O Relógio E As Pedras

Ela não tem como evitar… Desde que foram colocadas pedras brancas no canteiro circular em torno da mangueira, a Bethânia as elegeu como objetos de desejo, as retirando e decorando todos os lugares possíveis da casa. Nós as encontramos em vasos de plantas, no sofá, sobre cadeiras, na nossa cama e em cima da mureta que limita a varanda e o telhado da churrasqueira, em alinhamentos que chegam a parecer mensagens astrais.  Pela mureta, a gata-cachorra acessa a laje da vizinha, casa da minha irmã, de onde fica tretando com o Fredy e o Marley, moradores da sua casa, além de latir para Urbi et Orbi.  

Considerando que seja um ser que age por impulso irrefreável, apresento uma característica quase igual. Eu me atraso, reiteradamente, apesar de montar estratagemas para que isso não aconteça. Não consigo evitar que a minha atenção seja desviada com relação ao horário ao surgir do chão, das paredes, dos portais interdimensionais pequenos entraves – como o único copo sujo que deixei de lavar, um objeto fora do lugar, o fone de ouvido que não encontro, a carteira que estava esquecendo, o coco dos cachorros no quintal que surgem em profusão após o almoço deles e não consigo deixar de recolher… e, por aí, vai.

Essas distrações não ocorrem somente quando tenho compromissos “oficiais”, mas também em circunstâncias comezinhas do dia a dia. Quem convive comigo chega a acreditar que esses desvios acontecem por não me importar, já que se assemelha bastante a descaso. Eu sempre fui um tanto disperso e com o correr da idade, agora oficialmente um idoso, com 62 anos, é bem capaz que essa característica venha a ser confundida com demência. E haja incompreensão…

Bethânia tem a minha solidariedade quando o pessoal de casa ralha com ela, porque parece que quer nos presentear com as pedras ao chegarmos de algum lugar. Mas pensando bem, não só. Também quando estou preparando a refeição do dia, ela as carrega para lugares incógnitos como sinal de satisfação antecipada. Deve haver outros estímulos, senão não veríamos tantas pedras espalhadas (colocadas?) por todos os cantos. Considerando tudo, os nossos impulsos são similares, mas enquanto os dela chegam a ser encantadores, os meus são bastante irritantes.

Entre nós dois há olhares cúmplices de seres que caminham pela linha tênue entre o carinho e a repreensão. Ela não tem vergonha de aparecer com o olhar de cachorro que caiu da mudança e ganhar beijos de compreensão. Quanto a mim, resta a fama de destrambelhado, distraído ou, mais grave, desinteressado. O lindo relógio que ganhei da minha filha, ao final das contas eu o uso apenas para me informar o quanto estou atrasado… Aliás, por onde ele anda?

Dia Das Mulheres

Registro da Dona Madalena e filhos – Humberto, ela, eu e MarisolNatal de 2004, provavelmente

“O pior inimigo de uma mulher é outra mulher” – dizia o meu pai. De certa maneira, ele fazia uma campanha diuturna contra a minha mãe – a mulher mais próxima de mim. Mas eu não me identificava com ele, sempre distante, fugindo da repressão do regime ditatorial. Até que, traído por um amigo e companheiro de grupo, foi parar na prisão, onde foi torturado para revelar informações sobre a sua célula “terrorista”.

Talvez não tenha percebido que “o pior inimigo de um homem é outro homem” – frase que disse a ele alguns anos antes de partir. Após retornar ao convívio familiar (não por muito tempo), se opunha às ideias de minha mãe que, sozinha, empreendeu com a ajuda dos seus irmãos em várias frentes – dona de bar, criação de galinhas (na qual eu gostava de ajudar bastante) – e, em várias ocasiões, como cozinheira e faxineira na casa de outras famílias.

Meu pai, contando com a ajuda da minha avó Elóisa, sua mãe adotiva, decidiu investir num bar na Consolata ao qual registrou com o nome de “Rincão Alegre”. Desconfiado de Dona Madalena (como de toda mulher), não a tornou proprietária, mais sócia minoritária. Apesar da distância, não convivendo mais conosco, pediu aos filhos que a vigiassem caso percebessem que outros homens se aproximassem dela.

O que não era difícil, já que a minha mãe era uma mulher bonita e amistosa. Porém, nunca percebi qualquer olhar seu diferente do que genuínas amizades que carregou pelo resto da vida. Algumas, os filhos herdaram. Além disso, ela estava presa à criação que teve – uma lavagem mental patriarcal – que a impedia que deixasse de reverenciar o seu esposo. Fora, que sempre foi apaixonada pelo Senhor Ortega, sonhava o dia que ele voltaria para o lar que nunca assumiu cabalmente.

