09 / 02 / 2025 / Colonização Mercantilista

Esta postagem não terá imagem. Mesmo porque, caso a divulgasse, o sujeito que a protagonizou, conseguiria o seu objetivo — divulgar a sua marca de vestuário através da exposição de sua esposa. Para isso, compareceu ao tapete vermelho do Grammy 2025 ladeado por Bianca Censori vestindo uma espécie de véu transparente que deixou a australiana totalmente exposta em todos os seus mínimos e íntimos detalhes. Kanye West sequer permaneceu na Kripto Arena, em Los Angeles. Dali partiu para outro evento de divulgação de sua marca, em que a sua esposa-modelo-objeto mercantil utilizou outra roupa com decotes profundos.

Eu não fiz questão de ver algumas das imagens produzidas na ocasião do “desfile”, mas foi impossível não fazê-lo, ainda que inadvertidamente. Foi estampada em todos os veículos de comunicação e mereceu destaque no noticiário diário, muito por conta da ousada atitude de Kanye West em utilizar a companheira como protagonista da peça de marketing.

Mas a questão que pode ser levantada é o quanto ultrapassar certos limites para faturamento financeiro uma empresa precisa chegar para que não sejam consideradas usurpação da dignidade humana. Poderia se contrapor que Bianca Censori estava ciente do que ocorreria e permitiu que assim fosse. Talvez o mercantilismo esteja tão entranhado na sua visão de mundo que desfilar com a pele de seu corpo praticamente exposta seja algo de que poderia até se orgulhar devido à sua eventual boa forma.

Eu não vejo nenhum problema em nos mostrarmos seminus a depender da ocasião e do lugar. O que me deixa ressabiado é percebermos a mercantilização do corpo e nos tornarmos escravos dessa condição. Manipulados, todos os que presenciaram a cena reproduziram as imagens. Sinal de que passados 300 anos da escravização como negócio, continuamos a vender corpos humanos com e sem consentimento de seus donos.

07 / 02 / 2025 / Sincronismo*

“Para além do estranhamento do uso do tempo verbal, a campanha veiculada nos ônibus municipais de São Paulo para os passageiros que logo mais se transformarão, em algum momento, em pedestres, encerra a mensagem do perigo que vivemos todos nós, cidadãos desta metrópole, por simplesmente caminhar por ela. O meu pai já nos advertia, a mim e a meus irmãos, há tantos anos — “Quando for atravessar a rua, olhe para um lado, olhe para o outro, olhe para trás, olhe para frente e olhe para cima para ver se não há algum avião caindo na cabeça!”. O Gil já sabia: o tempo é rei e tudo pode estar por um segundo. E eu acrescento: às vezes, por um passo. Neste caso, a velocidade (tempo X distância) torna-se fundamental para escaparmos de sermos colhidos pelo motoboy que se dirige urgentemente para entregar o frasco de remédio que salva uma vida ou para levar o vestido de festa tardiamente pronto para o casamento de logo mais à noite.

Lembro-me de um episódio de alguns anos que me deixou perplexo pelo sincronismo macabro que o engendrou. Cinco passos a menos ou a mais, por exemplo, teriam salvado a vida da garota esmagada pela massa do guindaste atraído do alto do edifício em construção na Paulista até a calçada coberta por um toldo azul, que deveria proteger os passantes de pequenos objetos que despencassem do alto. Neste caso, a precisão cirúrgica do Destino mostrou-se insuperável. Imaginei à época que se tivesse ela se apressado em encontrar o namorado na porta do cinema ou se atrasado para dar uma penteada ou duas a mais em seus cabelos e sua supérflua paixão ou a sua preciosa vaidade teria salvado a ela e nós de vermos empastelado de sangue a sua cabeça que, há pouco, dava expressão a todas essas suas necessidades…”.

*O texto acima foi escrito anos antes, lá pelo início dos 2000. Neste dia 7 de Fevereiro, pelas 7h18 da manhã, dezenas de pessoas tiveram as suas vidas poupadas por seguirem o conselho de Caetano Veloso. Perguntado certa vez se o poeta que caminhava por caminhos alternativos obedecia aos sinais de trânsito, ele respondeu: “Claro, são sinais…”. Se algum dos veículos avançasse a sinalização do semáforo, como é comum acontecer numa manhã em que os paulistanos estão tentando chegar aos seus compromissos, o não cumprimento poderia levá-lo ao óbito.

