Citadino*

Você me chamou e não a ouvi
Estava absorto na faina cotidiana
Navegava pelos rios de asfalto da cidade
Percorria os túneis de fuga terra adentro
Para fora de mim mesmo
Sempre apartado do meu corpo
O que poderia ser um sinal de independência
Não se cumpria
Pois os pensamentos arquitetados
Por outras mentes
Eram absorvidos pelos meus olhos
Invadiam o meu cérebro
E eram caminhados por minhas pernas
Se incorporando à minha rotina
Como se meus fossem através do poder de intervir
Consumado pela arquitetura citadina
Realizada pelos planejadores do ir e vir
Estava partindo para um lugar certo
Porém não pensava nisso
Mesmo querendo parecer borboleta
Ainda que formada e liberta
Voltava para o meu casulo
Que me atraía
Como tal, as minhas asas voavam um voo curto
Mais decorativas do que eficientes
E termino sendo um simples humano ser
Fingindo um próprio querer…

Foto por Erick Blanco em Pexels.com

*Poema de 2015

Por Cem*

Apesar de saber que a vida é feita de porcentagens — somos 70% água, 10% meia calabresa, meia atum, mais ou menos e, por aí, vai — hoje, eu me irritei quando alguém citou, sobre determinada situação, a porcentagem de 99,9% como provável.

Por algum motivo obscuro para mim, como já que proclamei em certa ocasião, sou um digno representante do “Talvez“, acordei a querer ter certezas. Queria para o resto do dia que tudo se definisse 100%. Queria a absoluta convicção, sem a intermediação de advogados a citar contestações em latim: data venia

Queria a fé dos quem erram com perfeição:

“São bandidos, sim!”

“São pessoas corretas, com certeza!”

“Não é amor, é apenas paixão!”

“Droga não faz bem, ainda que recreativa!”

“A minha vida é uma droga!”

“Sou feliz prá caraleo!”

“Você é uma besta, mas eu o amo!”

“Eu adoro arroz e feijão, tanto quanto odeio bacalhau!”

Não queria cores intermediárias nem o cinza, mas o preto e o branco perfeitos. Queria saber para onde estou indo e para onde vou. Queria saber quem sou eu. Queria amar e o amor sem dúvidas. Queria ter a certeza de que todos morremos para as outras certezas da vida… pelo menos, por hoje.

*Texto de 2017

Sopa De Pão*

Depois do advento da Diabetes, há quase 14 anos, eu me acostumei a comer de três em três horas. Aliás, se fico mais tempo do que isso, meu estômago começa a reclamar, devido às pequenas quantidades que consumo. Depois disso, começo a sentir uma pequena dor de cabeça que poderá aumentar muito se não me alimentar, nem que seja uma fruta ou outra coisa. O problema é que meu horário de alimentação varia muito a depender da hora que acordo, um tanto irregular. Como tinha várias coisas a fazer, decidi pegar dois pãezinhos integrais de dois dias e fazer rapidamente uma sopa de pão. Basicamente, é uma mistura de café com leite em uma caneca de metal, deixar quase ferver e misturar os pães passados em fatias com manteiga, requeijão ou margarina, a qual não uso mais. É um alimento um tanto calórico, mas que queimo rapidinho em minhas caminhadas de 7Km em média por dia. O mais precioso são as lembranças que me remetem aos tempos de precariedade alimentar em que nada se perdia em casa (costume que mantenho) — de pães para fazer pudim, sopa, torradas ou de arroz para fazer tortillas — entre várias outros alimentos. O melhor tempero então era a fome e hoje, acrescida da saudade.

*Texto de 2021

Desejo

Cedo, percebi a dependência de nosso comportamento amoroso a flertar com a nossa precariedade. Aliás, não somente quanto a relacionamentos pessoais, mas em todas as estâncias da vida. Agimos como dependentes da droga do desejo e suas consequências, numa eterna retroalimentação.

Sair desse ciclo é quase como morrer. Mas talvez não haja algo maior do que o desejo de morrer, ainda que muitos não reconheçam esse viés. Preferem negar a morte em vida, como se não existisse. Namoram a possibilidade de Eternidade ao abraçarem religiões que prometem a vida eterna.

Chegam a estipular condutas que garantam esse futuro num lugar edílico e com benefícios atraentes que só fazem sentido para seres encarnados. Como as húris, seres antropomórficos semelhantes às mulheres virgens, prometidas aos homens islâmicos bem-aventurados, a servi-los como gratidão por suas boas ações na Terra. É como se fossem condenados ao desejo permanente para empreender a eterna tarefa de alcançar a satisfação.

Aparentemente apenas os homens são premiados no Paraíso do Islã. Assim como aqueles outros que, valorosos em sua vida terrena, se sentam à direita de Deus-Pai na Eternidade, a fruir benesses, as quais compreendo que não iriam além de permanecer na benção da ignorância sobre todas as coisas. Ser curioso que sou, com insaciável sede de conhecimento, para mim, seria o Inferno. Atualmente, longe no distância, mas não dos nossos olhos, as duas versões religiosas mais influentes se digladiam à base de explosões de corpos, não sem antes aviltá-los.

O desejo é pessoal e intransferível. Os desejantes juntam-se para saciá-los, mas a consequência é aumentar o desejo mútuo. Por algum tempo, essa interação é satisfatória. Mas se uma relação é mesmo profícua, gerará motivação para a criação de novos desejos, muitos alheios aos dinamizadores desse processo.

Se estamos no mundo, devemos saber gerenciar essas circunstâncias que nos colocam muitas vezes contra as nossas orientações comportamentais. Abrir mão de novas experiências requer autocontrole. E não é contrário à “razão”, porque é comum replicarmos as mesmas ações nas novas relações com outros indivíduos.

A não ser que haja encaixe. Entrelaçamento de vivências, ainda que díspares. Aprofundamento de recíprocas experiências, mesmo que alternativas. Alternância de posições para a busca da satisfação comum. Desejável, não? Bem, somos bons em desejar…

Feliz Dia de São João!

‘Bora lá!*

Há pelo menos 30 anos, após o nascimento da minha primeira filha, consegui empreender o desejo de viver um dia de cada vez. Entendi que cada dia poderia ser o último e que não deveria ficar tão preso ao passado, apesar das cicatrizes coçarem vez ou outra. E nem esperar que o futuro simplesmente ocorresse naturalmente com a passagem inexorável do tempo. Compreendi que o futuro se faz principalmente no presente. Sem prescindir de planejamento, percebi que o imponderável também tem o seu lugar e que devemos estar preparados para o inesperado. Quando ocorrer o que não estava programado, imediatamente aplicar um plano B. O interessante é que estou quase sempre pronto para as coisas ruins, mas nem sempre para as boas. Eu tinha planejado ter um dia totalmente diferente, de atividade contínua. Porém, algo escapou ao controle (nunca conseguimos controlar tudo, aliás, nem devemos) e ganhei uma folga nesta imensa folga de mais de um ano de Pandemia (alguém além do Barack Obama a esperava?). A moça do tempo anunciou um dia nublado e eis que o sol se fez. Inesperado, apesar de bem vindo, nem sabia o que fazer. Agora mesmo, sairei para uma caminhada à esmo, como tenho feito neste primeiro semestre. Conversarei com a luz. Seguirei por caminhos abertos e sem aglomeração. Ruas vazias de Sol inclinado a alongarem sombras de gentes e árvores. ‘Bora lá!

*Texto de Junho de 2021