Como já disse antes, com a minha mãe, aprendi a amar as mulheres. Percebi que sendo cromossomicamente metade mulher, o alcance mental da condição feminina que desenvolvi me tornou um homem melhor. Ainda cheio de defeitos, as características das mulheres que mais me atraem têm a ver mais com as suas capacidades múltiplas do que pelas aparências, se bem que o meu olhar seja atraído pelas belezas intrínsecas a esses seres pelo qual apresento um conceito prévio básico – a sua superioridade. Visto pela ótica invertida, seria um preconceito. E é.

Feliz mais um dia da mulher, que são todos!

Menina Madalena Blanco

Clima*

visão do final de tarde
crepúsculo escavado em fogo…
duas horas depois noite feita
o clima mudou chuva se abateu
zona norte atingida
clima — palavra
que termina com o artigo “a” —
substantivo masculino
humor feminino…
indeterminado terrível exuberante.

*Baseado em texto de 2019

Love

Onde eu estava trabalhando, encontrei o amor. Durante o dia, lá estava ele em letras grandes o suficiente para serem notadas. Algumas pessoas buscavam fazer registro junto ao amor encontrado assim, tão resolutamente visível, estável, “instragamável”, amável. O céu nublado, arrefecia o calor deste verão, mas sabemos que o amor resistiria se viesse uma chuva um pouco mais forte ou mesmo uma tempestade. Acontece. Mas é um tanto raro. Normalmente, há pessoas que fogem do amor à primeira garoa. Imaginam um mundo em que o amor não sofrerá percalços, não enfrentará mau tempo, que permanecerá incorruptível à passagem do tempo. Que viverá ileso às atrações do circo da vida, com trapezistas, palhaços, mágicos, equilibristas, bailarinas a exercerem à sua arte de seduzir. Porém, isso não impedirá que o amor continue sendo ofertado a você, além do outro. Na estrutura de exclusividade, ditado por um sistema que preconiza estabilidade empregatícia numa união dita romântica, as confusões costumam trazer dissabores por contrariar à “lógica” da posse. Por isso, buscam acordar mediante documentos oficiais que assim será. E o meu trabalho é festejar esse momento de juras e promessas, que apenas tem sentido no momento que são proferidas. Depois, anoitecerá. Mas a boa notícia é que, muitas vezes, o amor brilha no escuro, noite alta, com estrelas no céu (quase) aberto…

Fevereiros

QUARTA

2016. Quarta-feira de cinzas — que nome apropriado! Quase que automaticamente, os nossos olhos começam a devassar a realidade e perceber que o colorido evanescente das fantasias apenas escondia o concretismo do cinza… Ou, não! A esperança é de seja somente a típica sensação da ressaca, marca registrada de quem bebeu sonhos demais…

Hanna (à esquerda) & Marina

O PRAZER DA DOR

2021. Ubatuba. Qual o prazer de ser lido? Como escritor, só teria prazer se ou quando fosse, de alguma maneira, compreendido. E mesmo assim, resta saber se a minha palavra permanecerá na memória de quem me leu e/ou compreendeu o meu texto; se fez diferença de alguma forma ou tenha causado, ao menos, alguma passageira emoção — um sorriso ou uma lágrima. Eu diria que, como escritor, devo me desapegar de qualquer expectativa. O que já é um pouco de dor…

INDECÊNCIA

2021. Ubatuba. Hoje, o azul imperou durante a maior parte do dia. E o Sol, posto a nu ou desanuviado, queimou peles e pensamentos. De manhã e à tarde, no entanto, as nuvens o vestiram, deixando a temperatura menos indecente.

ANIMOTEL

2013. Santa Isabel. “Pela estrada afora, eu vou tão sozinho”… mas, caso eu esteja bem acompanhado, sempre haverá o Motel do Cowboy, na Via Dutra. Já imagino o barulho de esporas das botas dos cavaleiros, rivalizando com o relinchar dos cavalos. Logo depois, vim a me lembrar que os modernos cowboys perderam a graça e só devem chegar ao local montados em roncos de motocicletas e pick-ups robustas. Para passar o tempo, começo a pensar em um novo negócio no ramo da satisfação animal — o ANIMOTEL — em que poderão adentrar ao local quem estiver montado em cavalos. Nada impediria que dois amantes ou mais chegassem em um só, mas como sou defensor dos direitos dos bichos, não incentivaria tal prática. Para evitar especulações fora de propósito, a montaria (o cavalo) deverá ficar em um pasto reservado, usufruindo de boa alimentação e água. Viajei demais?…