Eu e minha família utilizamos a linha do ônibus atingido. A minha filha caçula estaria na região nesse horário se não fosse um atraso providencial. Com a interdição da Avenida Marquês de São Vicente, ficou impedida de ir ao trabalho. O sincronismo de certos fatos, analisados a posteriori se assemelham a contas matemáticas macabras de adição e subtração, divisão e multiplicação. O resultado? Noves fora, nada…

06 / 01 / 2025 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Cult Coffee And Books / Lançamento de REALidade*

No dia *25 de Março de 2017, realizou-se o lançamento de títulos da Scenarium Plural — Livros Artesanais, com a presença de seus escritores e amigos. Usamos as dependências da Ekoa Café, na Vila Madalena. Assim foi porque o café é uma bebida-símbolo dos escritores do selo — coffee always…

Homens machos e a sua editora… — com Lunna Guedes e o poeta Joaquim Antonio.
Aconteceu o meu encontro com a escritora do “Diário Das Coisas Que Não Aconteceram“…
— com Aden Leonardo.
Brinde à Scenarium! — com Lunna Guedes,  Aden Leonardo, Marco Antônio Guedes e Maria Florêncio.
Com Roseli V. Pedroso, querida componente de nosso grupo de amizades plurais.
Família Ortega presente, esposa e filhas — Tânia, Romy, Ingrid e Lívia.
Autografando um dos exemplares de meu primeiro livro pela ScenariumREALidade — de crônicas.

Participam: Lunna Guedes / Roseli V. Pedroso / Claudia LeonardiMariana GouveiaSilvana Lopes

05 / 01 / 2025 / Sobre Meninos E Homens*

De antemão, já aviso que este texto pode parecer para alguns um tanto escatológico. No entanto, o que relatarei a seguir fala sobre algumas intimidades masculinas e, por extensão, sobre as nossas deficiências e eficiências em sermos tão patéticos. Eu me lembro de meu pai dizendo que se surpreendera certa vez com um peido inesperado de minha mãe e exclamou: “Nossa! Pensei que as mulheres fossem divinas!”. Evidentemente, todos nós, como seres humanos normais, animais que somos, estamos sujeitos a arrotos e flatulências. Inclusive, é comum entre os garotos, competições desse tipo de manifestações fisiológicas, além de cuspe ou esporro à distância, o que em último instância, demonstra admirável autocontrole. Sim, mulheres — mães, namoradas, esposas e amigas de homens — nós somos nojentos! Nem todos, obviamente. Eu mesmo, nunca quis participar desse tipo de torneio ou mesmo de troca-troca. Mas não me deixava de causar certa invejinha não conseguir ser solto o suficiente para tanto. No máximo, jogava bolinha de gude na terra onde gatos e cães faziam as suas necessidades (o que me ajudou a aumentar a minha imunidade), porém eu não era tão bom assim no jogo.

Eu adorava jogar futebol e apesar da minha inaptidão física e estilística, era esforçado e através de solitários e intensos treinamentos, melhorei bastante os meus fundamentos. O que me faz lembrar que o esporte favorito dos meninos quando descobrem a sexualidade é a masturbação. É uma prática costumeira, eu diria, costumeiríssima. E a prática leva à perfeição! Mães, se querem que os seus filhos não mintam, nunca perguntem porque o espinhento demora tanto no banheiro. E se masturbar não se resume apenas à adolescência. Também é um exercício costumeiro mesmo entre os adultos e homens já esposados. Homens sozinhos recorrem a esse recurso bem como os casados. Mulheres, não achem que seja algo estranho. Saibam que isso garante a fidelidade de corpo dos seus cônjuges em muitíssimos casos. Já não posso garantir sobre a fidelidade na imaginação…

Tudo isso para dizer que há poucas diferenças entre meninos e homens. Talvez, o tamanho. Talvez, a perda da inocência. Talvez, a esperança de ser feliz como um passarinho quando voa, tal e qual ele foi na infância. Mas quem estiver atento, pode perceber o brilho no olhar do homem, como se fora um garoto, quando adquire um carro (brinquedo) novo, quando joga bola no domingo com os amigos ou quando recebe a benção de sua mãe. Muitas vezes, será por causa desse menino ainda existente no homem que uma mulher o amará…

*Texto de 2015

Foto por Omar Ramadan em Pexels.com