 horas de trabalho semanais. É uma opção, mas com tendência de diminuição por questões de saúde física e mental. Enfim, posso fazer isso depois de mais de 30 anos de atividade autônoma, com o profissionalismo que deu a mim e a meu irmão, Humberto, meu sócio, essa chance de escolher com quem e quando trabalhar.